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    As íris de Fernando se encolheram, quando ele, mesmo com seu Disparo Neural, percebeu que não conseguiria desviar desse novo ataque. Ele não sabia quem era esse dono de pousada, mas a velocidade com que ele lançava facas simplesmente não era normal!

    Swish!

    De repente, uma mão entrou na frente do rosto do rapaz pálido, agarrando a faca em pleno ar.

    “Já chega disso!” Lerona falou, com as sobrancelhas franzidas.

    “O quê?” Vendo seu ataque ser parado por essa mulher, o velho homem rabugento não ficou nada satisfeito quando moveu os punhos e mais três facas apareceram em cada uma de suas mãos, entre seus dedos. “Vamos ver se você pega isso também!”

    Swish! Swish! Swish!

    As seis facas voaram numa velocidade impressionante em direção a Lerona e Fernando. No entanto, a Capitã ruiva não parecia preocupada.

    Num movimento de pulso, ela retirou sua lança, então a girou suavemente, em movimentos rotatórios perfeitos, ao mesmo tempo que se movia com graça, dando um passo para frente de cada vez, conforme rebatia os ataques entrantes.

    Ting! Swish! Ting!

    Em um instante ela defendeu ou desviou as facas lançadas, então avançou ainda mais, cheia de ímpeto e logo estava bem à frente do velho homem, com a ponta de sua lança afiada tocando suavemente sua garganta.

    “Agora é minha vez de atacar?” A mulher ruiva perguntou, olhando o sujeito de óculos escuros.

    “N-não, espera!” O velho disse, erguendo ambas as mãos em pânico, surpreso com a força dessa mulher. “Eu me rendo!”

    Vendo isso, Lerona assentiu fracamente, quando olhou para Fernando e então de volta para o homem.

    “Então acho que agora podemos conversar.”

    Pouco tempo depois, o velho homem de óculos escuros, roupão e tiara estava sentado num pequeno sofá e, atrás dele, Lerona estava de pé a uma certa distância, com sua lança apontada para sua nuca. Logo a frente, Fernando estava parado em pé, com os braços cruzados.

    “E-ei, isso é mesmo necessário? Eu já disse que me rendo.” exclamou, suando frio, enquanto tentava olhar para trás.

    “Se virar a cabeça, vai ser a última coisa que vai fazer.” Uma voz feminina alertou, de forma ameaçadora.

    “E-eu entendi. Vocês querem dinheiro, não é? No terceiro quarto à esquerda, no oitavo piso lateral, tem um compartimento secreto. Peguem tudo que tiver lá e saiam!” falou, gaguejando. “Merda, vocês realmente são amigos do maldito Garcia!”

    A sobrancelha de Fernando levantou-se, enquanto ouvia isso. O sujeito realmente estava os tratando como assaltantes!

    Ao mesmo tempo que se sentia ofendido pela acusação, não pôde evitar olhar na direção do quarto apontado.

    Será que é um problema o fato de eu estar realmente tentado a roubar esse cara? pensou, suspirando, sentindo que seu lado ganancioso havia sido picado.

    Não só o sujeito o atacou sem mais nem menos, como fez isso duas vezes! O rapaz pálido sentiu que mesmo que ele levasse o dinheiro desse maldito velho, não se sentiria nenhum pouco culpado.

    No entanto, apesar de pensar assim, logo acalmou-se, mantendo o foco.

    “Não estamos aqui por seu dinheiro. Como eu estava dizendo, antes de você tentar nos matar, precisamos de alguns quartos. Estaremos em Yandou por uns dias e necessitamos de um lugar para ficar.” Fernando explicou, com uma voz calma, que logo se tornou fria. “Você não vai recusar clientes como nós, vai?”

    “Vocês desgraça-” O velho homem parecia querer explodir e dizer algo, mas rapidamente se conteve quando sentiu algo afiado pinicando suavemente atrás de sua cabeça, então forçou um sorriso em seu rosto. “Quer dizer… De forma alguma, eu iria recusar clientes tão bondosos como vocês!”

