Índice de Capítulo

    Depois de descer as colinas a pé e a correr, finalmente chegamos a cidade longe da área rural onde ficava a fazenda de Theresa. Agora estávamos cansados, pelo menos eu e o Rein suspiravamos com a cara encharcada de suor e as mãos nos joelhos com as costas ligeiramente encurvadas. Enquanto isso, Zernen, apoiando as mãos no quadril, apenas bocejava, sem suor, nem sinal de cansaço, como o monstro que era.

    — Vocês devem fazer mais exercícios para se habituar!

    Nunca que eu iria me habituar a isso, meu corpo era normal e não era resistente a veneno como o dele.

    — Você só pode estar brincando… — Me ergui, olhando-o atentamente. Pessoas nestes momentos estavam passeando de um lado para outro, algumas nos olhando por curiosidade, outras continuando sua jornada pacificamente. — Devemos procurar roupas novas para você!

    — É mesmo, não é? Assim fico parecendo uma menina!

    Zernen pegou na ponta dos jalecos como se fosse uma donzela segurando seu vestido e deu um rodopio. — Mas sabe, isso é incrível, sinto que consigo respirar melhor!

    Eu também já havia usado um dos vestidos da minha mãe por curiosidade e realmente entendia o que Zernen estava dizendo. Roupas femininas tinham essa componente de fácil respiração.

    — É melhor nos apressarmos, e também precisamos andar discretamente. Ainda que tenhamos o aval da governadora, é melhor não chamar atenção.

    Não demorou nem um segundo depois que Rein disse isso, que tinha gente começando a nos chamar. Nossos olhos seguiram a voz e encontraram a uma curta distância, três moças um tanto familiares sentadas por baixo de um guarda chuva gigantesco, que estava posicionado em frente a uma construção que parecia uma lanchonete. Tinha uma placa de madeira perto da porta com escritas: seja bem-vindo.

    — Vamos fazer vista grossa…

    — Vamos lá, Zernen!

    Segui caminhando e Zernen me acompanhou sem nem contestar, afinal havia um prato cheio de carnes e batatas na mesa em que elas estavam. Aos nos aproximamos, pude realmente confirmar o porquê daquelas moças me soarem familiares.

    Havia uma baixinha de sobretudo roxo, portadora de curtos com cabelos rosas com franja, o que me lembrava a Frida. Me deu um pouco medo de olhar nos olhos vermelhos dela e de repente me ver sem roupa em frente a essas todas pessoas que estavam caminhando por aqui.

    A outra tinha um cabelo laranja e olhos azuis me lembrou Meredith. Vestia uma camisa branca com um espartilho apertando sua cintura, a saia azul curta chegando as suas pernas banhadas por meias azuis escuras.

    E a última que tinha os cabelos azuis e olhos verdes, se parecia com a Theresa. Trazia consigo um jaleco branco com uma camisa verde interior que se encaixava na sua calça preta.

    — Caramba… — murmurei.

    — Ei, dá para afastar!

    A baixinha fez o sinal com as mãos. E eu apontei o dedo contra o meu peito.

    — Eu?

    — Quem mais seria?

    Pelos vistos, as personalidades também eram semelhantes. Cerrei os dentes e me afastei, dando espaço para o Rein que estava logo atrás. Seus olhos de repente assumiram um brilho suspeito, que me fez ficar com medo pelo que aconteceria com as vestes do Rein.

    — Você, é o manipulador charlatão, não é? — A que se parecia com Theresa pousou uma das mãos na bochecha, me deixando um tanto quanto apreensivo.

    — Sim, sou… Quer dizer, eu não sou manipulador charlatão!

    Quando eu disse isso, a de cabelos laranjas tirou um dos papeis que tinha a minha suposta foto.

    — Então quem é esse?

    — É ele mesmo!

    Zernen não ajudava.

    E por que eu era o único que estava sendo reconhecido aqui?

