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    10 de dezembro de 1999 – Reino de Eva – Úra – Eadres.

    A luz do sol invade um grande salão arredondado por janelas que circundam o ambiente. O lugar é repleto de estantes até onde a vista alcança, todas cheias de livros dos mais diversos tamanhos e cores.

    Em um canto desse salão, em uma larga mesa repleta de livros espalhados e empilhados. Se encontra Helena, uma mulher de cabelo ruivo, um pouco escuro, trajando um blazer cinza escuro desabotoado. Por baixo, uma camisa branca e uma calça jogger toda cinza escura completa o visual.

    Sentada em uma cadeira inclinada para trás, ela está descalça e com os pés largados em cima da mesa velha. Em sua face, óculos a auxilia na leitura de um livro marrom e grosso em suas mãos. Seu olhar esverdeado corre de um lado para o outro por cada linha de cada página.

    De repente ela sente a cadeira desequilibrar para trás como se alguém desse um puxão, a fazendo perder toda a pose que tinha até então.

    — Sério cara! Tu desliga total hehe… — Aruna, um rapaz de cabelos médios e soltos, vestindo roupas parecidas, porém um pouco mais escuras. Faz sua curta risada ecoar pelo ambiente.

    Ele logo se joga em cima da mesa e se senta de pernas cruzadas enquanto a observa. Os fios ruivos, mas claros, se destacam em meio o ambiente.

    — O que você quer?  — Ela fala enquanto retoma a compostura e suavemente joga suas pernas novamente sobre a mesa perto dele, voltando seus olhos para o livro.

    — Oxe… e eu preciso de motivos para querer ver minha querida irmã? — Um leve sorriso brota em seu rosto enquanto ele inclina a cabeça para um lado levemente.

    — Ficou sabendo das notícias? — Ele estica os pés descalços para frente dando uma espreguiçada.

    — Desembucha Aruna!

    — Leila está morta!

    — … — Suas pupilas se dilatam e suas mãos tremem infimamente ao ponto do livro nem se abalar.

    — Eu achei que você devia saber, por causa da admiração por ela e tal… não que eu me importe com aquela desert…

    O olhar na face de Helena se concentra totalmente em Aruna, e o faz parar o que estava para dizer, e até engolir seco.

    ­— Ei… não precisa me olhar assim, você sabe o que ela fez e o que ela é.

    — Se já terminou… — Ela solta palavras ásperas com sua voz serena e inexpressiva enquanto retorna o olhar para as páginas.

    — Que seja… até.

    — Ela dá uma leve mordida nos dentes forçando os maxilares por debaixo da pele.

    — Outra coisa, a mãe está te chamando! — A sua voz aguda vai sumindo conforme ele vai se retirando do local.

    Após alguns segundos dele ter sumido, ela fecha o livro com uma mão e o joga sobre a mesa. Encarando uma das janelas abertas lá no alto, com seus braços largados para baixo, ela dá uma profunda suspirada. Se levanta vai caminhando na mesma direção que Aruna.

    Vários minutos depois, em uma grande varanda no castelo.

    — Desculpe a intromissão, você me chamou?

    — Sente-se filha. — Uma mulher de cabelos ruivos e claros, cortados na altura do ombro se faz notar. Vestindo uma calça meio larga, branca e formal, uma camisa branca do mesmo estilo. Também descalça, está sentada em um aconchegante banco vermelho, tomando algo em uma xícara de porcelana.

    Helena repara no livro marrom com detalhes dourados que está em cima da mesa dela. Um leve sorriso surge em sua boca, mas logo some.

    — Aruna já deve ter lhe falado sobre Leila. — Ela vira seu olhar para Helena que consente sutilmente com a cabeça enquanto encara o chão.

    — Não importa o que digam, ela é uma Étrion, e minha filha… — Por alguns instantes a mulher abaixa a cabeça e encara o chão cor de areia. — Você ainda quer seguir os passos dela? — Ela levanta sua face para encarar Helena.

    — … — Helena hesita por um momento. — Sim… Eu só vou poder descobrir as histórias reais desse mundo se eu estiver lá fora, e não presa em uma biblioteca.

    — Você já terminou seu treinamento?

    — Sim, mas eu não quero ir à excursão, quero visitar o túmulo de Leila e seguir meu caminho.

    — Eu imaginei, você realmente me lembra muito ela.

    — … — Helena não consegue encontrar palavras para continuar o diálogo, ao encarar os olhos de sua mãe de forma breve, ela percebe algo brilhante sob eles, mas que rapidamente é escondido por um movimento sutil e ligeiro de mãos.

    Helena começa a morder os dentes novamente.

    — Não se preocupe, eu vou ficar bem! — A mulher pega um punhado de ar e dá mais um gole no que tem dentro da xícara. Seu olhar esverdeado brilha mais do que o comum. — Fique pronta, quando a próxima excursão estiver de partida, você irá junto até Paraíso, e de lá poderá seguir seu caminho, isso é o certo a se fazer.

    Um sorriso brota fortemente no rosto de Helena, que logo some.

    — Estarei pronta.

    — Mais uma coisa Helena… Eu soube que Leila tem uma filha!

    A fala de sua mãe perfura seu coração e a faz ficar paralisada enquanto volta a encarar o chão.

    — Eu também me surpreendi, a condição dela não permitia isso, até porque, esse foi o motivo principal dela ter partido… Filha, eu tenho um último pedido para você!

    — Não se preocupe mãe! Eu encontrarei quem a matou e me certificarei que seja quem for, nunca mais respire o mesmo ar que minha irmã respirou.

    Um sorriso sincero surge no rosto da mulher.

    — Leve esse livro com você. Como um último presente meu.

    — Tem certeza?

    — A história descrita nele me parece ser mais que uma ficção, talvez a ajude em sua jornada.

    — Cuidarei desse presente dado pela minha irmã com tudo que tenho.

    Então Helena se curva levemente na frente de sua mãe após pegar o livro de cima da mesa. Aos poucos ela vai se retirando do local.

    — Um último conselho. — O olhar da mulher está mais focado e direcionado para a parede. — Assim como os nobres tem repulsa pelos plebeus, eles também sentem o mesmo por nós. Cuidado!

    Sem responder essa última fala. Helena se retira em definitivo.

    Sobrando somente a brisa suave que entra pelos arcos da varanda e alcança a face corada da mulher.

    Sorrateiro, Aruna entra no local onde sua mãe está e se senta ao seu lado.

    — É feio ficar espiando as conversas dos outros.

    — Desculpe mãe, eu não resisto. — Ele se deita e coloca a cabeça no colo dela. — Sabe… é triste perder alguém com tanto potencial assim.

    — Sim, mas eu sinto que a jornada dela é longe daqui. Uma hora ou outra ela iria acabar fugindo também.

    — Grandes histórias são escritas por pessoas que se aventuram além dos limites. Talvez um dia ela volte com algum livro também, mal posso esperar para ler. — Aruna sorri suavemente.

    — Senhora Yvaine!

    — Diga Simon.

    — Já entreguei o recado que pediste.

    — Por hora é só, pode sair.

    — Sim senhora! — Um dos mordomos que acaba de retornar de uma tarefa entregue a ele em segredo, relata o resultado.

    — Tudo certo então mãe?

    — Sim, agora devemos nos preocupar conosco e se preparar para a despedida de seu irmão. — Ela acaricia o cabelo fino e brilhante dele. — Agora vá pedir a ele uma última sessão de treinamento antes de partir. — Tudo bem, até mais. — Ele sai em disparada com um olhar de convicção no rosto e logo some do recinto.

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