Capítulo 02: O Rei acima de todos
Alguns minutos depois, Sarah se encontra encurralada no canto do pátio.
Às suas costas uma parede alta, impede qualquer recuo. Pela direita, um muro de concreto. E pela esquerda, outra parede delimita o espaço. À sua frente, mesas e bancos de cimento, abrigam inimigos à espreita.
Os inimigos se aproximam.
Ela os observa em silêncio, procurando uma rota de fuga.
Todas levam à derrota quase certa. Apenas uma aparenta ser viável.
Suas mãos se apoiam na parede a suas costas quando um dos meninos se aproxima a passos leves, pronto para dar o bote. Sarah o observa com um olhar fixo. Em uma ação repentina, ela ameaça disparar pela esquerda. O menino reage no reflexo e se joga sobre ela, enquanto os outros se movem para o mesmo lado.
Mas ela recua.
Por uma fração de segundo, seus dois pés se apoiam na parede. O garoto se choca com o chão cinza e quente. Sarah se impulsiona para frente, saltando por cima dele e rolando até perto de uma das mesas.
Sombras a cercam.
Ao erguer o olhar. Mais inimigos.
Na visão periférica, uma mesa vazia à direita se revela. Ali está.
Sarah dispara.
— Não a deixem escapar! Hoje é o dia da queda do Rei! — grita um menino do alto de uma mesa.
A horda avança, como se fossem monstros saídos de uma masmorra.
O pé direito de Sarah pisa na mesa. O esquerdo busca apoio. O corpo se projeta. Ela salta com força suficiente para alcançar o topo do muro, agarra a borda e, com esforço, se puxa para cima.
Silêncio.
De pé sobre o muro, ela olha para seus inimigos desolados por mais um fracasso.
Uma brisa suave a atinge pelas costas. lançando seus cabelos para frente. Sarah abre seus braços e fecha os olhos.
Puxa o ar.
E se deixa cair.
— Corre! Corre! Vaaaamooosss! — Grita um deles.
Os meninos disparam pelas escadas que levam ao outro lado do muro. Quando chegam, encontram Sarah caída na caixa de areia, braços abertos e olhos fechados, como se estivesse dormindo.
— Lá está ela! Avancem até Atlás!
A arena é tomada, os embates começam, o caos reina. O maior dos meninos pega um dos menores no colo e o carrega para fora. O pequeno até tenta se espernear, porém, sem resultados.
— Isso é injusto! — O pequeno resmunga, derrotado e cabisbaixo.
Se afastando, ele vê Bernardo e Marcela sentados nos balanços, eles riem enquanto observam a batalha.
— Ela é louca! — Bernardo comenta.
— Ei Carlinhos! Desanima não! Você tentou. Senta aí vai. — Marcela o convida.
— Como ela consegue? Parece uma guerreira que já batalhou na própria Atlás. — Carlinhos se senta em um dos balanços. — Será que ela não está usando nenhum daqueles novos artefatos mágicos que chamam de N2?
— Você sabe que é proibido o uso deles por alunos na escola né. Só maiores de idade podem usá-los — Bernardo o relembra de algumas regras.
— Fiquei sabendo que pessoas ricas conseguem comprar ilegalmente. — Carlinhos continua a duvidar da índole dela.
— Nããão. A Sarah não é disso. É como se ela fosse um daqueles androides que governam Ayda. — Bernardo complementa e Carlinhos concorda em silêncio.
No centro da caixa de areia, Sarah permanece cercada.
Para escapar, ela corre em direção aos dois mais altos e magros. Eles sorriem confiantes.
Até que ela salta entre eles e termina com um rolamento. Ao tentar agarrá-la, os dois se chocam de cabeça e começam a chorar. Os demais começam a rir. Envergonhados, correm para longe.
— Ei! Cadê ela? — Um dos garotos indaga ao vento em voz alta.
No instante seguinte, ele sente mãos se apoiando em seus ombros e pés o empurrando pelas costas. Desequilibrado, começa a cambalear até esbarrar em algo. Ao se recompor e levantar a cabeça, percebe que acabou de jogar outro menino para fora da caixa.
— Aaaai! — O menino reclama de dor enquanto está caído. — Poxa Cleber! Você precisa malhar em. Assim não dá! — Ele esbraveja enquanto começa a se levantar.
Então Cleber se vira com a face furiosa procurando por Sarah. Mas para sua surpresa, outro garoto se aproxima a toda velocidade.
— Merda!
Os dois despencam para fora da arena. Caindo em cima do menino que está terminando de se levantar.
— Você também Cleiton! Hoje mesmo, vou conversar sério com a dona Claudia. Vocês precisam de uma academia. Dá não! Vão acabar me matando ainda! — Ele volta a reclamar enquanto novamente se levanta do chão.
— Ah não Maike, essa história de novo? — Cleiton resmunga enquanto seu irmão Cleber o ajuda a levantar.
— Esquece! De hoje não passa! Se queremos nos tornar mestres rastreadores, temos que focar mais. — Ele exclama com convicção já distante do local.
Sobram somente Sarah e um menino de sua altura. Um encara o outro com os corpos rígidos e preparados para o embate.
— Ei Sarah. Você vai jogar bola no campinho de terra hoje? Depois da aula. — O menino há indaga.
— O quê? Vai ter jogo hoje? Ninguém me falou nada!
— Acho que eles não querem te chamar mais. Foi o que ouvi. — Ele a responde. — Mas se quiser chegar comigo lá. Eu te dou moral.
— Você me dar moral? — Sarah começa a tirar sarro dele enquanto se aproxima.
— Não sou apelidado de Romário à toa sabia.
— Eu sei, obrigada! Mas se eles não me querem lá… não vou incomodar. Deixa que eles sintam falta das minhas canetinhas! — Ela olha para ele com um leve sorriso enquanto passa a mão na nuca por baixo do cabelo.
Por um instante ele fica envergonhado e sem reação.
O sinal toca.
Bernardo e Marcela chegam perto da caixa de areia.
— Ei Sarah, vamos! É educação física! — Marcela a instiga.
Os olhos de Sarah brilham.
— Desculpa Rômulo. — Ela sai correndo em direção a torneira. Para lavar as pernas.
“Romário” abaixa a cabeça, conformado, e segue para o banheiro.
Bernardo e Marcela se aproximam de Sarah, que está sentada ao lado de seus tênis enquanto deixa a água escorrer pela areia grudada na pele.
Uma silhueta que observou Sarah por todo recreio. Agora se direciona para a o ginásio.

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