Três dias se passaram. Foram dias ótimos, Cleonice e eu planejávamos nossa fuga. Ela me mostrava a cidade, pontos históricos e lojas; também becos e atalhos para usarmos no dia predestinado. Apesar da seriedade de nossos planos, ela não perdia o bom humor, e contava piadas e brincadeiras. As quais eu ria, e tentava dar resposta tão engraçada quanto, mas não tinha dom para a coisa. Sagi, me repreendia constantemente. O pesar do fardo que carregava me fazia ter apertos no peito, e palpitações irregulares. Mas Cleonice, e seu sorriso, ajustavam meu batimento irregular. Claro, ela já não era uma amiga, e sim refúgio. Nos banhos, tentação. Tomávamos juntos, talvez porque ela queria fazer ciúmes ao pai, que temia pelo casamento. 

    Zabavus voltou a ameaçar-me, agora sem tom humorístico como anteriormente. Suas suspeitas eram justificáveis. E não ousava torná-las reais, pois ele havia dito que faria um exame pré-nupcial. Naquele momento, estava satisfeito com a nudez compartilhada, por mais que não uníssemos nossos corpos de fato. Por alguma razão, o fato de ser proibido me atraia ainda mais, e me prendia com as fantasias de mim e Cleonice em Björn ou qualquer lugar que fosse. 

    Mas era hora de focar de fato. Então hoje evitei sair com ela para a preparação, e me atentei às opiniões de Sagi.

    “Acho uma perda de tempo levar essa mulher” Disse Sagi “se o pai quer que case, então que case. Não nos diz respeito!”.

    “E deixá-la viver em um casamento infeliz?” Pensei. 

    “Que seja! Temos problemas maiores a serem resolvidos. Para começar, as provas do seu crime estão largadas ao lado de uma saída de esgoto” Disse Sagi.

    E ele tinha razão, devia voltar de alguma forma para a saída leste de escoamento. Em prol de também explorar o caminho oeste, durante a noite, ignorando o toque de recolher; fui até uma fossa que Cleonice jurava estar conectada com a saída oeste. Antes de pular na fossa, prendi uma corda que peguei na taverna e desci, estava finalmente nos esgotos. O caminho aqui era mais amplo, e seguindo o caminho declinado, cheguei ao rio, onde limpei minhas roupas ao me atirar nele para atravessar. Doutro lado da cidade, peguei minhas coisas. Possuía minha espada, amuletos e ouro novamente. 

    “Agora devemos ir até o bosque e falar com as fadas” Disse Sagi.

    Ao chegarmos no bosque e entrarmos em seu reino, as fadas nos receberam felizes. Sagi propôs um acordo, ajudaríamos as fadas a se reconectarem com os homens, e elas nos ajudariam com uma distração.

    — Por que vocês querem se reconectar aos homens? — Perguntei.

    — Os homens são a fonte de poder delas — Respondeu Sagi.

    — Sim, é como ele diz. Por gerações, os homens desta terra e as fadas viveram em harmonia — Disse Soljus, a Grande Fada — Mas há cinquenta anos que essa harmonia foi rompida, quando a religião predominante de seu reino não só expulsou os espíritos malignos, como também nos expulsou. 

    — Você disse que estava selada. Não quer dizer que… — Eu dizia.

    — Os clérigos de sua fé nos selaram — Interrompeu Soljus.

    Ela me contou toda a história sobre a perseguição religiosa contra as fadas e qualquer outro tipo de espírito. O reino de Dartélia, o reino onde eu vivia, aderiu uma religião oficial cinquenta anos atrás. Os humanos, as fadas, e outros espíritos benignos conviviam em paz, mas foram separados por essa religião. Fadas que haviam vivido por séculos juntos das famílias antigas dessa terra, passaram a ser vistas como más pelos humanos em que confiavam. Muitos pareciam ter mudado suas opiniões do nada, logo após receberem a benção de expulsão dos espíritos.

    — Seus clérigos então selaram as conexões entre nosso Reino e o seu. Uma criatura maligna se aproveitou disso, passou a sugar nossos poderes, e pouco a pouco muitos de nós perecemos à fraqueza. Na época, o único que oferecia ameaça ao demônio, e que estava entre nós por estudo de nossa sabedoria, era Sagi. Desprevenido, o demônio conseguiu conjurar a maldição e tornar Sagi um espírito num corpo irracional. Até você romper o ciclo e iniciar uma fusão com ele — Terminou Soljus.

    Fiquei pasmo com essas revelações, por mais que minhas opiniões sobre as fadas fossem divididas. Do ângulo que fui exposto, elas pareciam as vítimas aqui. Saindo do bosque e retornando pelo escoamento oeste, consegui retornar a pousada com todos os meus bens. E dormi pensando sobre tudo que havia ouvido. Claro que essa exposição me tirou do campo dos sonhos eróticos e meus pesadelos voltaram.

