Capítulo XV: Arrependimento.
Por mais que eu sobreviva às batalhas, jamais terei às vencido. Por alguma razão eu… não consigo fazer as escolhas certas por mim… tudo o que eu toco… tudo se destrói. Cleonice, Galvênia… o grupo de aventureiros que eu fazia parte… talvez eles não fossem perfeitos. Quer dizer, não eram. Giulia era meiga, mas também sádica e odiava o que era diferente dela; Taerdus era engraçado, leal, mas se perdia com as mulheres; e Gryiejörn… talvez eu o odiasse…, mas talvez, só talvez, se eu tivesse sido mais forte — tivesse me imposto e dito “não!”. Talvez, ele ainda seria aquele amigo acolhedor que eu pensava que ele fosse…
Confesso que não sei como devo seguir daqui em diante. Eu sentia que ia me tornar famoso por onde passasse, principalmente depois que me disseram que fui o primeiro a derrotar uma masmorra nas últimas três décadas. Mesmo que não tenha sido “eu”. Era bom ser visto dessa forma. Do pequeno pescador ao herói! Incrível. Talvez eu não tivesse ambições naquele tempo de pesca, por não ter perspectiva. Agora eu conheço o mundo, sei que ele pode ser cruel e bom — talvez mais cruel do que bom; ainda assim, não quero voltar para aquela vila. Não quero viver mais uma vida, onde eu acredito que ver o céu refletido no lago é a visão mais incrível possível.
Talvez seja a fusão falando. Talvez seja a vocação de Sagi ecoando pelo meu espírito como se fosse minha voz. Porém agora eu realmente me sinto assim…
Agora mesmo estou vagando rumo a qualquer lugar. Minto, tenho sim um lugar em mente. Estou viajando para Björn, devo essa para Sagi. Acreditei que ele fosse um monstro, mas ele é só humano. Ele tem alguém que o espera no fim, e ele quer cumprir uma promessa de todo jeito. Eu que o tinha julgado mal no início.
Saí de Engrüis no mesmo dia que venci a masmorra. A maioria dos aventureiros estavam felizes quando me viram saindo de lá, agradeceram por suas vidas. Alguns disseram que virariam bardos somente para contar o que fiz ao mundo. Porém com a notícia das crianças, boa parte virou as costas para mim. Outra parte me perdoou e disse que eu não poderia saber. Ainda assim, me senti mal, pois foi minha decisão que tornou forma a desgraça.
“Piscis! Chega!” Gritou Sagi.
— O que? — Respondi em voz alta, morbidamente.
“Para com isso cara! Toda vez é a mesma coisa. Você faz algo para viver e saí se culpando por todo problema que aparece!” Disse Sagi.
Estava cavalgando por uma planície rumo a Hivermon. Como eu não sabia quais estradas seguir com segurança para o Norte. Decidi fazer o caminho inverso ao que fiz com Taerdus e Cia.
— Mas o que você quer de mim? Sempre acaba em desgraça para os outros… — Disse.
“Sempre haverá desgraçados, garoto! Você tem que entender: uma dose pequena de egoísmo é necessária para viver!” Disse Sagi
— Mas e as crianças? Que dose de egoísmo corresponde isso? — Perguntei.
“Você não tinha como saber. O que valeu foi a intenção…” Respondeu Sagi.
— A intenção… e Galvênia? — Perguntei, engolindo raiva.
“Ali nós erramos…, mas quem não erra? Aliás, quem garante que erramos? Não lembra do pesquisador que eu ceguei? Aquele que disse que Galvênia estava em cerco por ter continuado a rebelião contra o reino?” Disse Sagi
Não respondi porque esperava que ele soubesse a resposta. Não acreditava nem um pouco nisso, não acreditava que havia algo de bom em queimar uma cidade inteira, mesmo que isso significasse libertá-la. Nenhuma liberdade pode vir ao custo de mortes.
