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    Foi por um instante, e ela voltou a sorrir como se estivesse escondendo aquela expressão sob a capa de quem havia ficado surpresa ao ver a governadora desta cidade.

    — Bem vindos! — Seu sorriso emanava um calor acolhedor. — Vamos entrar para colocar a conversa em dia.

    Sorrimos vendo ela dar de costas, enquanto entrelaçava suas mãos rente ao seu traseiro. Apesar de ser de meia idade, ela ainda tinha o corpo de uma jovem na casa dos trinta, perfeitamente conservada.

    Meus olhos acabaram deixando-a para encontrar o jardim perfeitamente polido, com as árvores podadas que se estendiam a mansão. Não deixei de suspirar quando meus passos tocaram aquele piso de mármore. Um sorriso havia preenchido meus lábios e estrelinhas apareceram em meus olhos ao me deparar com a estética interior daquela mansão.

    Era algo assim que eu sonhava para mim desde que cheguei nesse mundo. Sentar nesse sofá confortável como a lã que estou sentado enquanto o calor da lareira nivelava a temperatura deste cómodo, nem tão frio, nem tão quente. Enquanto os meus olhos encontravam quadros considerados obras de artes da época renascentistas como os de Leonard da Vinci, enquanto uma empregada trazia uma bandeja com taças, jarras e pires com biscoitos como estava fazendo agora.

    Ah, voltei a suspirar com um sorriso bobo.

    — Quero morar aqui… — sussurrei sem querer e tapei a boca imediatamente, revirando o olhar para ali e aqui, e ufa, ninguém havia ouvido ou talvez a fala daquela senhora tenha abafado minha voz. Estavam todos com a atenção voltada para aquela senhora sentada perto de uma lareira.

    — Sejam bem-vindos, amigos de Theresa, em especial a princesa Meredith, é um prazer tê-la aqui.

    — Agradeço, senhora governadora. Mas não precisa me tratar com tamanha atenção, eu não sou mais importante do que ninguém aqui — disse Meredith enquanto eu ouvia um crac vindo do Zernen, que já estava devorando aqueles biscoitos, esquecendo que a gente estava aqui.

    Dei um tapa na sua mão. Ele olhou para mim com o rosto emburrado e cruzou os braços, degustando dos biscoitos que já haviam enchido suas bochechas.

    — Ainda assim, é uma princesa. Não posso deixá-la de tratá-la como deve ser — sorriu, recebendo um sorriso constrangido de Meredith, e olhou para mim e para o Zernen. — E vocês, podem comer a vontade. Tem mais de onde vem!

    Zernen mostrou a língua para mim e pegou o pires inteiro. Vou te contar, esse cara parece uma criança.

    — Vê se cresce, Zernen… — murmurei.

    — Muito obrigada por nos receber — disse Theresa com um sorriso. — Fico feliz por saber que a sua intuição ainda continua afiada como sempre.

    — É, e por falar nisso, percebe que ficou aterrorizada ao olhar para a mansão. O que foi, pensou que eu estaria armando uma emboscada ou algo assim?

    Pelo visto eu não havia sido o único a perceber essa sutileza.

    — Ah, não. É que na verdade eu senti uma presença esquisita nessa casa, não sei dizer.

    — Talvez seja um produto para eliminar insetos. Ultimamente temos sido assolados por insetos, então ele costuma deixar a mansão com uma presença esquisita. Mas você conseguir sentir isso sem nem ter entrado em casa é impressionante.

    — Na minha casa a gente espantava no soco! — riu Zernen com resíduos de biscoitos nos lábios. — Acho que vou pedir essa receita para minha mãe!

    — Claro, depois eu passo.

    — Entendi, deve ser isso mesmo. Acho que tenho estado muito sensível ultimamente.

    — E então, poderiam me contar tudo sobre a vossa aventura até chegar aqui?

    Ela falou com uma naturalidade que reduzia nossa aventura a uma simples diversão, quando a gente quase enfrentou as portas do Hades.

    A eloquente e expressiva Theresa tomou a palavra para contar a governadora nossa jornada, de como tudo havia começado com um mendigo com magia que vê o tempo até ele ter se tornado o tão aclamado manipular charlatão, que havia arrastado consigo pessoas que só estavam vivendo suas vidas normais para uma vida de perseguição.

    — Acho que entendi — disse após pousar a taça, contendo um suco de uvas frescas. — E o rei não quis ouvi-lo, não é mesmo? É um tolo.

    — É, não é?!

    Apesar de a governadora ter razão, isso não era motivo para Meredith reclamar sua razão, visto que ela não soube se expressar diante dele.

    — E então, Jarves, não é? — Ela lançou os seus olhos enquanto pressionava a mão no peito. — Consegue ver o meu futuro?

    Eu sabia que ela em algum momento pediria isso. Por isso tinha a resposta na ponta da língua, dita com uma cara extremamente calma depois de beber o suco de uva e cruzar as pernas.