    “Imaginei que diria isso.” O rapaz pálido falou, com um rosto impassível. “Capitã, pode baixar essa lança, tenho certeza que o senhor…” disse, olhando para o homem.

    “Aldebran, Aldebran Roffsman!” O velho de óculos escuros e aparência excêntrica falou apressadamente.

    Ouvindo isso, Fernando assentiu.

    “O senhor Aldebran não tentará nada, certo?”

    “N-não, absolutamente não, eu não ousaria… Além disso, vocês são amigos do Raul Garcia, eu não tocaria nos bons amigos daquele desgraç-, digo, daquela pessoa incrível.”

    Quanto ressentimento esse cara tem do senhor Raul? Mesmo com a vida ameaçada, ele mal consegue esconder sua raiva. Fernando pensou, revirando os olhos.

    Olhando para o lado, o jovem Tenente viu uma pilha de cadeiras velhas amontoadas, então caminhou calmamente até elas, puxando uma, trazendo-a até a frente do homem, colocou-a em sentido contrário e sentou-se de frente para ele e olhou novamente para Lerona, indicando que fizesse como ele havia pedido.

    A mulher ruiva não parecia muito à vontade, mas guardou sua lança, então deu a volta no velho, mantendo seus olhos firmemente nele, até chegar ao lado do rapaz pálido.

    “Não o subestime. Mesmo que não pareça, ele é forte.” Lerona falou, em voz baixa, com um olhar cheio de agressividade e cautela. “Ele está completamente fora de forma, mas eu chuto que em seu auge ele deveria ser um Capitão fraco ou ao menos perto de um.”

    Ouvindo isso, Fernando ficou surpreso, quando olhou novamente para o homem.

    Esse cara era tão forte?

    Lembrando-se das duas facas arremessadas em sua direção, não pôde evitar se convencer. A primeira ele mal havia conseguido reagir, mas a segunda ele realmente estava atento e mesmo assim sentiu que era muito rápida. Ainda que seus sentidos pudessem acompanhar, devido ao Disparo Neural, seu corpo simplesmente não era capaz. 

    Eu deveria matá-lo? O jovem Tenente indagou-se, com um olhar frio. Pensar em se hospedar num lugar que alguém poderia tentar te matar a qualquer momento não lhe trazia um sentimento agradável e nem parecia uma atitude inteligente. Se ele fosse ouvir seu lado lógico, sentiu que o ideal seria apenas eliminar a ameaça à sua frente.

    Mesmo sem que o rapaz pálido dissesse nada, o sujeito, chamado Aldebran, sentiu um arrepio frio. Vendo o olhar do garoto, ele poderia dizer o que estava se passando em sua mente, pois ele próprio já havia estado no outro lado nesse tipo de situação.

    “E-eu não sou uma ameaça, eu não vou tentar nada, eu juro!” exclamou, apressadamente.

    Fernando não falou nada imediatamente, mas o observou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse pensando a respeito, o que fez a tensão do velho aumentar ainda mais. Após algum tempo, ele finalmente continuou.

    “Qual a sua história com o senhor Raul?” perguntou, com um olhar inquisitivo.

    Se iam ficar naquele lugar, deveriam entender que tipo de relação o velho homem tinha com seu mentor do Sistema de Habilidades.

    Ouvindo a pergunta, Aldebran ficou surpreso e confuso.

    O quê? Eles não são comparsas daquele desgraçado do Garcia? O que está acontecendo?

    Apesar das dúvidas, o velho respirou fundo, quando começou a falar.

    “Eu e o Garcia nos conhecemos há alguns anos. Fizemos parte da mesma Equipe Tática numa missão secreta dos Leões Dourados, então…

    “Espera, você é parte dos Leões Dourados?!” Fernando perguntou, com uma expressão assustada.

    Se o sujeito fosse parte da Legião, ele simplesmente não poderia matá-lo. Além disso, o fato dele ter vindo até ali poderia acabar vazando e chegando aos ouvidos dos Generais.

