CAPÍTULO 27 - LILIAN
Oliver abriu a porta e entrou.
“Mãe, olha só o que eu ganhei.”
Eliandris estava sentada à mesa, remendando algo. Ergueu os olhos quando Oliver estendeu a mão.
“Filho.” A voz era tranquila, mas havia uma pergunta dentro dela. “Como você conseguiu isso exatamente?”
Oliver contou tudo.
Sem omitir nada, a reunião no escritório de Agatha, os aventureiros pedindo desculpas, Archibald distribuindo o dinheiro sem ficar com parte alguma, Solwen aparecendo depois e enfiando três moedas na sua mão antes que ele pudesse protestar.
Quando Oliver terminou, Eliandris soltou o ar devagar e abriu um sorriso.
“Entendi.” Ela pousou o remendo na mesa. “É sempre bom ter uma reserva de emergência. Você fez bem.”
“Reserva não, mãe.” Oliver fechou os dedos ao redor das moedas por um momento antes de pousá-las na mesa. “Esse dinheiro vai para a dívida com o tio Grim. Ainda faltam algumas peças de ouro pra fechar, mas é um começo.” Ele cruzou os braços. “Ele não parece ser o tipo de pessoa que perdoa dívidas.”
Eliandris ficou quieta.
Oliver observou a alma dela, havia um azul discreto que apareceu e desapareceu rápido.
Eliandris suspirou, decidindo contar a verdade.
“Filho, eu já paguei a dívida.”
Oliver piscou. “Como?”
Ele e sua mãe haviam passado quinze dias comendo carne de lobo. Ele sabia exatamente quanto custava manter os dois vivos num mês, e 45 peças de ouro eram um número que não cabia nessa conta de nenhuma forma que ele conseguisse calcular.
Havia uma resposta que fazia sentido, e era a única que ele havia conseguido encontrar.
“Tio Grim…” Oliver escolheu as palavras com cuidado. “Ele trocou a poção pelos seus serviços no bordel?”
Se fosse isso, se Grim havia se aproveitado da situação de Eliandris para conseguir algo que não deveria, Oliver não saberia muito bem o que faria com essa informação, mas sabia que não seria nada agradável.
Eliandris o olhou por um momento com uma expressão de incredulidade.
“Sua mente é criativa, Oliver.” Havia algo próximo de diversão no tom, mas era suave demais para ser ironia. “Mas não foi nada disso. Grim tem uma moral duvidosa, mas o que realmente o move é dinheiro. Não seria prático para ele fazer uma troca desse tipo quando poderia simplesmente ser pago. Quanto a como a dívida foi quitada, você não precisa saber.”
Oliver abriu a boca.
Fechou.
Havia aprendido, ao longo de 7 anos nessa vida, que havia momentos em que sua mãe colocava um ponto final numa conversa de uma forma definitiva. Esse era um desses momentos.
Ele olhou para as moedas na mesa.
Depois olhou para Eliandris.
“Tudo bem.” Ele empurrou as moedas em direção a ela. “Fica com você então.”
Eliandris pegou as moedas sem comentar. Oliver saiu.
…
Havia tempo demais que Oliver não visitava Orson.
A última semana havia sido densa o suficiente para fazer qualquer rotina parecer distante, o despertar, as aulas com Archibald, o relâmpago no orc, etc. Oliver caminhou em direção ao lugar de sempre pensando que poderia precisar de uma conversa sem agenda.
Orson estava lá. Naturalmente. Como sempre estava.
O velho sentado no mesmo canto de sempre, com a expressão de quem não tem pressa porque deixou de tê-la há muito tempo. Caramelo estava deitado ao lado dele com a barriga para cima, aproveitando um pedaço de sol que passava entre as casas.
“Oh.” Orson ergueu os olhos. “A que devo essa visita tão ilustre?”
“Estive ocupado na última semana.” Oliver se abaixou para afagar Caramelo, que respondeu com um grunhido satisfeito. “Me desculpe, tio Orson.”
“Não tem problema nenhum, garoto.” O velho acenou com a mão. “Eu soube do que aconteceu no bordel. Parece que você despertou como mago de primeiro ciclo.”
Oliver ergueu os olhos.
“Sim.” Oliver continuou afagando o cachorro. “Em breve vou poder dar uma vida melhor pra minha mãe. O tio Archibald disse que vai me treinar até o 2ºciclo.”
