Capítulo 657 - Contrabandista
“V-você nos trouxe para uma droga de bordel?!” A mulher ruiva indagou, com uma voz nervosa.
Raul olhou para ela de soslaio, com um leve sorriso.
“Isso mesmo, por quê? A incrível Lança Boreal tem algum problema com isso? Pensei que você tinha dito algo sobre não te subestimar.” O sujeito falou, de forma provocadora.
Ouvindo isso, a expressão no rosto de Lerona congelou. Assim como Raul disse, foi ela quem havia insistido em vir, mesmo que ele tivesse sugerido o contrário.
“E-eu estou bem. Não tem nenhum problema!” respondeu, com sua voz falhando, enquanto seu olhar percorria nervosamente o ambiente. Não importa para onde olhasse, havia mulheres semi-nuas, quanto mais via, mais vermelho seu rosto ficava.
Você definitivamente não está bem, Capitã… Fernando pensou, suspirando.
“Heh… Tá certo, então.” O Capitão moreno falou, desistindo de provocar mais a mulher ruiva, mesmo ele sabia quando estava passando do limite. “Dá uma olhada moleque, esse lugar é incrível não, é?”
O jovem Tenente, apesar de estar preocupado com Lerona, não estava muito melhor. Era sua primeira vez num ambiente como esse.
Olhando ao redor, viu uma mulher com roupas provocadoras puxando um homem para um estreito corredor, onde havia vários quartos. Estava mais do que claro o que iriam fazer.
Não só isso, como alguns sequer pareciam preocupados em ir para lugares isolados, enquanto trocavam carícias e beijos em pequenos sofás ao canto do enorme salão, podendo ser ouvido leves gemidos abafados.
Com o coração acelerado, o rapaz não pôde evitar dar um olhar irritado para Raul.
“Você sabe que eu sou casado, não sabe?”
“E dai? Olhar não arranca pedaço. Além disso, você ainda é um pirralho que cheira a leite. Ter casado na sua idade é algo muito apressado. Você precisa provar um pouco de tudo para ter certeza de que é isso mesmo que você deseja. Talvez até se interesse por coisas novas. Pode fazer o que quiser, nem eu e nem a ruiva vamos dar com a língua nos dentes.” O sujeito garantiu, enquanto adentrava no ambiente de forma despreocupada.
Lerona estava relativamente perdida, mas não pôde deixar de olhar para o sujeito com alguma desaprovação por suas palavras.
“Não, obrigado.” Fernando respondeu prontamente.
“Bem, tanto faz.” Raul falou, enquanto olhava ao redor, parecendo procurar alguma coisa. “Enfim, não viemos aqui só para se divertir, quero que façam algo para mim. Preciso encontrar alguém.”
“Encontrar alguém? Que tipo de pessoa você está procurando num lugar como esse?” A Capitã ruiva perguntou.
“É um contrabandista, alguém que eu tenho rastreado há algum tempo, ele tem algo que eu preciso. Eu soube por meio de alguns contatos que ele estaria em Yandou, mas não sei sua aparência e nem seu verdadeiro nome. Tudo que sei é que o chamam de Eterno Viajante, ele não fica no mesmo local por mais que cinco dias. Como eu tive que voltar para Garância para te buscar, acabei perdendo algum tempo, mas pelas minhas contas, ele chegou aqui há três dias e ainda deve ficar aqui por mais dois. Não importa o que aconteça, precisamos fazer contato com ele nesse tempo.” Raul disse, com as sobrancelhas franzidas. “Parece ser um cara excêntrico. Ao que parece, ele não se aproxima das pessoas facilmente.”
Fernando se interessou ao ouvir isso.
“Se não sabemos seu nome e nem aparência, como vamos encontrá-lo?”
“Não vão.” O sujeito falou, de forma direta. “Se ele se interessar por um de nós, ele vai se mostrar. É por isso que vamos nos dividir e nos misturar ao ambiente. Se alguém encontrá-lo, avise no canal de comunicação compartilhado que irei criar. E tenham cuidado, esse lugar é mais perigoso do que parece.”
Ao dizer isso, o sujeito incluiu o contato de todos num único canal, que funcionaria enquanto as Pulseiras estivessem no alcance umas das outras. Após isso, afastou-se, sem dizer nada.
