Capítulo 659 - Um Mago
Pelas ruas escuras de Garância, três figuras encapuzadas e roupas escuras, estavam esgueirando-se por um beco, de forma silenciosa e comedida.
De repente, uma delas, um homem que parecia ser o mais velho do grupo, uniu ambas as mãos com força e finas ondas de mana se espalharam a partir delas, fluindo ao vento, convergindo em todas as direções. O sujeito pareceu detectar algo, quando fez um sinal com o punho, indicando que parassem, então apontou para o alto.
Os outros dois pareciam ter entendido, quando rapidamente encostaram-se nas paredes cinzentas, escondendo-se em meio as sombras.
Swish! Swish!
Um vento forte soprou, quando algumas figuras passaram voando em grande velocidade no alto do céu. Estes eram os Capitães Combatentes do Salão da Recepção que estavam em patrulha.
“Vamos!” A figura que parecia ser o líder disse, ao ver que o perigo havia passado.
Em pouco tempo os três percorreram parte da cidade, locomovendo-se por ruas estreitas, telhados e outros percursos que não chamassem a atenção. Logo chegaram próximos a uma enorme loja, então pararam, a observando do outro lado da rua, a partir de uma distância segura.
“Líder, eu deveria checar os fundos?” Um dos homens perguntou, mas o sujeito, na posição de liderança, negou com a cabeça.
“Não! Já perdemos duas equipes, não podemos nos arriscar a chegar mais perto. As ordens do Mestre da Guilda são claras, devemos apenas observar e informar. Mesmo que o outro lado tenha profissionais, se mantivermos alguma distância estaremos segur-” Antes que o sujeito conseguisse terminar de falar, um flash branco atravessou seu peito, deixando-o perplexo. Sua Magia de Vento estava ativa, mas ele simplesmente não havia sentido nada e nem ninguém! Logo entendeu que o inimigo era muito mais poderoso do que imaginaram, então seus olhos se encheram de firmeza. “F-fujam!”
Os outros dois pareciam chocados, mas não hesitaram, quando se dispersaram, escapando em direções diferentes. Por mais que quisessem ajudar seu Líder de Equipe, no meio da espionagem e guerras de inteligência, a missão sempre vinha em primeiro lugar.
Assim que os homens se foram, uma estranha pessoa esguia, de roupa e capuz brancos, assim como uma estranha máscara branca, com detalhes azuis, revelou-se parada no alto do telhado acima do beco. Ele notou os dois indivíduos fugindo, mas não parecia ter pressa em persegui-los. Calmamente saltou do topo, caindo graciosamente no chão, bem ao lado do líder do grupo, que estava de joelhos, apoiado na parede.
“Q-quem é você, afinal?” indagou, enquanto tossia alguns bocados de sangue.
A figura de Máscara Branca não respondeu à pergunta, mas fez uma indagação de volta.
“Vocês ratos estão começando a me incomodar. Responda, por que estão vigiando os Herbalistas do Sul?”
O sujeito ferido sorriu:
“Vai se foder!” Após dizer isso, puxou uma adaga, então, sem hesitação, a usou para rasgar sua própria garganta.
“Kah! Gah!”
Vendo o homem engasgar em seu próprio sangue até a morte, a figura de branco não parecia impressionada, apenas observou tudo de forma altiva.
“Tudo bem, eu tenho mais duas tentativas.” disse, quando seu corpo pareceu desintegrar-se, desaparecendo como se fosse uma ilusão.
Pouco tempo depois, o último dos membros do grupo estava morto, com o mascarado fincando sua espada em seu peito. Assim como os demais, ele não havia entregado qualquer informação, mesmo após ser punido com algumas lacerações.
Logo uma pessoa, de pele levemente bronzeada, usando terno e monóculo, apareceu no local e junto a ele, cerca de quatro Guardas fortes.
“Senhor Maron, gostaria que eu me livrasse dos corpos? Logo será o horário da próxima varredura do Salão.”
“Não é necessário. Apenas os mova de local. Sejam quem for, quero que saibam que não deveriam me provocar. Além disso, se deixarmos que os corpos sejam encontrados, talvez isso faça com que o Salão os rastreie e isso me poupará algum esforço.” Maron respondeu, de forma desinteressada, mas logo seu olhar recaiu sobre o sujeito de terno. “Mas algo nessa cidade não está certa. Por que essas pessoas estão sendo tão insistentes em manter vigilância sobre os Herbalistas do Sul? Pode ser que alguma informação relacionado a Família tenha vazado?”