    “O quê? Não, jamais! Prefiro morrer do que servir aqueles merdas novamente!” disse, cuspindo no chão. “Eu pedi demissão e só porque eu sabia um segredo sombrio ou dois, os filhos da puta realmente tentaram me matar!”

    Fernando e Lerona se entreolharam por um instante, com expressões estranhas em seus rostos. Ambos pensaram que talvez não fosse bom ouvir o que o sujeito tinha a falar.

    Se ele quase foi morto por saber algum tipo de segredo, isso não poderia acabar acontecendo com eles também? Mas, apesar de pensarem isso, suas curiosidades pareciam falar mais alto.

    “Continue.” O rapaz pálido ordenou.

    “Bem, eu e o Garcia nos conhecemos naquela missão… Deixe-me ver, sim, é isso mesmo. Tínhamos que rastrear e assassinar um certo Mago fugitivo.” disse, parecendo tentar se lembrar dos detalhes. “Se bem me lembro, era um traidor de alguma Cidade-Vassala ao Norte que escapou depois de matar um Capitão e roubar dados estratégicos e vender a outra Legião. Como os Leões Dourados não têm muitos Usuários de Habilidades, principalmente além dos portões de Aquilones, eles acabam reunindo Usuários das várias Cidades-Vassalas para essas missões além das grandes muralhas. Quando o conheci, aquele maldito Garcia era apenas um pivete metido a esperto. Eu realmente achei que ele não viveria muito tempo, afinal a taxa de mortalidade nesse tipo de missão, principalmente de novatos, é realmente alta, mas ele realmente sobreviveu e não só isso, como se tornou um dos melhores das Tropas Táticas temporárias do Norte. Graças a isso, passamos a nos encontrar com uma certa frequência, missão após missão.”

    Ouvindo isso, Fernando ficou sem palavras. Ele sabia que Raul era alguém com algum tipo de segredo sombrio, mas ele não imaginava que ele tinha feito parte de algum tipo de tropa de assassinos de elite composta de Usuários de Habilidades.

    Ao contrário dele, Lerona pareceu aceitar a situação muito mais facilmente.

    “Então é por isso que nunca consegui me dar bem com esse cara. Então ele fazia parte daquele grupo… Sarnentos.” disse, com uma voz apática.

    “Sarnentos?” O jovem Tenente perguntou, com curiosidade.

    A mulher ruiva assentiu.

    “Um bando de encrenqueiros difíceis de lidar, são um grupo de pessoas selecionadas pela Legião, geralmente trabalham em Equipes ou pequenos Esquadrões e cuidam de alguns assuntos.” A Capitã ruiva falou, sem dar muitos detalhes, com um olhar complicado.

    “Oh, que surpresa ouvir esse nome, faz anos que não o ouço. Isso é uma história até que engraçada, só vim entender o motivo de ser chamado assim muito tempo depois de sair dos Leões Dourados. Pelo que soube, por muito tempo, após algum tipo de revolta, os Usuários de Habilidades foram suprimidos pela Cidade Dourada, alguns até mortos e perseguidos. Os poucos que restaram eram aqueles Usuários fracos desprezados pela Legião, mas que ainda faziam fielmente seu serviço sujo. Sarnentos, é assim que muitos nos chamavam.” Aldebran falou, parecendo reminiscente.

    Ouvindo isso, o rapaz pálido franziu a testa, ligando alguns pontos.

    “Então está dizendo que os Usuários de Habilidades puros foram usados como assassinos todo esse tempo, desde essa revolta?”

    “Bem, como isso é algo que já vem de antes do meu tempo, não tenho tanta certeza dos detalhes. Tudo o que sei é que, com os anos, os Usuários de Habilidades passaram a ser menos perseguidos e puderam ocupar alguns cargos novamente dentro dos Leões Dourados. Mesmo que os odeiem, a verdade é que não podem viver sem eles! Hahaha! Mas mesmo após tanto tempo o nome sempre se manteve vivo.”

