Assim que o sol se pôs, o portão nordeste da cidade estava enfrentando uma manifestação. As fadas haviam induzido os moradores das favelas àquilo. Estava conduzindo uma carroça pela cidade essa hora, soldados passavam por mim, uns a cavalo e outros não. 

    “Como as fadas induziram aqueles moradores?” Pensei.

    “Elas apenas libertaram as mentes que foram lavadas pelos clérigos. E deram a elas a opção de se manifestarem” Respondeu Sagi.

    Foi-me então explicado como a religião do reino usava as bênçãos como forma de controle. E realmente fazia sentido. Talvez só esteja vendo agora por não ter sido abençoado esse mês, mas mesmo que as pessoas deste reino tenham suas falhas; desobedecer a coroa e os líderes religiosos não era uma delas. Aliás, quem são os regentes dessa terra e os líderes e deuses de nossa fé? Nunca ouvi falar de seus nomes, nem o clérigo que vinha de mês a mês à minha antiga vila parecia ter nome — e lembro-me que perguntei a ele no dia em que eu…, mas ele não respondeu.

    Parei minha carroça próxima ao templo da cidade. E ali por perto, fiz os preparativos para a fuga. Feito isso, me restava entrar no templo e matar o Alto Clero. As fadas me pediram isso, era minha forma de ajudá-las com sua reconexão junto aos homens. E mesmo que fosse difícil para mim, aceitei esse trabalho sujo, se isso de alguma forma significasse levar Cleonice comigo. Antes de entrar no templo, Sagi me parou.

    “Tem certeza de que vai fazer isso por uma mulher?” Disse ele.

    — Tenho! — Falei em voz alta.

    Ao entrar, me deparei com aquele salão mais belo que a construção exterior. Adornado com joias e ouro, nove cadeiras ao fundo, sendo a do meio mais alta e mais adornada que as outras oito. Não havia bancos para os fiéis descansarem, já que não se tinha cultos regulares. Esperei, me escondendo atrás de um dos pilares adornados da sala. Sabia que o Clero devia descer. Logo todos os nove desceram tendo a guarda de apenas dois soldados.

    — Acredito que a comoção tenha sido criada por aquele que se rebelou em Graviotti — Afirmou um dos clérigos.

    — Acho que todos pensamos o mesmo… devemos, então, mandar executar todos e torturar os remanescentes para que revelem o rebelde! — Atorquiu outro.

    — Não acho que devemos matar. Podemos usar nossos poderes para acalmar a mente desses homens e fazê-los revelar o divergente por vontade própria — Respondeu mais um.

    — Você é muito pacifista, irmão. Podemos fazer como você diz, mas também devemos punir esses homens por permitirem que suas mentes fossem lavadas pelo filho do demônio — Acentuou outro, e os três que não disseram nada concordaram.

    — Não devemos punir nem matar qualquer um deles. Devemos levar a bênção e acalmar os ânimos. O único que merece punição é o pecador original. — Disse o mais bem-vestido dos clérigos, o Sacerdote do Templo, que carregava seu cedro à mão direita.

    Me revelei para todos ao sair da sombra em que estava. Os soldados me atacaram, e infelizmente foi muito fácil matá-los. Quando ambos os guardas caíram ao chão, todo o Clero olhou para mim, sendo que os sete de classe mais baixa, encaravam-me com terror enquanto o Sacerdote me olhava com fúria. 

    — Eis aqui o pecador! Vós que sois o flagelo dos homens, renda-se e permita ter sua face purificada para as divindades que irão julgar-vos na outra vida — Disse o Sacerdote.

    Diferente dos outros, que estavam aterrorizados e falavam coloquialmente. O Sacerdote estava calmo, e falava com fineza das bênçãos dos deuses e a maldição dos espíritos malignos. Por pouco fiquei comovido com suas belas palavras, quase entreguei-me com fé acreditando nelas, mas minha mente já não era uma, mas sim duas, e a falta de determinação de uma era compensada pela outra.

    Alguns dos clérigos viraram suas costas e tentaram fugir, sequer precisei reagir. Com uma batida do cedro ao chão, aqueles que viraram as costas logo se tornaram estátuas de sal e se desmancharam.

    — Aqueles de pouca fé, virarão suas costas e tentarão fugir. Estes, não são dignos de estar em serviço das divindades — Disse o Sacerdote para os clérigos remanescentes.

    — Então é assim que você lida com as coisas? Curvem-se ou morram? — Eu disse.

    — Como é do desejo dos deuses meu jovem!

    Após esse diálogo, avancei para atacar o Sacerdote. Mas assim que levantei a mão e dei o primeiro passo para frente, ele disse: “vós sois meus escudos”. Todos os outros do clero puseram-se à frente do Sacerdote, e morreram defendendo-o. O sangue daqueles correu pela lâmina às minhas mãos, e respingos em meu rosto e roupas. O arrependimento agora passava a ser protagonista do eco que antes era “fugirmos”. Claro que, meu olhar revelou meus sentimentos. O Sacerdote era ardiloso, usou as mortes para perguntar-me se eu estava arrependido. Eu tentei usar o mesmo contra ele, mas ele respondeu apaticamente.

