Capítulo XXI: Prova de Amizade.
Assim que os novos escravos chegaram nós embarcamos. Os homens acorrentados foram novamente largados nas condições insalubres do fundo do navio. Já eu e Fidel nos tornamos parte da tripulação. Mesmo sem luxos, somente ter liberdade de ir e vir foi altamente prazerosa. Da mesma forma, auxiliar ativamente na condução do navio foi ótima. Os Fragarks apontavam o que fazer e eu os ajudava. Muitas vezes me pediam para que eu subisse nos mastros, e lá de cima observava o mar e sua infinitude — testemunhava por vezes o pôr do sol e aquela visão magnífica de um céu sobre outro. À noite, também observava os astros e suas formas — como as estrelas formavam uma passarela ao qual um deus andaria sobre. Os navegadores mediam aqueles astros e conversavam entre si.
Doutro lado, enquanto eu me aproveitava da viagem, Fidel sofria. A falta de seu escalpo fez com que ele sofresse de irritação e queimaduras constantes no topo de sua cabeça. Isso o fazia passar mal, e ter pouca força durante aqueles dias. Além disso, ele sofria de enjoos constantes pelo balançar do navio.
Por sorte, sua péssima viagem durou pouco, sendo que depois de quatro dias navegando enfim chegamos em terra. Havia um canal e um cais, atracamos e partimos em uma marcha fúnebre rumo ao sudeste. Os soldados finalmente nos levariam à Gargataul. Segundo Fidel, levaria ao menos duas semanas para chegarmos. O comandante e alguns poucos soldados eram os únicos que viajavam à cavalo. Quanto a nós, teríamos que viajar em passos ritmados ou que ao menos tentavam ser. Os pés doíam pela falta de calçados e formavam bolhas na sola. Foi me dado um chicote, e açoitava os escravos que caiam ou atrasassem o resto.
Eu gostava de açoitar aqueles pobres coitados. Quanto mais fazia melhor ficava, eu sabia que o ódio no coração deles crescia, mas seu temor os fazia submissos. Um bom exemplo é Higg, que se tornou um cão obediente. Lambia meus pés se fosse pedido, era um pobre mais do que coitado, havia se perdido completamente — nada mais justo para um cachorro raivoso ser castrado e tornar-se obediente.
“Eu não gosto disso” Disse Sagi, se materializando.
“Seja específico” Respondi em pensamento encarando-o.
“Eu te disse para fingir ser cruel, e não para ser cruel de verdade!” Bradou Sagi.
“Você é um hipócrita, no navio impulsionou minhas decisões para a violência e agora está achando ruim que eu me torne um monstro” Disse, tirando meu olhar de Sagi.
“Eu não fiz nada” Disse Sagi.
Assim que ele disse isso, tentei olhar de volta para ele, mas já havia sumido. Fidel me questionou sobre meu espanto — ele podia ver e ouvir Sagi, mas não podia ler meus pensamentos — desconversei e continuei guiando os escravos.
Marchamos por cinco dias, no sexto paramos em uma vila. Ela já havia sido ocupada pelos Fragarks, e não passava de um acampamento militar naquele ponto. A vila estava muito depredada, as plantações infestadas de pragas, sujeira e barro por todos os lados e ratos passeando livremente naquela cena horrorosa. Aquela vila estava em pior estado do que a vila de Engrüis antes da libertação da deusa.
Os escravos foram postos em uma senzala improvisada e enquanto nós ficamos hospedados em uma das casas abandonadas. Fidel, eu e quatro soldados dividimos aquela casa fétida cujo mofo exalava um cheiro horrível que tornava até mesmo o ar pesado. Porém, comparada as tendas improvisadas que dormíamos no caminho até aqui, até mesmo o colchão manchado e fedorento era um paraíso.
— Será que podemos voltar para as tendas? — Perguntou Fidel, que discordava das boas acomodações.
— Se você conseguir expressar suas opiniões na língua deles… — Respondi, me acomodando em minha cama.
— Sério que você gosta desse lugar?
— Não é o melhor do mundo, mas me lembra minha doca em Graviotti — Respondi.
Havia contado toda minha história para Fidel durante os cinco dias de marcha. Ele prestou bastante atenção e tentou conversar com Sagi, mas ele não respondeu. Fidel tentou de fato reclamar com o comandante, eu o acompanhei. A reclamação não parece ter sido atendida, o comandante o dispensou e me manteve consigo. Me levou com ele para me apresentar ao regente do acampamento, me manteve por perto, e então ambos me guiaram até um campo aberto. Um soldado Fragark que nos acompanhava cedeu sua armadura e esta foi posta em um espantalho.
