Corri, só não durou muito. Estava com dor, sede e fome. Parei próximo ao rio para beber um pouco de água, mas ouvi barulho de homens e cães vindo atrás de mim. O susto me fez pular na água e nadar até o outro lado. Foi desgastante, a correnteza era forte, e cascalhos levados por ela me acertaram em todas as partes do corpo. Por milagre atravessei, mas sob um custo enorme. Andei até anoitecer, e não poderia parar tão cedo. Não enquanto escutava a marcha da minha morte, os cães que comeriam minha carne. Então continuei, até já não ouvir barulho algum que não fosse do vento e das árvores.

    Sentei-me ao pé de uma, mesmo com frio não acendi fogueira, e mesmo com fome. O cansaço me ganhava e mantinha-me ali. Meu corpo estava pesado, meus pés doíam, e meus olhos… estavam vermelhos e repletos de lágrimas.

    — O que foi que eu vi lá? — Perguntei entre soluços e lágrimas.

    — Meu passado…

    — E o que você viu?

    — Nada… para mim, tudo estava escuro e confuso. Em chamas dolorosas e me desfazendo.

    Meu choro aumentou, pois foi o mesmo que eu havia sentido. O pior trauma até então, e que fazia minhas mãos tremerem, e os dentes rangerem só de lembrar. Mas tinha algo ainda pior…

    — Foi você que fez aquilo, não foi? Você que os matou daquele jeito!

    — Não, isso foi você…

    — Mas eu não poderia, eu nunca fiz isso antes…

    — Ainda assim foi você. E foi… necessário.

    “Necessário” ele disse, o que há de necessário em tirar uma vida? Que valor teria uma se a morte não significasse algo? Eu matei, roubei e fugi — não por coragem, mas pela ganância de pôr minha vida sobre outras. Devo ter saído de mim…  deixado que ele tomasse o controle.

    — Não precisa se culpar pela morte deles. Toda pequena criatura ao ser encurralada por uma fera tem direito a se defender. Eu posso ter impulsionado as coisas, mas…

    — Você impulsionou o que?! Então foi você! — Me levantei e apontei para o espírito

    — Fomos nós! Você queria viver, eu só dei uma força! Estamos conectados em almas, minha força é a sua força, seus sentimentos são os meus, seus impulsos são as minhas ações. Assim, como o contrário também existe — exclamou.

    Eu o odeio, um “impulso”. Porém, como eu poderia manusear uma faca daquele jeito? Foi tudo muito rápido, mas foi como se…

    — Você soubesse lutar. Quando duas almas se conectam, suas mentes também, mentes possuem conhecimento e experiência. Então…

    — Sai da minha cabeça! — Disse enfurecido, e tentando agarrá-lo.

    Não havia o que pegar, então apenas caí. Estava só, no escuro e no silêncio, a fome não pegava mesmo leve, então sai em caminhada. Um espírito que em apenas um dia me tirou tudo. Agora tentava me consolar e ser meu guia. Invadia minha mente a seu bel prazer, turvava minhas decisões, impulsionava minhas ações. Passei a ter ódio dele, e de mim mesmo. 

    Encontrei algumas frutas silvestres mais adiante, torci para que estivessem envenenadas. Quando olho para o caminho que fiz até aqui, lá no fundo me lembro de situação similar… meus pais com fome, entraram no bosque e pegaram algumas frutas, comeram e morreram. Ficaram sumidos por alguns dias, quando acharam os corpos, constataram que só poderiam ser alérgicos, já que os frutos daqueles arbustos eram usados na produção de álcool. Será que também morrerei assim? O que diria aos meus pais caso encontrasse eles? Se é que os encontraria… morte por estupidez não é pecado, mas assassinato não se confessa com desculpas — e o inferno não perdoa facilmente.

    Encontrei um espaço para descansar e ali passei a noite. Acordei algumas vezes na madrugada, mudei de lugar sempre, na última, vi que não muito longe havia uma fogueira acesa, então não poderia dormir mais e segui adiante. Precisava de um curso, e de um plano. Não sabia montá-los, então comecei a imaginar como seria minha vida nesse bosque; fugindo dos caçadores, montando uma casa na árvore, comendo pássaros. Seria uma vida péssima, então eu tinha que voltar no: para onde fugir e como fugir.

    — Eu tenho uma ideia…

    — Para de ler minha mente e me deixe em paz!

    — Eu não leio sua mente, o que você pensa ecoa em mim. E escute…

    — Não quero!

    O espírito então se materializou à minha frente. E cobriu toda minha visão, sua aparência estava diferente da regular. Normalmente ele veste uma armadura brilhante e tem uma capa rasgada nas costas, a ombreira esquerda está quebrada, e tem uma bainha sem espada na direita; seu rosto também é apagado. Porém, ele estava fragmentado, com uma escuridão crescente aflorando de seu coração, e não só o rosto estava apagado, como suas outras características estavam se apagando.

    Ele insistiu em ficar a minha frente um bom tempo, e eu, teimoso, continuei andando. Até dar com a cara em uma árvore. Enfim cedi e deixei-o falar.

    — Como pode ver, nossas almas estão se fragmentando. Elas foram feridas naquela tentativa de exorcismo. Por sorte, esse bosque é especial. Há anos vim aqui em busca de fadas e seus conhecimentos, então fui transformado em inseto por um demônio… podemos encontrar as fadas e pedir cura para elas. Depois posso te guiar com segurança até Björn.

    — Não preciso disso, no que vejo só sua alma está assim. E fadas são espíritos imundos como você!

    — Vou falar calmamente contigo, pois você está muito emotivo. Minha alma reflete a sua, e um ferimento na alma significa morte caso não seja tratado. Você também não irá nem para o paraíso e nem para o inferno após a morte. E a dor que você vai sentir quando sua alma se desfazer, é mil vezes pior do que a que você sentiu mais cedo.

    Por mais que não quisesse seguir os conselhos dele, esse espírito me pôs contra a parede. Não queria morrer eternamente, nem sentir aquela dor de novo, e nem ir para Björn. Mas se eu vivesse mais tempo ainda daria para me redimir dos pecados e, quem sabe, não ir para o inferno. Talvez eu pudesse barganhar meu perdão com a Coroa, e me entregar em serviço militar não remunerado ao invés da pena capital. As possibilidades existiam enquanto eu estivesse vivo.

    Como o espírito mandou e ensinou, segui pelo bosque recitando versos e clamando pelas fadas. Fiz isso por muito tempo, até perceber que já havia passado pela mesma árvore umas três vezes, olhei para trás e estava um breu. Voltei meu olhar para onde antes estava, e tudo ao meu redor estava um breu. Segui andando, o espírito disse que não era para ser assim, e me culpava de ter feito algo errado. Então vi uma luz, uma chama roxa, e um grande salão vazio, com tapetes vermelhos estirados pelo chão. Ao fundo daquela sala havia uma sombra, e a sombra se converteu em um monstro. Não muito maior que eu, mas com garras afiadas e face horrenda. Me era familiar…

    — Foi ele! Ele quem me amaldiçoou há cinquenta anos…

    Eu tinha duas armas: uma lança e uma espada. Ambas roubadas e não sabia usá-las direito. Eu só sabia que, se aquela coisa à minha frente tivesse derrotado o Espírito que me perturbava, então eu não tinha chance alguma.

    — O que eu faço? — perguntei, enquanto encarava a criatura.

    — Afaste-se. Use a lança. Confie em si. Você já sabe lutar. Minhas habilidades estão em você.

    A criatura avançou. Mantive a lança à frente do corpo instintivamente e, incrivelmente, a guarda se provou sólida. As garras vinham alternadas, rápidas, e eu apenas reagia — um movimento para cá, outro para lá, sempre recuando. Cada passo para trás correspondia uma batida do coração, e eu desejava que este continuasse batendo.

    A criatura pulou sobre mim. Levantei a lança acima da cabeça. Madeira contra algo que não conhecia limites. O estalo foi seco, farpas furaram meus dedos. A lança se partiu, e eu me joguei no chão antes que o impacto me partisse junto. Rolei por baixo da criatura, quando me levantei saquei a espada da cintura, e cortei para cima.

    A lâmina passou pelo braço esquerdo da criatura, e esta, sangrou. O sangue era negro, viscoso, nojento. Acreditei ter vencido, mas ainda restava um último golpe. Ataquei de cima para baixo, e teria partido a criatura ao meio, se ela não tivesse esquivado. O contra-ataque veio antes que eu pudesse reagir, mas ainda pude defender ao custo de minha guarda. Outro ataque veio, e dessa vez foi meu braço que se partiu.

    Olho por olho, braço por braço. Porém ainda não o havia perdido totalmente, estava pendurado por um pouco de carne e pele. O osso estava exposto, e sentia os fragmentos internos arranhando uns nos outros. As garras também haviam cortado veias e artérias, agora a luta também era contra o tempo.

    Está tudo bem! — Disse o Espírito desesperado — Apenas se mantenha firme!

    Firme. A palavra soou distante. O medo da morte abafou a dor, mas coragem não era meu aliado, mas o rival da coragem era: o Desespero. A criatura sorriu. Sombras surgiram ao redor, rápidas, atacando de todos os lados. Eu mal enxergava. Defendia como podia, sentindo cortes no rosto, no tronco. Com sorte, atingi uma, depois outra, depois outra… até não restar mais sombras.

    Não houve tempo para alívio. A criatura veio por cima outra vez. Aparar não foi o bastante novamente, e dessa vez perdi a espada. Procurei a faca na cintura, mas ela já estava perto demais. Defendi-me usando o braço esquerdo, e a criatura o mordeu e puxou para si. Senti as presas furando a carne e os ossos, o tranco da puxada deslocou as juntas do braço. Meu cotovelo cedeu. O ombro saiu do lugar. A dor surgiu pior que a fratura anterior. O sangue continuava correndo, e comecei a ceder ao desmaio. 

    A ponta da lança estava próxima de mim, e eu já estava de joelhos lutando para não ser arrastado pela criatura. Consegui pegar essa ponta com a boca, e com muita força de vontade, puxei meu braço esquerdo para mim, o impulso fez com que a ponta perfurasse o olho da criatura. Suas garras cravaram em meu peito, mas já estava morta. E eu finalmente cedi.

    Enquanto perdia a consciência, tive visões. O sangue negro do demônio morto e o meu se misturavam no chão, e não havia diferença entre eles. Estava a caminho de me tornar monstruoso, se é que já não tinha tornado. Vi o rosto da criatura se tornar o do clérigo, e o sangue ao chão formava a silhueta dos soldados. Aos poucos escurecia, e logo não tinha mais consciência…

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota