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    “E então? Está na cidade a negócios, ou apenas…” O sujeito baixinho disse, olhando para a garota à frente. “Por diversão.”

    O jovem pálido apenas olhou para o sujeito de forma levemente fria, pensou em ignorar a pergunta, mas por fim decidiu respondê-la.

    “Nem um e nem outro. Vim aqui para treinar.” respondeu com franqueza. Não era como se essa fosse algum tipo de informação secreta ou que revelaria algo sobre sua identidade, então resolveu falar abertamente.

    “Oh, treinar? De todos os lugares, você veio até Yandou para isso?” Deran perguntou, com uma expressão estranha, mas logo riu. “Você é um cara estranho, Fernando.”

    “Eu ouço isso com mais frequência do que gostaria.” O rapaz pálido disse, com uma expressão calma.

    “Hahaha!” Enquanto o sujeito baixinho ria com vontade, uma das funcionárias do estabelecimento passou segurando uma bandeja de bebidas. “Ei, mocinha, duas para mim.”

    A garota, ao ser chamada por Deran, parou por um momento, ao olhar para o sujeito, suas pupilas encolheram por um momento.

    Sua reação foi mínima e durou apenas uma fração de segundo. Porém, Fernando observava tudo com atenção e mesmo sem usar seu Disparo Neural ativamente podia perceber detalhes que outros não notariam.

    “Sim, senhor. Aqui está.” A mulher falou, quando entregou dois copos ao sujeito, então passou uma espécie de aparelho metálico próximo a sua pulseira, para contabilizar as bebidas. Ao se afastar, ela deu mais uma rápida olhada para o sujeito.

    A funcionária parecia assustada ao vê-lo. Esse cara, quem é ele? O jovem Tenente se perguntou, ao olhar atentamente para Deran, que sorria com alegria.

    Apenas analisando sua aparência e simpatia, ele não parecia alguém perigoso, mas Fernando sabia que não se poderia julgar as pessoas apenas com base em suas aparências. O caso de Lincon era um claro exemplo que havia ficado marcado profundamente nele.

    “Aqui, uma para mim e uma para você.” O sujeito baixinho disse, oferecendo um dos copos.

    “Eu não bebo álcool.” O rapaz pálido respondeu.

    “O quê? Do que está falando? Que tipo de pessoa não bebe?” Deran perguntou, parecendo espantado, mas logo riu. “Vamos lá, pare de brincadeira e beba, é por minha conta!”

    “Não, eu realmente…”

    “Beba!” O sujeito baixinho insistiu, empurrando o copo para suas mãos.

    “Como eu disse…”

    “Beba!”

    Depois de várias trocas e insistências, Fernando suspirou, quando aceitou a caneca.

    “Hah, agora sim!” Deran exclamou, quando deu um grande gole em seu próprio copo, então voltou-se para o rapaz pálido, esperando que ele o acompanhasse.

    O jovem Tenente olhou para o conteúdo e então cheirou, sentindo um leve aroma doce de álcool. Vendo o sujeito o observar, levou a caneca até a boca, quando fingiu dar um gole.

    “Vamos mulher, dance para nós.” O homem falou, com alegria, quando jogou algumas moedas de latão no tablado de madeira.

    A garota, de roupas verdes, que já parecia contente com as moedas do rapaz pálido, não hesitou, quando se aproximou dos dois, dançando com empolgação.

    “E então, há quanto tempo você mora em Yandou?” Fernando perguntou, em direção ao sujeito, fazendo seu melhor para puxar assunto, já que ele naturalmente não era bom nisso.

    “Eu? Ah, bem, nem me lembro! Hahaha! Mas conheço cada pedacinho desse lugar.”

    Ouvindo isso, o rapaz pálido assentiu, quando fingiu dar mais um gole na bebida, enquanto observava a garota.

    “Essa cidade é estranha, ela é um pouco…”

    “Miserável?” Deran completou, então, bebeu mais um gole de seu copo. “Yandou sempre foi pobre, mas desde que a guerra com os Orcs começou, tudo piorou. Esse lugar sempre foi uma espécie de centro comercial de… Como eu posso dizer? Coisas que não são negociáveis em territórios legionários. Você deve saber disso, já que está aqui.”

    Fernando ouviu com atenção e assentiu, apesar de não saber realmente, fingiu fazê-lo.

    “Desde que os Orcs invadiram, a maioria das pessoas ricas fugiram para o Norte. Ninguém quer ficar numa cidade perto do fronte de guerra, ainda mais uma administrada por uma Associação de Comerciantes.” disse, com um leve desdém em sua voz. “Se até mesmo as cidades das Legiões estão caindo, quem dirá a nossa. Mas é engraçado, as pessoas daqui sempre odiaram o Pântano Negro, por atrapalhar o comércio, mas foi graças a ele que os Orcs não se interessaram por Yandou. Eu chamo isso de sorte em meio ao infortúnio! Hahaha!”

    “Você não pensou em fugir como os demais? Você não parece alguém exatamente pobre.” O rapaz pálido comentou, olhando para as roupas levemente sofisticadas do sujeito.

    O olhar de Deran diminuiu por um distante com as palavras do rapaz pálido, olhando para Fernando de forma estranha, mas ele logo deu mais um gole em sua bebida, com um sorriso no rosto.

