Capítulo 138: Os contos de fada podem ser reais
No dia da fuga do castelo…
Depois de correrem pelos corredores do castelo, eles chegaram ao quarto do Alecrim que ficava em um dos fundos do castelo, quase perto de onde ficava a entrada para o calabouço real. Quando todos entraram, ele fechou a porta. De madeira. Nem precisava de magia para ser arrombada, qualquer pessoa com um bom porte musculoso derrubaria aquilo facilmente.
Seu quarto, um cubículo, mais parecia uma biblioteca. Tinha dezenas de livros espalhados pelas prateleiras. Você poderia pegar qualquer um dos livros para ler, achando que era normal, mas não! Eram livros sobre charadas. Alguns tinham suas anotações sobre charadas e outros contavam sobre seus encontros com amantes de charadas, não amantes e seus feitos.
Alecrim adorava imortalizar isso. De resto, seu quarto tinha apenas uma cama e uma secretária que usava para escrever. Ele ligou a lamparina no teto para melhor visualização, deixando seus visitantes um tanto quanto espantados.
— Vejo que é um homem de cultura… — senhor Alexodoro comentou, mal sabendo que ali só tinha conteúdo relacionado a charadas. Alecrim deu um sorriso e acenou a cabeça.
— O que a gente está fazendo no seu quarto? Não me diga que está pensando em se esconder aqui? — Istar não queria acreditar que o bobo tivesse tido uma ideia tão boba quanto essa.
— É claro que eu não teria uma ideia tão boba quanto essa.
Ele deu um sorriso largo. Rodopiou com o corpo de Xavier em seus ombros e então apontou para o chão.
— Aqui.
Todo mundo olhou para baixo. Havia apenas um chão de blocos.
Ele então agachou. Bateu com o dedo no chão. Um buraco se abriu. Não era pequeno, era grande o suficiente para cobrir quase todo quarto. De modo que agora eles estavam caindo para as profundezas daquela escuridão enquanto a luz do teto ia ficando cada vez mais menor, ou melhor, o chão havia se coberto novamente quando Alecrim estalou o dedo. A razão disso era que na verdade, o quarto do bobo era um poço gigantesco para um lugar há muito tempo explorado.
— Kyaaaaaaaa!
O grito das garotas se perdiam naquela escuridão.
— O que está acontecendo, Alecrim? Ah, droga! Eu sabia que não deveria ter vindo, drogaaaaa!
Istar agora estava arrependida.
— Me explica o que está acontecendo!
No meio dessa toda gritaria, o bobo deu uma risada e estalou o dedo quando uma luz azul no fim do túnel tomou conta dos seus olhos. Dando lugar a uma luz maior. Agora era possível ver o chão depois de tantos segundos caindo naquele poço sem fim, apenas rodeado de pedras irregulares.
Alecrim então estalou os dedos, transformando aquele chão de pedras que facilmente quebraria seus corpos, em uma lama macia e pegajosa. Eles afundaram, mas não tão fundo graças à composição pegajosa. Mas as pontas dos seus cabelos, partes dos seus rostos e suas vestes estavam sujas de lama.
— Mas o que foi isso, bobo?Tava querendo nos matar, é?
— Até eu concordo com a princesa, deveria ter nos preparado psicologicamente para isso!
— E eu sinto que isso vai ficar ainda mais pior… — murmurou Arina. — No que será que eu me meti?
— Aí, aí, calma. Olhem…
Seus olhos alcançaram o que parecia uma caverna, que se estendia até se perder no horizonte escuro. Estava cheia de pedras azuis cravadas na parede rochosa. O buraco enorme de onde vieram agora estava se fechando sozinho, lentamente, dando origem a um teto repleto de pedras irregulares.
— O que é isso? Onde estamos? — questionou Istar. Aquilo para ela que quase sempre ficava confinada no seu castelo era algo completamente diferente do habitual — não para melhor, mas para pior. Era um lugar empoeirado e sujo para um pessoa tão higiénica como ela.