“Oh.” Orson inclinou levemente a cabeça. “Ele não vai te passar as magias de gelo? Sendo a especialidade dele.”
“Não. Ele disse que eu tenho muita afinidade com relâmpago. Não faz sentido insistir numa direção diferente.”
Oliver continuou conversando, mas uma parte da sua atenção havia ficado presa naquele trecho. As perguntas de Orson eram objetivas. Não eram as perguntas de um mendigo curioso, eram perguntas de alguém que sabia do que estava falando, que entendia o significado por trás de cada palavra que falava.
Orson continuou.
“Essa vila é pequena. O que aconteceu no bordel ontem chegou em todo lugar hoje.”
“Imagino.” Oliver finalmente sentou no chão ao lado de Caramelo. “As coisas poderiam ter saído do controle muito mais rápido se o tio Archibald não tivesse descido.”
Orson assentiu.
Oliver ouviu passos vindos na sua direção.
Três pessoas se aproximavam. Oliver as reconheceu antes de conseguir ver os rostos, a postura da mulher à frente, a capa vermelha, a altura. Os dois atrás dela com os mesmos cabelos claros.
Era o grupo de aventureiros daquela mesma manhã. A líder, com o vaso de porcelana nas mãos.
Eles pararam diante de Oliver e Orson. O mendigo e o cachorro foram completamente ignorados, simplesmente como parte da paisagem. Oliver observou os três por um momento, verificando o que conseguia ler. Nenhuma flutuação negativa, não pareciam ter algum tipo de intenção maligna.
“Oliver, certo?” A líder falou primeiro. “Você sabe onde fica a igreja da cidade?”
“Sei.” Oliver se levantou. “Mas me desculpe, não sei o nome de vocês.”
“Ah.”Ela se corrigiu com certa naturalidade, o que sugeria que esse tipo de situação acontecia com frequência. “Eu sou Sylvia. Esses dois são Lilian e Lucian, eles são irmãos.”
Lilian. A maga de cabelos muito curtos com o cetro de gema vermelha. Oliver havia notado ela na reunião da manhã, era ela quem havia entregado a bolsa de 100 peças de ouro para Agatha sem hesitar, parecia estar acostumada a lidar com quantias assim.
Agora a alma dela brilhava num ciano intenso.
Era curiosidade intensa e direta.
E estava direcionada para Oliver.
Ele se despediu de Orson, Caramelo levantou a cabeça por um segundo antes de voltar a dormir, e começou a guiá-los pela rua. A igreja não era longe. Corval não era grande o suficiente para qualquer coisa ser longe.
“Oliver.” Lilian ficou ao seu lado enquanto caminhavam. “Ouvi dizer que você usou uma magia de relâmpago contra Groak. Quantos anos você tem?”
“Sete.”
O silêncio de Lilian durou exatamente o tempo necessário para processar isso.
“Sete anos e já é um mago de primeiro ciclo. É impressionante.”
“Obrigado, mas não é tão impressionante assim, contra o orc eu estava com bastante medo.” Oliver encolheu um ombro. “Se o tio Archibald não tivesse descido, o resultado teria sido diferente. Eu só consegui ganhar algum tempo.”
A igreja apareceu no final da rua, um prédio de pedra baixo com uma porta larga de madeira escura, sem ornamentos externos excessivos. Oliver apontou e parou, pretendendo se despedir.
“Por que não nos acompanha um pouco mais?” Lilian falou antes que ele pudesse. “Posso te ensinar uma magia de fogo se você mostrar mais um pouco da cidade.”
Oliver olhou para ela.
Verificou a alma.
Ciano e amarelo coexistiam, sugerindo uma grande receptividade. Lilian era, pela leitura que Oliver conseguia fazer, exatamente o que parecia: uma maga jovem que gosta de favorecer pessoas talentosas. Pelo menos foi essa impressão que passou.
E ela estava oferecendo uma magia de fogo em troca de um passeio pela cidade.
Oliver calculou o valor dessa oferta por aproximadamente meio segundo.
“Isso é meio estranho, mas acho que não tem problema. ” Oliver pensou, mas concordou com a oferta balançando a cabeça.
Lilian sorriu.
Os quatro entraram na igreja juntos.

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