“I-isso…” Lerona parecia em pânico ao ver Raul apenas sair sem dizer nada, então olhou para Fernando. Mesmo que estivesse fazendo seu melhor, o nervosismo em seu olhar era claro.
O jovem Tenente tinha uma expressão complicada ao ver isso. A atual Lerona não parecia em nada com a mulher quase robótica e durona que ele conhecia.
“Capitã, se quiser, podemos andar juntos.”
“N-não é necessário. Não sei porque aquele desgraçado está procurando por essa pessoa, mas ele deve ter seus motivos. Vamos terminar a missão!” Ao dizer isso, a mulher também se afastou, indo para outra parte do enorme salão.
Fernando suspirou ao ver isso.
Bem, ela é uma Capitã, ela deve ficar bem… pensou, quando olhou ao redor, sem saber o que fazer.
Após um instante de hesitação, caminhou sem rumo, enquanto analisava o ambiente com alguma cautela.
“Ah! Assim não.” Uma mulher gritou baixinho, com uma leve risadinha. Ela estava sentada no colo de um homem em uma das mesas próximas, enquanto o sujeito ria ao apalpar seus seios à mostra.
Qual o problema dessas pessoas? Não podem ao menos ir para um quarto? Fernando pensou, incomodado.
O jovem Tenente rapidamente olhou para o outro lado, mas assim que o fez, percebeu que estava bem de frente a um pequeno tablado de um metro de altura e nele havia uma dançarina.
Ao olhar ao redor, percebeu que havia vários tablados como esses espalhados, onde cada dançarina se exibia e espectadores se reuniam em torno de cada um.
O lugar onde ele havia parado estava praticamente vazio e nele havia uma jovem mulher de pele morena que usava uma roupa verde ciano, bem como um véu sob o rosto, com tecido tão fino que era possível ver fracamente o que estava por trás dele. Mas, mesmo sendo uma roupa extravagante, não era tão reveladora quanto a das outras e por isso poucos homens pareciam interessados.
A mulher de roupas cianas, que lembravam algo árabe, se movia de forma graciosa e elegante, enquanto seus quadris e braços iam de um lado ao outro conforme a música, num ritmo envolvente e atrativo. Eram uma forma de dança naturalmente provocadora, mas não excessivamente agressiva.
Ao notar que um jovem rapaz pálido havia parado para observá-la, a garota logo aumentou a intensidade de seus movimentos, aproximando-se dele, numa tentativa de impedir que ele escapasse como os demais, atraídos pelas outras garotas.
Vendo isso, Fernando pensou em sair, mas a verdade é que não sabia para onde ir. Não importa onde ele fosse, esse tipo de cena se repetiria. Sendo assim, apenas suspirou fracamente, quando ficou no lugar.
Ao menos ela está mais vestida que as outras. pensou, se confortando mentalmente, imaginando se olhar para outra mulher era uma forma de traição, mesmo que fosse ‘trabalho’.
A garota inclinou-se levemente para frente num movimento artístico, quando sua palma tocou suavemente a bochecha de Fernando.
O rapaz a observou com calma. Parecia uma garota jovem, seus olhos eram verdes cristalinos, que combinavam perfeitamente com sua pele bronzeada.
“Interessado?” De repente, uma voz soou ao seu lado, assustando-o.
Fernando olhou rapidamente à esquerda, então viu um sujeito baixinho parado ao seu lado, olhando para a dançarina. Ele tinha um topete alto, um cavanhaque fino e uma roupa firme e apertada, que lembrava um terno, apesar de não ser um.
“Não, estou apenas olhando.” O jovem Tenente respondeu, de forma calma.
“Apenas olhando?” O homem perguntou, parecendo pasmo, então riu.
Fernando, que apenas respondeu sem pensar, de repente se sentiu mal. Parecia que ele estava em uma loja, falando com um vendedor sobre uma mercadoria. Definitivamente, o que ele havia dito não parecia algo respeitoso.
“Hahaha, acho que não é isso que ela pensa.” O sujeito baixinho disse, olhando para a garota, que dançava intensamente. “Ela parece querer algo pela dança.” então apontou para os outros tablados, onde os homens jogavam algumas moedas para as garotas.
