Capítulo 329 – A Ressonância Acidental de Talentos
Antes do início do processo, momentaneamente alheia a todo o resto, Stella já se preparara em um dos quartos quando o jovem casal anfitrião chegou e a colocou a par do que possivelmente aconteceria quando começassem.
Não havia muito mais a ser dito. Àquela altura, depois de tantos procedimentos realizados em público e em locais privados dos quais fora informada, ela meio que “já sabia o que esperar” da situação; e do presente que receberia.
Grata pela ajuda de Diana, mas ainda sem conseguir deixar de se sentir estranha por ser abraçada daquela forma em uma cama (mesmo sabendo ser para aumentar a área de contato da transferência de energia), a jovem Azure forçou o controle sobre sua agitação mental e se preparou.
No instante em que Alexander materializou o núcleo multicor de poder (uma [Essência Evolutiva] da qual só ouvira falar) e se preparou para empurrá-lo contra a barriga dela, sem medo ou hesitação, não havia mais volta. — (Veias Mágicas).
Assim que a essência estava prestes a fazer contato, os olhos de Diana iluminaram-se com a ativação de seu {Talento}, e uma quantidade transbordante de energia passou a fluir dela para Stella como uma fonte auxiliar.
Para a completa surpresa de absolutamente todos, porém, o corpo da amiga deles reagiu bem demais a todo o processo, desencadeando uma reação mágica em cadeia que parecia aumentar de proporção a cada segundo que passava.
A esperada reverberação gutural de dor nunca fez sequer a menor das menções de aparecer, e o processo que derrubara (ou quase colapsara) os demais transcorria de forma muito mais fluida, mesmo com uma intensidade bem maior.
— Puta merda. O {Talento} dela só pode ser aberrante — rapidamente concluiu o dragonoid mentalmente, antes de se tocar de algo e se lançar pela janela, deixando-as em meio ao turbilhão do processo.
Sem tempo a perder, o jovem se lançou ao topo do solar às pressas, sacou a garra de Drayygon que já vazava sua aura e vociferou, enquanto as auras de seus familiars também se elevavam da área da mansão: — Quero ver quem ousa tentar forçar a sua entrada em minha casa neste momento, seja por qual for dos motivos!
Ignorando o aviso, um grupelho ligado a Stella tentou avançar sobre a propriedade, sob o pretexto de verificar o bem-estar de sua jovem senhorita.
Alexander, porém, foi decisivo e cabal: mergulhou do telhado em direção a eles, já disparando uma |Estocada| à frente deles com a garra de Drayygon, como um aviso incontestável: — A próxima não vou errar.
Estremecendo diante da pura aura de ||Rei Dragão|| liberada pela garra, o grupelho olhou-se consternado. Ninguém se atreveu a dar um novo passo à frente.
Infelizmente para o dragonoid, nem todos seriam tão simples de lidar. Ambos os duques que haviam participado do aniversário já estavam retornando, impelidos pela comoção que se erguia da propriedade.
Não querendo escalonar uma situação tensa sem necessidade, ele confiou a área da residência a Ocean, Storm e Pequeno Preto, e voou até se postar de frente para a direção de onde os duques se aproximavam.
Em seu entendimento, o jovem não tinha nada a declarar nem a perguntar.
Aquela era a sua residência. Enquanto sua inviolabilidade fosse mantida, ele não ofenderia ninguém; desde que ninguém tentasse forçar-se sobre o que era seu.
— Por que sacou e está utilizando essa coisa com tanta vazão de aura? — indagou Robert assim que ambos os duques chegaram. — O que está acontecendo aqui?
— Assuntos pessoais que logo irão acabar — respondeu Alexander, impassível. — Me perdoem pela comoção, mas ficaria grato se me acompanhassem aqui até que tudo tenha devidamente terminado e se consolidado em MINHA CASA.
Surpresos com aquela resposta, os duques entreolharam-se quando um nome e um rosto iluminaram-se em suas mentes. Para que houvesse uma reação daquelas, algo que dizia respeito à própria Diana tinha que estar acontecendo.
Naturalmente curiosos, mas cientes de que se o jovem não falara, ele não o faria, os duques contiveram-se. Levar a situação ao limite sem ter um caminho de retorno (conhecendo o temperamento dele no que dizia respeito à noiva) seria insensato; por isso, limitaram-se a aguardar ao seu lado.
Ambos, poderosas forças da natureza encarnadas, tinham poder mais que suficiente para forçar a entrada sem grande esforço. No entanto, os possíveis ganhos de saciar a sua curiosidade não se equiparavam, nem de longe, aos prejuízos e precedentes que tal ação criaria.
Todo mundo que podia e conseguia tinha e mantinha os seus segredos apenas em família. Era uma regra não dita respeitada entre as famílias nobres.
