Índice de Capítulo

    — Jarves…

    Eu senti alguns toques no ombro da Theresa, que estava bem do meu lado. Pensei que sentar do seu lado, longe da Meredith e do Zernen, fingindo sono com um ronco enquanto encostava a cabeça na parede da caravana, que andava, diminuiria as chances de não me perguntarem sobre o suposto reino de Keiner, mas pela parecia ser a mais interessante.

    — Parece que ele está dormindo. Melhor não incomodá-lo, deve estar muito cansado. Ser deficiente de mana não deve ser fácil.

    “Muito obrigado, minha heroína!”

    Graças a essa afirmação, Theresa parou com os toques e eu pude continuar fingindo a vontade.

    — É mesmo… E eu que estava pensando em mostrar uma fonte termal.

    — O que? — Desfiz o meu fingimento, olhando para Theresa com brilhos nos olhos. Maldita, médica. Ela sabia que isso de alguma forma iria despertar o meu interesse. — Quer dizer, ah, Theresa! Você acabou me acordando!

    Levantei as mãos e bocejei com a naturalidade de quem havia dormido horas.

    — Eu também quero nadar nessas fonte termal! Já faz um bom tempo que não entro em uma! — disse Zernen enquanto massageava sua barriga tão grande como o de uma grávida esperando gêmeos. Havia esvaziado quase todas as melancias do saco e agora não se aguentava.

    — Mas primeiro, um certo alguém terá que nos contar mais sobre o reino de Keiner. O que acha? — Olhou para mim com um sorriso. — É uma boa oferta, não é?

    — É um reino comum como outros, mas com uma língua diferente. Satisfeita?

    — Comum como outros? Explica isso direito.

    — Tô com preguiça….

    — Ah.. — Ela cruzou os braços. — Então estou com preguiça de mostrar a fonte termal.

    — Com isso, não se preocupe, eu e o Zernen vamos conseguir encontrar a tal fonte termal. Não é Zernen? — Olhei para ele, que balançou a cabeça afirmativamente:

    — Isso aí!

    — Ei, mas isso não é justo! E vocês não podem ir para lá de qualquer maneira!

    — Eh, então nos diz…

    Ela negou com a cabeça e continuou pedindo que eu lhe contasse mais sobre Keiner. Continuei relutante enquanto dava um sorriso, não pela cara fofa que Theresa fazia para me persuadir, mas pelo sorriso no rosto da Meredith enquanto pressionava o punho nos lábios.

    Era bom saber que ela estava se divertindo com isso tudo, era o que ela merecia.

    (…)

    A caravana enfim parou. Quando descemos, nossos pés pousaram em pastos verdejantes que se estendiam até uma casarão de madeira. Era uma fazenda. Havia uma cerca que prendia alguns animais domésticos como galinhas e ovelhas. Do outro lado haviam patos nadando em um lago nas proximidades de um canteiro de flores cercado por arame farpado onde estava uma mocinha loira com os cabelos envolvidos em duas argolas, aparentemente uma pré adolescente, com um regador que despejava água naquelas flores.

    Ela vestia uma roupa de empregada.

    — Caramba, vocês têm até empregada…

    Dei um assobio. Por essa eu não esperava. Pensei que por morarem no campo, os pais de Theresa não tinham grande coisa, mas parece que eu estava enganado.

    — Mas aquela menina não parece ser pequena. Isso não seria exploração infantil? — questionou Meredith. Apesar desse reino ser corrupto e cheio de falhas, se tinha uma coisa que eles eram bom, era em fazer leis boas. Haviam leis que protegiam menores contra o trabalho forçado ou trabalho antes de antigir a idade legível, leis contra a escravidão, leis contra casamento de menores.

    Mas isso apenas se aplicava no papel, vista grossa era feita na grande maioria dos casos. Se você tivesse dinheiro, poderia muito bem contornar essa situação.

    Pessoas como Xavier que seguiam o caminho da justiça eram bem poucos e para um reino grande como esse, era impossível com que eles pudessem fazer cumprir a lei em todo território.

    — Não, ela é minha irmã. Ela gosta de se vestir assim.

    — O que? Você tem irmã?!

