Que os Fragarks são um povo violento eu já sabia, mas que usavam escravos como soldados é novidade. Aquele soldado do dia anterior parece ser algum tipo de comandante ou algo assim. Ele nos levou para um campo de treinamento e está nos preparando para alguma coisa. O campo é cercado por muralhas altas e grossas, e tem muitos soldados garantindo que nós não fujamos. Nós estamos a dias treinando com alabardas, mas nada além de uma técnica básica. Posso não entender uma palavra sequer que eles digam, mas sei que estão nos preparando para um combate onde iremos morrer.

    No primeiro dia aqui, tentei fazer corpo mole para me deixarem em paz. Acabei sendo amarrado em um poste e chicoteado até meus ossos ficarem expostos. Sinceramente, posso fugir, mas não antes de conseguir tirar todos daqui em segurança. Nos dias seguintes, treinei como mandaram, mas ainda fui chicoteado no fim do dia. E hoje, minhas costas ardem como se o ferro ainda estivesse queimando minha carne.  Hoje também decidi por mais empenho e mostrar do que sou realmente capaz.

    — Você tem que se esforçar, ou vai acabar no açoite de novo — Disse Fidelino Capraecornus, um escravo — Vamos, tente me acertar com mais vontade!

    — Se eu fizer isso você quem vai acabar sendo açoitado… — Respondi.

    — Fica fazendo graça! Eu sou mais forte do que pensa, vamos, me ataque!

    Fidelino é um escravo que está aqui a mais tempo, ele era um pastor de ovelhas que morava nas colinas que fazem divisa entre Jarmont e Dartélia. E no dia que desceu das colinas para vender lã, acabou sendo sequestrado pelos Fragarks. É um bom homem, mais velho que eu, mas não mais alto. É dotado de um cabelo castanho magnífico que nem os Fragarks tiveram coragem de cortar, além dos olhos azuis e da boa pinta. 

    — Já que você pediu… — Disse.

    E então avancei com tudo para cima dele. Não fiz uso de magia, nem técnica que aprendi com Sagi. Apenas usei minha força bruta e noção de combate. E facilmente não apenas desarmei como derrubei Fidel no chão.

    — Você está bem? — Perguntei, estendendo a mão, apenas para ser puxado para o chão e derrubado.

    — Nunca abaixe a guarda! — Disse Fidel, agora por cima de mim.

    Um soldado Fragark nos separou, e mandou — através de gestos — que nós continuássemos o treinamento. Hoje não fui para o pau de arara, e pude desfrutar de uma noite sem mais dores. Depois do treino, fomos enviados para o banho, claro que não era um banho quente. Fomos levados nus e enfileirados até um rio que, àquela hora da noite, era gélido como o inverno nas montanhas de Hivermon. Os homens que tentassem fugir nadando, não conseguiam ir muito longe por conta do frio, e se não é o frio são os cães ou os jacarés que ficavam no rio. E claro, quem fosse pego e trazido de volta, não era morto, e sim castrado.

    Praticamente todos não ousavam fugir, mas sempre tinha um louco recém-chegado que tentava, e acabava na pior situação possível. Depois do banho, éramos levados para nossas celas. Lá era dado nossa janta, que não era mais pão mofado, era melhor, sobras de porco (como as patas, as orelhas e a língua), pão velho, e um grão malcozido. 

    — Banho quente, quarto aconchegante, e boa comida — Disse Fidel.

    — Se você diz… não acho que as condições aqui sejam boas — Respondi.

    — Isso porque você só olha para o lado negativo! Poderíamos estar em uma situação pior. Na verdade, logo estaremos em uma situação pior — Disse Fidel — Logo seremos enviados para algum tipo de campo de batalha, e seremos usados apenas para morrer!

    — Como você tem certeza disso?

    — Eu passei a prestar um pouco de atenção no que eles dizem, posso não entender completamente, mas ouvi diversas vezes eles mencionando-me e uma tal de “gargataul” deve ser o nome do campo de batalha para onde vão nos levar.

