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    13 de outubro de 1999 — Periferia de Eva — Zona 47

    O barulho de vidro se despedaçando foi a primeira coisa que ecoou em sua mente

    Sarah desperta no susto por causa do barulho.

    Enquanto ainda se perde em pensamentos sobre esses sonhos recorrentes, começa a se levantar.

    Ainda sonolenta, cabelo bagunçado e vestida com uma roupa larga, sai de seu quarto e vai até o de seus pais. Ao ver que não passa de sua mãe derrubando mais um espelho enquanto faz a limpeza, sorri de leve e volta para sua cama.

     Mas o brilho do astro-rei que acabou de despertar, insiste em tocar sua face e resplandecer seu olhar acastanhado, não lhe dando alternativa a não ser se preparar para mais um dia de aula. Porém, ao se lembrar do que lhe espera hoje, pula animada da cama e começa a se trocar

    As aves agora reconquistam o céu enquanto as nuvens que antes estavam apáticas, agora ganham tons dourados que se misturam ao branco de sempre. Até a neblina já quase imperceptível, começa a se retirar do palco.

    — Eu realmente preciso responder isso?

    Sarah indaga ao vento mais murmurando do que qualquer coisa. Com o cotovelo esquerdo apoiado sobre a mesa da cozinha, ela encara uma folha branca cheia de perguntas e alternativas à sua frente enquanto está com a cabeça deitada na palma da mão esquerda e brinca com o lápis entre os dedos da direita.

    — Sim filha, todos da sua escola precisam responder. É assim que eles decidem os currículos dos anos finais.

    Leila aproveita o momento para puxar os fios negros e compridos de Sarah para trás e deixá-los cair sobre as costas.

    — Mas mãe… eu não quero ser nada disso! — Ela termina de falar soltando o ar e relaxando os ombros.

    — Nem arqueóloga? Pode não ser esportivo, mas é bem legal descobrir as… — Enquanto os olhos de sua mãe brilham com cada palavra e até viaja na mente olhando distante, a voz dela vai ficando quase inaudível aos ouvidos de Sarah que continua encarando as opções.

    “Guilda dos Caçadores

    Serviço Militar

    Guilda dos Pescadores

    Guilda dos Arqueólogos

    Guilda dos Coletores

    Guilda dos Bibliotecários

    Outro: _____________”

    — Só quero aproveitar cada dia. Viver cada momento. — Ela sussurra para si mesma enquanto a voz de sua mãe vai voltando.

    — Seus amigos já sabem o que querem ser. A Marcela até me trouxe algumas sementes bem difíceis de encontrar por aí.

    — Algumas dela é de maracujá? — Sarah até se distrai por um momento e direciona sua face pra cima em busca do olhar verde-esmeralda de sua mãe.

    — Você sabe que as sementes deles são encontradas só no mercado negro. — Ela responde enquanto passa a mão na testa de sua filha e redireciona o rosto dela contra sua vontade para o papel sobre a mesa.

    — Ainda bem que batatas são bem comuns. — Sarah termina a fala fazendo um bico para o lado com a boca e voltando a olhar as opções.

    — Vamos, responde logo se não vai se atrasar.

    Leila a observa começar a mover o lápis e fazer alguma coisa no papel.

    — É isso! — Sarah então larga o lápis ali sobre o papel e a mesa e sai correndo ainda descalça e sobe as escadas sumindo em direção ao seu quarto

    Leila sorri de leve depois soltar um punhado de ar enquanto encara o papel. Ao ver que ao invés de assinar alguma das opções predefinidas, Sarah circula a opção “outro” e escreve “VIVER CADA MOMENTO!!!!” bem grande na linha a frente.

    Sarah já está se despedindo da mãe na porta de casa. Seu cabelo preto e longo em contraste com sua pele clara, balança suavemente com a brisa da manhã.

    — De novo sem uniforme? — Leila, sua mãe, arruma uma mecha de seu cabelo ruivo enquanto franze a testa por um momento ao observar as calças jogger escura e a camisa preta da filha.

    — Hoje tem educação física! Tenho uma reputação a zelar. — Sarah a responde com sua voz firme, ajustando a mochila verde-escura nas costas.

    — Eu até passei ele para você. — Leila resmunga após colocar uma fruta e o papel que ela esqueceu sobre a mesa na mochila.

    — Foi mal! — Sarah já está montada na bicicleta.

    — Não fale com estranhos! — Leila eleva a voz para tentar alcança-la já distante, seu olhar esverdeado e vago se perde nas lembranças dos noticiários que andou vendo.

    Sarah segue seu caminho sem olhar para trás.

    Durante os minutos de pedaladas, observa as casas, alguns carros, e até um veículo das forças armadas todo pintado em um tom marrom-claro, fazendo sua ronda matinal. Ela repara no brilho cinza que emana do para-choque traseiro. Pouco depois, vê outro igual. Mas sua curiosidade logo passa ao avistar o portão da escola.