    Eu e Meredith ficamos boquiabertos. Se tinha um irmão que conhecíamos era o Hellion.

    — É sim. É minha irmã adotiva.

    — Por que não contou antes, Theresa?— questionei, meus olhos logo em seguidas sendo atraídos para Zernen que havia tombado naquela relva, balançando as mãos como se estivesse voando.

    — Do mesmo jeito que você esconde suas coisas. Desde que te conheci, você suscitou em mim muitas perguntas, mas eu só fiz perguntas básicas de um amigo e você não foi capaz de responder. Ah, nem a pau.

    Era verdade quando diziam que mulher tinha memória de elefante. Theresa saiu andando dali em direção aquela garotinha que não esboçava nenhuma emoção típica de uma irmã que ficou muito tempo sem ver sua irmã.

    — Também vou ter que concordar com Theresa.

    Meredith tocou no meu ombro. — Você precisa confiar mais nos seus amigos. Eu sei que você consegue.

    Depois de me oferecer essas palavras com um sorriso, ela seguiu sua amiga.

    Mas eles não tinham razão nenhuma. Quando eu finalmente disse toda a verdade, todo mundo começou a rir. Isso não era nem um pouco justo para comigo.

    Decidi me deitar no revelado, fazendo birra como uma criança que não estava sendo compreendida. Com as bochechas estufadas, balancei as mãos como Zernen estava fazendo e a sensação era bastante macia que um sorriso se abriu no meu rosto. Enquanto eu observava as nuvens do céu, eu lembrava daquela sensação de quando estava na dimensão da neve.

    — Vocês não vão se juntar? — Olhei para aqueles dois, que balançaram a cabeça negativamente. — Foi o que eu pensei.

    Rein e o soldado eram adultos demais para isso.

    Fechei os meus olhos na esperança de aproveitar melhor a minha imaginação, mas acabei me entregando ao sono.


    Jarves, acorda!

    Acorda!

    Uma voz feminina distante ganhava mais intensidade enquanto eu sentia meu corpo sendo balançado para ali e para cá, em um vai-vem.

    Quando abri os olhos vi que se tratava da Meredith.

    — Já é hora de comer?

    — Você não pode ficar assim em casa dos outros.

    — Como assim?

    — Como quem não liga para nada. Poxa, é a casa de Theresa. Ela quer nos apresentar sua família e vocês aqui.

    Olhos da minha heroína pareciam querer verter lágrimas de tão brilhantes que estavam.

    Acho que, na verdade, fazer birra não era uma das melhores opções, pelo menos neste momento tão especial para Theresa.

    — Tudo bem! — Levantei, enquanto Zernen continuava a balançar as mãos. Rein e o soldado não estavam mais ali. Meredith sorriu em resposta.

    — Se houver algo te incomodando, não hesite em me contar. Se todos queremos saber mais de você, não é por maldade, é porque queremos conhecer mais sobre você. Meu pai disse uma vez que quanto mais você conhece uma pessoa, mais você tende a amá-la.

    — Ou a odiá-la.

    — Eu também disse isso, e sabe o que ele respondeu? Que ele prefere pensar nessa perspectiva, pensar somente na decepção só torna a vida muita azeda. Todas as pessoas são boas até que se prove o contrário.

    — É verdade. — Dei um sorriso. O que ela disse acabou me lembrando que muitos dos vilões que foram derrotados nessa história, na verdade, no fim se revelaram pessoas boas, porém corrompidas pela sociedade, mas depois que perceberam que o que faziam estava errado, voltaram aos seus caminhos. — Você tem razão.

    — Só repete as palavras do meu pai. Até para mim é difícil aplicar isso. Sigo tentando.

    — E você está se saindo bem.

    — Obrigada!

    Quando Meredith disse isso, Zernen levantou do chão.

    — Pronto, agora cansei. Meredith, quer lutar comigo?

    — Do nada?

    — É a melhor maneira de perder peso. Sempre que como demais, eu peço o vovô para lutar comigo!

    — E com certeza deve vomitar muito. — Dei uma risada. Meredith também me acompanhou, mas no final negou o pedido do Zernen. Sobrou para mim, mas eu também neguei. Ele então disse que ia pedir para o soldado e o Rein no canteiro com Theresa e aquele mocinha quieta feito uma muda.