    “Digamos que eu prefiro lugares mais calmos como esse. Eu não combino com aquela gente complicada do Norte.”

    Logo os dois continuaram conversando e Fernando aproveitou para sondar o sujeito a respeito de outras informações. Por meio dele, entendeu melhor a situação da cidade e qual o motivo de tantas pessoas serem atraídas por ela.

    Yandou era controlada pela Associação Mercantil Livres do Sul, composta de uma união das Guildas Comerciais Morgan, Marjoran, bem como da Guilda Mercenária Sangue Azul. Separadamente, cada uma dessas três guildas não tinham tanta força ou influência, mas quando unidas, seu poder era semelhante ao de uma Pequena Legião.

    Na superfície, o principal atrativo da cidade eram seus impostos e taxas sobre negociações muito abaixo dos praticados pelas Legiões, mas na realidade o que realmente movimentava Yandou eram os Leilões secretos do Mercado Negro

    Nesses leilões eram negociados todo tipo de coisa, desde materiais raros, armas, Magias, Habilidades e, apesar de Deran não ousar mencionar abertamente, deixou subentendido que até mesmo pessoas poderiam ser vendidas nesse tipo de lugar obscuro.

    “Por isso que eu tô te dizendo, quando você vê uma oportunidade como essa, você tem que agarrá-la, se não…”

    Enquanto o sujeito falava sem parar sobre a compra e venda de armas de segunda mão, parecendo afetado pela bebida, Fernando viu uma das funcionárias que serviam bebidas passando ao seu lado, recolhendo copos vazios nas mesas e dos clientes.

    “S-sim, entendi.” O jovem Tenente concordou, tentando manter um sorriso.

    Assim que a mulher passou ao seu lado com uma enorme bandeja, o rapaz aproveitou o momento de distração do sujeito baixinho para trocar seu copo cheio por um vazio.

    Quando Deran voltou-se para Fernando, ele estava ‘virando’ o copo todo.

    “Oh, a sua já acabou? A minha também! Que tal mais uma? Eu pago!”

    “N-não, para mim já deu, e-eu estou satisfeito.” O rapaz pálido falou, com uma voz lenta, quase embolada.

    Ao ver o quão fraco Fernando era para o álcool, os olhos de Deran se apertaram fracamente, quando um sorriso discreto formou-se em seu rosto.

    “Você tem razão, talvez já tenhamos bebido o suficiente. No lugar disso, que tal irmos para um lugar mais calmo com algumas garotas.”

    “E-eu não…” O rapaz pálido estava prestes a negar, quando o sujeito baixinho passou seu braço em volta do pescoço dele.

    “Vamos lá, não seja tímido. Ei, você, mocinha.” disse, olhando para a garota que estava dançando no tablado, quando moveu o pulso, jogando uma moeda de prata aos seus pés. “Nos siga para um quarto.”

    A garota de roupas verde ciano assentiu, quando apressadamente pegou a moeda, então desceu, seguindo a dupla, guiada pelo baixinho.

    Em pouco tempo, os três chegaram a um quarto isolado, ao fim de um dos corredores. Lá o barulho de música era abafado e longínquo.

    “E-eu tenho que ir…” Fernando murmurou, parecendo sonolento, com seus olhos ‘mal conseguindo’ se manter abertos.

    “Relaxa, você vai curtir isso aqui. Vamos nos divertir.” Deran falou, com um sorriso estranho.

    Ao entraram no local, ele jogou o rapaz na cama, que não resistiu no mínimo, apenas respirando pesadamente, parecendo ter adormecido profundamente, então olhou para a dançarina.

    “Prepare as coisas.” disse, com uma voz menos simpática que antes.

    Fernando, que estava com os olhos fechados, apenas escutou tudo sem reagir, fingindo estar embriagado.

    Assim como eu imaginava… pensou, de forma calma. Então eles são sequestradores?

    Desde o início, ele tinha achado o sujeito suspeito, por isso não se atreveu a beber uma única gota do álcool servido pelo homem. Para confirmar suas suspeitas, fingiu estar bêbado e assim como esperava, o mesmo havia mordido a isca.

    Talvez eu consiga algumas informações desse cara. Fernando decidiu capturá-lo e ver o que ele sabia sobre o tal Eterno Viajante que Raul estava procurando. Mesmo que fosse algum tipo de maluco que sequestrava pessoas, Deran parecia saber muito sobre a cidade.

    O jovem Tenente logo começou a circular o Mana por seu corpo, pronto para atacar o sujeito assim que ele se aproximasse. No entanto, mesmo após esperar algum tempo, não ouviu barulho de vozes ou um passo sequer.

    Ele se foi? pensou, deduzindo que tinham saído do quarto, então preparou-se para levantar. Porém, assim que se ergueu da cama e olhou na direção da entrada, todo seu corpo congelou, quando todos os fios de seus cabelos arrepiaram-se.

    Deran estava sentado confortavelmente em uma cadeira bem de frente com a porta fechada, olhando para ele com um sorriso bizarro. Ao seu lado, a dançarina que havia lhes entretido o tempo todo, estava parada, de pé, também o observando com um olhar frio.

    “Eu estava me perguntando até quando você ia continuar com esse teatro meia-boca.” O sujeito baixinho falou, encarando-o com um sorriso.

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