Capítulo 08: Que as estrelas sejam testemunhas
A sexta-feira chega com a promessa de uma noite agitada. Não para Sarah que prefere ficar em casa sentada sobre o telhado, observando as estrelas pintarem o céu noturno.
Perto de sua casa existe um ninho de coruja-buraqueira. Em várias noites, uma delas pousa no muro a frente de sua casa, mas nunca canta. Apenas observa, à espreita, esperando silenciosamente por insetos e roedores, enquanto outras corujas cantam não muito distantes.
Certa noite, Sarah viu a coruja voar baixo beirando o muro de uma casa próxima, e retornar com algo preso entre suas garras. Não conseguiu identificar o que era na escuridão, mas acredita que era um rato. Eles costumam aparecer ocasionalmente por ali, entrando e saindo de bueiros.
Algo curioso acontece às vezes.
Outra coruja canta escondida na rua e, sempre que Sarah a escuta esse som específico, entra em seu quarto, apaga as luzes e coloca três travesseiros enfileirados embaixo da coberta.
Já passa das onze da noite.
Com seus olhos fechados e focado na audição, as mais diversas melodias da noite começam a se revelar. O som dos carros vagando pelas ruas e cachorros latindo como se conversassem à distância.
Porém, tem uma em especial que ela espera muito ouvir essa noite.
A espera já dura tempo demais. Mais um pouco, e os travesseiros perderão seu lugar.
Alguns minutos se passam e ali está.
— Uííííííííííí qíqíqíqíííííí
Sarah abre os olhos.
No muro, primeiro surge coruja silenciosa, encarando algo do outro lado. Ela parece curiosa, e não é a única. Um rápido olhar por toda extensão do muro, eis que surge uma cabeça e depois um braço. O som da coruja misteriosa ecoa novamente.
Ali está sua deixa.
Sarah desce do telhado e corre pelo muro lateral, chegando até a parte da frente da casa, perto da sacada de seu quarto. Com um pequeno salto, alcança o parapeito. Encosta a porta, volta até o muro lateral, e o percorre até a calçada.
— Que demora! Já estávamos indo embora!
— Demora? Eu estou esperando a mais de uma hora! Vocês que se atrasaram! — Sarah esbraveja em tom baixo, enquanto termina de descer.
— ÉÉÉÉ… a gente teve uns imprevistos… — Bernardo desvia o olhar.
— Fala verdade, vocês estavam se amassando por aí! — Sarah os provoca alcançando a calçada.
— Eu falei para a gente não enrolar. — Com um sorriso tímido no rosto, Marcela joga Bernardo aos lobos.
— Aham… sei! Para começar a ideia foi toda sua! — Agora é Bernardo que entrega Marcela ao relento.
— Ei, podem parar vocês dois, eu não ligo que vocês queiram aproveitar os momentos juntos, mas vocês agem como se eu não soubesse de nada.
— É que não queremos fazer você ficar segurando vela, deve ser chato. — Bernardo inventa outra desculpa enquanto monta em uma bicicleta.
— Pronto, agora vocês agem como se eu não estivesse segurando a vela desde o ano passado, até a coruja ali já tinha sacado o clima. Menos vocês.
Sarah monta na outra bicicleta, e logo em seguida Marcela monta na garupa.
Por um momento Sarah sente um cheiro que chama sua atenção. Ele vem de uma sacola no cesto da bicicleta. Antes mesmo de começar a pedalar, ela para tudo e olha para Marcela por cima do ombro.
— Isso é o que eu estou pensando?
Sarah parece um cachorro farejador em busca de algo.
Bernardo olha para as duas como se estivesse olhando para duas flores em um canteiro. Uma se parece uma bela e delicada margarida, que se chacoalha toda por qualquer brisa. Já outra, imponente e firme como uma rosa.
Então ele solta algumas risadas enquanto termina de presenciar a cena.
— Ooouuu, fica quieto! — Sarah chama a atenção dele.
Tarde demais.
Eles escutam um barulho de porta se abrindo. E percebem que vem do quarto dos pais dela.
Arrastando as bicicletas, eles se escondem atrás do muro.
