O clérigo se aproximou, meu corpo se encolheu. Agarrei a cadeira com força, mas não foi consciente, me pareceu instinto. O senhor viu meu temor, pôs sua mão sobre a minha, me pediu para ficar de pé, ofereceu-se para entrar em minha doca, exigiu aos soldados que o acompanhava para que ficassem na área externa. Então entrou, observou e elogiou meu lar. Conversou um pouco comigo, perguntou meu nome.

    — Me chamam de Piscis senhor…

    — Bom nome, combina com um pescador — Gargalhou, uma gargalhada serena. O papo revelava uma covinha extra.

    — Qual seu nome? 

    Não respondeu, ficou sério. Explicou sua vinda — como sempre para abençoar. Porém antes da bênção fez questão de examinar mais onde eu morava. Fez uma ronda, jogou água em alguns pontos, e sal em outros. Voltou até mim e disse:

    — Meu jovem, tem ouvido vozes ultimamente? 

    — Sim senhor.

    — Isso é mal! Teremos que exorcizá-lo. Posso ver, sim, um espírito maligno ligou-se à sua alma. Precisamos tirá-lo daí.

    — Se o senhor me permite questionar… 

    Sua sobrancelha levantou-se, seu olhar se tornou de julgamento. Senti medo, mas continuei a pergunta:

    — É realmente necessário exorcizar este espírito?

    — Sim, é. Por que questiona? Por acaso ele tem forma de um parente ou de uma mulher bonita?

    — Não senhor! É que ele me disse que o exorcismo iria me matar…

    — Tolo! E acreditou nele? Todo espírito imundo mente, não importa como se pareça, todos mentem! Agora venha, ponha-se de joelhos, irei te exorcizar aqui.

    Fiz o que mandou. O clérigo passou a dizer palavras de poder em uma língua desconhecida. Uma luz tomou forma de um círculo em torno de nós, a batina branca do clérigo revelava costuras reluzentes àquela luz, senti paz. Entreguei meu espírito, mas, o outro estava gritando, implorando para que fugíssemos enquanto ainda dava tempo.

    Então senti uma dor terrível, uma dor que não era em um só local, mas no corpo como um todo e além dele. Ao mesmo tempo, o espírito que me perturbava também gritava de dor, e me amaldiçoava por não ter fugido enquanto podia. Minhas pernas não tinham força, e somente minha voz saia com toda a fúria. Meus olhos lacrimejavam com tanto ardor, meus dedos se contorciam, minhas pernas fraquejaram, meus ouvidos zumbiam e cheguei a urinar devido a tamanha dor. Minha voz era tudo o que ainda tinha, e ela rasgava o ar como uma lâmina, minha garganta doía e até sangrava devido tanta força que pus naquele grito. E o espírito cada vez mais se dissolvia em minha frente, e minha mente, não, acho que era minha alma… eu comecei a perder minha alma, e fui deixando de ser eu mesmo.

    E de repente, eu não era mais eu, foi como se minha mente tivesse adentrado na mente do espírito que me acompanhava. Vi claramente suas memórias, como se olhasse um espelho e pudesse atravessá-lo, como um sopro de algo que eu nunca tinha visto, mas que agora estava dentro de mim como se eu vivenciasse cada experiência boa ou ruim, como se fosse minha e, como se eu estivesse lá. Vi tudo muito rápido, uma criança, um pai, um adolescente e uma viagem; vi a tal grande escola de Björn e os lábios de uma mulher loira; vi uma grande batalha contra um inimigo colossal; vi milhares de guerreiros em uma batalha noturna contra uma legião de monstros; vi um ser tão horrendo que sequer parecia ser desse mundo; vi um pergaminho com algumas palavras estranhas, e logo vi uma sombra que me transformou  em um inseto, que foi comido por uma rã, que foi comida por uma grande aranha, e que continuou nesse ciclo durante cinquenta anos até me tornar um peixe e, ser comido por mim mesmo. Testemunhei tudo isso em segundos, talvez esse fosse o significado de “ver sua vida inteira antes da morte”.

    Mas aquela não era minha vida, então talvez o espírito estivesse vendo a minha. O que ele via? Pergunta inútil já que não importava, e eu sei a resposta. Comparado a dele, minha vida foi nada. Fui apenas um sopro fraco enquanto ele era um vendaval. Minha vida era somente uma rotina, com algumas perdas pelo caminho, mas nenhuma grande rocha que procurei escalar. Eu não queria escalar nenhuma, e nem tinha essa pretensão. Ainda assim, aquele espírito viveu uma escalada após a outra, e não desistia, nem mesmo já não estando vivo de verdade.

    Decepcionante, mas a sorte está ao meu lado. Alguma comoção no lado externo da doca desconcentrou o clérigo, com isso, tive oportunidade de me rastejar um pouco para longe. Aquele senhor, voltou a se aproximar, tentou me acalmar e dizer que a dor fazia parte do processo. Não quis saber, continuei me afastando e empurrei o velho quando recuperei minhas pernas. Sua voz se alterou, disse que eu deveria desistir e parar de fugir. 

    — Tudo irá ficar bem meu jovem, apenas me deixe fazer isso!

    — Saia de perto de mim! — Gritei.

    Meu corpo ainda enfraquecido, lutava contra a pressão que aquele clérigo exercia sobre mim. Ele tentava me segurar, mas também não conseguia devido a idade, por isso chamou os guardas; estes me derrubaram contra uma mesa que ficava encostada na parede, a mesa também cedeu, e uma faca caiu ao chão. Porém eu não a alcançava, meus braços estavam sendo segurados pelos guardas, e a mão do clérigo retornou sobre minha cabeça. A dor retornou, estava de joelhos e perdido, mas, uma fagulha de força queimou mais que as outras. Mesmo preso e fraco, o desespero e o medo foram suficientes para me libertar, e o ódio, ágil para cortar a garganta do clérigo e dos soldados.

    Um bêbado, que havia causado o tumulto anterior, abriu a porta e se assustou ao me ver caído sob o sangue daqueles três. E eu mesmo, tinha muito nojo, mas não tinha resistência para me levantar tão rápido. Quando pude, soldados já vinham.

    — Garoto, vai rápido! Pegue tudo o que puder e entre no barco! — Disse o espírito.

    Assim fiz, mesmo a contragosto. Peguei o dinheiro dos soldados e os amuletos do clérigo, alguns bens pessoais e as armas que ficaram jogadas ao chão. Entrei no barco, mas esqueci de desfazer o nó, então só cortei a corda e segui remando. Estava fraco e ensanguentado, mas me mantive forte, e remando até o bosque que ficava ao outro lado do lago, de onde vinha o rio. Soldados, vinham a cavalo, mas o bosque dificultaria a perseguição montada. Chegando ao destino, ainda parei para limpar o sangue do rosto e vomitar sobre o ocorrido. Comecei a correr, e quando olhei para trás apenas vi meu barco afundando… 

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