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    Apesar de ter sido algo inesperado, todos compreendemos as palavras daquele pai preocupado com sua filha e não nos opusemos à objeção, embora fosse uma tamanha perda seguir pelas terra do norte sem ajuda das habilidades de cura de Theresa.

    — Posso pedir algo?

    — Não sei se estará ao meu alcance, mas prossiga.

    — Quero que possa também acolher a princesa Meredith.

    Ela olhou para mim com os olhos incrédulos, uma boquinha aberta e trémula, processando ainda aquela informação.

    — O que?!

    — É isso mesmo, a sua jornada termina por aqui. Daqui para frente as coisas podem piorar, por isso que eu quero assegurar a sua segurança.

    — Isso não!

    Ela se levantou, me olhando seriamente.

    — Isso sim!

    Ficamos nisso por alguns segundos. Paramos quando as palavras do pai de Theresa atraiu a atenção dos nossos olhos.

    — Bom, nós não podemos fazer isso…

    — Viu só, Jarves? Eles não podem!

    Meredith disse aquilo com um sorriso orgulhoso, de quem jamais se permitiria abrir mão dessa viagem.

    — … Entretanto, governadora seria a melhor opção para lhe acolher. Assegurar uma princesa seria perigoso e trabalhoso para nós.

    Nisso ele tinha um ponto. O rei poderia muito bem retaliar a sua raiva sobre sua família por puro capricho.

    — Eu não vou ficar com nenhum dos dois! — disse Meredith, toda teimosa. — Eu sou forte, muito mais forte do que vocês três.

    Era a primeira vez que via Meredith se exaltar, de certa forma senti uma pontada de meu orgulho como homem se desvanecer. Mas era inegável que ela tinha razão.

    — Ei, não me mete nesse grupo! — Zernen protestou. — Eu sou o mais forte daqui!

    — Quer batalhar?

    — Demorou. Vamos para fora.

    Eu já previa o resultado da batalha: Meredith ganharia sem muito esforço. Essa batalha havia sido decidida quando Zernen não conseguiu contornar a habilidade de peso dela no bosque. E eu tinha a certeza de que ele sabia, mas seu orgulho de guerreiro não o permitia assumir isso, estava disposto a lutar por sua honra até o fim.

    — Ninguém aqui vai batalhar — eu disse. Tudo o que menos precisavamos agora era batalhas inúteis que chamassem a atenção e denegrissem ainda mais a nossa reputação. — Zernen, você esqueceu que tem o seu baú para recuperar?

    Era a única coisa que o faria desistir do seu orgulho momentaneamente.

    — Ih, é mesmo! — Começou a coçar a cabeça. — Mas eu não esqueci da batalha! Você me desafiou, princesa!

    Meredith se limitou a sorrir, aumentando lenha na fogueira.

    — Você vai perder.

    Zernen rangeu os dentes e saiu a correr para não sucumbir à tentação de puxar a Meredith para batalha nesse exato momento.

    — Os jovens de hoje são muito intensos.

    — Eu sempre achei que princesas não batalhavam, essa é nova.

    Meredith era a única princesa exceção que decidiu batalhar, então sim, minha senhora, ela era uma pessoa fora da curva. Meredith ficou vermelha por aquele comentário. Colocou as mãos no rosto, provavelmente arrependida por se impor daquele jeito e saiu dali a correr sob o pretexto de que ia ver Theresa.

    — Bem, nós estamos indo recuperar um baú de moedas do Zernen.

    Quando eu falei isso, os olhos daqueles dois idosos estranhamente brilharam.

    — Sabe, meu jovem. No meu tempo, passar o tempo com uma mulher por si só já era motivo de você ter que dar dinheiro ao pai dela, uma espécie de permissão para namoro.

    Que conversa esquisita para boi dormir era essa que eu estava ouvindo?

    — Lembro que no nosso tempo te pediram 1000 moedas de ouro só para eu sair por aí passeando consigo.

    — Exato, exato. Por isso, meu rapaz, não acha que está nos devendo algo?

    Ele esticou uma de suas mãos e eu saí dali correndo sob o pretexto de que estava com muita pressa enquanto Rein também me seguia. Ouvimos enquanto atravessamos o corredor uma risada no tom de brincadeira daqueles velhos travessos.

    Sinceramente.

    (…)

    Depois que Meredith deixou a sala com as mãos ainda sobre o rosto, os dedos entreabertos em seus olhos azuis, ela seguiu para o lugar onde supostamente deveria estar Theresa. Seu quarto. Ela pegou na fechadura da porta e adentrou, completando à primeira vista aquelas duas no momento de afeição naquela cama. Theresa tinha sua cabeça deitada sobre as coxas da Clara, enquanto ela explorava suas madeixas vermelhas com sua não delicada em um vai-vem calmo e reconfortante para ambas.

