Capítulo 154: Um legado familiar
Nossos pés pararam quando chegamos a um edifício de primeiro andar. O rés do chão ostentavam uma pintura cor de rosa enquanto, formando um contraste com a cor castanha do andar de cima.
Acima da porta que a velha abria vinham as palavras: salão de beleza.
Quando adentramos, senti um toque de nostalgia. Um cheiro doce de perfume, provavelmente lavanda, pairava no ar daquele cômodo. Era tão igual a de um salão, que na verdade, era metade barbearia. Havia uma cortina vermelha que separava o lado dos homens e dos das mulheres.
Pelo que não havia, era tudo cor de rosa, mas tinham muitas plantas e uma prateleira cheia de pomada que se limitava no início da escada que levava ao primeiro andar.
Mas o que mais me surpreendeu foi quando olhei para o lado onde estava o espelho sustentado por um lavatório. Ali tinha um daqueles malditos cartazes de missão.
— Posso saber por que a senhora tem aquilo?
O meu suposto inequívoco rosto.
— Aquilo, eu gostei daquilo.
— Quê? A senhora por acaso é uma aventureira? Não espera… — Comecei a entrar em pânico quando os meus pensamentos foram mais longe. — Não me diga que isso é na verdade uma armadilha?!
Me afastei dela e cerrei um dos meus punhos em prontidão para fugir dali.
— Não se preocupe, não sou aventureira, manipulador charlatão.
— Até me chamou de manipulador charlatão… — Cerrei os dentes. — Você é perigo, velhota!
— Isso é porque eu não conheço seu nome.
— Pode ser verdade, mas você é muito suspeita! Nem sei porque vim aqui!
Agora não adiantava reclamar do leite derramado.
— A verdade é que eu te trouxe aqui porque você me lembra muito o meu neto. — Ela meteu a mão na sua roupa e retirou um papel dali. Mostrou para mim, e de fato, era muito parecido comigo, tinha os mesmos cabelos espetados e formatos de olhos iguais.
Eu diria que ela era o meu sósia nesse mundo.
— Caramba, velha! Por que não disse antes? Chama ele para a gente trocar umas ideias.
Isso, na minha cabeça passou a ideia de eu convencê-lo a tomar o meu lugar como o manipulador charlatão.
— Ele já está morto.
Admito que senti um golpe no peito quando ela disse essas palavras inesperadas. Nada mais pude fazer senão substituir o meu sorriso por uma cara triste e uma voz miúda.
— Lamento.
— Ele morreu naquele incidente. Acho que você já deve saber.
Sim, eu sabia, aquele incidente que havia roubado muitas vidas e deixado cicatrizes profundas no coração da gente desta terra.
— Agora eu entendi, quando a senhora me viu pensou que eu era o seu neto, não é mesmo?
— Meu neto não era um bandido procurado, então não.
Ela balançou a cabeça negativamente depois de ter dito aquelas palavras cruéis.
— Doeu…
— Dizem por aí que você vê o futuro, é mesmo verdade?
Assentiu com a cabeça.
— Consegue me ver encontrando meu neto depois que eu me for?
Dei um sorriso meio torto.
— Aí não, velha…
Nem mesmo os poderes de ver o futuro que eu conhecia não podiam ver o pós vida.
— Eu sabia, é mesmo um charlatão manipulador. Não sei como conseguir enganar a governadora para te deixar caminhando por aí.
— Eu não enganei ninguém, e não sou manipulador charlatão nenhum! Escuta, poderes tem limites e os meus não são exceções!
Os que eu não tinha no caso. Mas mesmo a magia da mana que eu tinha, se limitava a minha deficiência de mana.
— Nesse caso, quando eu vou morrer?
— Por que a senhora quer saber disso? Até eu teria medo de perguntar com essa toda naturalidade!
— Bom, eu já sou velha.
— Então por que quer saber? Acho que os jovens é que deveriam se preocupar mais com isso.
Acabei lembrando da cara de desespero da Istar. Agora que penso, eu realmente havia pegado pesado quando eu disse aquilo para ela, embora seja a realidade.
Em resposta, ela tirou mais outro papel da sua roupa, parecia um pergaminho na forma como estava enrolado. Quando ela abriu, pude ver uma lista de um monte de coisas para fazer antes de deixar esse mundo, a maioria delas estavam marcadas com certos e outras ainda aguardavam uma resposta.
O que me surpreendeu naquela lista foi uma coisa absurda que tinha nela. Acabei dando uma risada.
— O que? Mas o que é isso? Ser mordida por um monstro da masmorra? A senhora enlouqueceu? Comer uma pedra de mana?
Certo, isso também eu já havia feito.
— Essa lista era do meu neto. Infelizmente, ele só conseguiu cumprir a metade dela.
— Mas se ele cumpriu a metade, porque quase toda ela está completa?
— Porque eu cumpri algumas por ele, mas entretanto, tem algumas coisas que eu não consegui cumprir.
Pelo que dava para na lista as restantes opções compreendiam:
→ Virar amigo de um bandido procurado.
→ Convidar ele para conhecer minha avó, e transformá-lo em um cidadão do bem.
→ Virar um aventureiro rank S.
→ Conhecer o Criador.
— Seu neto era maluco por acaso?
— É, ele era. — A vovó deu um sorriso.
Então quer dizer que eu era o tal bandido procurado de quem o neto queria virar amigo?
Quando perguntei isso, a velha assentiu com a cabeça.
— Meu neto sempre gostou de desafios impossíveis, por isso fez essa lista. Ele acreditava que a graça na vida estava em buscar o impossível.
— É, ele fez uma lista bem impossível mesmo. Mas como a senhora pretende cumprir os dois últimos itens? Virar um aventureiro rank S e conhecer o Criador?
— Farei apenas o que estiver ao meu alcance. Além do mais, talvez esses dois itens o meu neto já os tenha alcançado. Afinal, as aventuras que ele fez podem ser consideradas rank S e o desejo dele de conhecer o Criador também pode ter se concretizado depois da sua morte.
Era verdade, pela lista dava para ver algumas loucuras que aventureiros rank S fariam. Comer pedras de mana, dormir em uma masmorra rank S, estavam com certos.
— Seu neto era uma pessoa muito sonhadora.
Havia me superado no quesito imaginação com toda certeza.
— Ele se foi cedo demais, devia ser eu.
— Que nada! — Apontei para uma parte da lista em que dizia “ não quero ver minha avó morrer”. — Com certeza ele desejava que a senhora vivesse muito.
— Bom, vamos cumprir a lista então. — Ela disse me empurrando para cadeira com sua bengala pressionando minhas costas.
— Ei, mas está errado isso, eu não sou nenhuma bandido!
Talvez ele adorasse conhecer o rei dos bandidos, tenho a certeza que seriam bons amigos.
— Oficialmente é, agora vamos, vamos te deixar um homem da sociedade! Um cidadão do bem!
Dei um suspiro aborrecido, nem adiantava discutir com essa velha.
— Só não faz aqueles penteados de menininha que as velhas costumam fazer.
— Eu já não disse? — disse depois de pegar um pente e uma tesoura. Eu já cuidei do cabelo do rei!
Ele subiu em uma caixa de madeira e começou a cortar o meu cabelo, e eu esperava seriamente que ela não me deixasse mais feio do que eu parecia naquele cartaz. Eu não queria ter que cortar careca como daquela vez que a mulher do barbeiro substituiu e tratou o meu cabelo.
Fechei os olhos enquanto ela mexia no meu cabelo, rezando intensamente para que corresse tudo bem.
— Pode abrir.
Quando abri os olhos com as expectativas para baixo, pude ver um novo homem refletido naquele espelho. Ela havia feito aqueles penteados dos nobres, que te faziam parecer os príncipes dos contos, e realmente gostei.
— Você não é feio, só é pobre.
— Obrigado pela parte que me toca.
Havia jogado na minha cara que eu não tinha dinheiro para pagar um salão para tratar o meu cabelo.
— Agora precisamos de uma roupa — Ela desceu da caixa e me ordenou que a acompanhesse para o andar de cima onde realmente ficava a sua casa.
Ao chegarmos ali, encontrei uma sala e dois quartos. Seguimos a um quarto perfeitamente arrumado, mas que parecia masculino.
— A senhora alugou o quarto do seu neto?
— Não, não, eu só gosto de arrumar ele porque o meu neto era um preguiçoso para arrumar o quarto. Deixava tudo desarrumado como se tivesse passado um furacão.
