Capítulo 151: Incredulidade e vergonha
Vendo bem, isso parecia um déjà vu de um acontecimento que tive no meu mundo. Aconteceu naquele dia, em um fim de semana quando minha mãe e eu chegamos em casa. A princípio, estava tudo bem, trancada como havíamos deixado, mas bastou entrarmos para nos assustar com aquilo.
Havia um homem gordo e barbudo comendo pipocas enquanto mexia no seu celular. Minha mãe gritou “ seu bandido” e eu também, pegando numa vassoura para bater nele, mas antes que ele sofresse o pior e fosse levado pela polícia que minha mãe ligou, ele se justificou dizendo que era o irmão do meu pai que ele não via faz anos.
Ele pediu as chaves ao meu pai para fazer uma surpresa para a gente, mas parece que não deu certo. Minha mãe não o reconheceu, ele havia mudado bastante. Antes era magrinho, e agora estava gordo.
O que causou aquele mal entendido.
O que também me levava a essa situação.
— Nós não somos! Surpresa! — Levantei ambas as mãos. — Somos conhecidos de alguém muito especial!
A mulher franziu os olhos azul marinho como os de Theresa e pousou os lábios ressecados no ouvido do homem num leve sussurro audível.
— Querido, será que esse é o novo modus operandi deles?
— Deve ser sim. Da última vez, roubaram nossas vacas se fazendo passar por soldados com um tal imposto vaca.
“Imposto vaca?”
Não deixei de rir, essa era nova.
— Imposto vaca?
Vi um sorriso que se transformou em uma pequena risada preenchendo os lábios de Zernen.
— Parece que esse reino está mesmo no seu declínio total. Chegou o tempo em que as moedas serão substituídas por gados!
Aquele senhor quase que careca, não fosse alguns fios de cabelos brancos teimosos, balançou a cabeça afirmativamente, concordando com um sorriso.
— É verdade. É verdade.
— Não é? Por isso que eu não perco tempo poupando dinheiro, prefiro gastar logo!
Dizia o homem que carregava um baú de ouro por aí, e que precisamente agora estava tentando o recuperar das mãos dos soldados, temendo que tivessem furtado suas moedas.
— Pois, pois, e para isso precisamos eliminar ladrões como vocês para que o imposto gado não se torne real.
As mãos do Ancião cresceram como as mãos daquele cientista louco cresciam. Tão grossas, tão volumosas, capazes de desfazer uma grande rocha em segundos. Não me espantaria se esse homem fosse também um cientista louco, conhecendo a filha que tinha.
Já os cabelos azuis misturados com brancos da senhora começaram a voar, formando punhos. Aquilo, de certa forma, me lembrou um dos poderes que a Graziela tinha.
Isso parecia assombração. Será que eu estava sonhando e não estava sabendo? Tentei me arranhar, sentindo uma pequena dor, que confirmou. Sim, não era um sonho, estávamos prestes a sofrer represálias nas mãos desses idosos.
— Eu sou companheiro da Theresa, vim com ela!
Eu disse isso na esperança de que eles pudessem parar, mas não. E Zernen também não colaborava, estava com os punhos cerrados enquanto lambia os lábios, algo que um ladrão justamente faria ao se encontrar sem saída.
— Agora vai usar o nome da minha filha, hã, seu manipulador charlatão?!
— Meu nome… Digo…!
Droga! De tanto me chamarem assim, eu já estava registrando isso como meu nome.
— Então você é mesmo manipulador charlatão? — Quando seu braço direito ficou normal, ele retirou uma folha do seu bolso e apontou para mim, mostrando aquilo que não poderia ser chamado de meu rosto. — Bem que eu estava suspeitando, mas não pensei que ele pudesse estar realmente aqui.
— Meu querido, a recompensa desse vai nos fazer viver uma vida de riqueza! Podemos garantir a nossa aposentadoria!
Os olhos da idosa estavam brilhando enquanto me reparava fixamente.
— Isso, isso, e se quiserem eu ajudo!
Olhei para Zernen que desceu os punhos, com os olhos brilhantes como diamantes.