    — Eu sou… Eu sou … — Lágrimas de crocodilo estavam se acumulando nos meus olhos enquanto eu apalpava minhas bochechas e percorria meu rosto em busca de uma barba ou ruga. — Eu sou tão parecido assim com um homem de meia idade?

    — Nem por isso — disse a moça de jaleco. — É o seu cabelo espetado, ele é único.

    Nem havia reparado no meu cabelo espetado. Toquei nele. É mesmo, se eu mudar o cabelo poderia me desfazer da figura do cara com um rosto inconfundível.

    — Mas não nos entenda mal — disse a moça de cabelos laranjas. — Não estamos aqui para te capturar, apesar de sermos aventureiras.

    Aventureiros que não queriam cumprir a missão? Agora eu acreditava mesmo na influência que a governadora tinha sobre os cidadãos da sua cidade.

    — Ei, ei, eu posso comer?!

    Zernen que já estava babando como um cachorro sedento por osso, mal podia esperar por fazer essa pergunta.

    — Que rude — disse a baixinha. — Vamos nos sentar e nos apresentar primeiro.

    É, eu tinha que concordar com ela. A de cabelos laranjas estalou os dedos, atraindo para si um homem que se vestia como um garçom. Pediu a ele cadeiras e pratos com mais carnes, que foram trazidos em poucos segundos para alegria do rapaz que há pouco havia perdido sua barrigona.

    Quando nos sentamos nelas, eu senti um clima de encontro, daqueles que acontecem em um restaurante. Mas por algum motivo, os olhos delas estavam focados em Rein como se o quisessem devorar.

    — Bom, nós não íamos nos apresentar?!

    Consegui atrair os olhos dela para mim, e ouvi um suspiro vindo da boca do Rein que provavelmente estava se sentindo desconfortável. Como diz o ditado: a carne só caia em prato de vegano.

    — Ah, sim! Fale o seu nome agora mesmo!

    Isso era uma ordem?

    Sinto como se o meu passado sombrio estivesse me perseguindo.

    — Jarves.

    — E você, cachorr… Digo, e você?

    — Zernen! Eu sou o Zernen!

    Ele levantou a mão com todo fôlego do mundo.

    —E você, cavalheiro?

    Quando chegou a vez do Rein, todas elas falaram em uníssono, com uma voz melódica.

    — É, Rein…

    E ele ainda fazia aquela cara de um príncipe tímido enquanto respondia, o que deixou aquelas moças com as bochechas rubras.

    — Meu nome é Dafrin — disse a baixinha com um sorriso bobo. Suas amigas acompanhavam aquela carinha de apaixonada.

    — Meu nome é Eridit — disse a moça de cabelos laranjas, com as mãos no peito.

    — Já o meu é Ereza!

    Tudo isso elas disseram enquanto olhavam para o Rein, como se estivesse conversando a sós com ele.

    — Posso comer?!

    — Pode… — murmurou a baixinha com uma voz deslizante e a mão na bochecha. Zernen não perdeu mais nem em segundo, pegou a coxa de carne sem delicadeza e colocou na boca.

    Quando eu queria pegar minha carne, ele deu um tapa na minha mão e falou com comida na boca.

    — Jarves, não pode! Pode estar envenenado, eu preciso provar primeiro!

    Aquelas palavras normalmente poderiam ser vistas como um insulto, mas aquelas moças estavam tão focadas no Rein que simplesmente ignoraram isso.

    — Ah, não enche!

    Peguei a carne, estava claro que ele estava dizendo isso apenas para poder comer tudo e só deixar ossos para mim.

    — E então, você é solteiro?

    Elas já estavam nesse ponto?

    Quem dizia isso era a Ereza.

    — Sim — Rein disse timidamente.

    — E você também faz parte do grupo do manipulador charlatão?

    Opa, agora isso me atraiu. Olhei para elas com olhos estreitos, parando de comer minha carne.

    — Não, na verdade, eu sou um acompanhante. E agradeceria que não usasse o termo manipulador charlatão para se referir ao Jarves.

