Capítulo 98: Novato
No instante seguinte do peixe sumir por baixo daquele manto escuro, Adão já busca descobrir quem foi o autor de tal ousadia.
— Você é burro? — Helvetia levanta o remo pronta para golpeá-lo
Ele percebe que não vai dar tempo de esquivar e coloca o braço para tentar broquear um golpe que de fato nunca vem.
Helvetia respira por um momento e abaixo o remo.
— O peixe era venenoso. Se relasse nele, iria agonizar por alguns dias antes de morrer. — Ela explana ao vento olha para ele que está recompondo a postura.
Nesse instante ele se lembra de um aviso bem vagamente.
— Nunca tocar nos peixes com as mãos antes de identifica-lo. — Helvetia lança um olhar de canto para às três que estão sérias e centradas. — Não te avisaram?
Adão olha para Helvetia com o olhar de alguém que quase cometeu um grande erro, e depois olha para às três com um sorriso bobo enquanto coça a parte de trás da cabeça.
Agora o olhar sério delas, e voltado para ele.
Um passo atrás do outro, elas se aproximam.
E sem muita reação, ele aceita seu destino.
Para seu azar, a água está mais gelada do que queria.
— Desculpe por antes. Te julgamos mal. — Orpheus se aproxima dela e abaixa a cabeça.
— Vocês realmente estavam prontas para me matar. — Helvetia disfarça o olhar para o horizonte. E vai buscando um dos pequenos pilares de madeira do píer para sentar.
Sarah e Shymphony estão na beira ajudando Adão a sair da água.
— Ele que é o Adão? — Helvetia o observa sacudir seus pelos perto das duas, e ser empurrado de volta para água.
— Sim… É ele. — Orpheus também presencia a cena, e fica um pouco sem palavras. Ela se aproxima mais um pouco e estende a mão para cumprimentá-la.
Helvetia retribui o gesto, e percebe ao fundo às duas se aproximando.
— Essas são Sarah e Shymphony. Eu me chamo Orpheus. É um prazer.
— O prazer é meu. Me chamo Helvetia.
— Você que é a aprendiz do Palos? — Shymphony agora a olha com mais atenção.
Sarah olha para Shymphony meio confusa e na visão periférica, acaba vendo Adão saindo da água de forma sofrida.
— Você conhece aquele velho mercenário?
— Se conheço. — Shymphony ri alto por um breve período. E estende a mão para cumprimentá-la.
— Prazer. — Sarah é a última a estender as mãos.
Ao sentir a força do aperto de mão dela, Helvetia fica séria por um instante tão breve que mal pode ser notado, a não ser por Shymphony.
— Você veio atrás dele? — Orpheus puxa a conversa.
— Sim, eu preciso de algumas informações que aparentemente ele tem. — Ela o observa se aproximar com a toga toda molhada.
— Entendi. Bom, de toda maneira. Obrigado por salvar a vida daquele felino inútil. — Shymphony se vira para olhar para ele.
— Quem é inútil? — Ele indaga ao vento.
— Quem você acha? Ela retruca.
— Vai começar. — Orpheus até dar alguns passos para o lado de Helvetia.
Sarah a acompanha.
— Bom, em Atlás a gente se resolve. — Ele afirma confiante e se direciona para Helvetia.
— Mal posso esperar. — Shymphony fala baixo o suficiente ao ponto de só ele conseguir ouvir. E os dois sorriem nesse momento.
Orpheus até olha para ela e para ele alternadamente.
Sarah se senta de pernas cruzadas, e Orpheus adere à ideia. Shymphony não vê outra escolha a não ser segui-las.
Adão estende a mão para cumprimentá-la sem dizer uma só se quer palavra.
Então ele também se senta.
Os quatro olham de baixo para Helvetia.
— Eu pretendia conversar só com ele. Mas pelo visto.
Ela lança um olhar breve para o céu e volta direcionado para ele.
— É verdade que você sabe onde é a toca de Urânus? — Helvetia encara bem nos olhos de Adão.
O que antes era curiosidade, agora é atenção. Com uma única palavra.
— Sim, é verdade. — Ele responde de forma direta, a olhando sem desviar.
Um sorriso surge no rosto dela, o que pega a todos de surpresa.
— Então temos negócios a tratar. — Ela estica a mão para frente e a fecha no ar.
Adão até sente um calafrio subir a espinha nesse momento.
— Posso lhe fazer um convite? — Shymphony já está se levantando.
— Pode sim, qual seria? — Helvetia observa o olhar violeta centrado nela.
— Viemos buscar esse gatuno para uma celebração. Gostaria de nos acompanhar enquanto conversam? — Shymphony estende a mão para ajudar Orpheus a se levantar.
— Eu posso mesmo ir lá? — Helvetia a encara.
— Claro que sim. Sempre pode. — Orpheus se levanta enquanto fala.
— Eu achei que só nobres e os filhos podiam. — Helvetia também já vai movendo o corpo.
— Quem disse isso? — Shymphony a indaga enquanto observa as linhas brancas em seu braço.
— Ninguém, eu só achei mesmo. — Ela observa adão ir pegar seus equipamentos de pesca.