— Com isso, posso garantir a minha aposentadoria e a do meu avô!
— Você é velho, por acaso? — murmurei.
— O que esse homem diz é verdade.
Meus olhos se voltaram para o meu herói, o Rein, que falava calmamente.
— E quem é você, seu bandido?!
Rein desistiu de nos defender depois que esse velho disse isso, simplesmente se limitou a curvar a cabeça enquanto murmurava.
— É melhor chamarmos a Theresa…
Ele tinha razão. Neste momento, apenas Theresa poderia nos livrar da irá desses dois idosos enfurecidos que haviam sofrido muito com roubos de gados.
— Minha filha está aqui mesmo? — questionou o homem, calmamente, desfazendo sua postura ofensiva. Os cabelos azuis e brancos da mulher pararam de balançar, voltando a pousar em seus ombros.
— Esta sim.
Dei um sorriso nobre. Eles disseram que acreditariam nas nossas palavras, mas que deveríamos seguir de costas sem olhar para trás em direção ao interior da casa onde exatamente estava sua filha. Qualquer atitude que pudesse ser considerada como tentativa de fuga, eles responderiam ofensivamente. Mesmo sendo idosos, afirmaram ter a força de quem diariamente executava os trabalhos exaustivos de uma fazenda.
Ao chegarmos à sala, gritei por Theresa muitas vezes como se estivesse pedindo socorro. Nossos olhos foram de encontro à entrada que dava acesso ao corredor de onde começaram a ressoar passos.
Theresa enfim apareceu, com o rosto calmo.
— É mesmo verdade… — disse seu pai se aproximando com o queixo caído, quase babando. Sua mãe arregalou os olhos: — Clara, isso não é uma das brincadeiras suas?
— Clara nem sabe mudar de voz ainda, é claro que eu sou verdadeira. Parece que vocês envelheceram mais do que da última vez que estive aqui.
— Você diz isso, mas já faz um século que você não pisa aqui?
Fiquei boquiaberto quando o velho disse isso, mas depois fiz cara de paisagem ao lembrar que os humanos daqui não viviam tanto assim.
— Filha, nos explique o que vem a ser isso? Você conhece esses bandidos?
Ela ainda estava nos tratando nestes termos?
Me limitei a dar um suspiro.
Theresa tirou um papel do seu bolso, que destacava seu rosto. Os pais ficaram boquiabertos com aquilo que viam, quase como se os olhos quisessem deixar o rosto.
— A vossa filha também faz parte desses bandidos. Até troquei o cabelo para vermelho de sangue.
Ei, ei, o que vinha a ser isso? Como ela podia dizer isso toda orgulhosa com esse sorriso no rosto.
— Aí socorro, minha filha trocou a medicina pela bandidagem! Onde eu falhei?!
A mãe dela repousava a mão no rosto com uma cara que denotava decepção.
— Bem que eu era contra ela ir tentar a vida na capital.
Seu pai cruzou os braços como se estivesse reivindicando a razão de há muito tempo.
— Os negócios não estavam dando certo, então eu não tive escolha, fazer o que, não é?
— É verdade, ultimamente nada está dando certo na capital! Meu avô também reclamava da falta de clientes!
Zernen também estava entrando na mesma onda.
Era sério isso que eu estava vendo? Eu e o Rein fazíamos cara de nuvens.
Não demorou muito para eles começarem a rir num tom de brincadeira como eu acreditava desde o princípio se tratar.
— Tá, eu sei que não criei uma filha bandida. Me explica isso.
Seu pai semicerrou os olhos. Sua mãe concordou com a cabeça.
— Tudo bem. Meredith e Clara, vem aqui!
Não fez nem dez segundos que ela gritou e as duas já estavam ali como se já estivessem a um tempo à espera daquele chamado. Fomos para os sofás. Os pais da Theresa ocupavam o da frente enquanto Meredith e Theresa estavam no outro em oposição aos deles.
Quanto a nós, as sobras, tivemos que ficar em pé atrás do sofá onde estavam aquelas duas.
— Bem, pai. Essa é a princesa Meredith!