     Ao atravessá-lo e chegar até o bicicletário, três meninas encostadas em uma meia grade observam sua chegada. Os cochichos começam.

    — Ei menina! Vem cá! — Grace, de cabelo castanho-claro, a chama.

    Sarah se aproxima, hesitante.

    — De qual série você é? — Indaga Grace com o nariz empinado.

    — Oitava série. Por quê? — Sarah responde erguendo o olhar na direção dela.

    Às três trocam olhares em silêncio antes de soltarem risadinhas contidas.

    — Você tem o que, treze anos? — Ela volta a questioná-la.

    — Catorze…

    — Que mochila bonita menininha. — Rita, de cabelo castanho escuro e liso, se aproxima e toca o tecido com desdenho.

    Sarah só observa de canto de olho.

    — Ei, não é filha daquele empresário? — Rita comenta em voz alta, lançando um olhar acusador em Sarah.

    — É verdade! Aquele que tem negócios com os nobres de Âmica. — Grace complementa enquanto faz uma careta de desgosto. — Ela deve ser daquelas menininhas mimadas, aliás, por que você não está em uma escola privada?

    — Agora lembrei! Ela vive brincando no meio dos meninos do segundo! — Letícia, cabelo cacheado cor de chocolate, lança suas palavras afiadas na direção de Sarah.

    — Ui! Credo! Fique longe menina… menino… sei lá o que você é! — Grace se afasta.

    Sarah olha para as meninas fixamente. Os punhos se serram.

    Antes que algo mais aconteça. Três rapazes se aproximam as envolvendo em abraços. Alguns segundos depois, Sarah não se encontra mais ali. Ninguém parece se importar

    Os minutos passam e o sinal toca. Os alunos se direcionam para suas salas, e um por um deixam suas respostas sobre a mesa do professor. E em seguida, os mesmos chegam e se põem a trabalhar.

    Em determinado momento, quando um professor se vira para escrever no quadro. Marcela, uma menina esbelta de cabelos loiros, que se senta atrás de Sarah, a cutuca nas costas.

    — Ei, por que você não foi comer com a gente hoje? — A voz dela é doce mesmo em tom sussurrante.

    — Eu não estava com fome… — Com sua voz rouca e baixa, Sarah lança palavras ao vento enquanto se perde no chão entre as fileiras de carteiras.

    Marcela observa que na mesa dela, contém pequenas marcas como se algum líquido tivesse sido enxuto às pressas. Ela encara o semblante de Sarah, porém, permanece em silêncio.

    Uma após a outra, as aulas se esvaem. Explicações sobre sistemas de guildas, e como seres humanos podem ficar mais fortes surgem.

    Um dos professores que se chama Miguel, vestindo um manto negro e uma armadura de couro, escreve três palavras no quadro e depois olha para seu arco longo e verde que está repousando sobre sua mesa.

    — Treinamento, trauma e equipamentos. Essas são às três formas principais de se tornar mais forte. — Ele explana para a sala.

    Mas Sarah mal escuta. Sua mente ainda está presa às risadas das meninas… e ao sonho da mulher de fios dourados que lhe pede para dançar.

    Logo os primeiros questionamentos surgem.

    — Professor! — Um menino de aparência atlética e cabelos loiros ergue a mão.

    — Diga Sebastian! — O professor o libera a falar enquanto vai se sentando.

    — Eu treino todos os dias, será que eu posso enfrentar os androides no futuro?

    Alguns burburinhos surgem na sala, mas se aquietam ao ouvir a voz do professor.

    — Para nós humanos que não somos da realeza, mesmo com muito treinamento, seria extremamente raro conseguir tal feito. Seria preciso décadas de treinamento contínuo, e mesmo assim é consenso que seria necessário auxilio de equipamentos qualificados para se igualar. — Ele observa novamente seu arco.

    — Mas e quanto ao trauma? Como ele faz alguém ficar mais forte? — Uma menina de cabelo curto não perde a oportunidade. O silêncio se instaura no ambiente de repente enquanto quase todos escutam com atenção.

    — Iris, torça para nunca ficar forte dessa maneira. Pois, só aqueles que passam pelo verdadeiro inferno e sobrevivem, conseguem força através desse método. — O professor até passa a mão em seu cabelo castanho e curto para dar um afago nos pensamentos.

    — Eu ouvi dizer que aqueles passam por esse método, podem até derrotar um androide. — Uma voz ecoa do fundo da sala, chamando a atenção de Sebastian.

    O professor em silêncio observa primeiro os cabelos brancos com mechas rochas de Iris que está virada para quem falou, e depois se levanta enquanto suspira.

    — Escutem! A força sempre vem com um preço. Sejam anos de vida treinando, gastando rios de dinheiro, ou se perdendo nas trevas e deixando de ser quem você é. — Ele respira um pouco, se apoia na mesa a frente com olhar distante e volta a falar.

