Índice de Capítulo

    Dias depois

    Depois de dias intensos de recuperação, os dois aventureiros, Zestas e Luvru, abandonaram Ahrmanica. Agora estavam na estrada, numa caravana para a cidade capital do reino de Hengracia. Sua agenda compreendia três objetivos essenciais: Verificar se o ex aventureiro Alexodoro ainda respirava, se encontrar com o rei e com a princesa Alexandra. No primeiro objetivo, Sond havia sido enviado a fim de averiguar isso, mas voltou sem informação nenhuma. O que soube dizer era que uma batalha havia ocorrido ali, prédios destruídos, pavimentos desfeitos. Era um completo caos.

    — A reabilitação disso vai custar muito caro — disse Luvru. Estava de seu sobretudo. Observava, pela janela semi aberta, com os seus próprios olhos azuis escuro o dano na cidade onde ocorrera a emboscada do grupo do manipulador charlatão.

    — É verdade e já não há dinheiro! — disse Zestas. Vestia uma túnica castanha com um cinto largo apertando sua barriga grande. Estava sentado no lugar oposto ao Luvru, bebericando o seu saquê. O cheiro fedido percorria aquele espaço apertado e abafado.

    — Dá para você parar de beber. Isso é nauseante.

    — Calma, calma. Ainda nem chegamos a capital real. — Ele deu uma risada. — Prometo que na presença do rei, eu me comporto.

    Luvru se limitou a voltar a olhar para a janela, de onde recebera ar puro.

    Antes de irem ter com o rei, haviam agendado uma reunião entre os aventureiros rank S. Todos haviam confirmado sua participação na guilda que ficava neste distrito. O cocheiro então estacionou a caravana em frente a guilda que mais parecia uma taberna. Aquilo fazia o estilo do Zestas. Ele gostava daquele ambiente, daquele tipo de guilda.

    Ao abrirem a porta, foram recebidos por um homem gordo e rechonchudo, com uma couraça cobrindo sua camisa marrom interior, que expunha seus grandiosos braços músculos suficientes para suportar o peso do machado agarrado às suas costas por cordões, que prendiam a couraça.

    — Seja bem vindo… Senhor Luvru! — Deu um passo para trás com o rosto assustado ao analisar bem o rosto daquele homem. Curvou a cabeça e deu passagem com a mão diretamente apontada para dentro onde haviam pessoas almoçando e se divertindo. — Por favor, entre.

    Depois que entrou, veio o Zestas. Gordo como ele. Com o seu saquê em mão, aparência de um mendigo. Seus cabelos não cortados e suas roupas nada elegantes, extravasando a pobreza.

    — E você quem é? Saia daqui. Como ousa ficar perto do senhor Luvru?!

    — Ele é um aventureiro rank S!

    Ao ouvir a voz do Luvru, que estava adiante, ele tremeu e encurvou a cabeça com as mãos entrelaçadas em oração.

    — Oh, mil perdões! Pode passar!

    — Aí… — Zestas sorriu e bateu no seu ombro com um bash-bash. — Não se preocupe, é sempre assim… — Então ele arrotou. Apesar de lhe custar acreditar, se Luvru havia dito que aquele homem, que mais parecia um porco imundo, era um aventureiro rank S, quem era ele para discordar de suas palavras?

    A culpa era dele por ter fantasiado que todos os aventureiros rank S eram elegantes como o senhor Luvru.

    Assim que todos viram que era o Luvru começaram a se comportar, muitos dos aventureiros que ali estavam. Um silêncio se formou. Depois um boas vindas cordial saiu de suas bocas. O temiam e o respeitavam. Ele poderia revogar qualquer licença de aventureiro por capricho se quisesse, então era bom não o irritar.

    Os únicos que podiam irritar o Luvru e não ter suas licenças revogadas eram os aventureiros rank S. Algo raro de se encontrar e muito indispensáveis na finalização de masmorras com nível de emergência S.

    Luvru então subiu para o andar de cima onde ficava a guilda de verdade. Onde haviam os quadros de missão. Ao terminar de subir a escada, encontrou um ambiente menos cheiroso, mas limpo, menos barulhento, com mais paz. As moças da guilda estavam ali na recepção, encurvando a cabeça enquanto lhe desejavam boas vindas.

    Luvru aproveitou para questioná-las sobre o ex aventureiro rank S e o capitão Xavier, mas elas não sabiam dizer nada sobre esse assunto.

    Alguns dos aventureiros que apreciavam o quadro das missões também desejaram-nos boas vindas assim que deixaram as moças.

    No fundo, havia mesas e cadeiras para eles. Ainda não haviam chegado. Bom, era sempre assim. Os aventureiros rank S podiam ser habilidosos, mas sempre se atrasavam, eram os mais relaxados por saberem que são especiais. Por isso, muitos queriam chegar neste posto de conforto.

