Capítulo 111: Anfitrião
Medo?
Não, não é isso.
Esse sentimento que permeia o crepúsculo e algo mais primordial e profundo.
O nó na garganta, o aperto no peito, o sentimento de estar nu no vazio.
Só seu âmago frente a frente com aquele olhar.
Angústia.
Esse é o sentimento.
Uma tão complexa, que não dá para ser entendida.
A única resposta possível, é a paralisia total.
Um único movimento e tudo acaba.
Dez eternos segundos, foi o tempo que ele ficou parado olhando para dentro da abertura. Então se virou, e se foi, como se nunca estivesse de fato tido ali.
Mais alguns minutos se passaram desde então. O breu já se recaiu por tudo lá fora. E eles ainda continuam paralisados.
Adão é o primeiro a ousar se movimentar, enquanto se abaixa, e deita cobrindo o fusinho com as patas.
Em seguida Shymphony deixa o corpo para trás e volta a se se encostar no barranco.
Helvetia até desfoca a visão por um segundo, mas consegue se recompor, e com movimentos lentos, volta a se sentar.
Sarah é a única que permanece olhando para abertura, ainda deitada.
— Aquele olhar… É como se ele soubesse que estamos aqui. — Shymphony explana com a voz falha e baixa.
— E mesmo assim não atacaram. — Helvetia está com os olhos fechados e soltando o ar que prendeu por tanto tempo.
— Olhos? — Sarah indaga voltando o olhar alternado entre às duas.
— Um dos Arctopan estava olhando direto aqui para dentro. — Helvetia responde se voltando para seu pano.
— Arctopan? — Shymphony e quem pergunta agora. Seu olhar violeta vaga um pouco para a vela e retorna.
— É o nome daquela criatura. — Helvetia não desvia o olhar de um pequeno bolso onde está enfiando a mão. — Falando em nomes, como você chamou essa minha gambiarra mesmo? — Ela olha para Sarah por cima do ombro.
— Bornal. — Sarah também vira a cabeça de lado um pouco para olhar. — Ele tem a utilidade de um, mas em um formato diferente.
— Bornal… — Helvetia tira um pequeno frasco de madeira que cabe por inteiro na palma de sua mão. — Gostei! Esse vai ser o nome a partir de agora. — Ele vai fechando seu “bornal”.
Sarah sorri de boca fechada enquanto se esforça um pouco para ficar sentada.
— Cada uma pega um pedaço. — Helvetia retira do frasco, um pedaço pequeno que parece um couro escuro e enrolado.
— O que são? — Shymphony indaga enquanto força um pedaço na ponta que sai com mais facilidade do que esperava.
— Couro de fruta. É feita de várias frutas desidratadas — Ela explica enquanto vê às duas morderem um pequeno pedaço, e reagirem positivamente ao gosto.
Até Adão se vira um pouco esperando que alguém lhe dê um pedaço. Helvetia atende seu desejo. Depois que ela coloca um pedaço sobre sua pata, ele chega a cheirar antes e vira a cabeça estranhando, mas não demora a botar a linha para fora e o engolir. Sua reação também é bem positiva.
Helvetia contorce a boca e franze a testa.
— Oxi? — Shymphony estranha tal reação.
— É a primeira vez que não reclamam do gosto. — Ela até seca o olho de forma mais simbólica.
As duas sorriem, e Adão volta a se virar e olhar para a abertura.
— Bom, só nos resta passarmos a noite aqui, e torcer para não chover. — Helvetia agora mais concentrada, observa a vigília dele.
Nesse momento, Adão levanta a cabeça e olha mais atentamente para fora.
Às três reparando em tal movimento, e também observam a entrada.
Alguns segundos de tensão são cortados por um focinho cumprido seguido de dois olhos pequenos e pretos, e garras bem grossas e pontudas. Após farejar um pouco, um tatu adulto ousa entrar ali, e com toda intimidade do mundo, vem se aproximando e farejando até a mochila de Sarah.
— Que fofinho — Sarah não resiste e estende a mão parar tentar acariciar.
— Acho que invadimos a toca dele. — Helvetia sorri ao ver o êxito de Sarah.
— Até que enfim algo que não queira nos matar. — Ela expulsa um pouco de ar em forma de riso.
— O que você tem aí que chamou a atenção dele? — Helvetia indaga se aproximando dela que está tentando separar o tatu de sua mochila.
Adão, já sabendo o desfecho, retorna a olhar para fora com a cabeça repousando sobre as patas cruzadas.
Sarah não vê outra alternativa a não ser abrir e entregar uma para ele.
— Você trouxe mesmo. — Shymphony finalmente relaxa por completo ao ver ele mastigando uma batata a todo vapor.
— Poxa! — Sarah resmunga enquanto faz carinho nele.
— Um pagamento justo pela estadia. — Helvetia da alguns tapas no ombro e depois coloca a mão no queixo dela e vira o rosto para si.
Shymphony até arregala os olhos de leve ao ver a cena.
— Pelo menos não está sangrando. — Helvetia analisa o ferimento dela que está sem o curativo que agora está caído no colo de Sarah.
Mais aliviada, ela vai se virando enquanto pega o curativo. Então o guarda dentro de um bolso e o frasco já fechado em outro. Sem muito o que fazer, ela fecha seu bornal, e começa a usá-lo como travesseiro.
O único som que se escuta no momento é o do tatu finalizando seu jantar. Depois de vários minutos, ele caminha entre Helvetia e Shymphony e em um canto mais curvado, ele se deita e coloca o fusinho entre as patas enquanto se encolhe um pouco. Às três aquela fofura como se fosse o espetáculo da noite.
Agora sim, o silêncio reina não só ali dentro, mas em toda a floresta em volta. Shymphony também busca uma posição aconchegante para tentar dormir. Seu escudo já está ao seu lado como se fosse um companheiro fiel.
Sarah também volta a se deitar, agarrada a sua mochila como se sua vida dependesse disso.
Conforme a vela vai derretendo lentamente, as horas vão se passando.
Já e quase de manhã quando os animais voltam a existir nas redondezas.
Algumas aves são as primeiras a despertar, e por consequência, despertam os demais.
Quando Sarah abre os olhos novamente, quem está tomando conta de vigiar a entrada é Shymphony. Adão está dormindo todo esticado de lado em um canto.
Vagando o olhar pelo “recinto” encontra Helvetia com seu bornal aberto, e misturando algumas ervas amassadas na própria mão.
Sarah até procura, mas não encontra o dono de tal estabelecimento requintado. No lugar onde estava, agora tem um buraco bem profundo com terra esparramada em volta.
Enquanto respira, percebe que o ar está mais húmido que antes.
— Ah! Finalmente acordou. — Helvetia fala se virando para Sarah.
— Com toda essa neblina, vai ser difícil andar por aí agora. — Shymphony explana, se virando um pouco para olhar em um canto ali dentro. Sarah por sua vez, ao ver ela olhando diretamente para algum lugar, então também direciona o olhar para lá.
Quando encontra o resultado de sua soneca prolongada, fica olhando estática por alguns segundos.
— Será que carne de tatu é gostosa? — Sarah fala enquanto volta sou olhar fissurado para o buraco que ele cavou.
— Shymphony segura o riso ainda observando a mochila dela toda aberta e sem nenhuma batata mais lá dentro.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.