Capítulo XIX: Olhos Fechados.
Continuamos marchando para o norte, eu e Fidel seguimos soltos, os outros acorrentados. Devido a noite anterior, muitos estão mancando e resmungando; olham para mim com raiva e me amaldiçoam. Fidel disse que eu não devia dar atenção, e que devo fazer corpo rígido e cruel com eles, porém, falar é fácil. E nem mesmo ele age da forma como me recomenda agir. O peso de ser cruel ficou todo para mim, e pode ser mais um para minha consciência no futuro.
“Talvez eu possa te dar uma força” Disse Sagi.
“E como exatamente você faria isso?” Respondi, em pensamento.
“Eu já passei por isso antes, apenas observe-os bem, e toda vez que errarem dê uma bronca. Quando alguém fizer algo e os guardas se movimentarem para puni-lo, finja que foi de você que partiu a ordem.” Disse Sagi.
Fidel me fitava conforme Sagi conversava comigo, mas novamente, foi eu retornar o olhar que ele se desviou. Não sei se eu faço algo estranho toda vez que converso com Sagi, mas parece que chama atenção. Quando o sol quase se punha, chegamos em uma cidade. Não vale destacá-la muito, mas digo que era uma bem malfeita, cujas ruas ainda eram de barro, e os homens ainda jogavam suas fezes livremente em qualquer lugar. Na extremidade havia o mar e outro porto, e posso não saber o que disseram, mas entendi que por conta do horário o navio que nos levaria ainda não estava atracado no cais. Por isso, deixaram os escravos presos em uma senzala dentro de um estaleiro, enquanto Fidel e eu ficamos juntos dos soldados em uma pousada.
— Não é ótimo? Uma cama digna e comida fresca! — Disse Fidel, se jogando em uma das camas de nosso quarto.
— Tem certeza de que vai se deitar assim? Vai acabar sujando a cama! — Disse eu, enquanto me encostava na janela que dava vista para o cais.
— Tens razão! Ainda virá um banho, dessa vez deve ser quente!
— Uma pena que o benefício não seja para todos… — Disse, melancólico, olhando para o estaleiro.
Fidel sabia que não era justo que apenas nós tivéssemos os privilégios que tínhamos. Mesmo assim, não escondia o sorriso e mesmo não deixava de esnobar os outros por isso. Eu admirava essa frieza. Queria ser capaz de não me importar tanto assim.
— Benefício é algo limitado…, mas não pense que eu ignoro as dores deles — Disse Fidel — Assim como você, tenho planejado formas de fugirmos com todos.
— Como quê…?
Eu estava prestes a perguntar algo, mas fomos interrompidos por uma camareira. Esta falava nossa língua, e assim como nós era uma escrava. Nos guiou para o banho e logo em seguida para a janta. Nos contou um pouco de sua situação, e nos pediu para ajudá-la de alguma forma.
— Espere-nos, antes temos que nos salvar a nós mesmos… — Disse Fidel, segurando a mão daquela moça e confortando-a.
— Nós precisamos conversar — Disse.
Ele largou as mãos daquela mulher e me seguiu. Entramos por uma porta qualquer, e acabamos em uma sala escura. Sem poder acender qualquer coisa, tentei me guiar no escuro até achar o fundo da sala.
— Cuidado com a corrente… — Disse Fidel.
Logo em seguida acabei dando de cara com um ferro. E isso me intrigou, como ele poderia enxergar no escuro? Enfim, chegamos em alguma porta, e havíamos atravessado até um outro corredor, este iluminado, onde havia uma janela com visão oposta ao do cais, sendo essa os fundos daquela pousada.
— Como você sabe que eu pretendo fugir?
— Por que não pretenderia para começo de conversa? — Retorquiu Fidel.
— Olha, eu não conversei com você sobre nada e subitamente já tens boa noção do que pretendo fazer.
— Na verdade, não tenho tanta noção, só sei um pouco do que você anda conversando com esse espírito… — Disse Fidel.
Nesse momento me alertei. Como ele poderia saber qualquer coisa sobre Sagi? Tenho certeza de que não disse nada em voz alta na frente dele, ou será que falei dormindo?
— Não vou mais fingir. Eu posso ver esse espírito que te cerca, assim como vi sua mão brilhando ontem. Outros podem não perceber, mas eu percebo desde o primeiro dia que nos conhecemos.
— Mas como… — Fiquei confuso.
Fidel se virou para a janela, e passou a olhar para a lua que emergia até o alto do céu, prestes a marcar meia noite. Ele se acomodou ali, olhou um pouco de canto para o galpão nos fundos da pousada. E então se virou de volta para mim.
— Quando eu tinha uns dez anos, meu pai e eu estávamos levando ovelhas recém compradas para nossa fazenda. Uma das cem se perdeu, e eu deixei as noventa e nove com meu pai para buscar essa. Nas colinas de Akrai há um bosque chamado Hanarion, a ovelha acabou entrando lá. — Dizia Fidel, enquanto mudava o olhar entre mim e a lua — No fundo do bosque havia um lago, e digo havia por que não há mais. Eu encontrei a ovelha nesse lago, e com ela já tinha um antigo Djinn que estava para comê-la…
— Um Djinn?
— Sim, mas não era um forte, ele era magro e amarelo. Tinha uma cabeça de jacaré e só vestia uma saia — Disse Fidel — Esse Djinn me ofereceu um acordo. Em troca da ovelha, ele me daria os olhos que enxergariam através de tudo. Primeiramente eu recusei, mas ele ameaçou que caso não aceitasse ele me mataria. No fim aceitei, e hoje posso enxergar tudo o que os olhos não veem. Sejam as dores, as ambições, os poderes ou os espíritos…
— Por isso consegue ver Sagi…
— Sim, e quando olho para a lua — Disse ele, apontando para ela — Posso ver um Titã adormecido suplicando por misericórdia…
Essa última fala me deixou intrigado, por que ele teria interesse no Titã Lunus? Fidel se revelava muito mais misterioso do que aparentava. Cheguei a perguntá-lo sobre Lunus, mas ele não disse mais nada. Acabamos por voltar ao nosso quarto. Estávamos deitados cada um em sua cama. Eis que ele volta a conversar comigo.
— Sabe por que eu confio em você?
— Não… — Respondi.
— Posso ver em você o sinal da bênção de uma deusa. Por isso acredito que você seja uma boa pessoa, e realmente é…
Eu ia dizer algo, mas deixei assim. Ele se virou e dormiu. Fiquei algum tempo acordado pensando sobre como essa visão que ele tinha de mim pudesse estar errada. Talvez os olhos dele não enxergassem através da ironia, ou talvez ele seja um completo ignorante e não saiba o que é bom e ruim. Prefiro que ele pense dessa forma.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.