Capítulo XXVI: Jardim.
Higg largou o corpo de Vael, que caiu sobre os tapetes vermelhos com sangue escorrendo de sua boca. Novamente, os tapetes não se mancharam, nem com o sangue de Vael e nem com o de Caramer. Naarus quebrou em lágrimas e Higg só pôde se lamentar em silêncio. Eu fiz questão de ao menos cobrir os corpos de ambos, rasgando uma das tapeçarias da parede e usando-a como cobertor para ambos. Descansem em paz, não só esses dois, mas também Greetar, Boutos, Jonjon, Nawan, Lauto e… Piscis, onde quer que esteja.
— Veja! Uma porta está se abrindo! — Disse Higg, apontando para onde arranquei a tapeçaria.
Havia aberto outro portão na parede, similar ao que emergiu das areias. Entramos e subimos mais uma longa escadaria, e da mesma forma que antes, não conseguimos subir tudo de uma vez. Paramos novamente sentados nos degraus das escadas, os três sobreviventes, o trio dos feridos por…
— Será que encontraremos Piscium no próximo andar? — Perguntou Naarus.
— Como assim? — Perguntei.
— A masmorra parece querer atravessar nossos traumas, nossos medos, nossos desejos… — Disse Naarus.
— Acha que Piscis é um trauma? — Perguntei, um pouco ríspido.
— Você não acha?
Naarus se levantou, subiu alguns degraus e sentou-se novamente. Suspirou forte, se encolheu, olhou para um reflexo e continuou.
— Piscium matou vinte de nós sem sofrer um arranhão. Até os Fragarks deviam ter medo dele reagir à punição, por isso não o retaliaram como deveria — Disse Naarus.
— Ele só matou esses vinte porque alguns deles ameaçaram de matá-lo! — Atorqui.
— Não me entenda mal, não quero ofendê-lo. Só não é normal o que ele fez, e todas aquelas cicatrizes no corpo, no rosto. As vezes que ele fala sozinho acreditando que ninguém percebe. Mesmo a forma como ele manifesta poderes mágicos muito poderosos e luta não é normal — Dizia Naarus — Isso que ele tem dezessete anos, apenas dois anos mais novo que eu…
Conforme ele falava, eu tinha na ponta da língua a resposta para todos esses mistérios. Sabia sobre a história de Sagi, do Demônio, de Galvênia, da Deusa… Piscis havia me contado tudo. Entendia que para quem não o conhecesse como eu, era como se ele fosse algo mitológico, mesmo em Jarmont — onde temos aventureiros poderosos — Piscis seria facilmente reconhecido como um aventureiro Ouro, que é o terceiro nível mais alto para um aventureiro. Sob possessão de Sagi, talvez fosse Platina, o mais alto de todos.
— Piscium é um homem de dar medo…, mas acredito que ainda seja um homem! Então pode morrer! — Exclamou Higg.
— Mas é um homem com a força de pelo menos trinta ou cinquenta! — Disse Naarus.
— E mesmo assim o sangue dele é vermelho como o nosso — Respondeu Higg — De onde eu venho tem um ditado: Cubra sua cabeça com vermelho e seus inimigos saberão que sangra!
Já tinha ouvido esse ditado, é de Salamanha, um país que faz fronteira com o Sul de Jarmont. É dito que entrou em guerra com um país maior poucos anos atrás e ganhou.
— Você lutou na guerra contra Bragávia? — Perguntei.
— Sim, fui um lanceiro de infantaria. Mandei para o inferno vários daqueles cabeças vermelhas de Bragávia. Uma pena, porém, que no fim da guerra perdi um olho e não pude desfrutar da vitória na última batalha!
— Você é bem mais velho do que parece — Comentei.
— Já passei dos quarenta, admito, mas ainda dou para o gasto!
— E como você foi pego pelos Fragarks? — Perguntou Naarus.
— Bom, eu não me contentei só com a guerra, então fui para Jarmont trabalhar como mercenário, ou como vocês chamam “aventureiro” — Dizia Higg — Fui pego de surpresa pelos malditos de língua de presa, e levado para aquele campo de treinamento. Mas me orgulho de ter matado três antes de me acorrentarem.
Higg nos contou algumas histórias suas, algumas dignas de rir, outras de chorar. Mas conforme fui as escutando decidi olhar por dentro de Higg pela primeira vez, e usando minha visão especial, pude ver a verdadeira aura de um homem. Essa aura era diferente da minha, de Piscis, talvez um pouco semelhante com a de Sagi, mas a daquele espírito é muito mais brilhante. Higg, apesar da violência, era leal e humilde de espírito.
— Chega de falar de mim! Quero ouvir de você Naarus, nos conte como parou aqui — Disse Higg.
— Não é tão legal quanto as suas histórias… — Respondeu Naarus.
— Vamos, não deixe o homem curioso! — Disse.
— Tudo bem, eu e Varil éramos fazendeiros. Crescemos juntos em uma pequena vila chamada Brokun, perto de Hivermon — Contava Naarus — Nós costumávamos buscar trabalho nos feudos próximos, fosse na plantação ou no pastoreio. Um dia deixamos nossas esposas na vila e saímos para pescar.
— Você é casado? — Perguntei espantado.
— Sim, também tenho dois filhos. Varil ganha de mim, ele tem quatro, mas só porque se casou mais cedo — Disse Naarus, sorrindo — Um dia nós deixamos nossos filhos e esposas, descemos as colinas procurando por um lago para pescarmos. Iriamos ficar fora por uma semana ou duas, paramos no pé da montanha e fomos levados pelos Fragarks.
Foi contando essa última parte que Naarus suspirou fundo, passou a olhar para o nada, parecia querer chorar como sempre. Eu sei que o Varil era para ele de verdade.
— Deve querer voltar para seus filhos, não é mesmo? — Perguntou Higg.
— Não desejo, vão me fazer perguntas e eu não vou querer responder. Ainda mais a família de Varil, prefiro que pensem que os abandonamos ou morremos à ter que enfrentá-los.
Todos ficamos em silêncio por um instante, o eco da escadaria remetia somente ao barulho de nossas respirações. Éramos três homens cansados de uma batalha que não nos pertencia. Três homens que tinham corações e desejos inclinados para uma vida que foi tirada de nós. Porém não era parando que iríamos sair dessa, então voltamos à subir as escadas.
No fim daquela subida havia um jardim florido, e sobre uma cama de rosas estava dormindo alguém muito familiar. Era como se Piscis tivesse sido poupado, ou se tornado parte do nosso desafio. O engraçado é que eu não tinha razões para temer a segunda opção. Piscis para mim era apenas um garoto, seis anos mais novo, podia ser meu irmão menor, mas age como se fosse o mais velho. Ele sofreu demais, e vê-lo dormindo tão tranquilamente chega a ser um alívio.
— É como um dragão dormindo sobre o próprio tesouro — Sussurou Higg.
— Devíamos matá-lo… — Sussurrou Naarus.
— Você está louco! Ele ainda é um homem! — Respondi Sussurrando.
— E é perigoso demais para estar vivo… — Sussurrou Naarus.
Esse impasse durou algum tempo, estávamos próximos àquela cama e somente Higg possuía uma espada para matá-lo. Mas contra minha decisão, ele pendeu para o lado de Naarus e concordou que Piscis era muito perigoso e que a chance era essa. Assim, ele levantou sua espada acima do peito de Piscis, eu ainda tentava o convencer de que aquele não era o caminho — sendo que eu só não acordava Piscis por medo da retaliação que ele causaria. Não foi preciso acordá-lo de qualquer forma, antes de Higg o perfurar ele já havia aberto seus olhos…

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