    — Aí, esse Zernen. — Depois de balançar a cabeça negativamente, ela começou a andar. Sorri e a segui, observando Zernen balançando a mão da mocinha enquanto sorria, reciprocidade que não foi vista no rosto inexpressivo dela.

    Quando chegamos ali onde estavam naquele canteiro, Theresa sorriu para mim e esticou as mãos para aquela mocinha.

    — Essa é a Clara! Clara, esse é o Jarves!

    Escondeu as duas mãos atrás, mostrando o mesmo rosto que havia mostrado para o Zernen. Os olhos azul pálidos como os de um gato que não daria sua confiança a estranhos.

    — Ela é extrovertida depois de conviver com a pessoa, então tenha paciência com ela.

    — Parece uma estátua.

    Tentei provocar para ver se ela esboçava alguma reação.

    — Enfim, essa é Tulia, Rosilda!

    Theresa começou a apresentar o nome daquelas flores e plantas que tinham muito bem um nome próprio, o que me fez questioná-la….

    — Mas isso não é uma Tulipa e rosa, por que você está dando nome a flores que já tem nome?

    — Tulipa e rosa são espécies de flores.

    — Não é a mesma coisa?

    — Você daria o mesmo nome a gêmeos só porque eles são gêmeos?

    Aí ela me pegou, mas como eu não queria admitir, iria resistir.

    — Gêmeos não é uma espécie.

    — Então a partir de agora vou te chamar de ser humano. Olá, ser humano. Tudo bem, ser humano? Como dormiu, ser humano?

    Ela ficou falando ser humano até eu me cansar de ouvir. Todos começaram a rir, mas nada de emoção no rosto inexpressivo da sua irmã que mais parecia um robô.

    — Tá, você está certa!

    — Eu sei, ser humano.

    — Para com isso.

    Ela deu uma risada. E olhou para sua irmã. — Papai e mamãe onde estão?

    — Eles saíram. Passear.

    Então para responder Theresa ela era boa? Mas para me responder era toda caladinha, embora sua resposta tenha soado como um corte de gelo.

    Por algum motivo, Theresa suspirou de alívio enquanto pressionava seu peito.

    — Pelo menos tenho mais tempo para me preparar psicologicamente.

    — Por que? — questionou Meredith.

    Ela curvou a cabeça e fez uma cara desanimada.

    — Você vai entender quando os vir. Por favor, não levem nada do que eles dirão a sério.

    — Eu te entendo.

    Sorri para Theresa. Eu sabia o que ela queria dizer com aquelas palavras. Era a mesma que eu dizia para os meus amigos quando chamava eles para visitar minha casa, porque sabia o quanto minha mãe gostava de me envergonhar na frente deles.

    — É sério?!

    — Como assim, Jarves? Você também?! Viu o futuro?!

    — Não! — Balancei a cabeça negativamente com um sorriso. — É só que eu também passei pelo menos.

    — Hahahahaha, eu também entendi! — disse Zernen. — Vocês sabiam que a Theresinha ainda faz xixi na cama?! Não é algo assim, Theresa?!

    — O-O que?

    Meredith ficou corada enquanto arregalava os olhos.

    Zernen havia captado o espírito da coisa, vi os lábios da mocinha inexpressiva se moverem para tentar rir, mas ela parecia estar se segurando. Não sei porque que ela gostava de se fazer sofrer.

    — Essa é a sua história, não a minha, Zernezinho.

    — Caramba, como você descobriu que minha mãe me chama assim?! Você também vê o futuro?!

    Esse era o resultado de nascer com um parafuso a menos.

    — Acho que até eu já entendi do que vocês estão falando. — Meredith disse. Todo mundo havia entendido do que Theresa estava falando, por isso decidimos enterrar esse assunto numa cova que seria aberta quando os pais dela chegassem.

    Mas eu tinha que admitir que estava curioso para saber o que uma filha aparentemente respeitável fazia por debaixo de panos.

    Dei um sorriso travesso enquanto ela nos levava para dentro da sua casa.

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