Uma luz surge, iluminado um pedaço da calçada e da rua. Leila aparece na sacada com o olhar pesado de alguém que acabou de acordar. Lança olhares para frente e para baixo, mas não consegue ver nada a não ser a pobre coruja com sua cabeça virada para trás como se reclamasse da claridade.
Após encarar a coruja por alguns segundos.
— Cool… Coool…
Leila tenta um improvável diálogo com a coruja, que inclina sua cabeça de lado enquanto a encara.
Ela suspira de leve, e solta um breve sorriso, e volta para dentro, apagando a luz.
Sarah está com a mão na boca segurando para não soltar altas gargalhadas. Após alguns segundos da luz ter sumido, eles montam nas bicicletas e partem para o mesmo destino de tantas outras noites estreladas.
Após 15 minutos em suas bicicletas movidas por N2, passando por escadarias e calçadas, eles chegam até uma torre de comunicação cercada por telas. Encostam as bicicletas ali perto em uma árvore e começam a caminhar até chegar em uma das barras de sustentação.
Existe uma parte da tela que está cortada, Bernardo a puxa e as duas passam. Do lado de dentro, Sarah segura a tela para que ele entre. Em seguida, os três se encaminham para a base da torre.
Sarah faz a frente, seguida por Marcela e depois Bernardo. Após quase sete minutos de escalada, chegam na plataforma no topo. Mesmo tendo vindo ali tantas vezes, sempre parece a primeira e última vez.
O vento que não chega ao solo, ali sopra pleno e libertador.
A vista da cidade e do horizonte nem é tão bela assim, mas o que está acima do horizonte… aquilo sim. As estrelas brilham como se fossem supernovas enviando seus últimos raios de luz para os mais longínquos cantos da imensidão escura do espaço, como se quisessem dizer: eu estive aqui.
Mesmo entre amantes das estrelas, só alguns conseguem sentir empatia por aqueles pontos que aos nossos olhos estão brilhando em conjunto, porém, em suas próprias perspectivas, solitárias, emanam luz para todos os lados.
Sarah as observa com admiração.
Os poucos que conseguem aceitá-la estão bem ali, do seu lado, deitados e acariciam o cabelo um do outro. Ainda sim, o sentimento que toma seu coração é de ser única. Parecida com os outros somente na aparência.
Brilhando solitariamente na imensidão do escuro.
Ela está sentada de pernas cruzadas segurando um pote e comendo maracujá com açúcar. O gosto ácido às vezes arranca caretas, provocando risadas. Já não dáparasaber se Marcela lhe traz maracujá por amizade ou para ver suas caretas.
Após quase uma hora e meia conversando e rindo, Marcela se levanta e se senta ao lado de Sarah e encosta a cabeça em seu ombro. Bernardo faz o mesmo. Uma brisa suave, vem bagunçar seus cabelos enquanto toca suavemente em seus rostos.
De olhos fechados, Sarah solta mais que o ar preso em seus pulmões, e esboça um sorriso de boca fechada.
— Olha Sarah, hoje a lua não veio, assim as estrelas podem brilhar sem serem ofuscadas. — Bernardo comenta, apoiando sua cabeça em uma das pernas dela.
— Hoje o céu está menos chamativo, mas ainda continua bonito. — Marcela aproveita o momento e coloca sua cabeça na outra perna.
Sarah, então se deita com os braços cruzados por trás da cabeça.
— É como se alguém tivesse estendido a mão e roubado a lua do céu. imagina que triste se ela nunca mais voltar. — Bernardo joga palavras ao vento enquanto estende a mão para cima e a fecha no alto.
— Mesmo que não possa ser vista agora, ela está por aí e logo voltará. — Marcela complementa o diálogo enquanto lança olhares para o alto.
Um sorriso surge no rosto de Sarah, enquanto fecha os olhos e tenta escutar os barulhos da noite.
— Fiquem quietos — Sarah murmura.
— Cool…
— Coool…
Bernardo e Marcela imitam a mãe de Sarah, que começa a rir. E acaba contagiando os dois.
Essa pequena parte do mundo é só deles.
Por enquanto.

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