Capítulo 67: Siga o caminho da garoa (1)
“O caminho das mazelas é como uma garoa que se torna tempestade quando finge parar de chover.”
Izandi, a Oniromante

Bert viu de não muito longe a luxuosa pira de prata e ouro que ascendeu o cadáver do rei Rheider Bloemennen na praça real, frente ao castelo. Eu não teria um desses, foi um dos muitos pensamentos semelhantes que pairou na sua consciência. Uma multidão chorosa. Muitos, sabia, choravam pela comoção da turba; amiúde, no entanto, via um cujos choros e pranto eram reais. O que mais lhe deixara surpresa fora que, além da princesa, não via nenhum outro com cabelos de três cores. A parenta do rei estava ausente; seu filho herdeiro, também.
“Silale”, pensara ele. Um toucado negro cobria sua cabeleira tricolor e um véu cobria sua face… tão beijável. Bert não conseguia ver seus olhos por trás do tecido, mas ela mantinha as mãos juntas, apertadas, com tanta força que ele sentia-se irado. “Preciso falar com ela”, decidiu, e fez. Esperou que ela se distanciasse do povo e dos Versicolistas. Sabia que se demorasse mais, Cei Lisa e os outros iriam sem ele. Ela parecia ser do tipo que faria isso. Ainda assim, não aguentou. Seu coração pesava feito uma pedra numa lagoa rasa.
— Silale — chamou; engoliu em seco. — Alteza. — Ela ainda jazia com o rosto coberto, no mesmo vestido cor de negro sem detalhes, com um xale azul escuro, e ombros recuados. Estavam ambos num corredor rodeado de alguns arbustos, e com Cei Ressen Alegre a poucos metros de distância.
— Cei Zwaarkind — ela disse, com uma mesura. Bert desviou os olhos. “Cei Zwaarkind”, repetiu na mente. — Pensei que ficaria mais tempo. Longe daqui. — Apertou o punho com a mão.
Queria se aproximar e abraçá-la.
— Eu… não sabia se devia vir.
Deu meio passo para trás.
— Por que não? — respondeu ela. — Você ainda é meu cavaleiro, ordenado por mim, não?
— Sim, mas…
Queria se aproximar e segurar suas mãos. Oferecer o ombro.
— As portas deste castelo estão abertas para você, cavaleiro da Guarda Real. Todavia, fique longe de mim. As minhas não estão. Não mais.
Duas duzia de minutos depois, Bert se encontrou com Cei Lisa, carregando consigo uma muda de roupas, um quilo de linguiças, lombo de porco defumado, um pote com banha de galinha e seis cantis cheios de cerveja. E Dente de Hiena.
— Me leva pra Mão da Queda, agora.
A viagem foi longa, longa o suficiente para que em qualquer lugar que parassem, o único tópico de conversas da plebe fosse a morte do rei. Uma vez ou outra, alguém maldizendo Rowan Bloemennen por não estar no velório do pai. Mas e daí? Bert não se importava com a última parte, afinal, queria matar o seu pai. Não gostava do príncipe, mas seria um ato hipócrita criticá-lo por isso. Mas quando chegaram em Mão da Queda, o ar da cidade era ainda mais sombrio. As notícias chegavam.
As notícias chegavam.
— Foi o que ouvi, droga! — disse um bebum. Bert estava em uma hospedaria de dois andares. A melhor que o dinheiro que ganhara como cavaleiro pôde prover à Cei Lisa, seus cavaleiros e suas empregadas. — Porcaria, duas vezes ao dia tem a porcaria de uma dragão voando por nosso céu, e vocês não acreditam na porcaria de uma feiticeira?
Bert virou o pescoço para o bebum. Era um homem calvo, com finos cabelos loiros para cair; roliço e de mãos grossas e ombros fortes.
— Feiticeira? — perguntou. Os outros dois amigos do bebum deram atenção ao rapaz junto do bêbado.
— Ignora esse cara — disse um. — Balançou tanto o machado sob o sol que ficou vendo coisas.
— Eu vi isso no INVERNO! — gritou ele, batendo a caneca na mesa. — Uma moça alta feito a porcaria de um pinheiro-touro, de cabeleira negra como uma floresta.
Bert se levantou de sua mesa e sentou-se com os homens, que ficaram brevemente assustados com a altura do de cabelo preto. A taverna pouco a pouco dava atenção àquela mesa com fedor de cerveja e rum.
— Foi quando eu ia para a Fortaleza-Montanha, levar suprimentos e ficar um resto de inverno lá. — Tragou um gole. — Levava uma carruagem cheia de carne, mel e madeira — tragou de novo —, quando cheguei no Bebedouro. Vocês devem saber, é aquela puta nua de pedra perto dum lago — bebeu. — A água lá estava quente, ia dar para meus cavalos. E então, eu juro que vi um diabo duma mulher vestida de negro, alta como a porcaria de uma árvore.
— Tá — disse Bert, de braços cruzados, e bebeu também. — Mas até aí, pode ser só uma mulher alta de vestido negro.
— Paciência, rapaz — cobrou o lenhador. — Ela não deve ter me visto, e se tivesse, aposto que teria me matado para dar ao enxame de mariposas que surgiu ao lado dela! Um monte! Elas brilhavam feito ouro quando o sol bate, amigos, quase uma tocha cada uma. Ela se aproximou do leito do rio e começou a chorar.
— E aí?
— E aí, as mariposas a cobriram e ela sumiu.
Bert arqueou as sobrancelhas.
— Só isso?
O lenhador bebeu todo o conteúdo da caneca e encarou Bert como se seus olhos fossem sair da cara.
— Ô pivete fedorento, foi a coisa mais aterrorizante que já vi na minha pequena vida! Depois daquilo, saí disparado pra Fortaleza e quase perdi um cavalo pra exaustão. Só saí daquele castro de pedra porque o inverno acabou, e o mestre de armas daquele buraco é um maníaco aterrorizante. Nunca vi olhos tão mortos…
— Hm — arfou Bert. Bebeu e se levantou. — De todas as histórias de lenhador, não é a pior que já ouvi.
— Pois é — confirmou um à mesa. Um senhor calvo e barbudo, de dedos calosos. — Ignora esse aí; trocou a mulher dos sonhos por uma noite com uma outra qualquer e agora vai inventar qualquer coisa pra esconder que é burro feito pedra.
— Cala a boca! — bradou o lenhador com um arroto, e bebeu.
Bert arrotou e foi-se embora para seu quarto.
Os bebuns estavam lá no dia seguinte, de novo. Bert fingiu que eles não existiam e foi treinar espada no seu quarto, mas além da falta de espaço, seus movimentos foram elásticos e fracos, desanimados. Isso o fez desistir e jogar a cabeça para o alto, despencando na cama com uma raiva cada vez maior. O que precisava fazer? Não tinha ânimo no corpo, na alma ou espírito. Só um marasmo que não o deixava, não importava quantas garotas ele fizesse gemer seu nome, ou quanto ele bebia ou ria. Não conseguia parar de pensar nas cavernas úmidas debaixo do castelo, ou no lago cuja nascente mais alta respingava água… Em um par de sorrisos de lábios finos e vermelhos, de cabelos brilhantes que deixara para trás.
Pondo-se de pé, já não queria mais nem saber. Queria andar, o mais longe possível, ouvir qualquer tipo de baboseira. Cei Lisa havia sumido desde o terceiro dia que chegaram na cidade. Bert nem sabia se esse era o nome real dela, mas também não sabia porquê de ter vindo a um lugar tão perto e tão longe de casa, abandonando o dever que lhe fora imposto. “O dia é meu, dane-se. Posso fazer o que eu quiser!” E por isso foi a outra taverna, uma mais longe.
Atravessara uma ponte, quase brigara numa praça por ter esbarrado num bebum, que fugia com uma garota da baixa nobreza local. A noite já cobria a cidade com sua escuridão, ocultando as flores e andanças primaveris por onde não havia postes acesos e a luz das luas não tocasse. As ruas estavam tão preenchidas como todos os dias, Bert notava, e uma turba de andantes chegava para a taverna e outras ao redor. Mais à frente, várias aves fugiam para longe do Ninho do Dragão. “Será que verei a tal dragão?”, pensara ele. No Torneio de Ferro, poderia ter visto um dragão ou outro; no entanto, os Troikg não tinham dragão algum há gerações. Invés disso, viu e forjou Dente de Hiena ao lado de ferreiros que dedicaram sua vida inteira à forja.
Bert achava isso particularmente bonito. Dedicar sua vida inteira há algo. O amor que os ferreiros reais tinham pelo seu trabalho, o fervor que emanava de seus olhos, aquilo, acreditava, deixaria qualquer um animado. Exaltado. “Mas quando chega em mim, o que tenho?” Cortou o pensamento e entrou numa taverna mais próxima das casas da nobreza.
— O Ministro dos conselhos morreu! — gritou uma, que entrara pouco antes que Bert. — Morreu!
Empalideceu e mordeu a língua. “Não ferra?!”
— Como assim? — ele e muitos outros perguntaram.
A fofoqueira virou o rosto pálido, tão surpreendido quanto todos os outros naquele salão.
— Morreu! Ouvi de um monte de gente diferente!
— Por Ilasis, fale logo como! — bradou Bert. “Não era possível que aquele velho tenha morrido de idade!”
— Meus amigos mercantes disseram-me que caíra de uma escada no castelo… — ela falou. — Joris Cyreck tropeçou de velhice e deslizou de cabeça pela escada. Quebrou o pescoço e morreu na hora!
Bert apertou os dentes e deu um passo a frente, apertando seu ombro direito.
— Aquele velho idiota — arfou e reparou ao redor — tinha oitenta anos e dava sermão no rei! Não tem como ele ter caído de uma escada tão fácil assim.
A mulher semicerrou os olhos e pôs as mãos na cintura.
— Ué, como você saberia disso? Trabalha no castelo? Estamos bem longe, senhor bem informado — o tom de prepotência na sua voz foi tão grande que Bert mal olhou para os seios dela.
E não ouviu mais do que isso.

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