    Receber dinheiro mensalmente, mesmo não tendo feito nada. Sim, aventureiros rank S recebiam dinheiro apenas por serem aventureiros rank S. Dinheiro suficiente para viver uma vida luxuosa.

    Eles poderiam recusar missões abaixo do seu rank se quisessem, mas obrigatoriamente tinham que fazer missões do seu rank S, o que era raro. Então poderiam passar parte das missões relaxados.

    Ambos se sentaram naquela mesa de sete cadeiras, que haviam sido retiradas de outras mesas. E na verdade, as outras mesas também haviam sido juntadas ali para formar uma mesa extensa. Ela estava repleta de taças, uma jarra de água e outra de vinho.

    Luvru bateu o joelho do dedo na madeira, impaciente.

    — Eu sempre digo para serem pontuais… — Então pegou uma jarra de água e entornou no copo.

    — Hahahahaha, é porque você mima eles demais! Você deveria tentar cortar o salário deles ao meio.

    — Boa ideia. Vamos começar por você. — Bebeu a água.

    — Hahahahaha, não faça isso!

    Quando Luvru suspirou como quase sempre fazia, sentiu um estrondo que balançou a mesa, derrubou os copos e as jarras. Alguns copos rolaram para o chão e se partiram. Outros foram salvos pelo Luvru. Zestas não permitiu que as jarras fossem abaixo.

    Os aventureiros estavam agachados, temendo um possível terremoto. Mas tudo parou, quando aquele homem parou. Um homem gordo com as mesma túnica que o Zestas. Carregava uma coxa de javali na mão. Sua barriga era tão grande que botões que cercavam seu casaco a qual momento poderiam saltar dali. Seu cabelo era grande e liso e sua barba, como uma juba, invadia o peito.

    — Hahahahaha! Que patético!

    Ele olhou para aqueles aventureiros cheios de medo.

    As recepcionistas da guilda ficaram sem graça ao ver aquele grandão. Seus sorrisos queriam dizer: saia logo daqui antes que você quebre tudo. Rachaduras haviam tomado conta das paredes e do chão.

    — Ora, se não é Eskilo! — Zestas acenou com um sorriso. — Ainda continua comendo muito, não é?

    — E você bebendo, não é? Hahahahaha!

    Aqueles dois se entendiam muito bem, já que a fonte dos seus poderes era o que bebiam e o que comiam.

    — Es-Eskilo, se afaste!

    Uma voz trêmula ressoou atrás daquela grande figura. Seu companheiro se afastou um pouco para parede, para dar lugar a um homem extremamente magrinho. Com parte dos ossos desenhando seu corpo. Mesmo que sua roupa renascentista tentasse esconder, ainda era visível em partes nuas do seu corpo como o braço e os pés.

    — É o Fémur! Cada vez mais magrinho. Anda comendo pouco, não é?

    Zestas zombou, mas na verdade ele sabia que o Fémur comia mais do que o gordo. A verdade era que tudo o que o Fémur comia ia para os ossos. Seus ossos eram os mais duros de Hengracia, podendo quebrar uma rocha de diamante com extrema facilidade.

    — Eu até tento fazer ele engordar, mas olha o que acontece! — Eskilo fez o que sempre fazia quando encontrava o Fémur. Depositou sua mão grande na sua cabeça, transferindo todo seu peso corporal para o Fémur. Ele ficou magrinho e baixo. Já Fémur ficou gordo e alto. Mas isso durou cerca de meio minuto, pois tudo foi absorvido pelos ossos ao som de estalos. Fémur voltou a ser magro.

    — Viu só!

    Quem estava irreconhecível agora era o Eskilo, que parecia um nobre rico e fino, embora suas roupas não o servissem nesse tamanho. Estavam grandes demais, de maneira que a bainha da camisa balançava no vento e a da calça se arrastava pelo chão.

    — Ah… — Fémur deu um suspiro, indo a mesa ao lado do seu colega. Andava com as costas curvadas e as mãos balançantes para baixo como se fosse um louva-a-deus.

    Normalmente aquela cadeira quebraria com o peso normal do Eskilo, mas ele se sentou com a leveza de uma luva. Já o Fémur quando se sentou, seu corpo estalou. Na verdade, seus ossos. Era o som de algo se partindo para alguns, mas para o Fémur era a flexibilidade que o seu corpo exalava.

    — E então como vai, chefe?! — Eskilo deu um sorriso, balançando sua mão envolta a bainha.

    — C-Chefe, t-tudo bem?

    Sua mandíbula estalou.

    — Estaria bem se vocês chegassem a tempo. Eu tenho hora marcada com o rei, sabiam?

    — Hahaha, vamos fazer o seguinte. O último aventureiro a passar por aquela porta vai dar todo salário para nós! — Zestas apontou a garrafa para a entrada do primeiro andar.

    — Gostei da ideia!

    Luvru novamente suspirou. Fémur estremeceu. Aqueles dois estavam levando tudo nas brincadeiras. Estavam dando um mau exemplo aos poucos aventureiros que estavam na sala.