— Isso é uma masmorra!
Ele sorriu. O bobo podia ver graça naquilo, mas seus acompanhantes não. Ninguém gostava de estar numa masmorra. Masmorras eram perigosas.
— Sem dúvida é uma masmorra… — senhor Alexodoro passava as mãos pelas paredes empoeiradas, sentindo as irregularidades dela enquanto seus olhos brilhavam pela luz emanada das pedras. Um ar de nostalgia adentrou as suas narinas. Era o cheiro de lembranças passadas. Dos dias de aventuras.
— Eu disse que isso ia ficar pior… Ah, agora essa…
Airina tinha medo que do horizonte daquela escuridão surgissem criaturas monstruosas. Kamila se encostou nela, ainda observando aquele lugar com espanto.
— Não se preocupem, não tem nenhum monstro aqui. É uma masmorra desabitada.
— Como você pode saber disso?! Ah, eu não deveria ter vindo! Vamos, me leva de volta para o castelo, eu vou pedir desculpas e enfrentar o castigo!!!
Istar cruzou os braços, mas no fundo ela sabia que não podia mais voltar. Não depois de ter traído sua família. Se antes a odiavam ao ponto de lhe colocarem na prisão, agora talvez sua cabeça fosse parar na guilhotina.
— Calma, calma. É sério o que estou dizendo. Querem ouvir uma história?
— Olha, se isso não for verdade, eu não sei o que eu faço, é sério!
Enquanto fazia uma cara emburrada, ela bateu com o pé no chão até se cansar. Então Alecrim sorriu, ergueu o dedo, reunindo atenção dos seus olhos.
— Não sei se vocês já ouviram, mas há
boatos de que essa cidade esteja construída debaixo de masmorras. Como sabem, os contos não se apagam, eles evoluem e voam com asas de liberdade para outros céus… — Deu um rodopio e finalizou com um sorriso largo, sua maquiagem vermelha resplandecente a luz azul, tornando tudo sombrio. — É tudo verdade. Todas as cidades foram construídas debaixo de masmorras, com exceção das terras do norte e as regiões do centro que ficavam próximas a ela!
Senhor Alexodoro arregalou os olhos. Plantou as mãos no topo da cabeça. Havia lutado tantas batalhas, descoberto tantas espécies de monstros, mas nunca havia chegado a uma revelação como essa.
— Isso é… Inacreditável. — Encostou a mão na parede.
— É o que? Tá dizendo que tudo isso foi construído debaixo de masmorras? Como assim?
— Assim sendo! — Ele estalou os dedos.
— Como isso é possível? Isso é loucura! Masmorras sempre se destruíram depois de toda exploração!
Uma das condições que fazia uma masmorra se manter viva, mesmo após a derrota dos monstros, eram as suas pedras de mana, depois que eram extraídas, não durava uma semana e se destruía. A outra era que ela não admitia que um humano pudesse viver nela ou construir o que quisesse dentro dela.
Isso porque a masmorra produziu monstros pela presença humana após uma semana dentro dela. Nunca se chegou ao consenso sobre o porquê isso aconteceu, mas num estudo feito, foram levados em contas dois aspetos: emoções negativas humanas e a própria aversão à humanidade da masmorra. Ou seja, a masmorra podia ter vida própria.
— É loucura sim… Mas desde que as masmorras cumpram as duas condições, elas não vão desaparecer. E se uma masmorra não desaparece, dificilmente outras não nascem devido ao espaço. Então o primeiro rei teve a ideia de enterrar as masmorras e governar sobre elas.
— Isso faz sentido. Sempre pensei que as terras do norte eram as amaldiçoadas, mas agora vejo que não…
— Mas como um conhecimento desses foi perdido? — perguntou Airina. Kamila assentiu com a cabeça.