Dei uma risada, eu também era assim. Mas ao invés de ter uma bela avó para arrumar o meu quarto, eu tinha uma mãe que me mandava arrumar com um cinto na mão.
— Posso fazer uma pergunta?
Quando ela disse que sim, emite.
— A senhora não tem família? Tipo, além do seu neto?
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Perdi meu marido e meu filho muito cedo. A única que sobrou é a minha nora, mas ela se casou novamente e foi viver em outro reino.
— Entendi.
— E qual é o nome do seu neto?
— Javes.
Arregalei os olhos quando ela disse esse nome que não tinha muita diferença com o meu.
— Entendi.
Dei um sorriso caloroso. Ela foi até o armário de roupa e tirou uma bem elegante, um daqueles ternos renascentista que somente a grande nobreza usava.
— Não tem problema eu usar roupa dele?
— Tá com medo de ser assombrado?
Ela virou para mim com aquele sorriso travesso.
— Não, não. É que deve ser algo precioso.
— Ele já está morto mesmo. Quem mais vai usar? Coisas são para serem usadas?
Isso aí ela tinha um ponto.
— Então por que não alugou o quarto dele?
— Você tem um ponto. Me desfazer desse quarto e entregá-lo a outro é mais difícil do que você imagina.
Literalmente. Mesmo para eu vestir a roupa, tive que ir vestir na sala enquanto ela permanecia no quarto aguardando que eu terminasse.
— Pode sair.
Ela saiu, seus olhos se iluminaram de brilhos.
— Javes…
Ao que parece ela estava vendo o seu neto em mim.
— Vamos passear?
— Aí a senhora disse que eu iria ficar o galã para arrasar o coração das meninas, então por que eu tenho que sair com uma velha?
— É, tem razão. Acho que agora é o seu momento, mas depois poderia sair comigo?
Assenti a cabeça com um sim. Ela sorriu e me guiou para a entrada do salão, desejando “boa sorte, meu neto” com um aceno e um sorriso. Retribui com um “obrigado vovó ” para alegria dela e então sai em busca de uma nora para ela. Eu poderia ir muito bem me apresentar para aquelas meninas,mas não, eu não queria me envolver com pessoas que haviam me rejeitado.
Ao invés disso eu queria uma pessoa nova. Comecei a caminhar pela cidade vagando o olhar pelos meus alvos e só tinha mulheres de meia idade e alguns homens passando dali.
— Ah, que droga, talvez eu deva regressar ao restaurante e tentar chamar atenção de uma…
Quando eu disse isso, senti uma flecha no vento vindo a mim. Segurei prontamente, e assim que pretendia olhar para ver quem havia atirado, me vi caindo depois que uma garota me abraçou.
— Cuidado, eu te salvei!
Quando ela levantou sobre o meu peitoral, sua beleza jovial fez minhas bochechas. Nossos olhos se encontraram profundamente.
— Você está bem? Não, é melhor sairmos daqui!
Ela disse isso depois que uma flecha atingiu perto de onde estávamos. Olhei para ali e vi dois homens fantasiados de ninjas com máscaras negras que só deixavam espaço para os olhos.
— É verdade!
A moça me levantou assim que segurei sua mão. Por sorte tinha um beco a qual ela me arrastou para fugir daqueles homens. É mesmo, eu não havia mudado muita coisa, as pessoas que estavam me atacando há pouco provavelmente haviam me taxado como manipulador charlatão.
— Ei, escuta! Para onde você está me levando?
Como resposta, ela parou no meio do beco quando estávamos prestes a atravessar para outra rua. Tirou uma poção do interior do seu vestido e me entregou.
— Toma, vai ajudar a omitir nossas manas!
— Mas eu sou deficiente de mana ..
— Apenas toma!
Ela praticamente empurrou a poção na minha boca. Me vi bebendo com as bochechas rubras pela sensação maravilhosa de uma donzelas dessas me dando poção na boca.
— Muito obrigada! — Limpei os lábios com a borda do terno depois que ela removeu a garrafa. — Mas realmente não precisava… É o que?
De repente me senti fraco. Cai no chão enquanto a contemplava com visão a dobrar. Ela estava sorrindo com malícia enquanto emitia aquelas malditas palavras.
— Manipulador charlatão capturado com sucesso!
Nesse mesmo instante, eu apaguei.

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