Ela apontou os braços para a ruiva. Eles balançaram a cabeça positivamente com um sorriso.
— É claro, a princesa Meredith…. O que?! A princesa Meredith!
Ficou boquiaberto. Ele e sua esposa.
— Mas bem, não deveria ser surpresa, visto que há rumores de que ela havia sido enganada por um tal de manipulador charlatão — ele disse isso olhando para mim. Engoli em seco.
— Muito prazer. Eu não fui enganada como vem.
— Pais, escutem, essa terra realmente vai ser varrida do mapa por forças que estão além da nossa compreensão. O que eu digo não é algo que estou tomando como base o futuro que o mani… Digo, Jarves disse. Não, eu mesma vi com os olhos o terror que nos espera daqui a três meses.
— Eu só daqueles que acredita vendo, filha — disse seu pai. — Eu vivi uma vida em que muitos diziam que o mundo iria acabar, e nós ainda estamos de pé. Não passavam de falácias.
— Isso mesmo, minha filha. No máximo tudo o que aconteceu não passaram de tragédias isoladas, mas Hengracia segue sempre firme.
Pelo visto, dava para ver a quem Theresa havia puxado o lado racional. Era fundamentações válidas. Eu mesmo iria querer provas plausíveis.
— Eu também faria o mesmo.
Decidi verbalizar, atraindo os olhos deles.
— Isso mesmo, que bom que concorda, rapaz.
— Jarves… — Meredith murmurou, espantada.
— Eu no lugar do Jarves não diria isso, estaria só aumentando lenha na fogueira!
Zernen foi bem sincero, com o seu riso costumeiro.
— Então, Jarves? — Os meus olhos e os de Theresa se encontraram. — Tem como provar que o que fala é verdade para esses velhotes?
Balancei a cabeça negativamente para o espanto de quase todo mundo, menos de Theresa.
— Então, meus pais, embora não tenhamos como provar as palavras do Jarves agora, peço que confiem nele como eu confio nele, como a governadora confia nele.
— Bom, se a governadora que nunca errou em sua intuição aceitou isso, vamos dar a nossa confiança. Mas ainda não acreditamos na destruição de Hengracia.
— Isso mesmo, essa terra ainda viverá por séculos de séculos.
Eu entendia o lado deles, foi quase a mesma coisa com a mãe da Frida. Parece que esses velhotes, as ditas biblioteca vivas, viram inúmeras tragédias e mesmo assim, nada acabou, as pessoas seguiram firme e forte.
Dei um sorriso. Eles não estavam errados, vendo pela perspectiva profunda das coisas. Enquanto houvesse sobreviventes e terra para construir, Hengracia jamais iria desaparecer.
Mas o que eles não sabiam era que essa terra ficaria tão irreconhecível que não sei se os sobreviventes ainda poderiam chamar de Hengracia. Não era um desastre isolado o qual estavam habituados, era uma catástrofe mundial, algo que a humanidade atual jamais vivenciou.
— Dito isso, Theresa, você ainda vive comendo a meleca depois que tira do nariz?
Seu pai deu uma risada. Bem que eu estava estranhando eles não terem começado com o dito show de vergonha.
— Isso, isso, e ainda continua com aquele costume esquisito de comer plantas?
Então ela era a herbívora?
Olhei para ela quando Zernen começou a rir. Meredith não conseguiu se segurar, tão pouco o Rein. Os únicos que estavam se segurando naquela sala era a Clara e eu, talvez porque eu já estava habituado a sofrer esse tipo de coisa que não via mais graça em rir de quem também estivesse passando pelo mesmo.
— É por isso que eu não queria vir para aqui!
Depois de dizer isso, Theresa saiu dali com uma cara irritada e desapareceu depois que cruzou o corredor. Clara foi atrás dela correndo. Meredith curvou a cabeça arrependida por não ter conseguido se segurar.
— Bom… — Nossos olhos se voltaram para o pai de Theresa que agora assumia um semblante severo. — Agora que minha filha não está aqui, eu queria pedir que não a envolvessem mais nisso, por favor.
Por aquelas palavras eu confesso que não estava à espera.

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