    — Pode ser o nome de uma mulher também — Disse rindo.

    — Ou um homem, quem sabe! — Respondeu Fidel, rindo.

    De qualquer forma, não poderíamos saber tão cedo. Então nos restava presumir nosso futuro. Fidel deixava o clima sempre leve, então podia rir apesar do sufoco ao qual passávamos. No dia seguinte, fomos novamente levados para o treinamento. Porém, diferente das outras vezes, eu não recebi um parceiro escravo para treinar e sim um soldado.

    — Espera! Isso não pode ser assim, ele tem armadura e eu apenas uma alabarda enferrujada! — Gritei para o comandante que nos organizava, mas não adiantava, ele não entendia o que eu dizia.

    O soldado não poupou esforços e me atacou bravamente. Em desvantagem, também não me contive, e no segundo ataque que defendi, consegui desarmar e imobilizar o soldado. Na mesma hora, outros me cercaram com suas lanças, e o comandante veio até mim falando alguma coisa para outro soldado.

    — Você bom! — Disse o comandante. E depois mandou dois soldados me levarem à força para algum lugar.

    Fidel até gritou por mim, mas não adiantou, acabei sendo arrastado de qualquer jeito. Mas por incrível que pareça não foi para um lugar totalmente ruim, e sim para o que parecia ser a sala do comandante.

    — Você senta — Disse o comandante, ele falava tanto a minha língua quanto eu a dele. Na verdade, talvez ele falasse mais — Você líder escravo para “gargataul”.

    — Não entendi… — Disse.

    — “Gargataul” — Ele continuou, mas agora apontava para um mapa que estava em cima da mesa dele.

    Não que eu lesse muito bem meu próprio idioma, mas o dele com certeza era mais difícil. As letras eram diferentes, mas pude entender que “gargataul” era como chamavam uma cidade. Essa cidade ficava no continente e não na Ilha Fragark, e não era no país de Jarmont e sim em Tarfryet — país ao norte que fazia fronteira com Dartélia e Jarmont. 

    — Você líder escravo — Disse o comandante — você escolher um…

    — Escolher um o que? 

    — Um… — Disse o comandante, enquanto tentava achar a palavra — imediato!

    Consegui entender pouco do que ele quis dizer, mas absorvi a ideia. Claro que como meu imediato escolhi Fidel e ele agradeceu-me muito por isso. Como líderes dos escravos, fomos separados em quartos especiais, nada mais de cela e dormir no chão. Recebemos um quarto para dividir, e tínhamos pelo menos um pouco de feno para nos deitarmos em cima. A comida também melhorou um pouco, mas os banhos continuaram os mesmos. Não sei o que esperar em “gargataul”, mas logo seguiremos nessa direção.

    Alguns dias depois nos puseram para marchar. E mesmo que eu fosse o líder dos escravos, e Fidel meu imediato, não evitamos as correntes que nos mantinham presos uns com os outros. Aliás, a ideia de eu e Fidel recebermos tratamento diferenciado pelos Fragarks fez com que os escravos nos odiassem. Isso é ruim, se eles me odiarem não vão me obedecer, se não me obedecerem vou perder minha promoção e não vou conseguir salvá-los. Fidel tentava se aproveitar ao máximo da posição. Falava entre rosnados um pouco da língua “Fragarguêsa” (como ele chamava). E no pouco que entendiam davam o que ele queria. 

    — Ei Piscis! Consegui que tirassem nossas algemas! — Disse Fidel, contente.

    Os escravos resmungaram sobre como éramos capachos. Quando tiraram as algemas de Fidel, o homem atrás de mim suspirou com raiva. Quando o soldado veio tirar as minhas recusei.

    — Deixe que tirem suas algemas — Disse Fidel.

    — Não! Me deixe preso junto de meus companheiros — Respondi.

