Capítulo 88: História de pescadora?
Nordeste do lago da Redenção
Uma canoa de madeira cinzenta se encontra balançando sutilmente com as pequenas ondas formadas pelo vento que sopra moderadamente.
Sentada em uma tabua de madeira que atravessa a canoa de um lado para o outro. Helvetia observa a linha do horizonte lá distante. Em sua cabeça um chapéu de bambu avermelhado e pontudo desponta sobre fios negros e lisos que caem sobre os ombros e descansam sobre as costas, alcançando quase a linha da cintura.
Uma veste feita do couro cinzento de algum pobre animal. Cobre seu corpo torneado como uma regata que desce até a cintura. Ali, uma cinta feita de tecido delimita até onde vem a regata e onde começa uma calça de couro marrom escura, justa e levemente aveludada que vai até o tornozelo, sumindo por baixo de uma bota marrom também feita desse mesmo couro aveludado. Mas em um tom bem mais escuro.
Seus braços bronzeados exibem por cima dos tríceps, três linhas horizontais brancas e pintadas uma um pouco abaixo da outra. Elas contrastam um pouco com o tom de pele.
Segura em suas mãos, uma longa vara de pescar feita de bambu avermelhado. Na ponta ela é de um tom bem claro e vai escurecendo conforme desce até chegar a uma base mais grossa. Base essa que está presa sutilmente em uma fissura talhada em alguns arranjos de madeira colados no fundo da canoa.
A linha mal é perceptível quando olhada com o plano de fundo azulado do céu. Desce até começar a ser mais visível conforme ganha a água mais escura segundo plano. Até desaparecer por afundando por metros abaixo.
A linha balança um pouco para lá e para cá como se estivesse querendo ser levada pelo vento.
Seu olhar com tons alaranjados que cortam o preto de suas irises, e somem por trás de pupilas negras como carvão. Vaga entre o horizonte e a linha que sacoleja.
Após alguns minutos de distração, de repente a linha perde sua folga e começa a dançar sutilmente de um lado para o outro. Porém, a vara em sua mão não meche nenhum centímetro se quer. Seu olhar atento percebe tão ação, nesse momento ela até diminui o ritmo de sua respiração enquanto seu coração parece estar criando vida própria ao ponto de querer abandonar seu corpo.
Aproveitando o momento, Helvetia ajeita sua postura, ficando mais centrada e com os músculos prontos para ação. A linha balança para esquerda, e para direita cada vez com mais intensidade até que com um puxão brusco, o quer que seja que tenha fisgado, tenta levar a linha, a vara e tudo mais para o fundo dessas águas escuras
Dando tudo de si, ela puxa a vara para si enquanto firma os pés no fundo da canoa com tanta firmeza que até balança toda a embarcação. A canoa começa a se virar na direção da linha e a ser puxada para frente. A linha desponta para frente esticada de tal forma que parece querer romper a qualquer momento.
Helvetia luta para tentar puxar a vara e a linha para dentro. Um puxão, uma folga e depois outro puxão, ela começa a tentar cansar tal criatura. Aparentemente não está surtindo muito efeito, pois a cada puxão dela, a fera abaixo da água volta a puxar com mais força ainda.
Por volta de dez minutos desde o início do embate, ela repete tal ação incessantemente. Então, por um momento a linha dá uma leve afrouxada. O que é motivo mais que o suficiente para ela tomar um fôlego a mais que os anteriores, e até dar um passo para trás, para o centro da canoa. Nesse momento bem diante dos seus olhos, rompendo a superfície ondulada da água. Ali está ele. Com sua característica coloração negra, e com manchas e barbatanas avermelhadas.
Ele se exibe imponentemente sobre a superfície. Tal momento parece durar muito mais do que realmente durou. Até que ele volta a mergulhar e a puxar a linha novamente. Com mais força que antes, a canoa se vê puxada com mais velocidade ainda. Agora ela chega até a der alguns saltos por cima de algumas pequenas ondas.
Com a face concentrada e músculos a toda. Ela se recusa a deixar sua caça escapar. Mais alguns minutos se passam e o Carvão de Sangue desponta rompendo a superfície por um momento antes de afundar novamente. E repete tal ato mais algumas vezes, até Helvetia perceber que linha começa a dar algumas afrouxadas a mais agora.
Ele dá mais um mergulho e a linha afrouxa novamente. E prevendo o que vai acontecer. Helvetia solta a mão direita da vara e se agacha em um canto com agilidade. Então ela agarra uma lança média e fina com cabo de madeira em um tom marrom-claro e uma ponta feita com osso branco e talhado. É possível notar uma gosma esverdeada cobrindo um pouco da ponta. Após agarrar a lança, ela a ajeita na mão se preparando para o que virá a seguir.
Novamente ele salta rompendo a superfície em mais uma tentativa de se soltar e se impor para quem quer que esteja por perto. E de fato, no alto da sua trajetória, acima da linha do horizonte, entre suas presas afiadas, a linha se parte.
“NÃO DESSA VEZ!” — Girando o tronco com toda força que ainda lhe resta. Ela dispara a lança contra ele. A lança corta o ar por pouco mais de um segundo e meio antes de atingir bem no olho.
Despencando do céu e se debatendo, ele desaparece sob a água deixando somente o silêncio das pequenas ondas colidindo contra a canoa para trás.
Respirando profundamente e soltando o ar com cautela. Ela sente suas mãos tremerem. Seu coração parece estar prestes a cumprir sua própria vontade. Mas aos poucos vai se acalmando. Agora tudo que resta é a paciência e algumas goladas de água em um cantil feito de bambu esverdeado.
Pelo menos meia hora se passou desde então. Helvetia não ousou dar uma só remada se quer desde então. Ela lança olhares para todos os lados em busca de sua recompensa. Até que observa um pouco distante um pedaço do cabo de sua lança boiando. Algumas remadas depois e ela chega até ele. E mais a frente vê o resto de sua lança com ponta e tudo boiando.
Após recuperar os pedaços, ela percebe que ele conseguiu continuar nadando com tanta velocidade ao ponto de o arrasto da água partir a lança. Já desesperançosa, ela lança mais alguns olhares em busca de algo mais. Até que bem do seu lado, rompendo a água uma última vez. Ele desponta, agora sem seus olhos. E voa sobre a canoa caindo do outro lado. Então afunda um pouco e logo volta para cima. Agora boiando sem apresentar mais nenhum sinal de vida. Dois metros de comprimento, 45 centímetros de diâmetro e 250 Quilos.
Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.