Vendo isso, o rapaz pálido entendeu.
“Oh…” Ao perceber isso, Fernando moveu o Pulso, então jogou três moedas de prata sobre os pés da garota.
“Ei! O que está fazendo?!” O sujeito exclamou, ao ver quanto o rapaz havia jogado.
A menina, que dançava, também ficou paralisada, em choque, quando se jogou de joelhos, recolhendo apressadamente as moedas, como se estivesse com medo de que o rapaz se arrependesse e as pegasse de volta.
“Ei cara, você confundiu as moedas? Você jogou moedas de prata!” O homem baixinho exclamou.
Fernando ficou um pouco surpreso, não entendendo o porquê da comoção.
Vendo a falta de reação do rapaz pálido, o sujeito balançou a cabeça, acreditando que ele realmente tinha se confundido.
“Ei garota, devolva, o rapaz aqui cometeu um erro.” A dançarina de pele bronzeada travou no lugar, quando instintivamente moveu a mão com as moedas para mais perto do peito. “O quê? Você não vai devolver? Não me faça subir aí!” O sujeito ameaçou, com as sobrancelhas franzidas.
A garota parecia assustada, quando hesitantemente aproximou-se e esticou a mão, com as moedas, entregando-as de volta ao rapaz pálido. Sua mão estava trêmula e seus olhos verdes pareciam marejados.
O jovem pálido esticou a mão, tocando a sua, então a fechou, empurrando-a de volta.
“Isso é seu.” declarou, com uma voz calma.
A garota ficou surpresa com isso, quando seus olhos piscaram com força.
Ao lado, o sujeito baixinho também ficou espantado.
“Tem certeza disso, amigo?” perguntou.
“Sim, tenho.”
Tendo recebido a confirmação, o baixinho de topete não disse mais nada, quando olhou para a dançarina, que o encarou por um instante com seus olhos verdes, recebendo as moedas e dando um sorriso, que mal era visível por baixo do véu ciano. Logo a garota voltou a dançar, parecendo mais animada.
“Ei amigo, você não é daqui, é? Digo, não desse lugar, é claro, mas da cidade.” O sujeito ao lado perguntou, encarando Fernando com uma expressão estranha.
“Por que diz isso?” Fernando indagou de volta, olhando-o com alguma desconfiança.
“Bem… a situação econômica de Yandou não é das melhores. Um residente daqui nunca pagaria moedas de prata por uma simples dança. Normalmente as garotas só recebem moedas de bronze ou latão.” disse, apontando para os outros locais.
Só então Fernando observou melhor e viu que era o caso. Vários dos homens jogavam moedas, principalmente de latão, aos pés das garotas, que as recolhiam a cada poucos minutos. Logo entendeu o que o havia denunciado.
Talvez meu senso de valor esteja um pouco fora da realidade. pensou, suspirando e entendendo seu erro.
Desde que ele passou a trabalhar com grandes somas de dinheiro, acabou perdendo um pouco do senso de preço das coisas. Ao pensar com cuidado, lembrou-se que mesmo em Vento Amarelo um trabalhador comum ganhava apenas cerca de cinco moedas de prata, mas ele apenas havia dado de forma casual três a garota. Praticamente o valor de um mês de trabalho para alguém pobre.
No entanto, apesar de perceber que havia cometido um erro de julgamento, não pôde deixar de olhar para o sujeito com um olhar frio. Alguém como ele, que se aproximava de forma tão repentina assim, era extremamente suspeito.
“Mesmo se eu for, isso não parece ser da sua conta.”
“Hoho! Calma lá, amigo. Só estou puxando assunto. Não vou te roubar, eu prometo!” O sujeito baixinho de topete disse, rindo de forma descontraída, ao ver quão arisco o rapaz pálido era. “Meu nome é Deran, como se chama?”
Fernando ergueu uma sobrancelha, normalmente ele apenas se afastaria de alguém estranho assim, mas vendo como o sujeito não estava demonstrando má vontade mesmo após sua grosseria, sentiu que seria excessivo continuar agindo assim. Além disso, ele estava ali para reunir informações e conversar com pessoas como o sujeito parecia ser a melhor forma de fazer isso.
“Meu nome é Fernando.”

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