    — Senhor luvru, acabamos de receber isso. — Moça da guilda entregou duas cartas ao mestre dos aventureiros. Ele as recebeu com um suspiro.

    Moça se afastou um pouco, apreciando de um bom ângulo a beleza do senhor Luvru enquanto lia aquelas cartas com mensagens curtas.

    — Ninjaro e Calcária não virão. Estão ocupados com uma missão urgente em masmorras rank S nas terras do norte.

    — Essa não é nova, o Ninjaro sempre vem com suas desculpas… Calcária também. Sempre surge uma missão. Mas o bom é que pelo menos Calcária sempre que aparece nos enche de presente!

    Zestas levantou a garrafa ao alto e arrotou.

    Eskilo também arrotou.

    — Ah, é verdade! Ela dá muita falta! Eu acabei perdendo o presente dela!

    — Hiii, eu também! Só que eu dei para alguém, hehehe!

    Luvru deu um suspiro novamente. Uma veia havia aparecido no seu rosto. Estava chegando no seu limite. Entregou as cartas à moça da guilda com uma cara séria. Ela devolveu com um sorriso gentil e saiu dali, sentindo pena do Luvru por ter de suportar aqueles aventureiros.

    — Espera, espera! — Zestas agitou a garrafa. — Não está faltando alguém aqui não?

    — Ah, sim… mas eu preferia que aquela mulher não viesse não…

    Fémur tremeu, assentindo a cabeça com as palavras do Eskilo. Dentre os aventureiros rank S, não, dentre o reino todo, aquela mulher era a mais perigosa… Já não podia mais contar nos dedos quantas vezes seus companheiros foram envergonhados por a irritarem.

    Mas para o desespero de alguns e alegria do Luvru, passos se ouviram. Não era um, eram uns dois. Quando os olhos foram de encontro a entrada do primeiro andar, puderam avistar uma mulher vestida como uma monarca sendo carregada num trono dourado por dois homens musculosos com as vestes básicas de um plebeu. Uma máscara branca com riscos detalhados cobria seu rosto.

    Não era porque ela era feia ou tinha o rosto deformado que se escondia naquela máscara, não… A verdade é que aquela máscara protegia as pessoas dela mesma. Da sua habilidade extra. Os homens baixaram o trono para baixo. Agacharam com um joelho na madeira e estenderam um tapete vermelho, que sempre ficava num lugar reservado atrás do trono. O tapete chegou à mesa onde estavam seus companheiros.

    Seus salto altos que combinavam com seu vestido longo cor de vinho pisaram no tapete carmesim. Seu cabelo enrolado atrás com algumas mexas pousando sobre seus ombros também era vermelho. Vermelho da paixão. Seus olhos, visto dos dois buracos da máscara, eram vermelhos também.

    — Até agora não entendo porque uma aventureira rank S precisa de guarda!

    — É, é! E para quê o tapete e o trono?! Se no final você vai sentar na mesma cadeira que a nossa?!

    Aqueles dois nunca aprendiam a lição. Mesmo sabendo o que os esperava, sempre a provocavam como quem gostava de estar imerso nos encantos daquela mulher. Fémur tremeu quando ela segurou a máscara.

    — Olá, colegas! — Retirou a mão da máscara e brindou seus colegas com uma voz encantadora. — Tudo bem com vocês? — Seguiu andando em direção ao senhor Luvru . Se sentou ao lado dele. Este homem podia não nutrir algum tipo de sentimento por ela, mas adorava ficar perto dela. Amava o seu perfume. Era uma fragrância de uma flor única que ela havia apanhado na masmorra e transformado em perfume.

    Mas como ela gostava de se sentir única, escolheu não colocar a venda.

    — Mas que cheiro é esse?! Tá querendo nos matar!

    Apesar de achar adorável, Zestas zombou.

    — Como está, Zestas?! Sabem de uma coisa, eu hoje não quero colocar vocês em uma situação desconfortável, então não me provoquem! Porque hoje eu estou feliz!

    — Feliz por que? — Zestas questionou.

    — Você, feliz… Finalmente arranjou um homem para casar?! Finalmente desencalhou?!

    Até então estava tudo bem, até Eskilo ter dito a palavra “desencalhou”.

    Ela tinha repulsa a essa palavra e a outras similares.

    Quando ela removeu sua máscara, seus olhos mudaram para rosa. Aquela máscara, não era uma qualquer, era uma máscara especial feita pela aventureira rank S Calcária, que travava sua habilidade extra, “ amor à primeira vista”. O rosto de Íris era bonito como o de qualquer mulher bonita que você encontrava por aí, mas a habilidade extra fazia seu rosto parecer divino como o de uma deusa.

    Não importava a raça ou o sexo, naquele momento: todos os que olharam para o rosto da Íris se apaixonaram instantaneamente. Seus olhos haviam ficado cor de rosa como os dela. Agora ela tinha o total controle de todos que estavam ali.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota