Abri os olhos, estava deitado em uma cama de flores no pé de uma árvore. O espírito estava materializado à minha frente, e não estava mais fragmentado. Fechei meus olhos, vi o rosto do demônio, lembrei de estar caído e morrendo. O susto me fez acordar de vez. O espírito, pedia para que eu levantasse e agradecesse minha salvadora. Não vi razões para discordar, e assim o fiz. Enquanto seguia as fadas — que mais pareciam com pequenas pessoas nuas e de orelhas pontudas —, fui conversando com aquele espírito, questionando-o.

    — Quanto tempo fiquei desacordado? 

    — Alguns dias. Seus ferimentos demoraram para curar, mesmo com a magia das fadas.

    — Fadas né…?

    Olhei ao redor, estava cercado por tantas, cada uma com sua cor dominante e aura brilhante. Quando passavam em frente meus olhos, cegavam-me com tanta luz. Ainda assim, me davam impressão de paz, me faziam esquecer os problemas que passei e dos quais fugia.

    — Ainda não estou certo do que pensar de ti — Disse.

    — Pois não pense… não valho o tempo. Apenas confie no que eu disser, e tire suas conclusões a partir dos resultados.

    — Talvez eu faça assim. Mas conhecê-lo ajudaria. Uma vez perguntei seu nome e você me disse que não lembrava. Por acaso se lembrou? 

    — Ainda não…, mas me chame de Sagi. Aparentemente esse é o apelido que as fadas me deram cinquenta anos atrás.

    Assim chegamos em uma grande árvore, uma que ia até os céus em tamanho, e brilhava com folhas de cores variadas. Uma porta se abriu no meio desta, e seguimos. Mais adentro havia um grande salão, semelhante ao que estava quando enfrentei o demônio, mas esse tinha uma boa iluminação e parecia vivo. Chegamos a uma câmara, nela estava uma grande fada, Soljus, a Chefe das Fadas. Tinha uma aparência infantil, como uma menina; vestia-se com rosas, e possuía grandes asas coloridas; seus cabelos eram rosa e os olhos amarelos.

    — Como estás Sagi?

    — Bem obrigado.

    — E teu hospedeiro?

    Demorei um pouco até perceber que ela estava falando comigo.

    — Eu estou bem, só não gostei das cicatrizes.

    — Nossos poderes estão fracos desde que fomos seladas, então fizemos o que podíamos. Não sabes como somos gratas, então aceite este presente. 

    Uma luz surgiu da mão de Soljus, e assim que pus minha mão sobre a dela, um selo se formou. Assim, recebi o poder de uma lança espiritual. Segundo a fada, eu poderia invocar uma lança indestrutível, e o poder dessa estaria conectada apenas a quantidade de Mana e minha força de espírito.

    — Uma pena não termos conseguido reverter sua fusão de almas… O máximo que conseguimos fazer é atrasá-la.

    — Que fusão? — Perguntei.

    Sagi, quis interromper, mas eu insisti na pergunta. Soljus, não fez questão de esconder e me explicou: “Há nesse mundo três fusões de alma. Mas vou focar na sua que é a fusão por magia negra; demônios e feiticeiros malignos usam estas para absorver poderes de grandes guerreiros. Quando Sagi foi amaldiçoado pelo demônio, a intenção era consumi-lo, porém, o espírito de Sagi é muito forte. A força do espírito também determina quem absorve quem, então o demônio deixou Sagi livre. E como você comeu o hospedeiro anterior do Sagi, agora sua alma e a dele estão se fundindo”.

    — Não entendi direito — afirmei.

    — Vou simplificar: sua alma está sendo absorvida pelo Sagi, e logo você deixará de existir e será apenas ele no controle do seu corpo.

    Olhei para Sagi confuso. Estava começando a me permitir aceitar ele, mas devia ser só o ambiente pacífico do lar das fadas. Voltei a ver as coisas como elas eram, aquele espírito estava apenas tirando tudo de mim aos poucos. E claro, saí enfurecido da presença da Grande Fada, ainda que tivesse feito de forma educada. Fora da Térvore, tive uma discussão com Sagi.

    — Você sabia disso?!

    — Sim — Respondeu Sagi.

    — E por que não me contou?! Esperava me contar mais tarde quando eu estivesse completamente absorvido?!

    — Não eu… só não queria que você desconfiasse de mim. Sei que é assustador, mas, eu não quero absorver você. Então pensei em fazer tudo em segredo. 

    — Grande ideia! 

    — Olha, quando chegássemos à Björn, poderíamos perguntar a Stella o que fazer!

    — Quem é essa?!

    O espírito não respondeu, se fez a mesma pergunta. Quem é Stella? E o que ela poderia fazer? Sagi ficou quieto pensando algum tempo, eu continuei andando. Eventualmente me cansei de procurar uma saída daquele lugar, daquele bosque encantado e, sentei-me à margem de um lago púrpura. E então Sagi pareceu querer falar algo, quando olhei para ele, seu rosto já não estava apagado. Suas feições eram de alguém com meia idade, cabelos ruivos e barba cheia; olhos verdes, um homem realmente bonito. Quando me olhei no reflexo da água, estava longe de me comparar. Meus cabelos eram negros e olhos também; minha barba dura e cheia — dura de crescer e cheia de falhas; agora eu também tinha cicatrizes nas maçãs do rosto. A aparência dele podia ser heróica, mas a minha estava longe de ser.

    Logo ele voltou a falar, disse ter lembrado porque ele queria tanto voltar para Björn, e quem era Stella.

    — Stella é a Grande Maga de Björn. E eu vim até esse bosque para buscar isso: 

    Então ele me mostrou um pergaminho espiritual, que havia sido pego quando veio aqui. O pergaminho para mim era ilegível, fora algumas runas que entendi ao acaso. Só não entendi por que conhecia aquelas runas.

    — Olha Piscis, não quero te levar para um caminho de dor e sofrimento. Se você me ouvir podemos viajar até o Norte, até Björn. Claro que vai haver dificuldades, nunca é uma viagem fácil por esses reinos intermédios. Acredite, em Björn minha missão se acaba, e você será livre. Talvez até te recompensem, e você viverá uma vida cheia de fartura de lá em diante.

    Essas palavras foram plenas, não havia segundas intenções em sua expressão, pelo menos não senti. Eu queria sair do Reino das Fadas o quanto antes e terminar isso. A recompensa me atraiu. Seria um sacrifício, iria me expor a uma trilha dificultosa de atravessar, mas no fim eu seria recompensado. Em paz, e poderia usar o tempo livre para me redimir de alguma forma. Sagi então decidiu que eu deveria treinar. O intuito era enfrentar possíveis monstros que eu encontrasse pelo caminho. Suljus pediu para que ficássemos mais algum tempo em seu reino. Já que temia estar muito fraca para defender sozinha. E assim foi…

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