    — Estes cumpriram seu propósito. Agora tu meu jovem, deve se entregar, a fim de que ainda tenha salvação e dignidade para vida eterna!

    — Nunca! — Gritei.

    Continuei avançando para o Sacerdote, por alguma razão não podia acertá-lo, por mais que atacasse não conseguia atingi-lo. E em dado momento ele pôs sua mão em minha cabeça, e por um breve momento tive novamente toda aquela dor que senti quando o clérigo de minha vila quase rasgou minha alma…

    “Que dor! Eu estou bem? Digo, minha alma se feriu novamente?” Pensei.

    “Não, sua alma e a minha estão intactas, mas acho que ele teve acesso à nossas mentes.” Disse Sagi.

    — Pobre criança… tão jovem… tanto sofrimento — O Sacerdote dizia, e seus olhos se enchiam — Tão cedo perdeste teus pais e o avô que te criou. Há alguns dias vens sendo manipulado por um espírito maligno; mataste homens, servos dos deuses, e fugiste de tua própria vila natal… para então entrar no reino dos demônios, matar o guardião dos deuses que os mantinha presos e libertá-los, para que voltem a se aproveitar dos homens novamente…

    — Sai da minha cabeça seu maldito! — Gritei, e continuei atacando.

    — Minha criança… tu conhecias a verdade, mas a trocaste por mentiras. As mentiras continuaram a multiplicar-se em teu ser, e agora queres contaminar o mundo com elas. Achas que persuadimos nossos fiéis; achas que foste libertado — e que estás libertando outros — quando, na verdade, temes que tuas decisões não sejam as corretas.

    “Não acredite no que ele fala!” Gritou Sagi.

    — Vês este espírito que te acompanha? Este sussurro constante que se disfarça de conselho? Dize-me, minha criança: por que confiarias naquilo que te afastou de tudo o que te era sagrado? — Disse o Sacerdote de peito aberto — Ele se chama de “herói”, mas olha o que fez de ti. Tomou tua vida simples e a reduziu à miséria. 

    Suas palavras me fizeram parar de atacá-lo, eu estava realmente em dúvidas. O Sacerdote parecia ter razão.

    Fez-te estrangeiro entre os teus, perseguidor e perseguido, odiado em um mundo que antes te acolhia — Continuava o Sacerdote — Foi ele quem te ensinou a duvidar, quem te ensinou a questionar os deuses, quem te ensinou a chamar desobediência de liberdade. E agora, quando o peso de tuas escolhas te oprime, ele te promete redenção — mas apenas se continuares a obedecê-lo. Este espírito já confessou, com palavras doces, que aos poucos toma posse de tua alma. E ainda assim mente, dizendo que luta para não fazê-lo. Eis a maior mentira: fazer-te crer que ainda és livre, quando já não consegues decidir sem ouvi-lo. Minha criança… o medo que sentes não é teu. A dúvida que te corrói não nasceu em ti. Tudo isso foi plantado. E somente nós podemos arrancar essa semente do mal. Entrega-te. Cala a voz que te fala nas sombras. Volta ao seio de tua comunidade, onde não precisarás escolher, nem carregar culpas, nem sofrer. Aqui, nós pensamos por ti. Aqui, estarás salvo.

    Talvez o Sacerdote tivesse razão, talvez a dor fosse causada pelo espírito maligno que me cercava, talvez eu devesse abaixar minha arma e ceder a purificação. Eu poderia não morrer, poderia ser mais uma mentira do espírito que me cercava e que me levou até aquele ponto… se não fosse por ele, eu poderia ter mais tempo com Cleonice. Eu deveria me entregar e retornar para a pesca, para meu barco furado e minha rede gasta, minha vila. Para meus vizinhos cujos olhos não queria mais ver. 

    Entreguei minha espada, e fui em direção do Sacerdote pacificamente. Ele me recebeu de braços abertos, abraçou-me e beijou-me a testa. Disse que tudo iria ficar bem, pôs sua mão sobre minha cabeça, e recitou as palavras de poder. A dor de ter minha alma rasgada novamente me atingiu, mas logo passou, pois o Sacerdote não conseguiu terminar de recitar as palavras. Tive uma dúvida no fim, se eu morresse ali, veria Cleonice noutro mundo? Ou ela poderia fugir por conta própria e viver a vida que escolher? 

    Essas dúvidas fizeram o Sacerdote uma vítima assim como eu era. Mas enquanto eu era vítima da incerteza e do arrependimento, o Sacerdote foi vítima da faca que carrega ambas as culpas. Ela perfurou seu plexo solar, seu olhar para mim finalmente tinha medo e confusão, ele abraçou com as suas à mão que segurava a faca, olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Criança maldita…”. Então caiu ao chão sem medo em seu olhar, e nem vida. Meus olhos, por outro lado, estavam repletos de lágrimas, pois ainda não tinha certeza se o que fazia era certo ou errado, mas no momento, toda a incerteza das decisões, e os atos que tomava a partir delas, me levava a uma sanguinolência que eu não desejava…

    Saindo do templo, não olhei para trás, ainda pensei em roubar qualquer bem de valor ali, porém a imagem do que fiz me perturbava e me perturbaria por incontáveis dias. Continuei o plano, havia comprado óleo queimador pela manhã. O mesmo óleo que eu e Cleonice havíamos entregado para seu pai dias antes, mas, agora em quantia o suficiente para incendiar a cidade. 

