Índice de Capítulo

    A pose logo se desfez…

    Zernen agora coçava sua cabeça.

    — É o que? Mas o que aconteceu aqui?

    — Eu lembro de sentir uma rápida pontada na cabeça… — disse Meredith.

    — A barreira parece estar desfeita — disse Rein. — Mas como?

    Handares e Croma também embarcaram na mesma confusão.

    — Ao que parece eu e Jarves fomos os únicos a ficar de pé. Mas o verdadeiro mérito é do Jarves, ele é quem desfez a barreira.

    — Quê isso? Não, não… — Olhei para Theresa, atraindo seus olhos. — Se não fosse por você, eu nem teria me lembrado daquilo.

    — Não estou entendendo muito bem, mas parece que vocês dois roubaram os holofotes enquanto estávamos inconscientes! Nesse caso… — Com as duas mãos para trás, como se fosse um carro aquecendo o motor, Zernen soltou uma fumaça. Posicionou seus pés. Um na retaguarda e outro na vanguarda. E então zás. Uma explosão o impulsionou contra aqueles dois que seguravam suas esferas. — Eu não posso ficar para trás!!!

    — É, eu também não posso ficar para trás! Mas depois vou querer ouvir isso com mais detalhes!

    Quanto aqueles dois haviam começado a competir entre si? Meredith corria quase que na mesma velocidade que o Zernen explosivo.

    — Soco explosivo!

    Seus socos explosivos rasgaram o vento.

    — Turbilhão de cortes!

    Assim como os cortes da Meredith cortaram o vento. O ataque se fundiu em um enquanto aqueles dois seguiam correndo logo atrás.

    Ao mesmo tempo, Charks deixou cair sua esfera de água no chão. Quando explodiu na superfície, ela ficou molhada. Mas quando sua mão levantou, a barreira quadrada sólida se levantou daquela areia molhada, absorvendo aqueles ataques como um lago absorvia uma pedra.

    — Não pode ser….

    A expressão daqueles dois ficou estupefata, não, a nossa também… ao ver àqueles ataques sendo refletidos. Não que pudéssemos ver, mas a pressão no vento havia mudado. Partículas em um movimento uniforme podiam ser sentidas a metros de distância.

    Zernen gesticulou as mãos como se estivesse formando um quadrado no vento. Enquanto Meredith formulava cortes diagonais, horizontais e verticais, que rasgaram o vento e combateram aquela onda de ataques.

    Colisão. Zernen foi jogado até o meu pé quando algo atingiu seu estômago segundos antes de ocorrer uma explosão pela colisão dos ataques. Uma poeira se levantou. Meredith recuou por conta própria, ainda com a espada em prontidão, esperando ansiosamente aquela névoa baixar.

    — Droga! Falhei!

    Zernen se levantou enquanto sacudia com a mão seu abdômen. O tecido que compunha aquela parte não existia mais, então seus músculos estavam à mostra.

    — Falhou o que?

    — Eu tentei fazer uma barreira tipo aquele do Oceano, mas parece que não deu certo…

    — Ah, é isso. Mas é claro que não daria… Não tente fazer coisas fora do seu poder!

    Era impossível formar uma barreira de mana, para isso, era preciso fazer com que milhões de partículas ficassem duras ou arrumar uma outra forma ainda não inventada de o fazer. Mas Zernen não era um daqueles gênios focado em descobrir logicamente novas técnicas. Sua evolução era somente através dos combates.

    — Hum… Interessante!

    Aquilo queria dizer que ele continuaria tentando e tentando até… quem sabe desistir.

    Quando finalmente a poeira se desfez, uma mão lançou uma esfera do tamanho de uma bola de basquete no céu. Ela voou mais rápido que um avião supersónico. Quase não via. Mas seus efeitos começaram a se fazer sentir. Nossos olhos foram atraídos para o céu quando aquelas que deviam ser nuvens brancas, se tornarem negras e então uma chuva miúda caiu. Mas depois ficou agressiva. Agora era uma chuva de verdade.

    Mas ela se estendia por aquela região em que estávamos. Um dos limites era os pés daqueles dois soldados. Se corressemos alguns metros para qualquer direção não estaríamos mais em seu alcance.

    — Então esse era o seu plano, nos molhar?

    Veja agora, minhas roupas estão molhadas. Quem vai lavar isso? Espera, a chuva já não estaria lavando? Empus a mão no queixo, preso nesse dilema.

    O meu cabelo espetado caiu. Agora estava liso. Havia formado uma franja nos meus olhos. Não somente o meu, mas o do Zernen, do Rein e o do Handares.

    Agora as nossas roupas estavam coladas ao corpo, desenhando cada trajecto dele. Se a roupa conseguisse, não duvido que invadiria até mesmo a estrutura óssea.

    — Eu bem que estava precisando de um banho… — Zernen balançou a cabeça como um daqueles nobres que ostentava um cabelo lambido. Igual o Faisal.

    — Qual é o vosso plano? Se vocês são soldados de verdade, então saquem as vossas espada e nos enfrentem!

    Charks passou a mão na bainha presa a cintura.

    — É que quando finalmente sacarmos a espada, será o fim. Você sabe, não sabe, senhorita Meredith? Quando um soldado tira a espada, significa que ele está levando a luta a sério. É vida ou morte. Esse é o princípio fundamental da guerra.

    Então quer dizer que todo esse tempo Meredith estava levando suas batalhas numa questão de vida e morte? Pensando bem, isso faz sentido. Se você tira uma lâmina cortante para lutar, isso implica que você poderá evidentemente desferir um golpe fatal no seu adversário.

    — É, você está certo. Mas eu nunca olhei para a espada nesse sentido. Desde sempre pensei que ela fosse um instrumento de defesa e de misericórdia — Ela então baixou a espada ligeiramente, seus olhos desceram um pouco. — Por isso que entre a vida e a morte, reside a misericórdia… — Meredith pareceu desafinar nas suas últimas palavras, como se estivesse freando elas. Seus lábios no fim produziram silêncio e seu semblante ganhou tristeza.

    — Mas para haver misericórdia, é necessário arrependimento, não acha? A vontade de desistir e se render.

    — Concordo, sem rendição não há ao menos chance de misericórdia.

    Eu também tinha de concordar. Apenas mantive minha boca selada, porque não queria dar razão ao inimigo. O silêncio dos outros também deixava claro o seu alinhamento. Mas…

    Meredith ergueu a espada, contemplando seu reflexo.

    — Vocês têm razão. Na verdade, falar sobre misericórdia não combina comigo. Justo eu que naquele momento não hesitei em tirar uma vida… — Encurvou sua cabeça. Cerrou os lábios em profundo amargor. Franziu os punhos na espada. Ela tremeu. — Meu pai sempre me apoiou em tudo. Apesar de ele não querer que eu virasse aventureira, ainda assim me apoiou… Mesmo assim eu o decepcionei. Tudo que ele havia deixado para mim eram princípios… — Seu rosto refletido na espada tinha o brilho de lágrimas. — Mate em legítima defesa, quando sua vida correr risco… Toda vida é sagrada e ninguém tem o direito de tirar. Era tão simples e eu quebrei isso…

    Agora lágrimas saiam dos seus olhos.

    Ninguém, na verdade, sabia o que dizer naquele momento. Ao menos era isso que os seus lábios cerrados transmitiam.

    — Mas… — Meredith limpou as lágrimas com as costas da mão. — Esses meus companheiros não cometeram nada. Mesmo que digam aquelas palavras para me aliviar… Eles só querem apenas salvar o mundo. Por isso, peço que prendam a mim e não a eles. Deixem, ao menos, eles prosseguirem e provarem sua inocência.

    — Eu entendo que você deva estar sofrendo, mas não é assim que as coisas funcionam. Nós estamos aqui para cumprir ordens apenas. Não estamos na condição de juiz, portanto, qualquer palavra, por mais sentimental que seja, não nos fará recuar.

    Étora concordou com isso também. Esses dois não tem coração mesmo… Não é possível que não tenham se emocionado diante dessas palavras… Olha, eu estou chorando aqui. Tenho que limpar as lágrimas com as costas da mão.

    — Aquelas palavras não eram para aliviar o peso das suas ações, sabia?

    Theresa guardou algo no bolso da saia azul dela e plantou sua mão no ombro dela, atraindo os seus olhos.

    — Emoções são mesmo coisas difíceis de controlar. Bendito quem as controla. Nesse mundo, nossa verdadeira jornada, é de conhecimento. Vivemos para nos conhecer e conhecer o mundo. E nesse processo, vamos errar, mas vamos levantar… Nesse meio, vamos nos arrepender e nos concertar. Isso é ser humano, sabia?

    — É isso mesmo, Meredith! Você é a mais humana aqui, porque você sabe que é alguém cheio de falhas… E está tudo bem, somos imperfeitos!

    Zernen estava dizendo palavras tão filosóficas assim? O mundo já pode acabar.

    — É, até eu escondo minhas fraquezas, mas você não… Você as expõe. Você é muito melhor do que as pessoas que vivem julgando os erros dos outros, mas se esquecem dos próprios erros.

    O que o Rein disse me fez pensar no quanto no meu mundo tinha gente assim. Começando por eu.

    — Eu mesma sou o exemplo de imperfeição — disse Croma. Handares concordou: — Eu sempre pensei que o meu defeito estivesse no fato de eu não conseguir andar, mas percebi com o tempo o quanto meu coração era defeituoso. Sabe, Meredith, eu me identifico com você… Porque também carreguei comigo os princípios dos meus pais, tentei ensinar o meu irmão a fazer isso, mas no fim das contas, eu escondia no meu coração o quanto eu odiava as pessoas que tinham pernas para andar…

    — Dito isso… — Coloquei uma das mãos no seu ombro. — Todo mundo aqui é imperfeito!

    — É uma bela conversa sobre imperfeição, mas quital desistirem logo? Com essa toda conversa, com certeza vocês aumentam a chance de serem absolvidos em tribunal.

    — Ainda não te disseram? — Zernen bateu o punho na palma da mão. — Que nós não somos dos que retrocedem para trás?!

    Meredith então limpou suas lágrimas. E sorriu. Olhando para eles severamente com a espada erguida.

    — Vocês têm razão. Chega de chorar e se lamentar. Por isso que a partir de agora, me despeço de todas essas lamentações. Passado fica no passado. Enquanto os meus amigos me apoiarem, eu jamais cairei!!!

    Aí está!!!

    Meredith posicionou a espada com firmeza. Aquelas palavras que Meredith disse foram as mesmas de quando ela lutou sua batalha contra a vilã quando tentou atacar a parte moral dela e os amigos falaram bem da Meredith como estávamos fazendo.

    Meus olhos brilharam de fascínio. Ao que parece, depois daquele dia, Meredith aprendeu a lidar com sua imperfeição e seguir com os princípios do seu pai. Mesmo caindo, mas sempre se levantava.

    — É mesmo, não é? — Com uma expressão emburrada, Charks estalou os dedos. — Essa é última chance que vos dou de renderem.

    A terra molhada ganhou a composição de areia movediça, mas isso estava mais para lama movediça. Estamos sendo engolidos lentamente.

    — Kyaaaaaaa!

    Croma gritava, tentando se agarrar no Handares.

    — Eu vou explodir isso agora mesmo!!!

    Zernen ficou brilhante. Mas a minha voz e a de Meredith o fez frear.

    — Está querendo nos matar?! Explosão aqui não!

    Francamente, parecíamos o pai do Zernen.

    — Então, o que faremos?!

    — Não se preocupem com isso. — Quando Theresa dizia isso, podíamos ficar calmos, que algo bom estava por vir. — Eu já tomei minhas providências!

    A terra estremeceu. Senti algo pesado em baixo. Algo que amparou minhas pernas. Algo que nos levantava para cima com uma forma abismal. Era o golem.

    — Quando e como?

    Olhei para Theresa.

    — Deduzi que não seria uma chuva qualquer. Que muito provavelmente poderia ter a ver areia movediça. Então enquanto todo mundo estava concentrado na Meredith aproveitei para sussurrar um comando para o Gaia.

    Agora que ela falou isso, algo me veio à mente… Algo que, na verdade, deveria ter vindo à minha mente há muito tempo.

    — Mas espera aí… Por que não usou o golem antes se podia fazer? Ao invés de ter me pressionado a pensar, não acha que seria o mais sensato a se fazer?

    — Pretendia usar como último recurso. Um golem gigantesco seria inútil, um alvo fácil e de bônus sua transformação acabaria machucando nossos companheiros… Então eu estava à espera que se você tivesse uma ideia, mesmo que implicasse usar o golem, eu apoiaria.

    Theresa estava confiando tanto assim em mim? Me senti tão burro por ter pensado tão pequeno assim.

    — É, você está certa…

    — A Theresa sabe o que faz! — disse Meredith. Concordei com a cabeça.

    — Você tem que pensar fora da caixa, ouviu, Jarves?

    — Não quero ouvir isso de alguém que quase sempre pensa dentro da caixa…

    Ele deu uma risada. — Quase, você disse…

    Agora repousavamos nas mãos gigantescas do golem, embora a metade do corpo estivesse lamacento, estávamos a salvo daquela lama movediça. Seus olhos verdes e finos com fundo preto nos olhavam com brilho. Já havia se passado um bom tempo desde o nosso encontro. Levantei o polegar para ele, recebendo uma tentativa de um bom sorriso. No final saiu um sorriso assustador.

    Dei um sorriso torto e então olhei para aqueles dois embaixo. Isso, estávamos a uma boa altura em relação a eles. Podíamos nos considerar em cima do telhado de uma casa e eles no chão.

    Charks e Étora colocaram a mão na alça da espada, removendo sua lâmina brilhante e afiada.

    — Vejo que nos obrigam a isso. A partir daqui, não me responsabilizarei sobre o que for acontecer.

    Pelos vistos, agora as coisas haviam ficado sérias.

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