Índice de Capítulo

    “Ah!”

    O homem gritou de forma ensurdecedora, enquanto caia de joelhos, com sangue jorrando sem parar de seus braços.

    Todos os observadores ao redor ficaram completamente em choque e até mesmo Amélia, Johnathan e o outro Capitão Combatente ficaram sem palavras. Um simples Tenente, havia realmente mutilado um Capitão, ao cortar seus braços em um único ataque preciso. Isso era algo completamente surreal.

    O próprio Fernando ficou surpreso com isso. Afinal, ele só havia conseguido essa façanha, devido ao fato do sujeito o subestimá-lo tanto ao ponto de enfrentá-lo com as mãos nuas e de forma tão confiante.

    Esse idiota, ele realmente é um Capitão? pensou, desnorteado. Inicialmente ele só planejava diminuir a mobilidade do seu oponente, atingindo uma das articulações de seu braço, mas ao vê-lo com sua guarda tão baixa, o rapaz não pôde evitar desferir um golpe ainda mais critico. Na verdade, sentiu que se quisesse, poderia até mesmo tirar sua vida, porém isso seria algo excessivo, mesmo para ele. Talvez seja porque ele é um Combatente treinado pelo Salão?

    Logo o jovem Tenente chegou a uma dedução. Enquanto avaliava a postura de Johnathan, em relação aos dois homens, parecia haver muitas diferenças.

    Mesmo que ambos os lados aparentemente exalassem uma força semelhante, o Capitão Comandante, que servia aos Generais e estava em constantes batalhas, parecia afiado como uma lâmina recém-forjada, atento ao menor dos perigos, por outro lado, os Combatentes que guardavam o Salão, eram como metais afiados produzidos em massa. Apesar de possuírem algum corte, por estarem guardando locais relativamente pacíficos, não dispunham da ferocidade necessária para a posição.

    “Um Tenente realmente derrotou um Capitão Combatente? Eu estou vendo direito?” Um Oficial comentou, em choque. Ao redor, muitos outros olharam para essa situação igualmente surpresos.

    Além disso, os gritos entorpecidos do sujeito contrastaram completamente com a aparência calma do rapaz pálido. Era como se o que ele havia feito fosse algo esperado e normal em seu dia-a-dia.

    Quando o outro Capitão Combatente viu a cena de seu parceiro ajoelhado, seus olhos encheram-se de fúria, quando uma aura verde começou a emanar de todo seu corpo.

    Magia de Veneno? Se esse cara usar isso aqui…

    A expressão de Johnathan afundou. Até agora, ambos os lados estavam apenas se ‘cumprimentando’, sem usar qualquer força real, já que se fizessem isso, destruiriam todo o local e colocariam a vida de vários funcionários e transeuntes em perigo, o que era algo que nenhum deles queria. Porém, com um deles sendo mutilado dessa forma, não havia mais espaço para cortesia ou contenção!

    Amélia, que viu aquela cena absurda, não hesitou, quando deu as costas e saiu correndo para a parte interna do Salão, em busca de abrigo.

    Olhando para o corpo da recepcionista que fora obrigado a matar, além das outras duas que ficaram feridas, bem como o Capitão Combatente mutilado, Fernando sabia que tudo aquilo seria usado contra ele. Suspirando, o rapaz nunca imaginou que sua convocação forçada o levaria a fazer tudo isso.

    Pelo canto dos olhos, o jovem Tenente notou a fuga de Amélia e seus olhos logo ficaram frios. 

    Já que você me fez chegar a esse ponto, então irei até o final! pensou, quando abriu a mão, formando uma Flecha de Fogo, então, com um rosto inexpressivo, lançou-a em direção à mulher.

    Um dos Guardas, que havia conversado com Fernando antes e que estava apenas observando a situação, sem se atrever a se envolver num conflito como esse, logo notou as ações de Fernando.

    “P-protejam a Administradora!” gritou em plenos pulmões, mas sabia que já era tarde.

    Swish!

    A Flecha de Fogo cruzou o enorme saguão numa velocidade absurda, cortando o ar.

    Amélia, mesmo sendo uma mera civil, sentiu uma sensação ruim em suas costas e teve um mau presságio a respeito.