    — Não, eu ainda não controlo os meus poderes. Eles só vêm quando querem.

    Dei um suspiro interior. Essa resposta “não controlo ” era uma palavra mágica muito conveniente, que dava fim a todo e qualquer mal entendido. Dito isso…

    — Tente.

    “Ela não desistiu?”

    Ninguém até agora havia rebatido esse tipo de resposta assim, nem mesmo o Zik com toda sua autoridade.

    — É que eu não consigo.

    — Tente até conseguir.

    “É o que?”

    Fiquei boquiaberto. Olhei para os meus companheiros que não diziam nada. Esperava que se levantassem em minha defesa, dizendo: “ Ei, governadora, para com isso, você não pode forçar ele!”. Algo desse tipo, mas não, cada um deles estava comendo calmamente enquanto esperavam que eu tentasse.

    “Tudo bem, vou apenas fingir que estou tentando.”

    Franzi os olhos e o cenho, colocando a ponta dos dedos nas extremidades da testa como se estivesse tentando enxergar algo além dela.

    — Ah! Não consigo! — Dei um suspiro, me encostando no sofá e coloquei a mão na cabeça como se ela estivesse doendo muito.

    — Entendo. Você costuma fazer isso quando normalmente vai ver o futuro?

    Isso já estava parecendo um interrogatório, tão igual a primeira vez que me encontrei com a Theresa. Se eu não tomasse cuidado, poderia cavar o meu próprio buraco.

    — N-Não, eu só olho para a pessoa e aparece!

    — Olha e parece… — Colocou a mão no queixo numa postura pensativa. — Qual foi a primeira vez que viu o futuro?

    “Sério, alguém faz alguma coisa!”

    Revirei os olhos e concluí que eu estava entregue. Os olhos daquela senhora eram tão severos que parecia que ela estava lendo a minha mente. Pensar nisso me dava um grande arrepio.

    — Foi o futuro da Meredith.

    — O futuro da princesa? Então os seus poderes demoraram se desenvolver? Normalmente, quem presencia os primeiros poderes são seus parentes.

    Eu já percebi porque ninguém estava falando nada. Cada uma dessas pessoas que estava nessa sala ansiava saber da minha origem, mas eu simplesmente havia acordado como um mendigo estatelado naquela parede com um copo com uma moeda de bronze dentro.

    — Eu não quero falar do meu passado… — murmurei com uma cara de dar tristeza.

    — Mas então, como eu vou te ajudar a dominar seus poderes? Você precisa confiar em nós como nós confiamos em você.

    “Tudo bem, se vocês querem a verdade, então é a verdade que terão!”

    Não aguentava mais esses olhares inquisitivos.

    — Eu vim do outro mundo!

    Ainda os olhares devoradores continuaram como se estivessem observando uma espécie que nunca tinham visto antes.

    — Do outro lado do mundo, você quis dizer? Qual reino?

    — É, eu não sei como, mas fui teleportado para esse mundo como um mendigo.

    — Teleportado? — Levantou a sobrancelha. Os olhares ficaram ainda devoradores. Temi ser absorvido. — Como é esse reino?

    — Perdi a memória! Pronto, falei!

    Isso com certeza daria fim a todo questionamento. Ao menos, foi o que eu pensei, mas…

    — Por que você não disse isso antes, Jarves?

    — Você não tem cara de quem perdeu a memória — Theresa me confrontou. — Se fosse algo tão fácil assim, você não se daria ao trabalho de esconder. Vamos, fale!

    — Então vocês acreditariam se eu dissesse que eu reencarnei nesse mundo que pertence a um livro?

    Dei um sorriso sem graça, que foi recebido com muita graça.

    — Hahahahaha, pessoal, acho que Jarves não tá bem da cabeça!

    Zernen até despejou o suco de tanto rir.

    Meredith também começou a rir com uma das mãos escondendo seus dentes. — Aí, Jarves, eu sei que você não quer falar do seu passado, mas não precisa exagerar assim.

    — Pois, pois, não tem como isso ser possível! — disse Rein, com um riso leve.

    — Tudo bem, tudo bem. — Governadora deu um sorriso com o punho flexionando seus lábios. — Não vou forçá-lo a dizer a verdade. Quando se sentir pronto, você dirá.

    Eu bem que imaginei que eles não acreditariam, inclusive se alguém dissesse que havia reencarnado no meu mundo que pertencia a um livro, eu também não acreditaria.

    — Era brincadeira, pessoal! Hahaha! — Embarquei na mesma risada.

    — Você tem talento para fazer as pessoas rirem, deveria virar bobo da corte — disse governadora. — Mas vamos deixar as brincadeiras de lado. Fale verdadeiramente, qual é a sua origem? Eu confiei a você o meu segredo, não confiei?

    Eu não gostava nada de fazer jus ao nome de manipulador charlatão, mas se eles queriam uma história realista, então eu lhes daria uma história realista.

    — É o seguinte, eu vim de um outro reino chamado Keiner que fica no fim do mundo. Esse reino estava em guerra, então eu fugi e depois de dias vagando por aí, acabei entrando clandestinamente em Hengracia.

    — Agora sim faz mais sentido — disse governadora. — Por que não disse antes?

    Porque acabei de inventar.

    — Isso aí sim me convence. Faz sentido quando penso em um monte de palavras estranhas que você já disse. Mas ainda quero saber mais da sua vida nesse reino — disse Theresa. Meredith concordou com a cabeça: — E talvez quem sabe possamos visitá-lo um dia quando tudo isso acabar.

    — Hahaha, vai ser a nossa próxima aventura! Rumo a terra do Jarves!

    — Bom, podem ir descansar — disse governadora batendo as palmas para o meu alívio. — Jarves, não vou forçá-lo a nada, mas se quiser posso te ajudar a controlar seus poderes. Eu já estudei na escola de Zevalg.

    Não é que faz sentido ela ter estudado nessa escola? Eles devem usar esse tipo de método para impulsionar os estudante a dominarem seus poderes mentais.

    — Com certeza.

    — Desculpa, governadora, mas nós planejamos ficar aqui por três dias — disse Theresa. — Como sabe, nossa jornada é até às terras desse rapaz. — Olhou para o Zernen e apontou uma das mãos para ele.

    — Claro, até porque vossa eterna estadia aqui pode se revelar um problema. Tudo bem, mas pelo menos fico agraciada que vão ficar até a festa de amanhã.

    Theresa sorriu, balançando a cabeça. Então entregamos a mão a governadora em um gesto de despedida, e nos guiamos para a porta enquanto Zernen não parava de rir enquanto batia os meus ombros daquilo que ele considerava uma piada, mas na verdade, era a mais pura realidade.

    — Essa foi boa, cara! Você precisa inventar mais piadas assim! Meu estômago até começou a dor, aí!

    — Quando isso tudo terminar virá um bobo, Jarves!

    Meredith estava batendo na minha cabeça enquanto deixávamos a porta, a governadora acenando em despedida para a gente com um sorriso gentil.


    Depois de acenar, governadora deixou a porta e quando retornou a sala onde havia recebido seus convidados, encontrou uma de suas empregadas sentada no seu sofá, cruzando as pernas enquanto carregava uma taça carregada daquele líquido numa coloração de sangue.

    — Priscilla?

    Levantou uma de suas sobrancelhas para aquela audácia.

    — Priscilla, é? — Os olhos azuis foram substituídos por vermelhos e dois chifres cresceram no topo de seus curtos cabelos castanhos. — É um bom nome.

    — Quem é você?!

    — Quem iria imaginar que eles estariam aqui? — Deu um sorriso. — O rei estava certo. Também pude coletar boas informações.

    — Pergunto novamente: quem é você?! Você parece a Priscila, mas não é.

    — Sim. — Pegou uma faca na mesa e começou a deslizar pelo pescoço, dando a entender que a qualquer momento podia cortá-lo. — Eu não sou a Priscila, eu sou Belia, a gosma. Um dos monstros que aquele homem que vê o futuro se referiu.

    — O que?! — Governadora arregalou os olhos, todos os detalhes do monstro gosmento que ouvira daquele grupo estava se revelando realidade diante dos seus olhos. — Não pode ser! Por que eu não percebi antes?! Como um monstro como você passou despercebido pelos meus poderes?!

    — Com exceção daquelas magias malditas, nenhuma magia humana é capaz de me detectar ou derrotar.

    Quando ela disse isso, a governadora ficou ainda mais aterrorizada. Ninguém havia conseguido escapar aos seus olhos assim que adentrava ao seu domínio. Sua intuição sempre a dizia se uma pessoa era de confiança ou não, mas agora, diante desse ser, ela via a bondade da sua empregada.

    Se ela não tivesse se revelado, jamais houvera descoberto. Então tampou a boca quando lembrou que Theresa havia dito sentir uma presença estranha mesmo sem ter entrado na casa.

    — Theresa, você… — Soltou um murmuro abafado.

    — Vou garantir que todos os usuários dessas magias sejam exterminados da face da terra. E você vai me ajudar nisso.

    — Você não… — Governadora moveu suas mãos trêmulas para imobilizar aquela empregada.

    — Ah, é melhor não tentar nada, ouviu? Isso se você não quiser que a cabeça dessa empregada caia.

    — Você não…

    Arrastou a faca fundo, quase transpassando seu pescoço enquanto lágrimas saíam dos seus olhos, percorrendo suas faces para se misturar com sangue que deslizava pela pele.

    — Tudo bem… — Caiu de joelhos, mortificada, com a boca tremendo, a voz saindo num tom desafinado. — Eu vou escutar.

    Belia deu um sorriso malicioso, e tomou aquele suco, tão saboroso, quanto a sua futura vingança contra aquele grupo.

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