    Clara, que estava encurvada, com um sorriso, levantou o rosto para contemplar Meredith ao mesmo tempo que Theresa.

    — Que fofo — disse Meredith com um sorriso, se aproximando. — Eu também gostava de fazer isso com a Fiena.

    Theresa então se levantou, as mãos da Clara pairando no ar, ainda desejosas por acariciar seus cabelos.

    — Desculpa por ter rido de você naquela hora.

    — Não tem problema, eu até riria se não fosse eu.

    — Seus pais são engraçados, mas também são muito preocupados. Eles te amam muito, sabia?

    Theresa deu um sorriso.

    — É, eu sei que eles fizeram aquilo de propósito para me tirarem da sala para poderem conversar a sós com vocês sobre mim, acertei?

    Meredith arregalou os olhos com a tamanha perspicácia que ela exibia.

    — É, é verdade.

    — Não envolvam minha filha nisso, aceitei?

    — Na mosca. Você conhece muito bem os seus pais.

    — É que eles fizeram a mesma coisa quando minha mestra me levou com ela da última vez. Eles rejeitaram, mas minha teimosia venceu.

    — Parece até quando disse para minha mãe que queria virar aventureira. — Meredith deu uma pequena risada com o punho nos lábios, mas depois torceu as suas sobrancelhas em um semblante de desânimo. — Escuta, Theresa. Você acha que uma princesa realmente deveria ser forte?

    — Acho que todo mundo deveria ser forte como você. Seja homem ou mulher, todos devemos ser fortes.

    Meredith sorriu calmamente, mas ainda sem grande ânimo.

    — Tem razão, mas às vezes fico incomodada quando as pessoas estranham o fato de uma princesa ser forte. As princesas neste reino são vistas como símbolo de feminilidade.

    — Durante sua carreira de aventureira, quantas vidas você salvou?

    — Não sei dizer.

    —Então devem ser muitas, pois não? Você se arrepende de ter salvo essas vidas graças a sua força?

    Ela balançou a cabeça negativamente, e então sorriu, pressionando a mão no peito.

    — É verdade.

    — Por isso todos devemos ser fortes, seja homem ou mulher, para protegermos aquilo que amamos. Se não fosse por sua magia, pela sua força, nem estaríamos aqui.

    — O mesmo digo de você, Theresa. Sua magia de cura tem sempre nos tirado das maiores ciladas.

    — Isso, a verdadeira força é, na verdade, a vontade de proteger os outros. Não é medida por músculos ou pela inteligência, simplesmente pela vontade. — Seus sorrisos se encontraram. Clara colocou a mão na cabeça de Theresa e também começou a sorrir. — E é por isso que independentemente do que os meus pais dirão, eu vou continuar viajando com vocês porque eu quero ficar mais forte para proteger todos aqueles que eu amo!

    — Irmã Theresa, você acabou de frustrar os meus planos de fazer birra para você ficar aqui.

    — É mesmo?

    Quando Theresa sorriu, ela balançou a cabeça com os olhos brilhantes como um prenúncio de lágrimas. — É que a gente não tem muito tempo juntas, e você é a minha irmã. Minha única irmã!

    Ao observar aquela cena, os olhos de Meredith também brilharam ao lembrar que também não teve muito tempo com os seus irmãos. Saudades acendeu uma chama calorosa no seu coração, despertando a sensação de estar nos braços dos seus pequenos.

    — Depois que tudo isso acabar, eu prometo que voltarei para ficar aqui com você. Depois disso, não vamos mais nos separar.

    Lágrimas escorreram sobre suas bochechas enquanto ela assentia com a cabeça.

    — Eu também, depois que tudo isso acabar, planejo ficar com os meus irmãos.

    — Quital fazermos uma festa em que todos nós possamos comemorar a paz quando isso tudo acabar?!

    — Sim, sim, eu adoraria!

    Meredith sorriu. E a barriga de Clara começou a murmurar, lembrando-as que haviam deixado pendentes não resolvidos na cozinha.

    — Agora vamos voltar a cozinhar, os rapazes também devem estar à espera.

    — Agora que você mencionou isso, lembrei que Jarvis havia mencionado sobre recuperar o baú. Então acho que eles devem ter saído.

    — O que?! Como assim saíram sozinhos?!

    Theresa começou a ficar desesperada. — Sei que disse que essa cidade era segura, mas isso não quer dizer que eles devam desfilar por ela à vontade. Ainda existem pessoas de má índole que com certeza irão contra a governadora.

    — Então quer dizer que precisamos ir atrás deles?

    — O mais urgente possível! E vamos aproveitar para comprar uma roupa para o Zernen. Ele não tem vergonha de sair daquele jeito, com o meu jaleco!

    Depois que Meredith e Clara deram uma pequena risada, ambas saíram daquele quarto à procura daqueles três antes que o pior acontecesse.

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