Capítulo XXV: Tão jovens.
A escadaria era longa e nós éramos somente sete. Subimos por aquele corredor luminoso até que ficássemos cansados, Caramer foi o primeiro a propor que tivéssemos algum descanso. Claro que todos concordamos, mas por ainda haver motivos de desconfiança, nos mantivemos separados em dois grupos — no meu estavam Higg, Naarus e Greetar; no outro Boutos, Caramer e Vael. Estávamos sentados nos degraus, mas em lados opostos, e conversávamos entre nós mesmos.
— Concordo com você Fidel, ele não devia ter soltado Jonjon daquela forma — Disse Greetar — Só que essa divisão não vai nos ajudar em nada!
— E quem disse que estamos divididos? — Perguntei.
— Como não? Eles estão lá e nós aqui! — Disse Greetar.
— Sim, o que nos separa são duas jardas de espaço e alguns degraus — Disse — Não seja idiota! Eu e Boutos podemos estar brigados, isso não nos impede de trabalharmos juntos.
Higg concordou comigo, Naarus também. Greetar ainda teve suas dúvidas. Ele temia que eu abandonasse Boutos da mesma forma que ele abandonou Jonjon e Nawan.
— Eu nunca faria isso, e ele também não vai fazer comigo — Respondi — Ao menos ele não faria sem motivo. Entendo o que ele fez, sei que foi para salvar todos, mas acho que ele deveria ter sido menos conservador.
Vael nos convocou para voltarmos à subir as escadas. Boutos veio ao meu grupo e pediu desculpas pelas coisas que disse.
— Olha, eu sei que você não é como ele… — Dizia Boutos.
— Está tudo bem, sei que vocês temem Piscis e me veem como bajulador dele — Interrompi — Porém saibam que no princípio nós queríamos libertá-los, eu ainda desejo isso!
— E quanto Piscium? — Perguntou Boutos.
Eu não o respondi, não sabia o que responder. Apenas o abracei e pedi para que seguíssemos Vael. Ao chegarmos no fim daquele lance de escadas, nos deparamos com um andar totalmente diferente do anterior. Ao invés de um deserto ou lugar aberto, estávamos dentro de uma mansão igual àquela que pertencia ao Prefeito Admun.
Conforme fomos andando pelo corredor central buscando encontrar o salão, percebi que a única diferença eram as armaduras que estavam servindo de enfeite — mas mesmo elas pareciam com as que pertenciam aos soldados. Fora isso, toda pintura, toda tapeçaria, os papeis de parede, os riscos e os desgastes dos rodapés eram os mesmos. Quando enfim chegamos no salão, tivemos uma lembrança nem um pouco agradável; Lauto ainda estava lá jogado em uma poça de sangue que escorria sobre os tapetes, mas o vermelho de seu sangue não era o bastante para manchá-los.
— EI SEU DJINN MALDITO! ACHA QUE ISSO É ENGRAÇADO?! — Gritou Higg.
— Se acalme, não queremos que algo nos perceba! — Exclamou Caramer.
No fundo, estávamos todos com o coração igual ao de Higg. Por mais que pudesse ser um bruto, eu o respeitava por sua força de vontade. Homens que sofreram o mesmo que ele, não teriam a mesma determinação. Pensar que sofri, ou melhor, sofro, apenas por ter pedido meus cabelos.
Enquanto nos distraíamos com Higg e Caramer, algumas das armaduras nos emboscaram. Elas eram muitas e não reagiam aos nossos ataques, nos imobilizaram contra o chão. Pude ver pouco, mas ouvi Greetar gritando como Lauto, e assim como ele, Greetar era o mais jovem de nós tendo apenas catorze anos — cortaram o pescoço dele, mas não pude ver seu rosto, não queria de qualquer forma. E antes que tentasse, fui golpeado na cabeça e desmaiei.
Capítulo I: Colina dos Capraecornus.
Eu acordei de um sonho muito ruim agora — eu era um escravo e estava enfrentando uma masmorra, mas tudo era assustador e horripilante. Enfim, meu sonho não interessa, hoje é um grande dia, meu irmão finalmente vai se casar!
Meu nome é Fidelino, moro nas colinas que fazem divisa com o reino de… esqueci o nome. Não importa! Hoje é um dia muito especial! Eu desço pelas escadas sorridente e alegre, encontro meu pai Jego, e meu irmão Piscis na mesa para o desjejum.
— Finalmente te levantaste da cama! — Disse meu pai.
— Perdoa, eu não dormi bem essa noite… — Respondi.
— Tendo sonhos estranhos outra vez? — Perguntou Piscis, meu irmão — O último que me contou era com você perdendo os cabelos!
