Capítulo IX: Espelho quebrado
Eu e Gryiejörn nos levantamos cedo, eu por insônia e ele já não sei. Estamos em uma pousada no extremo sul de Jarmont, há uma coisa chamada “neve” por toda parte, além de ser uma região muito fria. De noite sofri muito com os ventos gelados que vinham de todas as partes, mas esse não foi o motivo da insônia. Como sempre, só consigo sonhar com os terrores que vivi, com as vidas que ceifei, e por mais que eu acreditasse ter superado o medo que sentia daquele demônio que enfrentei, nas últimas missões, tenho sofrido de um aperto no peito sempre que algo me lembra aquilo… não consigo respirar direito, não consigo parar de tremer, ontem houve um caso assim e Gryiejörn me tirou de lá às pressas. Taerdus questionou o que eu tinha assim que chegamos nessa pousada, mas não insistiu muito, principalmente ao ver meu rosto pálido e lágrimas…
Tomei café, e ia sair para treinar um pouco, tentar me abstrair, cumprir uma das dicas que Sagi me deu. Porém, as camareiras prepararam um banho para mim — a pedido do Gryiejörn —, acabei aceitando por já achar que eu precisava mesmo de um. Após o banho, enquanto eu me vestia, encarava o espelho tentando gravar as feições de meu rosto, tentava de alguma forma tentar reconhecer o garoto que eu era, isso porque minha face havia mudado… tinha cicatrizes novas, tinha marcas de expressão, não tinha felicidade no olhar…
Estava ali me encarando, até que tossi um pouco, talvez por conta de uma febre… então tossi mais, pus a mão frente a boca e quando parei de tossir, limpei a mão na camisa branca, apenas para ver no espelho uma mancha vermelha nesta. Olhei minha mão e nela também tinha sangue. Minhas pernas cederam, tentei segurar-me em algo, mas havia apenas um espelho próximo… quando apoiei-me nele, este caiu e quebrou comigo. Antes que eu perdesse a consciência, vi meu rosto fragmentado entre os cacos de vidro, sangue escorrendo a cada respiração, e Gryiejörn corria para me socorrer.
Acordei, estava em minha cama na pousada, um senhor de idade muito avançada estava me examinando. Não encontrou nada errado comigo fisicamente. Taerdus e Giulia haviam saído para buscar trabalho, e o Elfo estava ao fundo do quarto roendo as unhas enquanto esperava o médico dar a notícia. Quando o senhor foi embora, Gryiejörn sentou-se ao pé da cama, perguntou-me o que havia acontecido.
— Nada com que se preocupar.
— Como não vou me preocupar?! Te encontrei desacordado com a boca ensanguentada e um caco de espelho quase perfurando seu olho! — Disse Gryiejörn, preocupado até demais.
Fiquei em silêncio… eu tinha uma breve ideia do que poderia ter acontecido. E mesmo assim quis perguntar para ter certeza:
“Isso foi causado por você?” Pensei.
“Não, por nós… quanto mais você se enrola com suas aventuras, minha alma absorve a sua, e os efeitos colaterais surgem. Deu sorte que você tossiu só um pouco de sangue, a próxima vez vai doer mais” Respondeu Sagi.
O Elfo, questionou meu silêncio, sacudiu meu corpo. Talvez pensando que eu havia desmaiado de novo, saiu correndo em busca do médico. Eu estava apenas em silêncio, tentando evitar respostas que trouxessem essas pessoas ao meu mundo. Eles tinham vidas que eu gostaria de ter, e as aventuras que tivemos nas últimas semanas mostram isso. E como gosto de lembrar de nossas aventuras…
A primeira foi logo após que nos juntamos. Saímos da pousada e cavalgamos até uma vila que ficava à sudoeste de nosso ponto de partida. Era uma vila que ficava próxima a um bosque mágico — minha especialidade —, a missão que deram para nós era para matar um enorme espírito maligno. Ele se manifestava como um grande animal com chifres, e incendiava o bosque e as casas próximas. Antes de aceitarmos a missão vi os corpos carbonizados das vítimas, acabei me lembrando do rosto do homem em chamas no incêndio de Galvênia.
— Que horrível! Que tipo de monstro teria coragem de queimar outro ser vivo dessa forma? — Disse Gryiejörn.
“Não sei, talvez um muito apaixonado” Pensei.
— Realmente é lamentável… iremos caçar esse monstro e matá-lo por seus crimes — Disse Giulia.
Avançamos até o fundo do bosque e montamos uma vigília. Taerdus não parava de flertar com Giulia, mas ela não dava muita bola. Quando a lua marcou seu ponto mais alto, vimos brasas ficando mais densas e luzes fortes vindo de mais para o fundo do bosque. Era uma enorme criatura de quatro patas, presas enormes, e uma coisa que balançava em frente ao seu rosto como uma cobra; soltando chamas por todas as partes de seu corpo, até de suas grandes orelhas.
A caçada foi rápida e barulhenta. Gritos, fogo, ordens sendo lançadas no escuro. Sagi discordou do meu ataque, mesmo assim avancei. Quando tudo acabou, o espírito estava morto, e eu, queimado o suficiente para lembrar que ainda sentia dor.
— Eu já tinha visto as cicatrizes em seu rosto, mas essas que você tem no corpo são horríveis… — Comentou Gryiejörn.
— Tem que ver as que não são visíveis… — Disse.
— Você passou por muita coisa, não é? Me diga, de onde vens de verdade? — Perguntou, enquanto passava pomada em meu abdômen.
— Reino de Dartélia…
— Aquele que não permite forasteiros antes de uma benção esquisita?
— Esse mesmo.
— Por acaso é um criminoso de lá? — Perguntou, passando pomada em minha clavícula.
— Posso confiar em você?
Ele parou de passar pomada e olhou nos meus olhos. Aqueles olhos azuis, tão azuis quanto o céu. Ele segurou minhas mãos.
— Pode confiar — Disse ele, o mais sereno possível.
— Então prove, me conte de você antes — Falei enquanto desgrudava minha mão das suas.
— Tudo bem… quem está sendo invasivo sou eu de qualquer forma… sou do extremo norte, diferente da maioria dos elfos que vem do Reino Élfico. Nasci em uma vila miscigenada que ficava próximo à Escola de Björn, no Reino de Ragnürk — Contou, enquanto voltava a passar a pomada em meus braços — Não sou totalmente elfo, minha mãe era uma elfa, meu pai era um glutão nórdico alto e loiro. Por sorte puxei mais a minha mãe na aparência.
— Continue — Pedi.
— Não, agora é sua vez.
— Justo. Nasci em uma vila pesqueira, perdi meus pais, fui criado por meu avô. Agora estou aqui.
Gryiejörn pediu que me virasse, para que ele pudesse passar pomada em minhas costas.
— Você não sabe contar uma história — Disse rindo — Muito bem. Meu pai queria que eu fosse um guerreiro como ele, mas eu não levava jeito para a coisa. Por sorte descobri meu talento como ladrão, assim fui treinado para ser um ladino. Papai não tinha muito orgulho de mim, mas mamãe sim — Ele contava, enquanto massageava minhas costas com a pomada — Papai era tão briguento, que um dia morreu por isso. Mamãe passou a depender dos meus roubos para nos mantermos, até o dia que fui pego. Iriam cortar minha mão, mas ela ofereceu a vida no lugar. Fui expatriado de Ragnürk, e foi num bar que conheci Giulia, só mais tarde Taerdus se juntou a nós. Sua vez.
Eu fiquei mal por ele. Gryiejörn era um homem bom e cuidadoso. Não merecia a vida que tinha, não tinha crimes verdadeiros como os meus. Assim que ele terminou de contar sua história, me virei para ele, e disse:
— Sinto muito, eu sou um criminoso. Um bem perigoso… — Levantei-me, pus a camisola e fui para meu quarto.
— Eu sei. — Disse Gryiejörn, mas não olhei em seu rosto.
Alguns dias passaram rápidos demais para serem lembrados, e longos demais para serem ignorados. Comprei uma armadura numa grande cidade, e na mesma tinha um pedido para expulsar uma espécie invasora. Giulia ficou especialmente animada por essa missão. Taerdus por outro lado temia o inimigo que iríamos enfrentar.
— Licantropos? — Perguntei.
— Sim, são uma espécie semi-humana como os elfos, só que esses são bem mais agressivos — Disse Taerdus.
— São só animais, não há com que se preocupar — Disse Giulia.
— Sabe que eles possuem uma civilização moderna do outro lado do oceano, não é? — Atorquiu Gryiejörn.
— Não importa, os elfos também possuem uma e mesmo assim não se comparam aos humanos em tecnologia. Acha que vou me importar se um bando de peladões vivem no novo mundo? — Disse orgulhosamente Giulia.
Durante a missão, tive um susto quando um dos licantropos me atacou. Tanto seus movimentos, quanto sua ferocidade, me lembravam o demônio que enfrentei no Bosque dos Espíritos Perdidos. Porém teve algo que me chamou mais atenção, e não era sobre meu inimigo em si. Giulia atirava suas flechas sempre nos braços e pernas, e ria a respeito. Tive pena daquelas criaturas, mas no fim eles realmente precisavam ser expulsos, estavam matando civis inocentes e roubando mercadores viajantes. Graças a nova armadura não tive grandes ferimentos.