“Sabe de uma coisa? Eu estou morto e podendo falar livremente. Vamos além do bem e do mal aqui Piscis. Vamos pensar sem moralidade, sem partido. Eu vivi uma vida lutando contra forças demoníacas, mas e se os demônios forem os oprimidos? Quando eu vi Giulia sendo morta, eu tive uma epifania. Eu pensei: ‘nossa aquela menina odiava tanto semi-humanos, que os monstros que a mataram foram os humanos’. E se esse for meu caso? E se a guerra que eu travei por anos por um bem maior for falsa? Não temos como saber, não é mesmo? Não é…” Dizia Sagi sem parar.
— Pelo amor dos deuses, para! — Bradei.
“Agora você entende como é ouvir você mesmo…” Disse Sagi.
O silêncio entre nós perdurou. O único som que ouvia era o vento. Mesmo minha mente estava vazia, e eu somente passei a prestar atenção na paisagem, aquela que quanto mais se aproximava de Engrüis ia se tornando morta; mas agora conforme vou me afastando, está florescendo mais e mais.
O vento acabou-me trazendo um som, um grito. De longe vi uma carruagem sendo assaltada. Engraçado, Taerdus sempre tirava proveito dessas situações para dar uma de herói e ganhar uma recompensa. Eu devia fazer o mesmo…
“Vai lá resgatar o homem!” Disse Sagi
— Não. Só vou atrapalhar mais…
“Agora nem tomar a iniciativa quer…” Disse Sagi
— Nunca fui disso mesmo…
“Não, você era. Quem decidiu seguir viagem com aqueles doidos? Você. Quem decidiu atacar um elefante que soprava fogo sem ter armadura? Você. Eu te vi começar uma rebelião e incendiar uma cidade por causa de uma buceta. Não nego que foi uma péssima decisão, eu já não era a favor desde o início, mas te apoiei e errei junto. Mesmo assim, você tomou iniciativa!” Disse Sagi.
Independente do que ele disse, não dava mais tempo, a carroça foi levada. O cocheiro ficou ali em pé, quando me viu passando por perto, me pediu para que eu fosse atrás dos ladrões, mas recusei. Ele tentou me convencer, correu atrás de mim que continuava adiante sem me importar, ofereceu ouro.
— Olha! Se não vai atrás de minha carroça, pode pelo menos me dar uma carona até a próxima cidade?
— Não.
E ele ficou lá, esperando. Talvez pensasse que eu fosse me arrepender, mas eu já estava arrependido para começo de conversa.
Passou-se uns três dias, e cheguei à Hivermon. Me hospedei na mesma pousada de antes. Bebi na mesma taverna. Tomei o mesmo banho… dormi olhando para o mesmo teto, mas não tive os mesmos pesadelos. Em nenhum dos dias de viagem tive pesadelos.
— Sagi, você tem me impedido de ter pesadelos? — Perguntei.
“Não. Uma vez tentei fazer isso lá em Graviotti. Não deu certo e fiquei preso nele tentando te acordar” Respondeu Sagi
— Por que eu não tenho tido pesadelos?
“Por que você quer ter pesadelos?” Replicou Sagi.
— …
“Exatamente, você só quer se punir que eu sei. Porém lá no fundo, você está aceitando seus erros e deixando de se martirizar. Quer saber o que eu acho? Se punir tendo sonhos ruins é fácil. Quer se punir? Se corte e deixe o sangue escorrer até a última gota.” Disse Sagi.
Paguei pela estadia e voltei a cavalgar. Hivermon não ficava há tantos dias de viagem de qualquer outra vila em meu caminho, e nenhuma dessas vilas vale algo para ser lembrada. Cheguei na cidade de Wäl, a mesma que tinha muros altos e licantropos a serem expulsos. Mesmo padrão, mesma pousada, bar e banho. Novamente sem pesadelos.
Concordei com Sagi, esperar por pesadelos era fácil, mas me cortar ainda era absurdo. Fui para a taverna, e um dos aventureiros me reconheceu. Fiquei feliz por um instante, até ele me dizer que me odiava por ter libertado a deusa. Engraçado que ele não estava na masmorra ou próximo dela. Para ver como as notícias ruins correm mais rápido que as outras.
