Capítulo 137: O carvão ainda queima
Passei o dedo no rosto queimado do meu parceiro, e céus, que quente! A ponta do meu dedo havia ficado preto como alcatrão. Quando as minhas lágrimas encontraram sua pele ou pelo menos o que restou dela, uma fumaça saiu. Como de vapor. Continuei agarrando meu peito, amarrotando minhas vestes…
Logo depois soquei o chão. Eu não podia perder o Zernen, de jeito nenhum. Eu me recuso a perdê-lo!!!
Nem na trama principal ele morreu, agora ele vai morrer aqui?
— Eu me recusooooo! — gritei aos céus. As lágrimas ainda deslizando as minhas bochechas.
Uma luz verde atraiu meus olhos. Era Theresa. Ela estava de joelhos. A minha esperança. Ela havia feito o milagre com o Handares, então…
Nossos olhos se encontraram.
— Eu vou fazer o meu máximo!
Assenti, não sentindo o verdadeiro alívio que minha alma queria ter. Quando um médico diz que vai fazer seu máximo, isso levanta incertezas. E eu não queria ter incertezas. Eu queria que ela dissesse: eu vou curá-lo. Mas eu estava confiando na Theresa. Seu rosto iluminado pela luz verde estava severo. Era de alguém que estava disposta a fazer o impossível para salvar o Zernen.
Suas mãos, envolvidas em luz verde, pressionavam o peito do Zernen.
— Ei, vocês, o que acham que estão fazendo?!!!
Meus olhos foram atraídos para Meredith, que havia dado esse grito com lágrimas nos olhos e sobrancelhas franzidas.
— Eu juro que vou matar vocês!!!
— Ei, calma, sim, princesa? Nós nunca planejamos matar vocês desde o início…. No último instante, diminuímos a voltagem. Mas o que se seguiu depois foi a explosão do garoto que quase nos matou.
— É isso… — Étora tossiu fumaça. — Nós é que deveríamos matar vocês agora. Que dor!!!
Meredith então largou a espada, e caiu de joelhos. E começou a chorar. Alto e com soluços. Não sabia o que fazer. Ninguém mais sabia o que fazer.
A rocha flutuante enfim pousou em terra firme. Charks esticou um dos braços queimados e trêmulo dele em direção a nós.
— Se entreguem. Vocês estão sem forças… E nós também.
— Eu não posso deixar que o sacrifício do Zernen seja em vão — disse Rein, tocando o ombro daqueles dois, que lançaram seus olhos contra eles. Contudo, era tarde demais para fazer qualquer coisa… Mas talvez nem conseguissem fazer muito naquele estado. Muito provavelmente nem tinham mana sobrando.
Rein sumiu com eles.
Depois de alguns segundos voltou.
— Onde você deixou eles? — questionou Handares.
— Em um beco em Ahrmanica. Precisamos ser rápidos e sair daqui logo. Eu também já não posso mais me teletransportar… Minha mana já foi embora.
Enquanto isso, meus olhos continuavam vigiando a cura do Zernen. Sangue saía das narinas de Theresa. Ainda assim, eu não estava vendo sua pele sendo restaurada… Eu queria aquele milagre. O milagre do Criador que Theresa tanto havia usado no Handares.
— Eu preciso de mana… Mais mana…
Theresa não precisou dizer mais. Mesmo ciente das minhas condições como deficiente de mana, coloquei minhas mãos nas costas de Theresa. Meredith também veio. Agachou e depositou sua mão nas costas dela.
Até mesmo quem não conseguia doar mana, havia colocado sua mão nas costas da Theresa. Seu corpo começou a brilhar como o sol. Mesmo sangue saindo das minhas narinas, mesmo sem forças, não tirei a mão.
— Zernen, eu vi o seu futuro, você não vai morrer… Você ainda fará coisas inimagináveis… — disse essas palavras para me consolar, mesmo sabendo que o futuro havia mudado drasticamente. Tudo estava em incerto agora.
— Você ouviu, não é, Zernen? — disse Meredith, com um sorriso no rosto. — Então trate de acordar logo!
— Se você está vivo no futuro, então quem é a morte para te impedir agora? — Quando Theresa disse isso em um bom tom, com um sorriso, a pele do Zernen começou a ser restaurada. Clara e lisa como a conhecíamos. Todo o pó negro estava desaparecendo.
Seus fios de cabelo verde cresceram como uma planta cresce.
Seu rosto havia voltado ao normal, com aquele sorriso costumeiro, mas seus olhos ainda estavam fechados.
— Vou te contar… Eu nunca tive fé que Theresa pudesse restaurar o corpo do Zernen, mas tentei acreditar por causa do Handares… mas isso aqui que já estou vendo é surreal.
Rein estava certo. Theresa havia chegado em um patamar alto, mais alto do que uma usuária de cura havia chegado.
— Isso é milagre… — disse Meredith.
— Desse jeito, eu acho que no futuro ela já estará ressuscitando os mortos… — Dei uma risada zombeteira.
— Eh, isso aí já acho impossível mesmo… Porque tipo, mesmo que seja um milagre, esse milagre acontece enquanto a pessoa ainda está viva. Porque tipo, quando a pessoa morre, parece que tem uma parte invisível que se desconecta do corpo… Tornando o corpo vazio.
— É verdade, depois que morre tudo acaba… Tanto que a necromancia é o nome dado a manipulação de corpos vazios — disse Meredith.
Theresa fazer isso era fora do comum, mas o autor desta obra nunca quis implementar a ressurreição na obra dele, porque para ele, segundo o que deu a entender, mexer com a vida e a morte era algo diretamente ligado ao Criador de toda vida.
— Eu acho que quando uma pessoa morre, é porque ela já cumpriu a sua missão nesse mundo.
Essas eram as palavras do heroi depois dele presenciar muitos dos seus companheiros se perdendo nos campos de batalha.
Meredith arregalou os olhos. Olhou para o céu. E depois olhou para mim, dando um sorriso.
— É verdade… Embora eu não concorde tanto assim.
Aceitar a perda era uma das tarefas mais difíceis do mundo.
— Desculpa interromper as conversações, mas temos de ir. Podemos conversar isso pelo caminho enquanto recarregamos nossa força — disse Rein, nos lembrando da ameaça iminente que ainda pairava. Aqueles dois em Ahrmanica não era um bom sinal, logo informariam a nossa verdadeira localização e todo o plano do mestre dos aventureiros de confundir os aventureiros iria afundar nas profundezas do Oceano.
— E quanto a mim? — questionou Handares, reunindo nossos olhos. — Eu queria acompanhá-los, mas estou preocupado com o meu irmão, a Antonella e as crianças.
— Claro, vocês podem voltar — disse Rein. — Vamos prosseguir sozinhos a partir daqui. Temos o golem e… — Seus olhos encontraram o cavalo agora em pé. — Bem, cavalo. Mas acho que ele também pode ir com vocês.
Cavalo sem caravana para um grupo como o nosso não valia muita coisa.
— Como assim sozinhos? Alguém mais vai comigo?
— É claro que sim, eu vou!!!
— O que? Você não pode…
Que inveja. Croma colocou o dedo nos lábios do Handares e emitiu um shhh.
— Eu vou com você, tenho que encarar a Antonella e as crianças antes que eu possa encarar os meus familiares lá no vilarejo.
— Tem certeza?
Croma balançou a cabeça positivamente.
Depois de um abraço ali e aqui, nos despedimos daqueles dois, que foram andando no cavalo como um daqueles contos do príncipe e da princesa, que cavalgavam em direção ao pôr do sol. Com um adicional: eles estavam levando o cocheiro inconsciente consigo. Seu corpo repousava no dorso como uma carga.
O sol estava se pondo. Algumas estrelinhas apareciam no céu.
Parei de balançar a mão depois que desapareceram no horizonte.
— Que bom que tudo acabou bem, não é mesmo? — Lancei os meus olhos com um sorriso no rosto para eles.
— É verdade. — Theresa tirou o Gaia da sua casinha, o bolso do jaleco e olhou para ele com um sorriso. — Sei que não te dei muitas pedras de mana, mas você poderia me emprestar sua força mais uma vez?
Quando o Gaia assentiu com a cabeça, ela deixou ele no chão. Gaia se transformou naquela criatura grande e pedregosa que sempre foi.
Gaia então estendeu sua mão. Subimos nela. Eu e Meredith carregando o corpo do Zernen inconsciente para o centro. Rein o baú do Zernen, que não podia faltar. Theresa, já esgotada, sentou perto do Rein, que se encostava no baú. Eu também sentei perto do Zernen. Meredith perto de mim. Gaia nos levantou para o alto. O céu estava mais bonito visto dessa altura.
O tremor então começou. Nossos corpos balançaram ligeiramente. Assim iniciou a nossa caminhada para as terras do norte. O lugar que viu Theresa e Zernen nascer.

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