Após o combate comemoramos na taverna, e a noite terminou quente para Taerdus e Giulia. Tão quente que podia ouvir os barulhos do fim do corredor. A cidade possuía um grande muro, eu o escalei e planejei passar o resto da noite pairando as estrelas. Aquele já não era o mesmo céu de Graviotti, e nem era tão lindo quanto o do Reino das Fadas. Lembro-me que aquele céu tinha uma onda verde que dançava entre as estrelas. Me pergunto se ainda vou rever algo parecido.
— Também não conseguiu dormir? — Perguntou Gryiejörn, que como sempre estava por perto.
— E tem como?
Ele riu, sentou-se ao meu lado e passou a olhar as estrelas. Também se lembrou de um céu especial, um que sua mãe lhe contara histórias. No Reino Élfico havia um céu repleto por luzes diversificadas. Não como as ondas no Reino das Fadas, mas sim uma infinidade de estrelas que desenhavam o céu com suas cores e formatos diversos. E após contar isso ficou em silêncio.
— Sabe o nosso último companheiro. O anterior a você — Voltou a falar — ele não era tão forte. Mas tinha esse semblante de alegria, igual ou maior que o de Taerdus.
— Você gostava dele?
— Eu o amava… como um irmão — Por um momento ele disse e se corrigiu — e assim como você ele carregava tristeza, só não deixava transparecer como você.
— Não acabou de dizer que ele parecia alegre?
— Pessoas são mais complicadas que isso… um sorriso pode ser facilmente manipulado e esconder um coração aflito. Pessoas que precisam se mostrar alegres o tempo inteiro, são as que mais escondem esse sentimento.
— Então Taerdus é triste?
— Ele tem seus problemas, mas se faz de forte. Um grande homem não pode chorar, ele tem que ser o exemplo — Respondeu Gryiejörn — Pederus não era aceito como gostaria, mas eu o acolhi.
— Eu sou tão perseguido nesse mundo…
— Então deixe que eu te escondo — Disse Gryiejörn, segurando minha mão.
Acabei ficando envergonhado com o gesto, e novamente desgrudei minha mão da dele. Voltamos à pousada, e com cada um para seu quarto, dormimos. Na manhã seguinte partimos em viagem, mas não alcançamos outra cidade ou vila antes do anoitecer, então montamos acampamento dentro de uma floresta. Precisava urinar, então entrei mais fundo na floresta e acabei encontrando um lago. Como também precisava de um banho, retirei minha armadura e me despi. Estava tomando a luz do luar, quando senti uma mão alisando minha cintura.
— Que porra é essa?! — Gritei, me virando, mas era só Gryiejörn.
— Opa! Sinto muito, vi você tomando banho e pensei em me unir — Disse ele, ainda com suas mãos em meus ombros.
Essa situação não me parecia normal, estava mais envergonhado com isso do que com os banhos que tinha com Cleonice. Gryiejörn me contava algumas curiosidades sobre a região em que estávamos, sobre o lago, a lua e as estrelas. Contava, enquanto esfregava minhas costas. Ele então voltou aos meus ombros, e foi descendo suas mãos ao meu peito, abdómen, pélvis…
— Acho que posso me limpar sozinho daqui… — Disse envergonhado.
— Eu posso te ajudar, sabia? E depois você pode me ajudar também — Disse em meu ouvido, seu maxilar roçava em meu pescoço e seu queixo se apoiava em meu ombro.
Gryiejörn era levemente mais alto que eu, mas não era mais forte nem mais habilidoso em combate. Ainda assim, senti um enorme terror dele e da posição em que estava. Eu confiava nele, sabia que ele não pensava em me machucar. Porém não queria isso dele, e mesmo assim fui deixando… não, eu já havia deixado muito tempo antes, quando permiti que ele cuidasse de minhas queimaduras; quando contei a ele que eu era um criminoso. Pouco a pouco fui me entregando, agora ele estava ali para tomar o que era dele.
— Eu quero que você se sinta bem — Disse, acariciando-me em minhas partes — Dizem que no Reino Élfico, é normal que um homem mais velho seja uma peça fundamental na formação social e intelectual de um mais novo. Nós já somos assim. Preciso te ensinar tudo que sei, incluindo o que estamos fazendo agora.
Ele puxou meu rosto com a mão desocupada, e forçou-me um beijo. Na verdade, não me forçou… não é forçar se eu não resisti. Passamos boa parte da noite juntos naquele lago e, pela manhã, agimos com normalidade na frente de Giulia e Taerdus. Continuamos a seguir até o Sul, e finalmente chegamos cá estamos agora. Agora, só me resta saber o que vem a seguir…

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