Mundo conforme visão de Fidel:

    Meu nome é Fidelino Capraecornus, mas meus amigos me chamam de Fidel. Eu não sei bem onde estou, é um lugar escuro e apertado; alguns momentos antes eu estava em uma mansão, aproveitando de um bom desjejum, mas então os soldados nos trouxeram até essa masmorra. Ela estava bem escondida embaixo da mansão, eu e meus companheiros estávamos sendo forçados à entrar aqui; os soldados nos empurravam e desejavam-nos sorte. Realmente sinto que preciso disso.

    Comigo estão alguns de meus companheiros, quando entramos na mansão éramos onze: Eu, Piscis, Naarus, Higg, Jonjon, Greetar, Nawan, Vael, Boutos, Caramer, Lauto. Nós fomos bem tratados na mansão, mas então o dono dela, Admun o Prefeito de Gargataul, nos traiu e mandou que nos jogassem dentro da masmorra. Ele matou um de nós — o mais jovem Lauto — à sangue frio e nos empurrou até esse fosso.

    Meu amigo Piscis estava certo em desconfiar desse lugar, acredito que ele poderia nos tirar daqui se quisesse, mas ele anda estranho ultimamente. Até mesmo entrou sozinho na masmorra enquanto nós discutíamos com os soldados e, dos dez de nós que restaram, ele é o único que não está conosco nessa escuridão.

    — Você tem certeza de que estamos todos aqui? — Perguntou Jonjon.

    — Sim, eu posso vê-los — Respondi.

    — Mas nós não conseguimos ver você — Disse Naarus.

    — Eu consigo ver você Naarus. Sigam minha voz, e nós encontraremos uma saída — Respondi.

    Assim começamos à andar, eu guiei a companhia por aquele corredor escuro. Alguns tropeçaram, outros caíram, somente eu podia enxergar no escuro. Quando encontramos nossa saída, descobrimos estarmos dentro de uma caverna esse tempo todo. E ao contrário do que muitos pensariam, não era da preferência de todos sair de lá. 

    — Como vamos atravessar isso? — Perguntou Greetar.

    — Andando, de que forma seria? — Disse Caramer.

    — Que merda de lugar quente! — Gritou Nawan.

    Estávamos em um deserto completo, com areia nas quatro direções possíveis. Até mesmo a entrada da caverna foi engolida por aquelas areias depois que saímos dela. O sol era forte, não havia nuvens nem sombra, tínhamos que atravessar aquele deserto ou então morreríamos pelo calor. 

    — As roupas que nos deram possuem essa faixa — Disse Vael — Cubram a cabeça usando-a!

    Todos então fizeram isso, com exceção de Higg, que dizia que nunca iria cobrir a cabeça com algo vermelho. Porém, ao andarmos muitas milhas à frente, o sol foi cobrando seu preço e Higg acabou cedendo. Não havia inimigo senão aquele no céu, que nos castigou fortemente até ser coberto por uma nuvem. Achávamos que nossa situação ia melhorar, Caramer que estava ranzinza até o momento chegou a dar glória aos deuses — porém não era momento de glória alguma. A nuvem veio acompanhada do vento que vinha oposto à qualquer direção que tomássemos, como se fosse vivo; além disso, raios começaram a cair perto de nós transformando areia em vidro, mas nunca perto o suficiente. 

    — Continuem firmes! — Gritei.

    — Tomem cuidado com os raios! — Gritou Higg.

    Uma chuva fina passou a cair, e logo se tornou grossa. Ela surgiu tão forte que da areia começou a subir água até ficarmos cobertos até o peito. Logo a água subiu mais e tivemos que começar a nadar, não que todos nós soubéssemos.

    — Socorro! Socorro! — Gritava Naarus, enquanto surgia de um mergulho e outro.

    — Segura minha mão! — Gritou Jonjon enquanto estendia o braço e pegava Naarus.

    Vael disse ter visto um barco, e nós o seguimos apenas para encontrarmos um tronco velho boiando.

    — Subam nele, já não damos mais com o pé no fundo! — Gritou Jonjon.

    Então de pouco em pouco fomos subindo, a madeira ameaçou virar à medida que subíamos. E não havendo espaço para todos, pusemos os que não sabiam nadar em cima — Naarus, Caramer e Boutos — junto dos que nadavam mal — eu e Greetar — enquanto os que nadavam bem apenas seguiram apoiados. A inundação se comportava de forma muito anormal, ondas surgiam e redemoinhos tentavam nos engolir.

