Capítulo 11: O jardim da vida
Não muito longe dali.
Marcela e Bernardo estão encostados em uma árvore se beijando sob as gotas que driblam as folhas e despencam sobre suas peles quentes e sensíveis ao toque suave um do outro.
Sarah está sentada à beira do lago observando as gotas que caem e entrarem em contato com espelho d’água do lago. Elas moldam pequenas ondas que aparecem e desaparecem intensamente o tempo todo, nada mais que ecos de suas breves existências.
Rompendo o momento.
Um galho estrala atrás dela.
Por instinto, se vira a procura de algo.
Então é surpreendida por um pano verde que se aproxima do seu rosto.
Até tenta se esquivar, porém sem sucesso.
Agora tenta se livrar do pano que a sufoca pouco a pouco.
Braços musculosos a aprisiona.
Neste pano ela observa inúmeros pequenos pontos brilhantes em um tom de verde abacate.
Ao fundo bem de relance antes de apagar, consegue observar pernas sendo arrastadas.
Após alguns minutos, Sarah começa a recobrar a consciência. Ela tenta abrir olhos, mas parecem pesar o dobro do que de costume, seu corpo todo parece estar mais pesado.
Um pequeno brilho parecido com o anterior começa a incomodar seus olhos. Olhando para baixo em direção a boca, encontra o mesmo pano de antes, porém agora, ele libera um odor estranho junto de pequenos fios de fumaça que saem dos pontos brilhantes.
Fumaça que rapidamente se esvai no ar.
Seus braços amarrados para trás começam a trazer um pequeno desconforto para si. Quando finalmente consegue restabelecer a visão, ainda deitada, lança um olhar para frente e encontra Bernardo e depois Marcela.
Ambos estão desmaiados, amordaçados e amarrados.
Ao mover os olhos, o interior da traseira de uma van sem os bancos de trás começa a tomar forma.
Uma pessoa com capuz parecendo ser um homem, está sentado à esquerda e um pouco distante. Ele está vestindo roupa preta e olhando para baixo. Mais ao fundo, há dois bancos com duas pessoas também encapuzadas sentadas neles. Uma está no banco do motorista e a outra está no banco ao lado.
Sarah tenta passar seus braços pelas pernas para ficar com eles em posição mais confortável. Com lentos, porém, esforçados movimentos, ela consegue.
Devagar vai retirando a mordaça da boca enquanto tenta se levantar sem que o homem ali perceba.
Depois de conseguir, ela salta para cima dele e começa a tentar enforcá-lo com um mata-leão enquanto joga o peso de seu corpo para trás. A confusão é notada pelos homens sentados nos bancos da frente. Um deles se levanta meio desequilibrado devido ao movimento da van.
Percebendo isso, Sarah solta do homem que está tentando enforcar e retorna para o fundo.
Suas mãos sentem o metal a suas costas, o balanço da van não parece ser tão grande.
O homem começa a tentar se levantar, se recuperando do golpe.
O outro se apoia com firmeza na lateral enquanto tenta se aproximar aos poucos, e com uma passada larga, passa por cima dos dois desmaiados. Ele parece se preparar para dar um salto. Sarah lança um olhar pelo ambiente tentando retomar a percepção das coisas.
Ao fundo, ela consegue ver através do para-brisa uma ponte se aproximando a toda velocidade. Reconhecendo aquele local, lembra que o rio ali costuma se encher com qualquer chuva mais intensa, igual à que caiu por todo o dia que se passou.
Ela puxa um grande fôlego e em sequência ameaça se jogar para a direita, enganando um dos homens que salta no vazio. Em sequência, ela se joga para esquerda se chocando com a lateral da van e se impulsiona para frente passando rapidamente pelo outro homem que até tenta impedi-la. Mas ainda está desnorteado pelo mata-leão e perde o equilíbrio caindo no chão.
Sem hesitar um segundo, ela salta em direção ao banco do motorista e abruptamente aplica outro mata-leão que faz ele largar o volante. Seus braços estão tão contraídos que o encosto para cabeça salta para lado após um estralo.
Ela percebe que o homem não está mais reagindo.
O estralo não foi somente do banco quebrando.
No instante seguinte, uma grande força a puxa para a lateral, fazendo-a se chocando com o vidro da porta que trinca.
A van começa a girar e os vidros se despedaçam. Todos ali dentro são jogados para um lado e para o outro, e um grande impacto vem em sequência. Sarah é jogada para fora por uma das janelas que já não tem mais vidro. Após esse último impacto, despenca por dois segundos antes de se ver mergulhando em uma correnteza feroz.
Ela consegue colocar sua cabeça fora da água, e se depara sendo levada rio abaixo. Enquanto flutua, lança olhares ao seu redor a procura da van. Por um breve momento um relâmpago corta o céu e ilumina o ambiente. La na frente um pedaço da traseira se revela sendo engolida pela fúria da água.
Mergulho após mergulho, ela tenta se aproximar.
Ao voltar para cima, não consegue ver nada, então percebe que acabou de perder a van de vista.
