Capítulo XX: No Olhar.
Na manhã seguinte Fidel se adiantou e saiu antes de mim. Quando desci para o cais, todos os escravos estavam me aguardando, faltando somente os soldados para nos conduzir ao navio. Como sempre, aqueles acorrentados me olhavam com desgosto e ódio; porém agora pareciam cochichar entre si sobre algum plano. Fidel veio à mim avisar justamente sobre o caolho, esse escravo chamado Higg parecia ser o líder de um possível motim.
Os soldados finalmente surgiram para nos conduzir, eu seguia na frente dos escravos acompanhado de Fidel. Assim que subimos no convés, os escravos se soltaram de suas correntes e atacaram à todos. Quando vi, capturaram Fidel e enquanto um enforcava, o outro espancava. Os soldados Fragarks em sua maioria não tinham subido ao navio ainda, e os poucos no convés foram pegos totalmente desprevenidos. Eu também fui, e quem me atacou foi o Higg.
— Verme maldito! Eu vou te matar agora! — Gritou o caolho, enquanto me enforcava pelas costas.
Eu pus minhas mãos na corrente e puxei tentando me soltar, mas sem sucesso. Sequer um respiro conseguia, então dessa vez teria que usar meu poder. Novamente, senti minha mão ficando pesada e quente, mas controlei o calor e o peso, assim pude apenas quebrar as correntes sem manifestar por completo a lança. Higg não entendeu nada, e com aquele olhar confuso deu um passo hesitante para trás.
E talvez seu medo fosse fruto da confusão, mas sua coragem com certeza era fruto do ódio. O caolho avançou novamente tentando me pegar com as mãos nuas. Eu fui desviando, até esbarrar com outro escravo que lutava com um Fragark atrás de mim. Consegui deslizar a mão por ele, e pegar a faca daquele soldado.
— Se afaste! — Gritei.
— Ou o que? Vai matar um companheiro? — Disse Higg.
Congelei, havia uma dualidade nas escolhas que eu faria a partir daqui. Se eu o matasse iria apenas confirmar minha posição, mas não o matar era muito arriscado. Aquele impasse durou pouco e foi decidido por ele. Higg avançou com tudo, e procurou tomar a faca de mim. Naquele instante, um impulso tomou minha mão, e essa desferiu um golpe nos testículos daquele homem.
— Maldito! — Gritou Higg, segurando a faca que pendia de seus genitais.
Ele caiu no chão, o sangue fluía fraco. Nenhum de seus aliados prestou socorro, pelo contrário, continuaram a revolta. Os soldados que estavam no cais tentavam reerguer uma plataforma para subirem ao navio; os que estavam no convés agora atacavam para matar, mas acabaram por serem mortos. Os escravos vieram me atacar, mas eu corria e procurava por Fidel. O achei nos aposentos do capitão, e… estavam removendo seu escalpo estando ele ainda vivo.
“Mate-os”
Ataquei e matei um a um dos que estavam naquele lugar. Fidel caiu sem forças e em lágrimas, o topo de sua cabeça sangrava. Ele me encarou durante todo o massacre. Quando os soldados do cais finalmente conseguiram subir no convés, me encontraram nos mesmos aposentos, com Fidel em meu colo e diversos corpos mutilados no chão. Apenas três escravos sobreviveram, o castrado Higg, e os covardes Varil e Naarus.
Os Fragarks puniram à mim com vinte chicotadas, Fidel e aqueles dois foram perdoados por não terem participado. Higg foi completamente castrado, e durante os dias que ficamos naquela cidade aguardando a nova remessa de escravos, manteve um olhar amedrontado para mim.
Fidel perdeu seus lindos cabelos, mas não se abalou, e assumiu a calvície com orgulho. Eu não me culpo pelo que fiz, digo que foi necessário. Eles agiram como animais, e eu os matei como animais. Caso os próximos que viessem agissem igual, faria o mesmo com eles. No fim, não vale a pena lutar por eles, não vale salvar aqueles que já se perderam. Preciso focar em tirar a mim e a Fidel daqui. O resto será lucro.
Durante aqueles dias de espera, me dediquei ao treinamento. Pedi uma espada aos Fragarks e eles me entregaram uma enferrujada e cega. Usei-a para aprender os mesmos poderes que Sagi uma vez usou na masmorra. Treinava em uma praia próxima da cidade, mas claro que nunca ia sozinho, sempre havia dois soldados comigo. Com o mar em vista e a areia em meus pés, cortava as ondas e as perfurava com a projeção de magia. Os soldados me observavam com espanto, e podia não entender o que diziam, mas sabia que era sobre mim.
Um dia, Fidel, já com a cabeça quase completamente cicatrizada, parou para me observar também. Não disse uma palavra, na verdade, já não falava comigo desde o ataque. Ir me ver treinando me pegou de surpresa, e ficar ali me fitando, fez com que eu me sentisse próximo de ser capaz de conversar com ele novamente. Porém, foi eu me aproximar dele, que Fidel retornou para a pousada.
Naquela noite, ao retornar para o quarto, Fidel estava ali encarando a lua novamente. A bandagem estava folgada e pendendo de sua testa. Tentei falar qualquer coisa com ele, mas não me respondeu. Então me deitei para dormir e deixei-o ali.
— Eu gostava do meu cabelo — Disse Fidel, ainda sem olhar para mim — Demorou anos para que chegasse aquele tamanho, e eu me orgulhava. Quando me pegaram, disseram que não era justo que somente eu tivesse um cabelo tão longo.
— Fidelino eu…
— Deixe-me terminar! — Interrompeu — Eu não te culpo Piscis. Se eu tivesse forças, teria feito o mesmo. Porém, não sou um monstro como você, não sou capaz.
“Monstro” ele me chamou. Só consigo me lembrar de Cleonice e a forma como ela me chamou disso assim que saímos de Galvênia. Tudo se repetia, eu perderia Fidel, assim como a perdi.
— Eu sinto muito… eu…
— Ainda não terminei! — Fidel finalmente olhou para mim — Eu decidi, foi difícil, mas depois do que vi você fazendo não tenho dúvidas… irei te seguir até o fim do mundo, mas não irei te abandonar!
Com essas palavras, ele se levantou, caminhou até mim e se curvou. Chamou-me de seu mestre, beijou-me a mão e jurou lealdade. Eu aceitei, e prometi a ele que nunca mais permitiria alguém de fazer mal consigo de novo. Noutro dia, os novos escravos finalmente chegaram. Me apresentei à eles como seu líder, e já me olharam torto. Porém antes mesmo que eu os repreendesse, Higg gritou desesperado.
— Tolos não desafiem este homem! Ele matou seus antecessores e vai matá-los caso o desobedeçam!
Os covardes Varil e Naarus gritaram junto confirmando as acusações de Higg. Com um olhar, os soldados entenderam-me e açoitaram aqueles três. Os olhares dos novos escravos então mudaram, agora temiam-me. Também não preciso que me amem.

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