    — Eu não consigo mais segurar! Estou sendo puxado! — Gritou Nawan, que estava apoiado na borda da madeira.

    — Segure-se em mim! — Gritou Jonjon, agarrando Nawan.

    Jonjon estava com um braço em Nawan enquanto cravava o outro em um sulco do tronco. Conforme sua mão foi perdendo o sulco, eu e Boutos tentamos segurá-lo, para não deixar que tanto ele quanto Nawan fossem engolidos por aquela correnteza. 

    — Solte-o Jonjon! — Bradou Boutos.

     — Não posso! Ele irá morrer!

    — Assim como todos nós se não o soltar! 

    Jonjon insistia em não abandonar Nawan, mas essa escolha fez com que Boutos o abandonasse. Ele o largou e tive que segurar Jonjon sozinho, não consegui, e tanto ele quanto Nawan foram levados pela correnteza. Outros que estavam em cima do tronco não puderam o salvar, pois já estavam ajudando outros que estavam apenas apoiados no tronco. Mais algum tempo de chuva se passou, até que novamente o sol voltou e a água rapidamente foi se dispersando. A inundação sumiu tão rápida quanto surgiu, e com o retorno da areia veio também um portão que emergiu debaixo dela. Quando o portão se abriu, revelou uma escada e um caminho.

    Eu ainda estava aturdido com tudo, olhando e percebendo que nunca andamos de fato para lugar algum. Talvez os cadáveres de Jonjon e Nawan estivessem embaixo de nós, e todo o resto daquela areia não passaria de uma miragem. Mesmo o sol era digno de desconfiança e meus companheiros…

    — Boutos! Venha cá! — Gritei — Por que você soltou Jonjon?! — Eu avancei para cima dele e o empurrei.

    — Você não estava lá?! Não viu que era nossa única escolha? — Respondeu Boutos, enquanto recuperava o equilíbrio.

    — Matou aqueles homens! — Gritei.

    — Não os matei! O que fiz foi salvar todos! 

    Continuei avançando para cima dele. Queria bater nele, jogá-lo contra o chão, chutá-lo, mordê-lo. Higg me segurava e Caramer se mantinha entre nós, o resto observava — estavam aturdidos demais para se preocuparem conosco.

    — Você é um maldito cruel igual seu amigo! — Bradou Boutos — Eu devia era matar você!

    — Se quiser matá-lo, irá primeiro passar por mim! — Disse Higg, me soltando e encarando Boutos — Este homem é o que nos separa daquele monstro!

    — Você é um castrado! Cãozinho de estimação desses dois! — Exclamou Boutos.

    Higg o instigou a repetir e Boutos repetiu. Higg tentou avançar em cima dele, mas dessa vez eu o segurei. Caramer continuava entre qualquer um que tentasse brigar. Vael foi o que conseguiu apaziguar os ânimos e nos fez retornar ao objetivo: sair dali. Ele assumiu a ponta do grupo enquanto eu fui para o fundo e fiquei junto de Naarus e Higg. 

    — Como você está, Naarus? — Perguntei.

    — Vivo… — Respondeu ele, sempre olhando para baixo e de canto de olho — Sinto muito. Queria perguntar, por que você não usou seus olhos para ver através da areia?

    Naarus conhecia meus poderes, havia compartilhado com todos minha capacidade na noite anterior. Porém não expliquei muito sobre.

    — Meus olhos veem através de tudo, mas como qualquer magia, eles gastam todo o meu mana e eu volto a enxergar como qualquer outro — Disse.

    — Entendi… — Naarus olhava para o chão, quase não queria dar mais passos.

    — Ainda lamenta pela morte de Varil? — Perguntei — Desculpe perguntar…

    — Sim… ele era um amigo muito querido… — Disse Naarus.

    — Só um amigo?

    Naarus virou seu rosto para mim depressa, deu um tropeço e arregalou os olhos. Higg estava à frente e não tinha uma audição muito boa para nos ouvir.

    — Você guarda segredos? — Perguntou Naarus.

    — Sempre! — Respondi.

    Pude ver o alívio dele, e com isso seguimos subindo aquelas escadas…

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