    — Eu já vi como ficam aqueles que sobrevivem a traumas profundos o suficiente para quebrarem ao ponto de se tornarem mais fortes. E vão por mim, vocês não vão querer isso! — Ele termina a fala com o arco em mão e esticando a corda, uma grande cicatriz desponta no pulso que segura o arco e some por baixo da armadura de couro.

    Nesse momento, um clima quase fúnebre está pairando pelo ar, mas o barulho de um despertador tocando bem alto quebra o silêncio dando a deixa para novas aventuras.

    — Não esqueçam que a prova da guilda está chegando. — A voz do professor já está distante aos ouvidos de Sarah que foi a primeira a sair. — Marcela, esperem um momento. — Ele chama a menina para conversar um pouco com ela.

    Depois que todos já saíram da sala, Miguel ainda se encontra lá dentro observando três das folhas de resposta que os alunos deixaram sobre a mesa. A de Sarah lhe tira um leve sorriso, mas que logo some ao olhar as folhas de Iris e Sebastian, ambas marcadas com a opção Guilda dos caçadores.

    Ao chegar no pátio, Sarah se senta no chão e encostada em uma parede em busca de um pouco de sol. As crianças que a pouco estavam correndo para formar uma fila e pegar a comida, já estão correndo e brincando de pega-pega. Os alunos mais velhos estão sentados, conversando e comendo. Alguns ainda se arriscam a passar vergonha tentando brincar de algo.

    — Ei, posso me sentar? — Marcela se aproxima pela esquerda com a testa franzida enquanto observa Sarah, ela está de pernas cruzadas, com a cabeça largada na palma da mão, e cotovelo apoiado na coxa.

    Sem se virar, Sarah responde com um leve aceno de cabeça de forma positiva.

    O silêncio se estende por alguns segundos.

    — Então… me conta o que aconteceu? — Marcela a questiona. Porém, a única resposta que obtém é o silêncio que toma conta daquela pequena região por mais um tempo, até que outra voz quebre tal silêncio.

    — Você está assim por causa daquelas meninas idiotas né? — Uma voz jovem e masculina surge vinda do lado direito. Marcela o reconhece em meio ao sol que ilumina a pele morena dele.

    — Eu vi você na entrada hoje. Aquelas meninas idiotas estavam de implicância com você?

    — Então é por isso que você chorou? — Marcela a questiona sem pensar.

     Sarah lança um olhar emburrado para ela.

    Bernardo se senta do lado direito de Sarah. Após alguns instantes, Sarah inspira fundo e solta o ar de olhos fechados.

    — Vocês acham que eu pareço um menino? — Sarah pergunta agora olhando para baixo.

    — Não! Esse é seu jeito de ser. — Bernardo responde. — E para mim, você continua sendo menina, a mais irada da escola. Até hoje não esqueço a sua coragem de descer aquela rua imensa sem frear a bicicleta. — Ele solta algumas palavras de entusiasmo enquanto observa as crianças correndo no pátio a sua frente.

    — É verdade, eu tenho medo até de subir em uma bicicleta, mas você sempre me encoraja. — Marcela exclama palavras gentis enquanto seu olhar sai do chão se virando para sua amiga.

    Lágrimas escorrem pelo rosto de Sarah.

    Marcela se aproxima e a abraça. Bernardo não fica para trás e faz o mesmo. Sorrisos nascem em meio aos raios de sol.

    — Eu amo vocês! — Com sua voz um pouco rouca em um tom que transmite uma paz imensurável, ela se deixa levar pelo momento.

    — Eu também! — Bernardo devolve a gentileza.

    — Eu taambéém aamo vocêêêsss… — Marcela começa a chorar.

    Bernardo e Sarah começam a rir da amiga.

    Sarah se levanta e vira para os dois sorrindo de corpo e alma. Ela os pega pelos braços e os puxa.

    — Anda, vamos! Tenho uma reputação a defender. Quero ver se alguém será finalmente capaz de me derrotar. — Com sorriso estampado no rosto, Sarah os conduz até o campo de batalha.

    Risadas se misturam ao vento da tarde.

    Enquanto os três atravessam o pátio discutindo sobre as provas que se aproximam, e Marcela fala para Bernardo que o professor Miguel quer conversar come ele.

    Junto à janela, a diretora permanece parada.

    Seus óculos refletem o pátio iluminado, mas seus olhos estão além.

    O telefone toca.

    Ela atende.

    — Confirmado.

    — Sim. Metade já foi.

    — Daqui duas semanas.

    Desliga.

    Sobre a mesa, uma prancheta com uma longa lista de nomes.

    Três estão marcados. 

    Oi, tudo bem?
    Eu queria pedir só uma coisa. 🙂
    Se possível, comentem no final do capítulo oque acaharam, esse é um feedback muito importante. Quando ninguém comenta, a impressão que fica é que os views não passam de numeros inflados pelo próprio sistema.
    Sem contar que serve como motivação para o autor ver que realmente estão lendo sua história. <3

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