Capítulo 05: As aparências que moldam o destino
Mais cedo, após Gabi deixar a sala da diretoria.
— Ela costuma arrumar algumas encrencas aqui e ali, mas bater em um menino? Fiquei um pouco surpresa, que bom que tudo se resolveu! — Márcia comenta, aliviada, olhando para Marcos.
— Sim, quando eu vi a aglomeração na quadra, pensei que os meninos estavam brigando devido à bola de novo.
Marcos descreve o ocorrido enquanto se senta em uma cadeira.
— Mas nunca imaginei que seria a Sarah. Bater em um menino? Fiquei surpreso! — Ele para a fala por um momento enquanto seu olhar se torna distante e direcionado para uma parede, então retoma.
— Ela estava tão focada, que mal escutava as pessoas ao redor. E aquele olhar…
— Logo todo mundo vai esquecer. — Márcia complementa.
— Já está decidido então? — Marcos a questiona com um olhar de dúvida.
— Sim! A primeira metade já foi paga.
— Quando?
— Semana que vem.
O silêncio assume por alguns segundos.
— Alguém como ela… — Ele murmura lançando o olhar para o teto.
— Forte. Determinada. Que não quebra fácil! — Marcia apoia os cotovelos sobre a mesa — Foi um pedido bem especial.
Em silêncio, Marcos apenas ouve.
— Talvez ela seja capaz… — Ela murmura em sussurros para si mesma.
— O que foi? — Ele a indaga.
— Esquece! — Ela se recompõe enquanto suspira.
O pai dela não será um problema obviamente. Mas a mãe… A forma como ela defende a filha toda vez que é chamada aqui. Fora seu cargo elevado na guilda dos arqueólogos. Isso sim será um problema. — Marcos traça um possível cenário para o que vai acontecer.
— Já estão cuidando disso.
— E os amigos dela? Aquele rapaz tem aptidão para ser rastreador. Pode ser um problema. Sem contar que são inseparáveis, você sabe muito bem como ressentimentos podem custar caro. — Marcos pronuncia essas palavras com a face para o chão e o olhar vago.
— Eles vão juntos!
Márcia revela de forma despretensiosa enquanto olha para o teto.
— Ei ei… Isso não é arriscado demais? Os três de uma vez? — Ele até esboça uma expressão de preocupação por um momento. — Eles podem ir a fundo nas investigações dessa vez. Fora que o intervalo entre as operações diminuiu bastante no último ano. O pessoal lá de baixo está arriscando demais ultimamente.
Ele solta seu corpo para trás na cadeira enquanto fecha os olhos e coça a cabeça.
— Mesmo sendo inferiores, são numerosos. A tecnologia deles evoluiu bastante. Um dos nossos morreu recentemente na fronteira com o Deserto da Criação.
— Quem? — Márcia pergunta surpresa.
— Lembra do Mishigan? Queria ir até Atlás para se tornar um membro de elite do Tóquio? Se envolveu em uma briga com um humano em um dos pontos de partida para a jornada de fogo. Dizem que ele perdeu o controle… e os guardas da fronteira atiraram contra ele. Não que ele fosse forte. Mas mesmo assim, ele ainda era superior.
— Ele sempre foi cabeça quente, porém, ser morto por humanos… Melhor ficarmos atentos.
Ela respira fundo.
— Vou sugerir que o transporte seja feito por um grupo de sequestradores especializados da raça deles. Assim evitamos qualquer suspeita. Tem muito dinheiro dessa vez, essa operação não pode falhar.
Ela pausa sua fala por um tempo, observa fotos enquadradas na parede de turmas que se formaram com destaque, alunos que se tornaram grandes caçadores, entre outros.
— A escola vai ficar abalada por um tempo, mas vão superar. Crianças somem o tempo todo, será só mais uma investigação. — Márcia termina sua fala lançando um olhar de canto para Marcos.
— Bom, se já está tudo resolvido. Espero que tudo dê certo! Esse dinheiro vai alavancar o financiamento dos projetos em Ayda e Atlás.
A expressão de Marcos muda de indecisão e preocupação para a de alguém que está pensando em algo. Então abre um sorriso e se levanta da cadeira em direção a porta. Ele para pôr um momento e se vira para Márcia.
— Mês que vem acho que vou comprar aquele carro novo que tanto queria, talvez compre uma casa também. E você?
— Vou pedir minha licença da escola, já não suporto mais esse lugar, vou me mudar para o litoral e me afastar de tudo isso. — Marcia observa de relance um telefone sobre a mesa.
— Entendo, eu também vou sumir dessa periferia de merda. Não sei como vim parar aqui! — Com a expressão de nojo, ele reclama e desdenha do local.
— Você sabe sim! Esse foi o único motivo de você ter vindo para cá, assim como eu!
Márcia rebate.
É verdade. — Com essas últimas palavras soltas ao vento, ele dá um leve sorriso e sai da sala fechando a porta.
Alguns minutos depois, Márcia se encontra encarando o telefone branco na mesa. Ela observa seus botões vermelhos com números na cor branca. Ela abre uma das gavetas, e após procurar um pouco, encontra uma grande pasta amarela. Ao jogá-la sobre a mesa e abri-la, vários papeis, são revelados.
Depois de folheá-los, encontra um que chama sua atenção. Sem perder tempo, pega o telefone e o prende entre o ombro e a orelha. Em seguida começa a discar números, enquanto desliza pelo papel com o dedo.
Depois de vários segundos de espera, e quase desistir da ligação.
— Alô?
Uma voz feminina surge do telefone.
— Leila, não dá para explicar direito agora. Me encontre sábado à noite no parque em volta do lago. Tenho algo muito importante que preciso falar para você.
Márcia desliga o telefone e dá um profundo suspiro.
A imagem de uma menina sorrindo surge em sua mente.
Mas logo some na escuridão.
Então ela se levanta e caminha até seu armário e pega sua bolsa.
Após abri-la e tirar um diário de capa preta.
O abre e com uma caneta começa a escrever.
“13 de outubro de 1999
Hoje, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que não sentia há anos.
Culpa.
Não me arrependo de nada que fiz até aqui.
Mas ela…
Há algo nela que insiste em me fazer hesitar.
Acho que passei tempo de mais por aqui.
Talvez esteja na hora de pagar pelos meus pecados.
ps: Para sempre!”

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