    Podem não ter dito nada, mas acredito que aqueles homens presos tenham aprovado meu gesto. Ou estão me chamando de imbecil e falso.

    “Concordo que devam estar pensando exatamente isso de você” Disse Sagi.

    “Preciso fazer isso, ou não terei moral com eles” Respondi em pensamento.

    “Você não tem moral com ninguém, recém fez dezessete anos. E até onde eles sabem, você é apenas alguém que recebe peixe fresco no jantar” Disse Sagi.

    Sagi tinha razão. E somente agora parei para pensar que já havia se passado um ano desde que eu deixei minha vila. Nunca mais tive notícias sobre aquele lugar, Galvênia estava em cerco desde que a deixei. E Cleonice… deixe-a de lado. Enquanto conversava com Sagi, Fidel, que estava desacorrentado, andava ao meu lado e me olhava de forma curiosa. Quando olhei de volta, ele desviou. Porém não estava evitando e sim disfarçando.

    Continuamos marchando para o norte durante um dia inteiro. Passos pesados e apressados a chicotadas. A ilha Fragark estava longe de ser uma planície — era um caminho tortuoso, ora inclinado e ora declinado; com muitos trechos estreitos e ladeiras. Trilhas completamente enlameadas, e um matagal denso e seco. Quando o Sol se pôs, enfim pudemos parar, o acampamento foi feito ali em meio às árvores.

    Não nos soltaram de nossas correntes. Acabamos por ter que dormir com os grilhões presos uns nos outros, sem sequer podermos nos afastar para termos melhor aconchego. Fidel por outro lado recebeu um colchão de palha e uma tenda. No meio da madrugada, os escravos acordaram uns aos outros e planejaram uma fuga. Como eu também estava preso à eles, acabei sendo acordado junto. Porém de forma diferente, o mais próximo de mim me enforcou com as correntes. Logo outro encarou-me e disse:

    — Olha só seu verme! Ou você anda, ou te matamos. Se gritar que nem uma cadela, vamos cortar sua língua! — Sussurrava de forma intimidante o caolho.

    — Nã…ugh — Tentei dizer, mas prenderam-me com mais força.

    Eu sabia que caso fosse com eles todos nós morreríamos. Não tinha como vinte escravos acorrentados fugirem por uma floresta ou mesmo daquela ilha. Além disso, se Fidel ficasse por lá e todos nós fossemos, ele também seria executado. Não tinha escolha, só me restava quebrar essas correntes e dar um basta nisso. Porém, revelar meu poder faria com que os Fragarks tomassem precauções ainda mais rígidas comigo.

    — Acho bom ter entendido… — Disse o caolho.

    Eu estava prestes a partir as correntes. Já podia sentir a magia fluindo, minha mão ficando pesada e quente; os micros fragmentos de luz se formando. Só que para minha sorte, Fidel acordou e alertou os guardas por mim. Os escravos tentaram me matar como retaliação, mas os soldados nos separaram, e tiraram minhas correntes, me separando do resto. Agora solto, caído e tateando meu pescoço depois de quase perder o folego, vi os soldados punindo os escravos com chicotadas, chutes e pancadas.

    — Você está bem? — Perguntou Fidel — Eu te disse que não devia se manter preso à eles!

    — Eu não… posso ajudá-los se não me respeitarem… — Respondi, meio aos engasgos.

    — Eles já o odeiam, não conseguirá o respeito deles através da compaixão — Disse Fidel, enquanto se ajoelhava comigo — Nessa situação é melhor ser temido do que amado se não é possível ser os dois!

    Ele tinha razão. E a prova era a marca em meu pescoço. Eles não eram meus aliados, eram meus subalternos. Eles não vão me ver como alguém na mesma situação que a deles, ao contrário, me veem como mais um capataz. Porém, não quero ser mau, não quero infligir mais dor neles. Só que infelizmente será necessário…

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota