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    Os escravos riram do que o Prefeito disse — por nervosismo, deviam temer não terem entendido a piada. O Prefeito também riu, e saindo da extremidade da sala, caminhou devagar até a porta, e a bloqueou com dois soldados.

    — Senhores, isso não é uma brincadeira. Peço que morram por essa cidade — Repetiu o Prefeito.

    — Espera um pouco! Se ia nos matar por que nos alimentou tão bem e deu esperança? — Gritou um dos escravos.

    Outros estando já nervosos, repetiram as mesmas reclamações. Dizendo que era mais justo que os tivesse matado antes de todo o conforto. Naarus, que já estava cabisbaixo desde a morte de Varil, chorou em desespero sobre a mesa.

    — Senhores, isso não será um abate. Não sois como os porcos que comeram — Disse o Prefeito — Peço que morram lutando por essa cidade.

    — Lutando você diz?! — Gritou Higg — Que tal eu começar matando você?!

    Higg se levantou, mas no mesmo instante foi detido por um soldado. Ele rosnou enquanto tinha sua cabeça forçada contra a mesa, outros dois guardas prendiam os grilhões nas mãos dele para que não fosse mais ameaça.

    — Deixe que eu conte uma história — Disse o Prefeito — Há muito tempo essas terras foram abandonadas pelos deuses, e com isso espíritos malignos se proliferaram e agora trazem desgraça à esse reino que antes já foi um Império. Um desses espíritos, um Djinn poderoso, construiu uma masmorra no coração desta cidade e a amaldiçoou com o flagelo. O que peço, é que tentem derrotar o Djinn e libertar a cidade.

    — Você já espera que a gente morra, não é mesmo? — Perguntei.

    — Perspicaz como sempre… sim, não acho que tenham o que é necessário, são apenas onze de vocês e todos parecem fracos. Ao menos servirão de sacrifício para que ele dê mais tempo à essa casa — Disse o Prefeito.

    Um dos escravos, o mais jovem de nós entrou em completo desespero. Ele gritava para não ser levado para a masmorra, tentou fugir, mas foi detido. 

    — Depois de comer minha comida e ouvir meu apelo, ainda deseja fugir? — Perguntou o Prefeito, enquanto se aproximava do jovem.

    — EU NÃO QUERO MORRER! EU NÃO QUERO MORRER! EU NÃO QUERO MORRER! — Gritava o jovem, que havia sido imobilizado sobre a mesa.

    — Soldado, faça ele se calar! — Disse o Prefeito.

    Então levantaram a cabeça do jovem e cortaram seu pescoço. Depois o deixaram ali se afogando em seu próprio sangue, que correu sobre a mesa e caiu nos tapetes, mas não manchou os mesmos.

    — Agora são dez… muito bem, se todos estiverem de acordo, meus soldados levarão os senhores até o subterrâneo da mansão onde está a entrada da masmorra. — Disse o Prefeito — E lembrem-se, tenham esperança!

    Os soldados não nos conduziram, e sim levaram-nos à força até a escada que levava ao porão. Descemos por uma escadaria estreita, o que havia ali não era um porão e sim algo mais parecido com um calabouço; nas celas estavam presas criaturas irreconhecíveis — esguias, tomadas por erupções, membros deformados e exalavam o cheiro de enxofre que sentíamos do lado de fora da mansão.

    — O que são essas coisas? — Perguntou Fidel.

    — O povo… — Respondeu um dos soldados.

    No fim daquele calabouço havia uma catacumba. Atravessando-a, podíamos ver os esqueletos distorcidos pelas paredes. Era um corredor longo e escuro, sendo iluminado por poucas tochas, mas no fim havia uma luz forte — essa luz pertencia a uma fonte que nunca havia visto. A fonte era como água, como uma cachoeira, mas não era água e sim algo vermelho, viscoso e quente. 

    “Não toque nisso garoto, é magma” Disse Sagi.

    Já não ia tocar, mas o nome me assustou ainda mais. A fonte de magma estava ligada à uma torre, corria debaixo dela como um esgoto e caia formando um rio que atravessava toda a caverna à qual estávamos. Havia uma ponte de pedras atravessando o rio e um caminho que levava até a torre. Os soldados nos conduziram por esse caminho e nos deixaram na entrada.

    — Desejo que tenham sorte lá dentro — Disse o Soldado.

    — Vá se foder! — Respondeu Higg.

    Os soldados empurraram à força os escravos, eu por outro lado entrei por conta própria. Já não tinha aceitado bem antes de todos esse destino. Não valia a pena lutar contra, nem mesmo lamentar a morte do jovem ou pela dos outros; homens mortos não contam histórias, e eu planejo contar muitas ainda. Então talvez nem a vida de Fidel fosse válida de lamentação nesse ponto. Depois de atravessar a barreira que separava o mundo da masmorra, me encontrei novamente naquele lugar escuro, molhado e cujas cicatrizes eram minha única luz. Sagi e Fidel ajoelhados à minha frente, uma faca luminosa na mão direita.

    “Ilumine o caminho”

    Dessa vez, parei a faca na garganta de Sagi e a raspei até seu queixo. Não cortei seu pescoço, antes mesmo de largar a faca, ele e Fidel me perfuraram e disseram:

    — Abra seus olhos.

    Quando abri estava deitado em uma mata fechada, grandes árvores musgosas e umidade no ar — talvez fosse o ar mais úmido que eu tinha respirado. Havia uma pequena corrente de água perto de mim, podia ouvir os cantos dos pássaros e sentir os pequenos insetos andando sobre minha mão. Quando me levantei, olhei de um lado à outro e estava só. Nem sinal de Fidel, ou qualquer outro. Parecia até que eu havia desmaiado em algum lugar e tinha acordado daquele pesadelo horrível que estava tendo. Comecei a andar, estava descalço e podia sentir a terra macia entre meus dedos; as folhas mortas sobre meus pés, uma brisa leve no rosto. Tudo estava em paz.

    “Essa não é uma masmorra comum” Disse Sagi. Claro que nem tudo podia ser perfeito.

    — E por quê? — Perguntei.

    “Não é normal que seja tão agradável” Disse Sagi.

    Continuei andando, até um ponto que me deu fome, mas encontrei pequenas frutas silvestres e as comi. O sabor era doce, suculento, e saciava muito. Continuei andando até que anoiteceu, encontrei uma clareira e em seu centro havia uma cama de flores. Deitei-me sobre elas e dormi. Talvez a masmorra fosse mesmo agradável.

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