Sarah já em pé, lança um novo olhar para o horizonte enquanto sente o vento circundar o ambiente e tocar seu rosto.
Então eles começam a andar rumo ao castelo.
— Será que por sermos diferentes, acabamos criando essa sensação de privilégios? — Shymphony se indaga em voz alta.
— Os humanos costumam fazer essas divisões, mesmo quando não tem sentido. — Sarah aproveita para ajeitar a adaga em uma bainha presa na cintura.
— Deve ser por isso que eles raramente vão ao castelo, exceto quem é próximo. — Shymphony com a mão no queixo, observa alguns homens e mulheres a frente, transitarem de um lado para o outro.
— Imagine isso como visitar a casa de alguém. — Helvetia explana enquanto movimento os braços. — Você não entra na casa de um desconhecido assim do nada.
— Faz sentido. — Shymphony até abre os olhos um pouco mais que o normal.
— É verdade que a árvore fala? — Helvetia pergunta enquanto encara o chão por onde vai pisar.
— Não só fala. Ela é nossa mãe. — Shymphony esboça um sorriso vagamente.
— Então é verdade. — Helvetia dali mesmo, lança um olhar para o alto e até consegue ver a beirada do jardim.
— Mas infelizmente, ela não consegue se comunicar com os humanos normais. — Orpheus toma voz na conversa, enquanto observa alguns galpões começarem a ser abertos, e algumas barracas serem montadas.
— Só nós, e por algum motivo, aqueles nobres, conseguimos ouvir o que ela fala. — Shymphony então repara em um certo homem que está comprando alguns grãos em uma barraca um pouco a frente.
Ela o observa os braços torneados dele, e os ombros relaxados. Quando chegam mais perto, uma cicatriz que risca a cabeça raspada lateral fica nítida. Ela até permanece em silêncio enquanto passam por ele.
— Onde você ouviu isso? — Adão indaga Helvetia.
— Um daqueles nobres me disse essas coisas outro dia. — Ela olha mais uma vez para ele enquanto repara nos pelos negros.
— Essa história eu nunca tinha ouvido. E você Orpheus? — Adão olha para ela, e repara que ela está olhando a Sarah disfarçadamente.
— Essa é nova para mim também. — Orpheus disfarça sorrateiramente.
— História? Que história? — Shymphony se pega perdida em meio a conversa.
Sarah se aproxima dela, e conta por cima oque Helvetia acabou de dizer.
— Se tudo isso for verdade. Significa que tem mais daquela coisa por aí. — Adão se perde em meio a lembranças, com o olhar distante já conseguindo ver uma das pontes que liga o anel externo ao intermediário.
— A Sarah também já viu um. — Shymphony entrega ela em meio as vozes dos mercadores que já iniciam os trabalhos.
— Sério? — Adão na retaguarda, olha para ela.
— Ela era uma grande serpente marinha, com um brilho azul pelo corpo. — Sarah vageia o olhar entre a ponte e a água.
— Eles são chamados de Arautos. Pelo menos é assim que a guilda os classifica. — Helvetia olha para Adão. — Palos disse que você faz parte da guilda certo?
— Sim, comecei a pouco tempo. — Adão olha para vara de pescar em sua mão, e sua cor amarelada. E de relance, olha para de Orpheus que ostenta tons avermelhados.
— Urânus não é uma criatura aquática, mas é um equivalente, pelo menos é assim que penso se levarmos em consideração os relatos de Uruk. — Helvetia volta seu olhar para frente, e faz uma pausa na caminhada.
Sarah foi a segunda a ver, e também para os demais não demoram a fazer o mesmo.
Um grande rinoceronte-branco, com cifres negros, vem pedindo passagem enquanto puxa uma carruagem de aspecto luxuoso. O condutor nem se que olha para baixo ou para os lados.
— Partindo desse princípio, é dos raros relatos de avistamento. É correto ter esse pensamento. — Shymphony reflete em voz alta com a mão no queixo.
Helvetia volta seu olhar para Sarah mais uma vez, enquanto ela observa a carruagem se distanciar.
— E pelo que você disse, existe outra na Floresta Negra. — Orpheus puxa a passada e os outros a seguem.
— Existe mais uma. — Shymphony vislumbra o caminho a frente que mescla pequenos estabelecimentos, algumas pousadas e hospedarias. Com grandes estabelecimentos.
Todos ali voltam o olhar para ela por um momento e voltam a observar o ambiente já agitado ao redor.
— Pelo menos é o que diz as lendas do norte. Besbedesk, demônios e uma grande serpente branca que se esconde sob o gelo. — Ela termina de falar, volta seu olhar para o alto em busca do jardim.
— Besbedesk? — Helvetia a questiona.
— Figuras aladas que lutam contra demônios.
— Ah! Os deuses. — Ela se lembra da conversa da noite anterior.
O silêncio se instaura por alguns minutos até alcançarem metade do anel interno.
— Pollos e Nova já devem estar preparando a mesa e a comida. — Sarah corta o silêncio.
— Eles vão estar lá? — Helvetia sorri de forma pretenciosa.
Nesse momento, Pollos que está carregando algumas tábuas largas.
Sente um frio subir por toda a espinha.

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