O comandante, veio até mim entregando-me minha espada enferrujada e pedindo por “fura onda”. Entendi o que ele queria, e como pediu estendi a lâmina enferrujada em direção ao espantalho. Concentrei o poder pelo aço e senti ele se tornando pesado e quente. Um brilho dourado surgia da ferrugem e o público Fragark não continha a euforia. Aquele era o mesmo poder que Sagi ameaçou usar contra o Djinn, e ele me ensinou para que eu me defendesse. Recitei as palavras de poder:
— Pars Stella.
Um feixe luminoso correu da espada até o espantalho. O brilho foi intenso e momentâneo. O calor foi tanto que o suor correu da minha testa. A armadura foi completamente perfurada e as bordas da cavidade derretiam como se o aço fosse gordura.
O regente ficou tão eufórico que atravessou a cabeça pelo buraco no peito do espantalho, e fez festa comigo e os soldados que me acompanharam até ali. Não encontrei Fidel em meio aquela festança e o procurei na senzala, temendo que ele estivesse por lá fugindo. Na senzala Higg me recepcionou com alegria e temor, os outros se encolheram, Varil e Naarus não se desgarravam.
Não estando Fidel ali, fui procurando em todos os lugares possíveis e o vi nas redondezas da vila entrando em uma floresta. Corri até ele, e acabei o seguindo até uma clareira no meio daquela floresta. A lua brilhava no alto, era meia noite. Fidel não se espantou comigo ali, parecia me aguardar.
— Que bom que veio, preciso de sua ajuda — Disse ele.
Fidel me ensinou alguns cânticos e pediu para que eu os cantasse enquanto ele orava.
— Para quem? — Perguntei.
— Lunus…
Assim ele se ajoelhou e repeti o gesto. Cantei os cânticos e ele implorou para Lunus curar e devolver seus cabelos. Ficamos em vigilia por quase toda a madrugada, mas o Titã não respondeu. Com o sol quase raiando, retornamos à vila e apesar de calado ele estava angustiado.
— Uma pena não termos conseguido, mas talvez Stella possa te ajudar! — Disse.
— Ainda assim tentaremos novamente essa madrugada.
— E ficaremos sem dormir? Isso não vai funcionar, até onde eu saiba Lunus está adormecido…
— Não está, eu o vejo e o ouço, ele só não sabe disso… — Disse Fidel.
Quando chegamos na vila, os soldados já estavam de pé prontos para marchar. O regente da vila me presenteou com uma espada nova e uma armadura Fragark. Senti aqueles olhares de julgamento dos escravos, mas foi só eu devolver que eles cobriram suas faces. Fidel também me olhou com julgamento, e assim como os escravos se manteve calado.
A marcha nesse dia foi mais cansativa, talvez fosse o sono, porém a armadura também parecia restringir meus movimentos. E com o sol escaldante daquele dia, parecia que vestindo aquilo eu estava em um forno. Em dado momento paramos, os soldados tiraram de uma carroça um barril cheio d’água e se serviram. Fidel encheu um balde e levou aos escravos. Eles estavam dividindo entre si aquela pouca água, mas um deles acabou derrubando o balde e toda a água foi desperdiçada. Eu já estava pronto para açoitá-lo, já caminhava estalando o chicote no ar. Porém assim que me aproximei com a mão ao alto e pronto, olhar para aquela pobre criatura encolhida me fez hesitar. Não o açoitei, dei minhas costas, enchi outro balde e levei de volta.
Os Fragarks que observavam riam, e provavelmente julgavam minha fraqueza naquele momento. Me senti mal por decepcioná-los…
“E por que?” Perguntou Sagi.
“Não sei, eu só não…”
“Idiota, sempre com essa mesma imbecilidade…” Disse Sagi.
Continuamos a marchar e no fim do dia fizemos um acampamento dentro de um bosque. Segui até o fundo do bosque, e encontrei um rio. Me despi, e entrei para um banho.
“Por que eu vim até aqui mesmo?” Pensei “Eu esperava salvar essas pessoas dos Fragarks, mas estou me tornando um deles…”.
“E qual o problema de se tornar um deles?”.
“Eles são maus, lembro do terror naquela vila próxima de Wäl. Da forma como me trataram no navio e no campo de treinamento…” Respondi em pensamento.
“Mas os escravos também não são santos… já vimos do que eles são capazes. Como feriram Fidelino, nosso amigo”.
“Sim… eles feriram Fidel…” Pensei.
“Espancaram-no, ofenderam-no e o escalpelaram. Você o vingou, e o sangue daqueles que o feriu correu no chão. Não foi bom?”.
“Sim, foi bom…” Pensei.
“E os novos planejam maltratá-lo novamente, não permita que façam isso…”.
“Não permitirei…” Pensei.
Esses pensamentos me vieram durante todo o banho que tive. Quando retornei, os escravos estavam se preparando para dormir. Puxei novamente meu chicote e os açoitei até ver os ossos deles. Dois soldados tiveram que me parar, e Fidel tentou me acalmar de toda a forma.
Na manhã seguinte tomei uma postura ainda mais rígida com os escravos. E Fidel não conversou diretamente comigo em nenhum momento. Fiz com que aqueles vermes caminhassem depressa, graças a isso pudemos chegar até as colinas e começamos a atravessá-las.
Subir pelas colinas foi difícil, mas seguir o caminho ainda mais. A trilha era estreita e toda queda era um abismo. Os soldados até mesmo desceram de seus cavalos para conduzi-los. Eu continuava liderando aquela fila de acorrentados, e entendendo a gravidade do perigo, parei de açoitá-los. De repente um tremor, e logo em seguida uma pedra enorme atingiu uma de nossas carroças. Era possível ver que do outro lado da colina havia um batalhão inimigo e algumas catapultas. Nosso passo se apressou, e o pânico tomou conta das decisões.
Cada rocha atingida na encosta da colina era uma sentença de morte. O pico da montanha começou a ceder, e deslizamentos levaram soldados para o abismo abaixo de nós. O caminho de volta acabou sendo extinguido e só nos restava seguir em frente. Fidel tentava manter a ordem entre os escravos conforme corríamos, e chegou a soltá-los para que pudessem ter uma chance. Estes não nos atacaram, apenas tentaram salvar suas próprias vidas.
Chegamos em um ponto onde havia uma caverna, e nos escondemos ali junto de uns poucos soldados restantes. Os escravos, todos vivos, ou quase, quando o último tentou entrar, um deslizamento o esmagou e tapou a entrada da caverna.
— Ótimo estamos presos — Disse Fidel.
— Vamos procurar outra saída — Disse, e sem ter uma tocha, iluminei o caminho com minha lâmina e o mesmo feitiço de Sagi.
O lugar era seco e profundo. Sem sinal de vida ou saída, mas continuamos seguindo com a esperança de nos achar. Os soldados Fragark haviam perdido seu comandante naquele deslizamento, e passaram a me seguir e obedecer às ordens de Fidel. Os escravos não aparentaram querer reagir e seguiram-me sem dizer nada.
Descemos muito através daquela furna, até que chegamos num lugar com luz natural. Um lago brilhante, cuja água parecia refletir o próprio céu noturno.
— Parece um bom lugar para descansarmos — Comentou Fidel.
— Concordo, mande que descansem — Disse.
Estava muito quente lá dentro, então tirei a armadura. Os escravos e os soldados se separaram em lados opostos daquele lago, eu continuei procurando uma saída, mas aquele lugar parecia ser o fim da caverna.
— Como vamos sair daqui? — Fidel me perguntou.
— Nós podemos voltar para a entrada soterrada e eu posso tentar quebrar as rochas. Só não sei se os inimigos irão ver a luz, ou se vai piorar nossa situação — Respondi.
Alguns escravos com sede beberam da água do lago, assim como alguns dos soldados. Eu também ia tomar um pouco dela, mas Sagi me proibiu.
“Por que não posso beber?” Pensei.
“Essa água está envenenada, veja que tomou” Disse Sagi.
Quando olhei, muitos já estavam mortos e outros passavam mal. Varil havia tomado e estava se contorcendo de dor, enquanto Naarus o acolhia e chorava por sua dor. Higg veio ao meu encontro pedir para que eu fizesse algo. Não fiz, ao contrário ordenei que aqueles que não tivessem bebido da água subissem para a entrada. Naarus não desgrudava de Varil, e teve que ser tirado à força de lá.
Na entrada da caverna. Concentrei a lança espiritual, a fiz no maior tamanho que pude e disparei na entrada soterrada — deu certo, mas provocou o colapso da caverna, e os últimos a saírem morreram soterrados. Já era noite, e continuamos seguindo a trilha. Só houve um sobrevivente Fragark e nove escravos. Uma chuva caiu sobre nós e tornou ainda mais difícil o caminho que já fazíamos. Higg foi um que escorregou e ficou dependurado no abismo se segurando por uma raiz que sobressaia do chão; eu era o mais próximo dele e o segurei, mas devido a lama e o trecho levemente íngreme precisava de ajuda.
“Solte-o ou morreremos”.
“Não posso, ele não deve morrer dessa forma!” Pensei.
“Nem nós”.
Estava prestes a soltá-lo quando Fidel e os outros surgiram para nos puxar. Continuamos caminhando, e enfim chegamos no fim daquela trilha tortuosa. Não sei, mas agora que tudo parece mais tranquilo, sinto que algo está faltando…

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