    Johnathan ficou aturdido, nunca imaginando que Fernando faria tal loucura e o Capitão Combatente, que estava prestes a explodir sua magia, travou no lugar, aterrorizado. Se Amélia fosse morta durante sua supervisão, ele teria um destino pior do que a morte.

    Quando o ataque estava prestes a acerta-lá em cheio, uma sombra surgiu numa velocidade impressionante.

    Ssssss!

    Uma mão nua bloqueou a Flecha de Fogo, esmagando-a como se não fosse nada.

    “O que esta acontecendo aqui?!” Uma voz calma, mas poderosa, imbuída de autoridade, indagou.

    Essa pessoa não era outra senão o próprio General Comandante Wayne. Assim que ele apareceu, uma enorme pressão espalhou-se sobre todo o local, causando um forte tremor, fazendo todos congelarem no lugar, como se fossem coelhos assustados.

    Logo mais figuras chegaram ao seu lado, aparecendo numa velocidade impressionante. Estes eram Dimitri, Herin, Zado, Ramon, Oliver e Pagliuca. A totalidade do Alto Comando de Garância havia chegado!

    Ao ver isso, a expressão de Fernando afundou.

    Parece que meu pedido de ajuda saiu pela culatra… pensou, arrependido, se eles tivessem demorado apenas mais um segundo, Amélia estaria definitivamente morta e teria um inimigo problemático a menos para lidar.

    Anteriormente, ele havia enviado mensagens para Zado e Dimitri, detalhando o ocorrido e solicitando sua ajuda. Mas como os Generais estavam em meio a uma reunião, isso parecia ter atraído a atenção de todos os outros também.

    Amélia, que caiu no chão, aterrorizada, viu os Generais e ficou aliviada, mas rapidamente se recompôs. Se ela quisesse ter o controle da narrativa, precisava tomar a dianteira!

    “E-ele, aquele maldito psicopata, ele está matando as recepcionistas e até cortou os braços de um Combatente do Salão!” gritou, frenética, enquanto apontava para Fernando.

    Todos os Generais olharam para o rapaz pálido. Vendo uma das mulheres mortas e as outras duas feridas, bem como um Capitão Combatente ajoelhado, com os dois braços decepados, todos tinham expressões estranhas em seus rostos. Como um simples Tenente seria capaz de fazer todo esse estrago?

    Dimitri balançou a cabeça, apreensivo, parecendo já saber que as coisas terminaram assim em algum momento. Por outro lado, Zado não demonstrou qualquer sentimento, como se tudo isso não estivesse relacionado a ele.

    “Esse moleque sempre está envolvido em problemas. Eu avisei a todos, mas não deram ouvidos a mim, devemos executar esse desgraçado agora mesmo!” Herin exclamou, cheio de fúria.

    “Você sequer ouviu os dois lados, mas já fala tão facilmente em executar o subordinado de outra pessoa. Há alguma intenção oculta por trás das suas palavras Herin?” Dimitri interviu, exalando eletricidade. Mesmo que ele próprio não estivesse satisfeito com as dores de cabeça causadas pelo rapaz, não hesitou em sair a seu favor.

    A expressão do sujeito de barba e cabelos negros mudou.

    “Você ousa me acusar tão levianamente? Sugiro que tome mais cuidado com suas palavras, General Dimitri.” O homem respondeu, com desdém.

    “Basta.” Wayne declarou, com uma voz calma. “Chamem os Magos de Cura e salvem quem pode ser salvo. Vamos apurar os fatos agora mesmo.”

    Momentos depois, no grande saguão, foi decidido que uma investigação aconteceria, onde os Generais se sentaram em cadeiras altas, de frente para todos abaixo. Fernando, Johnathan, os Guardas e os demais envolvidos foram reunidos.

    Ao lado deles, de pé, estavam Amélia e outros dois Administradores. Um homem de meia-idade com cabelos levemente grisalhos, com bigode bem feito e um penteado para trás, emanando uma extrema elegância e o último era uma mulher loira, que usava um vestido rosa e um cabelo em coque, com mechas soltas em torno de seu rosto, sendo aparentemente mais jovem que os outros.