Após alguns poucos minutos de espera, assim que o processo se encerrou, Alexander não fez mais questão de restringir os duques; e eles, por sua vez, não fizeram questão de entrar. Naquela altura, já haviam entendido que, provavelmente, mesmo que virassem a casa do avesso, não encontrariam nada; mesmo com seus sentidos.
— Vão embora. A festa já acabou — disse o duque Marvin na qualidade de protetor do Mar Imperial. Ele não iria permitir que aquilo se transformasse em uma confusão maior.
De forma geral, eles sabiam (e podiam sentir) que vários curiosos se esgueiravam pelos arredores, ávidos por informações.
Assim que a contenção da situação do lado de fora foi resolvida e o dragonoid retornou ao quarto pela mesma janela que saiu, encontrou Diana e Stella já separadas, mas uma sensação estranha tomava conta do ambiente, forçando-o a se manifestar: — As coisas acabaram ficando complicadas.
Assentindo em concordância, elas se entreolharam, compreendendo muito melhor a própria situação.
O processo da [Essência Evolutiva], somado à ativação do {Talento} de Diana em conjunto com o provável {Talento} aberrante de Stella, fizera com que seus corpos se sintonizassem parcialmente nas partes mágicas.
De forma bem resumida, com a formação de suas veias mágicas, o corpo da jovem Azure viu em Diana uma fonte de energia e começou a tentar adequar-se a ela, enquanto um reflexo inverso também ocorria em resposta.
O que era estranho (e não deveria acontecer sem um ímpeto orgânico profundo da parte dominante), pois o corpo e o físico de Diana eram muito mais fortes, poderosos e pulsantes para se deixarem influenciar daquela forma.
Outro ponto que não passava despercebido era a possível natureza aberrante do {Talento} de Stella.
Essa possibilidade representava uma clara divergência em relação ao que era esperado de seus pais e da sua linhagem. Uma mutação, por assim dizer, dentro dos padrões conhecidos de sua hereditariedade.
Em regra, o {Talento} de um indivíduo possui relação com o de seus progenitores. Ele não precisa manifestar-se de forma idêntica, mas tende a permanecer dentro do mesmo nicho conceitual ou elemental.
Talentos aberrantes (como o de Diana), por outro lado, rompem com essa lógica, extrapolando o escopo hereditário e dando origem a uma esfera nova na linhagem.
Como analogia, um talento associado a garras felinas pode variar para manifestações de um tigre, manter-se em médio porte ou regredir para estágios menores dentro de uma variação comum. Esta representa uma adequação do talento ao indivíduo.
De modo semelhante, um fogo de origem aviária pode, em circunstâncias extremas, transformar-se no poderoso fogo de uma fênix (ou sofrer o processo inverso) quando a hereditariedade é aberrante. Nesses casos, a variação trata-se de uma transformação qualitativa, capaz de redefinir a própria essência do Talento.
Cientes dessas constatações, o trio trocou um olhar estranho antes de Alexander, por fim, completar seu pensamento sobre as complicações: — Para todos os efeitos, e para qualquer um além de nós, nada mudou e ninguém aqui sabe de nada… Afinal, além de nenhum de nós ter certeza absoluta, eu não quero os Azure pulando no meu pescoço; e muito menos quero ter de pular no deles em resposta.
— É mesmo necessário tudo isso? — indagou Stella, como se a precaução dele fosse exagerada. — Se Diana ou eu fôssemos homens, talvez fosse uma questão diferente, pois poderíamos gerar descendentes. Mas ambas somos mulheres.
— Você subestima o ímpeto voraz da sua própria família — rebateu o jovem com seriedade. — Vocês de fato não podem gerar descendentes poderosos para o clã, mas isso não é necessário para formar uma união de consortes no Império… Juntas, vocês têm um potencial possivelmente maior que o do seu grão-duque atual (pois não há melhor parceira de treino para você do que ela no momento), e isso já é motivo suficiente; só perdendo para o potencial letal do seu irmão, por causa daquela espada.
— Além disso, da forma como estão agora, não me surpreenderia nada se pudessem alcançar uma integração mágica sem muito treino — acrescentou o dragonoid com uma expressão ainda mais estranha. — Pior ainda: como o meu físico também está sincronizado com o físico de Diana, há um caminho e não é totalmente impossível que consigamos alcançar uma integração mágica de trio, usando ela como núcleo.
Começando a enxergar o fio da meada do que ele apontava (e do que poderia ser visto pelos outros), a jovem Azure sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Se todos eles, porventura, alcançassem o nível de Força da Natureza (ou mesmo uma pseudo-Força da Natureza) e conseguissem realizar uma integração mágica completa, o poder que desencadeariam alcançaria o Tier V definitivo?… Ou mesmo o transcenderia por completo, avançando para um patamar verdadeiramente apocalíptico?
Era uma questão que preocuparia qualquer um de fora do trio; e com a boa razão da autopreservação a longo prazo.

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