    Agora sim, Rein! Fiquei muito feliz por ele ter colocado a Eredit no lugar.

    “Agora peça desculpas!”

    Encarei ela severamente, que tapou a boca, fazendo uma cara de nojo. Também tapei minha boca, mas não de nojo, mas para me curvar e começar a chorar.

    — Aí, já acabei! Agora vou ver o meu baú!

    Quando Zernen se levantou, vi que também haviam ossos no meu prato. Me limitei a dar um suspiro e depois voltei a curvar a cabeça enquanto ouvia passos se distanciando.

    — Zernen, espera…

    Ouvi a voz do Rein.

    — Ei, ei!

    Levantei a cabeça, encarando o rosto da Dafrin que inacreditavelmente estava sorrindo para mim.

    — Não vai atrás dele?

    Já entendi que minha presença aqui estava incomodando. Sem dizer nada, com cara emburrada, levantei para sair atrás do Zernen, cuja presença havia desaparecido do meu campo de visão.

    — Espera, Jarves. Vamos juntas.

    — Não, não — disse Ereza. — Você ainda nem acabou de comer. Seria falta de cortesia sair sem comer, não é?

    — Isso, justo quando nós gostamos tanto — Eredit finalizou, fazendo ele se sentir mal por ter que abandonar aquele prato de carne.

    Antes que ele soltasse um “lamento” com uma cara triste, eu disse:

    — Fique aqui. Eu vou atrás dele. Você sabe onde nos encontrar, não sabe?

    Depois de dizer isso, sai correndo sem olhar para trás enquanto lágrimas saiam dos meus olhos, escorrendo pelas minhas bochechas.

    Eu realmente não tinha sorte no amor.

    Quando agarrei o peito como se quisesse tirar o meu coração, me vi caindo quando meus pés tropeçaram em algo duro como uma madeira. Enfim, cai no chão, observando os sapatos e as sandálias das pessoas que andavam de um lado.

    Quando pretendia levantar nos meus modus operandi de quem fazia flexão, uma velha baixinha com cara de quem está na casa dos oitenta apareceu diante dos meus olhos acompanhada de uma bengala que lhe conferia suporte. Vestia uma túnica cor de rosa com emblemas de estrelas costurados com diferentes cores.

    — Seja o meu aprendiz!

    O som da bengala ressoou nos meus ouvidos quando ela bateu no chão.

    — Quem é você? E já agora, foi você quem me derrubou, não foi?!

    — Eu vi como você foi rejeitado por aquelas moças. Se você se tornar o meu aprendiz, poderei te tornar um belo homem e te ensinar a arte da conquista de uma mulher.

    Um sorriso travesso se abriu nos seus lábios.

    Que azar meu me encontrar com uma daquelas velhas doidas. Me levantei na pretensão de fugir dali antes que ela começasse a dizer que eu havia assaltado toda aposentadoria dela.

    — Recuso, estou indo!

    Quando tentei correr, tropecei novamente na sua bengala. Minha cabeça tombou no chão, e o meu corpo rangeu de dor.

    — Mas que droga, velha! O que você quer comigo?! Eu não quero, você não entendeu?!

    — Você sabe quem fez o penteado do rei da última vez que ele veio aqui? Fui eu. Eu posso te tornar um galanteador.

    — Tá… — Levantei novamente, coçando minha cabeça. — Por que quer tanto assim me tornar um galanteador?

    — Porque eu senti pena de você.

    — Que coisa mais cruel de se dizer.

    Eu esperava ao menos que ela dissesse que havia visto um potencial no meu rosto, e que queria fazer em mim uma transformação digna de um monarca, que encantava e capturava os corações.

    — Siga-me.

    Ela deu de costas, batendo a bengala.

    — Vou torná-lo um homem irresistível.

    Não sei o que deu na minha cabeça para começar a seguir aquela velha doida, mas não custava tentar, não é mesmo?

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