    O Administrador masculino, chamado Rupert, olhou para Amélia com um olhar enojado, ele era o único Administrador Sênior em Garância e o mais cotado para assumir a posição de Principal e sabia bem que a mulher andava tramando por suas costas para arrebatar o cargo para si. Enquanto isso, a garota de vestido rosa, chamada Asélia, tinha uma expressão levemente apreensiva com toda a situação, sem demonstrar qualquer emoção em relação a outra Administradora, seja positiva ou negativa.

    “Já ouvimos a versão da Administradora Júnior Amélia, vamos ouvir o que o Tenente do Batalhão Zero tem a dizer.” Wayne declarou.

    Assentindo, o rapaz pálido foi a frente, então narrou todos os acontecimentos a partir da convocação repentina e sua chegada ao Salão, incluindo os insultos diretos e indiretos. Também descreveu as provocações que ocorreram desde o momento que havia chegado, até as ofensas públicas e por fim a morte da recepcionista e o embate com Amélia e os dois Capitães Combatentes.

    “Isso foi o que aconteceu.” Fernando falou, com um rosto calmo e impassível.

    Esse desgraçado, por que ele continua tão calmo mesmo com o pescoço em risco? Amélia se perguntou, enquanto observava o depoimento do rapaz. Ele não havia escondido nenhum detalhe, incluindo o fato de ter matado a recepcionista intencionalmente.

    Antes de seus relatos, os Guardas presentes, bem como alguns transeuntes, foram chamados para relatar. Mesmo que Amélia tivesse grande influência no atual Salão de Garância, nenhuma dessas pessoas ousava mentir na frente dos Generais.

    Todos no local ouviram com atenção, ficando pensativos, pois as palavras do rapaz pareciam condizer com as afirmações das testemunhas.

    “Mesmo que você tenha sido insultado, não acha que foi longe demais? Qual a diferença do que essa recepcionista fez para suas ações em relação ao General Herin nas muralhas outro dia. Talvez a sua punição deveria ser a mesma que você aplicou hoje?” O General Ramon indagou, com uma expressão severa. Normalmente ele não gostava de se envolver nesse tipo de assunto, mas mesmo ele ficou descontente com as ações do rapaz.

    Vendo isso, o próprio Herin assentiu, satisfeito.

    Mesmo que ele tenha dito que não queria colaborar comigo, parece que ainda há alguma consciência em suas ações. O sujeito pensou, acreditando que Ramon realmente estava do seu lado.

    Se ele fosse o único a falar e criticar Fernando, Dimitri poderia alegar que ele estava perseguindo o Tenente do Batalhão Zero, porém, se houvesse mais vozes dissonantes, daria mais peso a suas palavras.

    Ouvindo a série de perguntas uma após a outra, Fernando manteve uma expressão firme.

    “Eu não ofendi diretamente o General. Naquela ocasião, fiz uma indagação que pode ser considerada descortês e talvez até ácida, mas tendo em vista a situação, acredito que tenha sido justificada. Afinal, as Balistas alteradas por um dos meus homens foi ou não um fator decisivo na nossa vitória?” O jovem Tenente perguntou de volta, de forma retórica, o que fez Ramon e os demais franzirem a testa, pois mesmo que soasse arrogante de sua parte, ele não estava mentindo. Não só as Balistas Explosivas melhoradas foram um dos pilares centrais da vitória das forças de Wayne, como mesmo na defesa contra o ataque de Carniçais, havia tido grande influência. “Diferente desse caso, tivemos uma funcionária civil insultando publicamente um alto oficial dos Leões Dourados. Se eu não fizesse algo a respeito, ela não estaria humilhando apenas a mim mesmo, mas todo o meu Batalhão Zero e até mesmo a Legião! Conforme o décimo terceiro artigo, inciso terceiro das normas internas dos Leões Dourados, ‘um alto oficial não deve permitir a quebra da hierarquia frente a civis, sob qualquer hipótese e deve sempre manter o respeito e a autoridade da Legião’. Caso eu permitisse que tal situação continuasse, não estaria seguindo devidamente as leis internas da Legião. Além disso, um alto oficial também detém o direito disciplinar de punir funcionários civis em casos como esse. Logo, em momento algum infringi qualquer regra.”

