Capítulo 01: Quem eu sou?
13 de outubro de 1999 – Periferia de Eva – Zona 47
O astro-rei acaba de despertar de seu sono habitual e, junto dele, as aves reconquistam o céu. As nuvens, antes apáticas, ganham tons dourados que se misturam ao branco de sempre. Até a neblina, quase imperceptível, começa a se retirar do palco.
Sara se despede da mãe na porta de casa. Seu cabelo preto e longo em contraste com sua pele clara, balança suavemente com a brisa da manhã.
— De novo sem uniforme? — Leila, uma mulher de cabelos ruivos e olhos esverdeado, franze a testa por um momento, ao observar a calça jogger escura e a camisa preta da filha.
— Hoje tem educação física! Tenho uma reputação a zelar. — Sarah a responde com sua voz firme, ajustando a mochila verde-escura nas costas.
— Eu até passei ele para você. — Leila resmunga colocando uma fruta na mochila.
— Foi mal! — Sarah já está montada na bicicleta.
— Não fale com estranhos! — Leila grita ao fundo, com a voz carregada de preocupação.
Sarah acena, distraída, e segue seu caminho.
Durante os minutos de pedaladas, observa as casas, alguns carros, e até um veículo das forças armadas, todo em tom marrom-claro, fazendo sua ronda matinal. Ela repara no brilho cinza que emana do para-choque traseiro. Pouco depois, vê outro igual. Mas sua curiosidade logo passa ao avistar o portão da escola.
Ao atravessá-lo e chegar até o bicicletário, três meninas encostadas em uma meia grade observam sua chegada. Os cochichos começam.
— Ei menina! Vem cá! — Grace, de cabelo castanho-claro, a chama.
Sarah se aproxima, hesitante.
— De qual série você é? — Indaga Grace em tom de superioridade.
— Oitava série. Por quê? — Sarah responde erguendo o olhar na direção dela.
As três trocam olhares em silêncio antes de soltarem risadinhas contidas.
— Você tem o que, treze anos? — Ela volta a questioná-la.
— Quatorze…
— Que mochila bonita menininha. — Rita, de cabelo castanho escuro e liso, se aproxima e toca o tecido com desdenho.
Sarah só observa de canto de olho.
— Ei, não é filha daquele empresário? — Rita comenta em voz alta, lançando um olhar acusador em Sarah.
— É verdade! Aquele que tem negócios com os nobres de Âmica. — Grace complementa. Deixando rancor transbordar — Ela deve ser daquelas menininhas mimadas, aliás, por que você não está em uma escola privada?
— Agora lembrei! Ela vive brincando no meio dos meninos do segundo! — Letícia, de cabelo cacheado cor chocolate, lança suas palavras como se fossem veneno.
— Ui! Credo! Fique longe menina… menino… sei lá o que você é! — Grace se afasta com desprezo.
Sarah olha para as meninas fixamente. Os punhos se serram.
Antes que algo mais aconteça. Três rapazes se aproximam as envolvendo em abraços. Alguns segundos depois, Sarah não se encontra mais ali. Ninguém parece se importar.
Os minutos passam e o sinal toca. Os alunos se direcionam para suas salas, e em seguida os professores chegam e se põem a trabalhar.
Em determinado momento, quando o professor se vira para escrever no quadro. Marcela, uma menina esbelta de cabelos loiros, que se senta atrás de Sarah, a cutuca nas costas.
— Ei, por que você não foi comer com a gente hoje? — A voz dela é doce mesmo em tom sussurrante.
— Eu não estava com fome… — Com sua voz rouca e baixa, Sarah lança palavras ao vento enquanto se perde no chão entre as fileiras de carteiras.
Marcela observa que na mesa dela, contém pequenas marcas como se algum líquido tivesse sido enxuto às pressas. Ela encara o semblante de Sarah, porém, permanece em silêncio.
Uma após a outra, as aulas se esvaem. Explicações e questionamentos são feitos, algumas palhaçadas surgem, e a hora do intervalo chega.
Sarah sai antes que todo mundo e se senta no chão do pátio, encostada em uma parede, busca um pouco de sol. As crianças que a pouco estavam correndo para formar uma fila e pegar a merenda, já estão correndo e brincando de pega-pega. Os mais velhos estão sentados, conversando e comendo. Alguns ainda se arriscam a passar vergonha tentando brincar de algo.
— Ei, posso me sentar? — Marcela se aproxima pela esquerda com a testa franzida, enquanto observa Sarah que está de pernas cruzadas, com a cabeça largada na palma da mão, e cotovelo apoiado na coxa.
Sem se virar, Sarah responde com um leve aceno de cabeça.
O silêncio se estende por alguns segundos.
— Então… me conta o que aconteceu? — Marcela a questiona. Porém, a única resposta que tem, é o silêncio que toma conta daquela pequena região por mais um tempo.
— Você está assim por causa daquelas meninas idiotas né? — Uma voz jovem e masculina surge vinda do lado direito. Marcela o reconhece em meio ao sol que o ilumina.
— Eu vi você na entrada hoje. Aquelas meninas idiotas estavam de implicância com você?
— Então é por isso que você chorou? — Marcela a questiona sem pensar.
Sarah lança um olhar emburrado para ela.
Bernardo se senta do lado direito de Sarah. Após alguns instantes, Sarah inspira fundo e solta o ar, de olhos fechados.
— Vocês acham que eu pareço um menino? — Sarah pergunta enquanto olha para baixo.
— Não! Esse é seu jeito de ser. — Bernardo responde. — E para mim você continua sendo menina. A mais irada da escola. Até hoje não esqueço a sua coragem de descer aquela rua imensa sem frear a bicicleta. — Bernardo solta algumas palavras de entusiasmo enquanto observa as crianças correndo no pátio a sua frente.
— É verdade, eu tenho medo até de subir em uma bicicleta, mas você sempre me encoraja. — Marcela exclama palavras gentis enquanto seu olhar sai do chão se virando para sua amiga.
Lágrimas escorrem pelo rosto de Sarah.
Marcela se aproxima e a abraça. Bernardo não fica para trás e faz o mesmo. Sorrisos nascem em meio aos raios de sol.
— Eu amo vocês! — Com sua voz um pouco rouca em um tom que transmite uma paz imensurável, ela se deixa levar pelo momento.
— Eu também! — Bernardo devolve a gentileza.
— Eu taambéém aamo vocêêêsss… — Marcela começa a chorar.
Bernardo e Sarah começam a rir da amiga.
Sarah se levanta e vira para os dois com o olhar mais feliz do mundo. Os olhos de alguém que já tem tudo que um dia desejou. Ela os pega pelos braços e os puxa.
— Anda, vamos! Tenho uma reputação a defender. Quero ver se alguém será finalmente capaz… — Com sorriso estampado no rosto, Sarah os conduz até o campo de batalha.

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