Volta a mergulhar uma, duas, três vezes e nada.
Desesperada, lança olhares perdidos na escuridão que só cessam por alguns momentos quando relâmpagos voltam a cortam o céu.
Já sem saber muito o que fazer e sendo cada vez mais levada para longe, Sarah começa a mergulhar no mesmo sentido do rio, só que um pouco mais para a diagonal esquerda na tentativa de ir para a lateral e encontrar algo que possa segurar em uma margem que mal enxerga.
Após algumas intercaladas entre mergulhos e fôlegos, um raio despenca e corta o horizonte ao fundo, nesse momento a chuva parece cair em câmera lenta. Tudo está em silêncio, a única coisa que dá para se ouvir é o forte estrondo que se sucede e sua respiração ofegante. Graças a esse momento, Sarah consegue ver que mais adiante existem vários galhos de árvores encostando na água. Mais uma mergulhada e ela levanta os braços ao passar embaixo de um dos galhos, o agarrando com tudo que tem.
Após agarrar e jogar suas pernas, consegue se prender ao galho. Em seguida começa a se mover por ele até chegar à margem. Sarah se encosta na árvore olhando para o rio com seus braços ainda amarrados.
Seu olhar está distante e vazio.
Sua face como um mármore não esboça nenhuma expressão.
Seus punhos se serram.
Os pequenos ossos das mãos estralam.
Ela deixa seu corpo desabar perante a comunal força da natureza à sua frente e cai de joelhos no gramado.
A sua expressão se transforma, e um olhar furioso e insano desperta.
Sarah força a corda entre os seus braços com tudo que tem.
Seus músculos estão totalmente contraídos.
Um rugido como o de um animal selvagem no meio de uma densa floresta ecoa vindo dela.
Neste exato momento algo inacreditável acontece.
Uma chuva de raios corta todo o horizonte.
Inúmeros raios, um maior que o outro, despencam do céu como se possuídos por vida própria e com a intenção de destruir tudo.
Após alguns segundos, um último raio cai rio abaixo.
Assim, duas coisas acontecem, as cordas que prendem Sarah se rompem com sua força bruta.
E duas flores são cortadas precocemente do jardim da vida.
Os punhos de Sarah despencam na grama como marretas em uma sequência de pura fúria, fazendo o solo afundar nas áreas de impacto. E durante quase uma hora, ela permanece sentada encostada na árvore para a chuva, para a grama encharcada e para o rio que segue sem pedir permissão.
Ela se levanta cabisbaixa, e ainda com os pedaços das cordas em seus braços, começa a caminhar sem destino pela beirada da rua ali perto. Até ser parada por uma senhora de cabelo grisalho que acabou de descer do carro em meio a chuva. Assustada com a cena, se abaixa na sua frente.
— Menina… você está bem? — A senhora a questiona, porém, resposta nenhuma surge, Sarah fica ali parada olhando para o chão.
— Meu Deus! — Ela olha para as cordas. — Vem menina, vou te levar até um lugar seguro.
Ela a leva até um posto na cidade, onde costumam ficar dois agentes das forças armadas a noite. Ao chegarem lá, a senhora conta para eles o que havia acontecido. Os dois se direcionam até o carro, olham para Sarah e perguntam como ela está.
Só o silêncio ecoa entre eles.
Pedem para a senhora levá-la para o posto de segurança mais próximo em seu carro. Após ser examinada por uma médica de plantão, os policiais tentam novamente conversar com ela, mas falham outra vez. Então decidem deixa-la sozinha por um tempo.
Sarah se encontra enrolada em uma toalha, sentada em um sofá. As cordas já não se fazem presente.
Pelo menos não fisicamente.
As horas passam, e o sono só vem 4 horas depois, quando seu corpo despenca para o lado sem sua permissão.
Pela manhã após acordar, se depara com seu pai ali do seu lado. Sentado e com o rosto moldado de preocupação. Ele esteve esperando-a despertar. Por coincidência, um dos agentes do turno da manhã os conhecia, então o chamou.
— Oooii. Bom dia, tudo bem? — Júlio passa a mão em seu cabelo.
Ela acena positivamente com a cabeça, e o abraça fortemente, ele retribui o gesto.
— Você consegue contar para gente o que aconteceu? — Um dos agentes volta a questioná-la.
Ela se solta de seu pai, o olha com um olhar triste e úmido, e balança positivamente com a cabeça. Depois de mais alguns minutos ali com Júlio, é levada até uma sala onde os agentes fazem várias perguntas que ela responde.
Depois conta tudo o que aconteceu. Eles hesitam em acreditar em algumas partes, como a que ela disse que matou todo mundo. Consideram que ela está traumatizada pelo ocorrido no relato.
Após quase três horas, é levada para um hospital e depois para a casa.
Ela até tenta tomar banho.
Mas a água só lava a carne.
Sarah se deita na cama e não demora a desmaiar.
A chuva perdura por mais 5 dias para a maioria.
Menosparaela.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.