    Todos os Generais e mesmo os Administradores ficaram em completo silêncio após ouvir essa declaração. Não importa como olhassem para essa situação, todos seus argumentos pareciam sólidos. Alguns até mesmo ficaram surpresos com o nível de conhecimento de um Tenente em relação às questões legais da Legião.

    Assim como ele havia dito, existia uma distinção clara entre um militar e um funcionário civil. Mesmo que os segundo não precisasse necessariamente se subordinar ao primeiro, havia uma hierarquia condicionada que deveria ser respeitada.

    Apesar dos funcionários civis terem uma grande importância, não só nos Leões Dourados, como em toda Avalon, o peso e a existência de um militar sempre seria maior. Essa era uma lei fundamental criada a partir de um mundo de guerra, perigos constantes e violência e não poderia ser desconsiderada. Sem militares ou exércitos, toda Humanidade estaria fadada a ser varrida daquele mundo.

    Ou seja, não só Fernando estava em seu direito ao aplicar uma punição, como poderia ser considerada uma omissão de sua parte caso não atuasse nessa situação específica. Isso mudava totalmente o desfecho da situação.

    O próprio Ramon ficou surpreso com o raciocínio do rapaz. De forma ética, suas ações pareciam ser extremamente excessivas, mas era inegável que estavam embasadas em legalidade.

    Wayne e Pagliuca também tinham expressões estranhas em seus rostos. Como velhos Generais, ambos sabiam da dificuldade de lidar com as leis militares, que entravam muitas vezes em conflito com suas ações ou vontades. Era por isso que eles sempre tinham assistentes responsáveis por lidar e aconselhá-los a respeito de questões burocráticas como essa, mas o rapaz estava fazendo isso por si mesmo!

    Esse garoto é realmente incomum. Pagliuca pensou, interessado.

    Apesar de ouvir toda a argumentação e não ter o que dizer, Ramon não parecia totalmente satisfeito.

    “Ignorando a questão com as recepcionistas, você feriu gravemente um Capitão Combatente. Sabe quanto esforço a legião gasta para treinar cada um deles?” indagou.

    Ao ouvir isso, Fernando, que estava calmo até então, levantou uma sobrancelha.

    “Então, supostamente, eu deveria permitir que ele me matasse? Afinal, a Administradora Júnior Amélia foi a pessoa que realmente quebrou os protocolos da Legião e ordenou diretamente isso. Não só a minha morte, como a do Capitão Johnathan, que interviu a meu favor.” disse, olhando para Amélia, que se encolheu, assustada. Então voltou seu olhar para o General Ramon. “Além disso, que culpa eu tenho se os Capitães do Salão são tão fracos?”

    Um clima estranho se espalhou por todo o local quando as últimas palavras foram ditas.

    Mesmo que Ramon quisesse retrucar, não havia uma resposta para isso. Um Capitão Combatente havia realmente perdido para um Tenente. Independentemente se o sujeito tivesse baixado a guarda ou não, ou mesmo se tivesse o subestimado, esse era um fato inegável.

    Droga! Esse desgraçado de língua afiada! Herin pensou, rangendo os dentes. A argumentação de Fernando havia sido tão bem formulada que ele simplesmente não encontrou nenhuma brecha que pudesse usar. Não! Se eu deixar as coisas continuarem assim, esse maldito sairá ileso, não posso permitir! Mesmo se eu não puder matá-lo ou prendê-lo, devo abalar sua posição!

    “Vejam a forma desrespeitosa que esse moleque fala!” Herin gritou, batendo com força no apoio de sua cadeira, mostrando sua insatisfação abertamente. “Não se esqueçam que esse desgraçado levantou uma mão contra um Administrador. Se não tivéssemos chegado a tempo, ele teria matado Amélia!”

    Com Dimitri protegendo o rapaz e após toda a argumentação feita, o General de barba negra sabia que não conseguiria uma penalidade mais pesada, mas se ele pudesse ao menos fazê-lo perder a posição de Tenente de uma Tropa Nomeada, poderia facilmente lidar com ele depois em segredo.

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