    Na manhã seguinte, o desjejum estava amargo, e não era o vinho. Cleonice estava quieta, aflita… seu pai me fitando com ódio no olhar. Eu também não estava em bom temperamento, muito pela noite que tive. O contraste eram os irmãos menores que brincavam com a comida.

    — Merdeiro… — Disse Zabazus — quero que saiba que o noivo de minha filha chegou e já está na cidade. Hora do seu acerto…

    Cleonice não havia me dito nada sobre, mas pela expressão depressiva em seu olhar para o vinho, deve ter sido uma surpresa a qual deixou sem sono.

    — Minha filha me disse que vocês haviam combinado vinte moedas de prata por dia — Disse Zabazus — eu sequer ganho isso por dia na taverna, mas sou justo, e combinado é igual juramento…

    Ele pôs sobre a mesa um total de cem moedas. Cem dessas equivaliam uma de ouro — pensar que eu tinha sessenta dessas de ouro que roubei do clérigo.

    — Mas antes de você por seus dedos nojentos — Continuou — dedos de catador de merda. Vamos as somas dos descontos: duas moedas de prata por noite que você dormiu lá em cima; duas moedas pelas três refeições que teve por dia; duas moedas por banho que teve; cinco moedas pela grade do esgoto que quebrou; quinze moedas pelas roupas que está usando; cinco moedas pelo corte de cabelo que eu devo ter pago também…

    — Cinco moedas é demais! — Interrompeu Cleonice.

    — Cale-se! Estou fazendo as contas do seu amante aqui! — Gritou e bateu na mesa Zabazus — Isso me lembra… cinco moedas para o exame pré-nupcial; e quinze para os soldados que irão te castrar — Soltou um leve riso sádico — se você realmente não tiver desonrado minha filha, talvez eu não gaste com os soldados.

    Ele então empilhou as vinte e cinco moedas restantes. Chamou-me para buscá-las, mas antes que pusesse minhas mãos, ele derrubou todas ao chão. Abaixei para recolher e ele passou a bradar: “Isso! É isso o que você é Merdeiro, um reles catador de merda! Vá catar as moedas como faz com a merda dos outros!”.

    — Não faça isso! — Gritou Cleonice para mim — Pai você não deveria humilhá-lo assim!

    — Eu faço o que bem entender sua megera! — Gritou e se levantou Zabazus — Você é como sua mãe, uma pilantra, uma safada, uma desonrada. Se não fosses minha filha… não… se não fosses se casar com aquele nobre já teria à matado como fiz com sua mãe!

    Os irmãos menores começaram a chorar, uma briga se estendeu entre pai e filha. Peguei minhas moedas e subi para buscar minhas coisas. Escondi a espada dentro das calças largas do glutão que agora discutia com a filha. E desci, desviando da louça que Zabazus jogava em mim, saí da taverna. Já na praça, andava cabisbaixo, e decidido em cumprir o plano ainda naquela noite. Eu e Sagi já havíamos decidido, porém não tinha certeza de que tivesse coragem de exercê-lo. Cleonice me alcançou pouco após a praça, e me abraçou, em lágrimas, pedindo desculpas pelos ciúmes do pai.

    — Não se preocupe — Disse, confortando e aceitando seu abraço — tenho um plano para essa noite. Nós dois fugiremos, eu a buscarei na pousada…

    Desgarrando um pouco do abraço. Olhei-a nos olhos, seus belos olhos cor de esmeralda, olhos que realçavam seus longos cabelos castanhos. Suas feições femininas, com sardas que atravessavam de uma ponta a outra as maçãs de seu rosto. A face de choro não condizia aquele rosto; o comportamento de se contorcer para a tristeza, não condizia com o corpo esbelto que tinha. A apertei com a mão seus braços, da mesma forma que fiz na cozinha, mas, agora iria beijá-la. Quando aproximei meus lábios aos dela, ela se afastou por inteira de mim, empurrando meu peito e evitando-me.

    — Não, não, não… — Disse se afastando e desviando o rosto — Não entenda mal… eu só não o vejo da mesma forma… sequer sei teu nome verdadeiro… — Já estava totalmente solta e afastada — irei te esperar até meia-noite no quarto que era seu. Só não me esqueça…

    E assim foi embora, retornando à sua casa e me deixando lá. Sagi riu um pouco da rejeição, e perguntou se eu ainda tinha vontade de levá-la comigo.

    — Ainda tenho… — Disse para ele e para mim em voz alta.

    Usei o ouro que tinha e o nome de Zabazus para comprar todos os preparativos da grande noite. Contava em fugir com dois cavalos, um para mim, e outro para Cleonice já que ela sabia cavalgar. A noite seria difícil, e contei com uma fada mensageira para confirmar meus preparativos à Grande Fada. Sairia de lá com Cleonice, e a levaria para Björn comigo.

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