    O jovem Tenente escutou tudo em silêncio. Ele já tinha ouvido falar a respeito da tal revolta, tendo sido realizada por Kaisar, o filho de Kalfas, que tentou usurpar o poder nos Leões Dourados, mas havia sido derrotado pelo pai. Porém, ele não imaginou que as ações do sujeito realmente haviam criado uma cicatriz tão profunda na Legião.

    Devido a isso, Fernando sabia que Usuários de Habilidades não eram bem vistos dentro dos Leões Dourados. Talvez por ele também ser um Mago, ele nunca havia sofrido algum tipo de embrolho por ser um Usuário nem convocado para fazer parte desse tal grupo ‘Sarnentos’, mas não tinha tanta certeza do tratamento para Usuários puros como Raul.

    Aproveitando que o velho excêntrico parecia extremamente falador e à vontade para comentar do passado, o jovem Tenente logo continuou.

    “Você disse que o senhor Raul era um golpista. O que quis dizer com isso?”

    Ah, isso…” O homem falou, hesitante.

    Fernando entendeu suas preocupações.

    “Pode falar, não vamos matá-lo, mesmo se você falar mal dele. Afinal, ele realmente é um desgraçado.” afirmou, com um leve sorriso.

    O velho Aldebran parecia receoso, principalmente ao olhar para a mulher ruiva, mas vendo o rapaz falando isso, imediatamente se sentiu mais a vontade.

    “Bem… Eu odeio esse cara, mas tenho que admitir que devo minha vida a ele. Na verdade, quando a Legião decretou minha morte, foi ele quem me ajudou a escapar do restante das Tropas Táticas. Só que… esse cuzão desgraçado, ele… realmente me extorquiu todo dinheiro que juntei por anos prometendo uma nova identidade segura e um novo recomeço em um lugar seguro e calmo, mas o que ele me deu, foi isso.” falou, abrindo as duas mãos. “O desgraçado me arranjou uma passagem só de ida para esse maldito poço de merda do outro lado do continente chamado Yandou! Ele me mandou para essa pocilga por meio de um intermediário sem um único centavo, o comerciante que me trouxe aqui tentou me assassinar quando soube que eu não tinha dinheiro para pagar por seu trabalho! Além disso, perdi a conta de quantas vezes quase fui morto aqui, até tentaram me escravizar e me vender, porra! Lugar calmo e seguro, meus ovos! Aquele filho da puta!”

    Fernando estava completamente chocado ao ouvir o relato, porém, o que mais o assustou foi pensar que ‘isso definitivamente parecia algo que o senhor Raul faria’.

    Até Lerona tinha um certo misto de sentimentos a respeito. Ao mesmo tempo que via o sujeito como uma ameaça, por ser um desertor, ao ponto de pensar em eliminá-lo, também sentia alguma empatia por sua situação.

    Logo o velho homem continuou a falar, de forma empolgada, como se estivesse desabafando, liberando uma mágoa profunda.

    “Além disso, há umas semanas eu estava checando minha lista de contatos e para minha surpresa eu vi o maldito nome ‘Raul Garcia’ aceso. Ele estava em Yandou! Quando vi isso, pensei, ‘essa é minha chance’. Eu enviei uma mensagem e combinei de me encontrar com ele em um lugar isolado, esperei por horas, mas o desgraçado nunca apareceu. Quando voltei para a minha pousada, o maldito realmente tinha descoberto sobre esse lugar e roubado tudo de valor! Bem, tá legal que eu tinha armado uma emboscada e planejava me livrar dele, mas ainda, sim, minha raiva não é menor! Se eu ver aquele filho da puta, eu vou…”

    Bem quando o sujeito estava falando isso, uma voz soou da entrada do saguão.

    “Hahahaha! Parece que estão tendo uma conversa bem interessante por aqui.” Ao ouvir aquela risada, o velho homem congelou, reconheceu-a imediatamente e levantou-se em pânico.

    “V-você… Garcia!”

    Logo o sujeito moreno surgiu na entrada, com um sorriso brincalhão no rosto.

    “Há quanto tempo, Aldebran! Ou eu deveria dizer velho amigo?”

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