— É como eu disse, isso se transformou em boatos. Na verdade, o rei queria que isso não fosse adiante, por isso proibiu que as pessoas não passassem adiante, mas sempre tem um traidor… Ainda assim, isso não passou de contos de fadas.
— Se for seguir essa lógica, então quer dizer que aquele homem… — Istar tapou a boca. Arregalou os olhos, lembrando a sentença que recebera. — Pode estar falando a verdade sobre a destruição de Hengracia…
Alecrim balançou a cabeça positivamente, deixando a princesa mais atordoada do que já estava.
— E como você soube disso? — questionou senhor Alexodoro.
— Magia de terra… Eu e o Xavier alcançamos pináculos que nunca sonhamos alcançar… Minha magia de terra permite que eu consiga sentir a terra dezenas de profundidade. Com isso, eu percebi que havia um espaço oco. Então usei minha habilidade que cria buracos instantaneamente para explorar lá embaixo.
— Nem mesmo eu que sou chamado de lenda, sonhei um dia chegar onde vocês estão…
Isso era o que significava dar a volta à vida. De desprezados usuários de magias elementares aos mais fortes usuários de magia elementar de Hengracia.
—Que isso? Não é nada! — O bobo deu um sorriso bobo.
— Então quer dizer que eu vou mesmo morrer?
Istar murmurou com uma cara de desolação, enquanto reparava suas mãos trêmulas.
— Do que você está falando? Ainda temos uma semana para pular para outra masmorra antes que monstros sejam criados.
— Não é disso que estou falando…
— O que é então?
— Aquele cara, o manipulador charlatão, ele previu a minha morte… Mas a esfera do zik ficou branca. — Istar se abraçou enquanto tremia. — Não sei se ele fala a verdade, mas eu não quero morrer… Eu ainda quero casar, eu ainda quero ser amada!!!
— Morrer é um fato certo — disse senhor Alexodoro.
— Mas sem cumprir seus objetivos é um fato decepcionante — disse Alecrim. — Espera, você disse o que? A esfera daquele idiota ficou branca?!
Istar balançou a cabeça positivamente.
— Se ficou branca, então por que está se preocupando? Pelo menos não ficou vermelha — disse Kamila. Sua tia concordou.
— É…
— Kukuku! Hahahahaha! — Alecrim plantou as mãos no topo da cabeça e deu uma risada palhaça. Ergueu o rosto ao teto e continuou rindo. Desceu o rosto e continuou rindo. Deixando seus companheiros com cara de vergonha alheia.
— Com licença? — disse Airina.
— Pela primeira vez o Zik falhou!!! Eu sabia! Eu ganhei! Ganhei!!!
Alecrim comemorava uma competição unilateral. Encostou o corpo do Xavier na parede e começou a pular com os punhos para o alto, tirando a língua para fora. Era a sua dita dança da vitória.
— Tá, mas o que isso muda? Eu ainda estou incerta sobre o meu futuro…
— Mas isso não devia te alegrar, mocinha? — disse senhor Alexodoro, atraindo seus olhos. — Se Zik falhou, isso significa que o seu futuro não pôde ser lido ou foi alterado… A senhorita sabe porque um poder de ver o futuro existe neste mundo?
— Para que o futuro possa ser mudado?
— Isso mesmo!
Aquelas palavras deram fim a toda angústia que Istar sentia desde que aquelas palavras lhe foram dirigidas. Se juntou à dança da vitória do Alecrim. Pulou com os punhos para cima. Normalmente, não era do seu feitio fazer isso, mas estava feliz. Todas as suas dúvidas haviam sido sanadas.
— Então no fim você fez uma ótima escolha em seguir esse homem, não é mesmo, Meredith?— disse Airina com um sorriso no rosto.
Depois de pularem até perder o fôlego, Istar e Alecrim se encostaram na parede, buscando conforto e alívio. Suspiravam. Istar naquele momento sentia falta do seu precioso leque, quem dera o tivesse trazido.