    Já tinha espalhado um pouco nas casas em volta do templo, e com o que sobrou na carroça iria iniciar o incêndio. Soltei o cavalo, e sem uma pederneira, usei a lança dos espíritos para incendiar o óleo. Foi minha primeira vez usando-a, cada uso iria encurtar o tempo que leva para Sagi me absorver.

    Após iniciar o incêndio fui até Cleonice, prendi meu cavalo em frente à taverna e, olhando para trás já podia ver o incêndio se alastrando. No quarto que antes estava hospedado, encontrei com a minha amada. Ela me abraçou, e perguntou o que eu havia feito.

    — Não há tempo para explicar, vamos embora! — Respondi.

    — Espera! Para onde vamos? E esse sangue?! — Perguntou novamente.

    — Os portões vão se abrir, vamos para Björn. Agora! Vamos! — Respondi novamente, segurando-a forte e a puxando.

    Seu pai, Zabazus, estava no corredor com dois guardas. Mandei Cleonice se afastar e deixar que eu resolvesse. 

    — Além de desonrar minha filha, também irá levá-la?! — Disse Zabazus — E esse sangue? Quem você assassinou?!

    As palavras daquele glutão me feriam, mas eu ainda tinha determinação para continuar. Os dois soldados avançaram, eu não tinha mais minha espada e o corredor estreito dificultou as coisas. Sem me restar opções, usei outra lança espiritual. O simples toque da arma conjurada perfura o guarda e sua armadura por completo. Assim que ambos os soldados caíram e seu sangue cobriu minha face, Zabazus passou a recuar e me chamar de monstro. Não o cacei, somente levei Cleonice, que estava em choque, comigo. 

    Conosco dividindo meu cavalo, passamos pelo bairro em chamas. Pessoas saíam de suas casas com suas faces queimadas, os soldados haviam aberto todos os portões e carregavam a água do rio e a usavam para apagar o incêndio. O verdadeiro terror estava instaurado. Chegando ao portão sudoeste, consegui roubar um cavalo e deixei o meu para Cleonice. Um soldado me viu cometendo o roubo, mas antes de me perseguir, ele continuou em direção ao incêndio.

    Eu e Cleonice cavalgamos a noite inteira. Pela manhã e bem afastado de Galvênia, paramos. Esperava ouvir gratidão vindo de Cleonice, mas o que recebi foi o oposto.

    — Monstro! Monstro! Monstro! — Gritou, chorou, e caiu ao chão Cleonice — Como você pôde?! Como conseguiu?! Quem é você?!

    — Calma, está tudo bem… vou te contar a verdade. Meu nome é Piscium Piger — Disse.

    Ela começou a chorar mais, e mais. Quando tentei abraçá-la, ela me afastou e, após sujar sua mão com o sangue, ela passou mal. 

    — Você é o assassino! Eu deixei um assassino se aproximar de mim… eu confiei em você! — Exclamou ela — Por favor… não me mate! — Implorou ela.

    Ela se curvou, e continuou chorando enquanto acreditava que eu também a mataria. Não aguentei ver ela naquele estado, não conseguia aceitar o quão frágil ela ficou após ver o que eu era. Então deixei o lugar, e ela, com meu cavalo fugi para o sudoeste, e, minhas lágrimas foram lavadas pelo vento. Quando finalmente parei, era próximo do meio-dia, e eu ainda estava chorando.

    Tentei fugir de mim mesmo, tentei não seguir essa trilha de ossos e sangue. Mas o sangue já havia se tornado um manto, e os ossos viraram minhas armas. Um respiro de normalidade que tinha, havia sido perdido. E assim, acabei por desistir de mim mesmo.

    Uma fada mensageira me encontrou, e trouxe sua mensagem: “Graças a morte do Alto Clero, conseguimos libertar a mente dos que restaram na cidade. Agradeço em nome de todas as fadas do Bosque dos Espíritos, estamos novamente em dívida contigo.” Ela então beijou-me a face e sumiu. Assim, aquela incerteza crescia. Um beijo breve era uma recompensa inapropriada para tamanho sacrifício. O fruto que colhia das minhas decisões revelava a árvore podre que os gerava. Ainda assim me restava uma dúvida.

    — Sagi… como o Sacerdote transformou os desertores em sal? — Perguntei.

    — Aparentemente, pelo menos um dos amuletos que eles carregam tem conexão com aquele cedro. Tornar em uma estátua de sal pode ser uma das maldições…

    — Eu tenho todos os amuletos daquele clérigo que matei nos bolsos… por que ele não me transformou em sal?

    Sagi não respondeu…

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