Capítulo XII: Masmorra dos Desejos parte II.
Sagi, ou Sagicrus o Indômito, revelou que a masmorra não era grande coisa — pelo menos não para ele. O segundo e terceiro nível foram vencidos de forma fácil por ele. Claro que Giulia e Gryiejörn também conseguiram passar, mas não foi por seus méritos como guerreiros e sim pela capacidade de se esconderem. Agora no quarto nível as coisas começam a complicar. Nos deparamos com uma sala totalmente branca e vazia, e ninguém — com exceção de Sagi — sabia o que esperar.
— O que é isso? — Perguntou Giulia.
— Deve ser uma sala onde não podemos ver nossos inimigos — Respondeu o Elfo.
— Errado! E não responda aquilo que não sabe! — Bradou Sagi, de forma autoritária — Isso é uma sala dos pesadelos, nós veremos muito bem nossos inimigos, eles apareceram na forma daquilo que mais temos medo.
— Como uma masmorra pode saber do que temos medo? — Perguntou o Elfo.
— Vocês são idiotas? E você Gryiejörn não frequentou a Escola de Björn? Masmorras são organismos vivos, elas funcionam como um corpo expulsando uma doença. Então elas reagem de acordo com nossas emoções, medos e orgulhos — Respondeu Sagi.
Continuamos andando por aquela sala vazia. Até que uma bolha se formou em volta de Giulia. O Elfo tentou desesperadamente tirá-la de lá, mas Sagi continuou andando. Gryiejörn se pôs a frente dele e pediu ajuda.
— Idiota, ela só vai sair de lá se conseguir enfrentar o medo dela. Não tem o que fazer — Disse rispidamente Sagi.
— Por favor, não podemos abandoná-la!
— Mas Piscis você pôde não é mesmo?
Sagi retornou até a bolha de Giulia, não para salvá-la, mas para assistir se ela podia fazer isso por si mesma. Era possível ver através da bolha, só não ouvir. Sagi ficou encarando, Giulia tentava sair da bolha aos gritos e arranhar de unha. Até que finalmente seu medo apareceu. Em forma de um homem, de uma mulher, de uma criança; vários desses. E Giulia em choque não podia fazer nada contra aquelas figuras que a pisoteavam. Gryiejörn chorava tentando tirá-la de lá.
— Irônico… — Disse Sagi, que virou as costas e foi embora.
Andamos um pouco, e dessa vez nós fomos pegos por uma bolha. Sagi sequer reagiu negativa ou positivamente, só esperou entediado com a ameaça. Dentro da bolha, não era possível ver o que havia fora. Então não dava para saber se Gryiejörn também tinha sido pego ou não.
“E agora?! O que iremos fazer? Que tipo de medo você tem?” Pensei.
— Nenhum… o segredo aqui é se desfazer dos medos. Se a masmorra não pressentir seu medo, ela não tem como projetar um para te atacar.
Ele disse isso, mas então vários espelhos se projetaram em nossa frente. Vários, iguais aos da pousada em Hivermon.
— Que legal, ela pressentiu o seu medo — Disse Sagi.
“E agora?!” Pensei.
— Relaxe, seu medo é abstrato. Você teme a si mesmo, isso é muito narcisista, sabia? É só eu quebrar todos esses espelhos e sair daqui.
Ele disse isso, mas então um monstro feito por espelhos se formou em nossa frente. Ele nos atacou, mas Sagi pôde desviar.
— Garoto! Pare de imaginar que existem armadilhas e foque em se desfazer dos seus medos!
Sagi continuou desviando e atacando. O monstro de espelhos não se movia pela bolha, mas era grande o suficiente para cobri-la toda. Eventualmente Sagi pôde quebrar um dos braços daquele monstro, mas então os cacos de espelho voaram como pequenos virotes em nossa direção, e finalmente Sagi foi arranhado.
— PARE DE TER MEDO DELE! QUANTO MAIS MEDO VOCÊ TIVER, MAIS FORTE ELE FICARÁ! — Gritou em desespero Sagi.