Por alguma razão, a voz de meu irmão me pareceu irritada. Eu alisei meus cabelos e percebi alguns fios grudados na minha mão. Não importa! Eu como o desjejum e vou para o campo pastorear nossas ovelhas. O sol, como sempre, está brilhando forte, o que é bom já que hoje teremos a união de Piscis e Cleonice. Inclusive, eu deveria ajudar com os preparativos! Então levo minhas ovelhas de volta ao cercado, e desço até a vila de Hanarion e encontro meu amigo Varil. Ele estava preparando sua fantasia cerimonial, esse ano ele vai usar uma cabeça de jacaré e uma saia.
— Olá Varil! — Disse.
— Oi Fidel, como vai? — Respondeu Varil.
Nós tivemos uma conversa breve sobre os preparativos do casamento. Até que ele desmaia, e seu corpo começa a se contorcer.
— O que está acontecendo Varil! Me responda! — Gritei.
Um dos moradores me separou dele e me mandou voltar a cuidar dos preparativos. Porém ver Varil dessa forma… não importa! Vou até a casa de Cleonice checar como ela está. No meio do caminho vejo alguns jovens e crianças brincando de soldado. Uma delas até mesmo cortou a garganta da outra, e seu sangue correu por entre as pedras do calçamento… fofo! Cheguei à casa de Cleonice, era uma enorme mansão e as portas já estavam abertas. Por dentro havia… nada… onde estou? Isso não é real!
De volta à realidade…
Acordei preso dentro de um casulo de seda, deitado em uma teia enorme. Não conseguia me mexer muito bem, mas podia tentar me soltar. Conforme fui rasgando aos poucos aquele casulo, algo percebeu e montou em cima de mim — a criatura era enorme, com múltiplas patas iguais as de uma aranha, seu corpo se estendia para cima com mais dois membros que eram semelhantes à braços. Ela aproximou sua boca que parecia a de uma sanguessuga perto de mim, encarou-me e pôs seus dois braços em volta de minha cabeça.
Por mais que eu resistisse aos poucos fui perdendo minha consciência, até que ela se distraiu, Higg e Naarus vieram me resgatar. A criatura tentou atacar Higg, mas ele correu em torno dela e cortou suas patas, logo em seguida perfurou a parte do corpo que se estendia para cima. Com isso ela morreu.
— Que bom que te achamos! — Disse Higg, cortando a seda do casulo.
— Onde estamos? Onde estão os outros? Como conseguiram se soltar? — Perguntei, ainda enjoado.
— Não sabemos que lugar é esse, e até agora só achamos você — Disse Higg, ao me libertar por completo — Agradeça ao Naarus, ele conseguiu fugir daquelas armaduras e me libertar.
O “covarde” — como Piscis gosta de chamar — acabou se esgueirando e fugindo das armaduras através da mansão. Sozinho ele derrotou uma, e com a arma dessa achou Higg em uma situação parecida que a minha e matou a criatura que chamam de “Aractopata”.
— O que você viu para conseguir acordar? — Perguntou Higg, me dando apoio.
— Uma vida “perfeita” …
— Sortudo! Elas me fizeram ver o dia que perdi meu olho, e aquele dia que o Piscium… — Disse Higg, que parecia não estar totalmente liberto da ilusão — Eu vi, tudo de novo e de novo…
—Acalme-se Higg. Já passou. — Disse Naarus, enquanto o confortava.
Caminhamos por algum tempo naquelas grutas, até que encontramos luz em um corredor, e finalmente voltamos à mansão. Naarus não sabia como voltamos para ela, já que o caminho que estávamos fazendo sequer era parecido com o que ele tinha feito. Quando olhamos para trás, a porta havia sumido, e apesar de batermos na rocha da parede tentando de algum modo voltar para procurar pelos outros, não adiantava, sequer arranhava. Decidimos então explorar a mansão e seus quartos procurando uma saída, e sem haver uma, voltamos ao salão, para nossa surpresa as armaduras não estavam mais lá e encontramos Caramer junto de Vael.
— Que bom que os achamos! — Disse.
— Afastem-se de nós! Como vamos saber que não são ilusões? — Disse Vael, nos apontando uma espada.
— Somos nós, se acalme… onde está Boutos? — Perguntei.
— Morto… as tecelãs de sonhos o comeram — Disse Caramer.
Havia algo no ar que o deixava pesado. Vael não abaixava sua espada à nenhum custo, e mesmo que Caramer conversasse conosco e tentasse convencer ele de que éramos reais, Vael não cedia.
— Vocês são todos ilusões! Eu vi! Elas me mostraram a verdade e eu fui liberto! — Gritava Vael.
— Se acalme Vael, eu… — Dizia Caramer, mas foi silenciado abruptamente.
Vael perfurou o abdômen de Caramer, e continuou gritando que não passávamos de ilusões. Ele tentou avançar sobre nós só que Higg o prendeu, e tentou conversar com ele. Porém Vael não ouviu nada… por medo ou desespero, ele mordeu a própria língua acreditando que a morte o libertaria da ilusão…

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