— Agora para completar minha felicidade, por que vocês acham que minha irmã amaldiçoou minha família?
— Ah, sim… — Alecrim deu mais um suspiro. — Sua irmã… Onde ela está?
— Está com o seu noivo no reino de Reinauth.
Este reino ficava depois do reino zevalg.
— Ah, que azar…
— Agora vamos a minha pergunta.
Seu os olhos se encontraram.
— Sua família está amaldiçoada, claro com exceção de você e seu irmão… — disse Kamila, atraindo os olhos dela. — Eu tenho poder de detectar e quebrar maldições e vi isso pessoalmente… Senti uma energia negativa vindo deles.
— É o mesmo que eu! Eu sinto uma energia negativa vindo de todos eles, principalmente da minha irmã!!!
— É mesmo?
— Você já não se dá bem com sua irmã, princesa Istar. Então é seguro mesmo acreditar nas suas palavras? — Alecrim lançou seus olhos desconfiados nela.
— A verdade é que detesto minha irmã desde pequena… Eu não tenho motivo para isso, mas sinto um mal vindo dela. Mesmo ela me tratando com um sorriso. E isso só tem ficado muito mais forte conforme o tempo passa.
— Talvez você seja sensível a maldições… Sentir energia negativa desde criança e detestar isso, comigo é assim também.
— Não é? Mas minha magia é a de cura!
— É, mas você pode ter uma segunda magia despertada… Devia tentar fazer o teste.
— É sério? Ah! — Istar bateu as palmas com um sorriso. — Não sei mais o quão bom o meu dia pode ficar hoje! Quero logo fazer o teste para ver se tenho um novo poder! É, sim, eu fiz bem em fugir com vocês!
— Que bom que você está feliz. Seria bom ter uma pessoa com a mesma magia que eu.
— É, de fato, mas eu espero que seja algo ainda mais grande… Do que simplesmente sentir energia negativa…
— Vai dar tudo certo! — Kamila deu um sorriso. Quem também deu um sorriso foi a Airina. Estava feliz que sua prima havia ficado amiga da princesa. Ela finalmente havia ganhado uma provável amiga de verdade depois de tanta decepção.
— Enfim, que bom que o vosso humor aflorou, agora vamos caminhando antes que sete dias se passem e um monstro apareça — disse enquanto carregava Xavier de volta ao seu ombro.
— Ei, espera! Vamos para onde? E o que vamos comer?
— Ah, pelo que explorei, têm algumas frutas por aqui… São boas. Vamos aguentar.
— E quanto a água?
Ele apontou o dedo no chão, criando um buraco pequeno, mas muito estreito que liberou uma grande quantidade de água.
— Eu não vou beber água suja!
— Mas princesa, as águas que você bebe, elas vêm justamente de rios e lagos… E agora que me ocorre, como você fez a água sair? Sempre pensamos que não havia água debaixo da terra… ah, sim, deixa estar. — Havia lembrado da descoberta das masmorras.
— E você tem sua magia de cura! — disse Kamila. — Por que não purifica ela?!
— Tá! Tá! Tudo bem. Só me diz para onde nós vamos para eu saber o quanto eu tenho que andar…
— Nós vamos… — Alecrim deu um passo a frente e levantou um punho com um sorriso de empolgação. — Para as terras do norte!!!
— O queeeeee?!
Aquela informação não foi muito bem recebida pelas moças, mas principalmente pela princesa. Mas fazer o que, não é? Elas não tinham para onde voltar, muito provavelmente já tinham suas caras em todas as guildas.
— Entendo. É uma boa ideia. Eu fiz bem em encerrar a minha oficina.
— Me aguarde, mestre das charadas, eu estou vindo para a nossa segunda batalha lendária!
Um sorriso largo se espalhou pelos seus lábios vermelhos.

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