Eu tentei desviar os pensamentos para coisas boas, no grupo de aventureiros em que estava. Porém o terror de ver Taerdus e Giulia morrerem, e o medo que eu tinha de Gryiejörn, fizeram aparecer imagens distorcidas deles mesmos. Sagi os atacou e derrotou, mas o gigante de espelhos ainda nos atacava e os estilhaços de vidro se tornaram mais constantes.
— Pense em outra coisa… no Reino das Fadas! Lembra o lugar era calmo!
Realmente pensei, e sentia falta da paz que tinha naquele reino. Porém o terror daquele demônio que enfrentei veio à tona, e vários espelhos acabaram se tornando demônios daquele tipo. Sagi os enfrentou, conseguiu lidar com todos, e as sombras que eles projetavam. Talvez ele tivesse derrotado aquele monstro com facilidade naquele dia.
— Tudo bem! Pense na Cleonice! Lembra, você não tem motivos para temer ela!
Quando me lembrei dela, realmente, uma paz surgiu. O monstro de espelhos parou, as sombras e os demônios se dissolveram. Porém, lembrar da forma que ela reagiu após fugirmos de Galvênia, fez surgir um monstro ainda pior, um que eu tenho muito medo. Surgiu eu mesmo. E atrás de mim, as vítimas que eu já tinha feito até aquele momento. Os clérigos, os soldados, o Sacerdote, alguns licantropos e pessoas que vi durante o incêndio.
— Só pode estar de sacanagem!
Sagi lutou contra todas as vítimas que me atormentavam, e derrotou-as todas. Quando enfrentou meu espelho, o monstro que eu temia ser, a batalha foi duradoura. Sagi o enfrentava com todas as forças, e mesmo assim aquela criatura tinha sempre uma arma a mais.
— Olha, eu sei que você teme se tornar essa coisa! Mas escute Piscis, você não é ele! Você ainda pode se redimir!
Com isso dito, o meu reflexo ficou fraco. E Sagi pôde acertar uma estocada certeira em seu centro. A imagem se fragmentou, e quebrou igual ao espelho de Hivermon. Ainda era possível ver meu reflexo, ele sorriu grato. A bolha então se desfez. Gryiejörn estava sentado nos assistindo.
— Não enfrentou seus medos? — Perguntou Sagi.
— Enfrentei… consegui matar ele. E fiquei aqui esperando você vencer… — Respondeu Gryiejörn, abalado.
A sala em volta de nós deixou de ser uma sala branca, e se revelou uma biblioteca ou sala de estudos. Gryiejörn, estava com a chave da próxima porta em suas mãos, e caminhava para abri-la. Mas Sagi o parou.
— Sabe, eu esperava que você morresse vítima de seus medos. Mas parece que vou ter que fazer isso eu mesmo…
— O que? — Perguntou o Elfo, apavorado.
— Eu estou dentro do corpo desse garoto, desde que ele partiu de Dartélia e se encontrou com vocês — Sagi o derrubou com um empurrão — Ver você abusando desse garoto me deu nojo! Ele já sofreu demais comigo, e você veio para dar a ele mais sofrimento. É hora de partir.
Sagi estava sobre ele, e apertava seu pescoço aos poucos. Gryiejörn se debatia desesperado, chorava, tentava dizer qualquer coisa, mas não conseguia. Então Sagi parou.
— Não, isso está errado. Não sou eu quem deve te matar — Disse Sagi.
Então o controle foi trocado comigo. Sangue espirrou de minha boca, e voltei a ficar fraco. Tinha que fazer isso rápido. Empunhei a faca do próprio Elfo, e ameacei matá-lo. Novamente ele chorou, implorou, disse que me amava, e se debateu. Não adiantou, o matei… quando a faca o perfurou, seus olhos azuis perderam a cor. Caí novamente sem fôlego, mas então Sagi assumiu o controle, e novamente pudemos avançar…

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