Saí daquele bar e caminhei pela cidade sem rumo. Não estava embriago demais, mas também não estava totalmente sóbrio. Caminhava em zig-zag, ora tropeçando no caminho, ora tropeçando na própria perna. Atravessei as muralhas e andei desprotegido. Sem espada, sem armadura, ou sequer uma faca. Vestindo uma túnica nova de seda, calças de linho fino, botas de um couro bonito e, claro, com a bolsa portando todo meu ouro amarrada ao cinto.
— Parece que temos um bêbado rico aqui — Disse um rapaz não muito mais novo que eu.
— Sim, acho que ele está perdido — Respondeu outro.
— O que acha de ajudarmos ele a voltar para a cidade? Quem sabe ele nos dê dinheiro — Sugeriu mais um.
Eram três jovens. Os três eram menores, os três deviam ter seus treze ou catorze anos, os três tinham facas.
— Eu não preciso de ajuda! — Bradei, com a língua um pouco enrolada.
Dei meia volta e ignorei os três. Acredito que em condições plenas eu teria aguentado, mas embriagado acabei dormindo fácil depois de uma paulada na cabeça. Acordei pela manhã vestindo apenas meu calção.
“Antes que me pergunte. Eles não comeram sua bunda pode relaxar…” Disse Sagi.
— Não ia perguntar… — Respondi, coçando a cabeça e me sentando.
“Muito bem, vamos voltar para a pousada, vestir as roupas antigas e procurar um trabalho na região” Disse Sagi.
— Eu não vou caçar monstros por dinheiro…
“Então como pensa em pagar a pousada? Como vai se manter até a próxima cidade? Vai dormir na estrada e comer do que caça?” Disse Sagi.
— Talvez eu faça isso!
Me levantei. Comecei a andar. O espírito continuou tentando me convencer de que eu devia trabalhar.
“Garoto eu sei que Jarmont é um país lindo, mas é cheio de ladrões! Não vire mais um, só por ter medo de bancar o herói” Disse Sagi.
— Eu não estou com paciência hoje…
“Sua paciência não me interessa! O que me importa é você chegar inteiro em Björn! Se cortarem sua mão por ter roubado isso dificulta as coisas.” Disse Sagi.
— Você não disse que eu devia cortar os pulsos? — Ironizei.
Um silêncio se manteve até chegarmos na pousada. Me vesti, e saí de lá novamente rumo outra taverna. Enquanto caminhava, Sagi se materializou caminhando do meu lado. A figura barbada parecia mais nova que a usual.
“Então você vai ser um desistente?” Perguntou Sagi.
“Eu nunca quis nada disso para início de conversa…” Pensei.
“Mas quando você estava com Taerdus e o grupo dele, você gostava de ser um herói” Disse Sagi.
“E olha onde foram acabar…” Pensei.
“E vai parar no mesmo lugar que eles se continuar bebendo assim. Olha, eu não me importo muito mais com esse papo de heroísmo. Eu tenho uma missão e preciso de você para concluí-la. Você precisa entender que toda ação tem uma reação, seja boa ou ruim, um sempre vai perder para outro ganhar.” Disse Sagi.
“Independentemente do que você diga… pessoas morreram pelos meus erros, e não posso consertar eles…” Pensei, com lágrimas caindo.
“Mas pode conseguir evitá-los daqui em diante. A bondade, não é sobre partido ou país. Não é sobre defender uma causa ou destruir um inimigo. Bondade nem mesmo é sobre deixar pessoas felizes. Bondade verdadeira, é ajudar quem precisa ser ajudado” Disse Sagi.
Eu parei de andar. E vi uma senhora passando por mim empurrando um carrinho pesado. Seguindo o meu coração, e o que Sagi disse, ajudei ela. O neto dela revelou estar precisando de alguém para arar o campo de sua fazenda, eu fiz. A princípio sem cobrar, mas ele acabou me dando dinheiro. Fiz mais alguns trabalhos simples para vizinhos dele, pagavam pouco, mas me recebiam em suas casas. Depois de alguns dias deixei a cidade de Wäl com algum dinheiro honesto, e sem derramar uma gota de sangue…

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