Ouvindo isso, o sujeito pareceu assustado.
“I-impossível, senhor. Eu gerencio meu grupo com extremo cuidado, nada passaria por mim!”
A pessoa mascarada puxou sua rapieira do corpo morto, então deu alguns passos em direção ao sujeito bem-vestido, quando apontou sua lâmina em direção ao seu rosto.
“Então talvez você seja o traidor, Tariq? Eu deveria eliminar você e o restante do seu grupo comercial?” indagou, com uma voz calma, mas levemente ameaçadora.
Os guardas atrás dele tinham expressões cheias de medo ao ouvirem isso e rapidamente levantaram suas espadas.
O sujeito chamado Tariq também parecia estar assustado, mas se manteve composto.
“Os Herbalistas do Sul tem uma longa história com a Família Lopes, jamais nos atreveríamos a traí-los. Como um enviado por um dos Vice-Líderes, você deve gozar de extrema confiança, mesmo não sendo parte da Família. Sendo assim, se julgar que precisa nos eliminar, não iremos resistir.” declarou, quando se ajoelhou, curvando-se ao chão.
“S-senhor Tariq!” Os guardas exclamaram, mas não ousaram interrompê-lo, pelo contrário, se entreolharam por uns instante e caíram de joelhos, imitando seu senhor.
Vendo isso, Maron ficou em silêncio.
“Tsk!” Com um estalo de língua, guardou sua rapieira. “Apressem-se e levem os corpos para longe e apaguem os rastros. Vou permitir que vivam, enquanto forem úteis.”
Tariq pareceu suspirar aliviado, quando se levantou, então agradeceu o homem com as duas mãos unidas.
“Obrigado senhor Maron, obrigado.” Logo olhou para os Guardas.
“Vão!” disse, ordenando os homens, que rapidamente se apressaram, levando o corpo embora, com um deles ficando para usar Magia de Água para lavar o sangue no chão e apagar os rastros da batalha.
“S-senhor, se me permite, eu gostaria de fazer uma dedução. Pode ser que essas pessoas façam parte dos outros membros do Grande Senado?”
Ouvindo isso, o sujeito Mascarado deu uma leve risada de deboche.
“Esses caras são bem disciplinados e leais aos seus mestres, mas não passam de completos amadores. Eles não são membros de Guildas das Trevas.” Maron afirmou, com convicção.
“Então quem…”
“É apenas uma suspeita, mas acredito que possam estar relacionados ao meu alvo.”
“Ao alvo? Você quer dizer… o Batalhão Zero?!” perguntou, sem entender nada. “Mas é impossível! É um batalhão recém-formado, mesmo que tenham conseguido chamar muita atenção recentemente, não tem como eles montarem uma organização tão bem preparada como essa!”
Maron não parecia interessado em explicar as coisas, quando rapidamente mudou de assunto.
“O alvo continua escondido dentro do Batalhão Zero?’
“S-sim, acredito que sim. Desde que deu a ordem, estamos mantendo vigilância sobre o prédio do Batalhão Zero e o Tenente Fernando nunca saiu de lá. Pelo que eu soube, é um sujeito estranho e recluso.”
Ainda que seu rosto não pudesse ser visto, notou que o mascarado não parecia satisfeito com as informações e a situação. Pois apesar de ser um assassino poderoso, mesmo ele não poderia facilmente invadir as instalações de um Batalhão.
“Acho que não tem jeito.” Maron disse, parecendo irritado. “Se o rato não sai por conta própria, só preciso fazê-lo sair. Amanhã farei uma visita ao Batalhão Zero.”
Tariq sentiu um calafrio, mesmo que fossem ‘aliados’, ele podia claramente sentir a intensa pressão mortífera dessa pessoa.
O Batalhão Zero, com certeza, eles serão arruinados! pensou.
…
Em outro local distante, Fernando tinha uma expressão assustada em seu rosto, enquanto observava o sujeito baixinho e a mulher ao seu lado. As iris de seus olhos se encolheram, quando todos seus instintos gritavam ‘perigo’.
“O que foi? Um gato mordeu sua língua?” Deran perguntou, com um sorriso.
Em resposta a isso, o jovem pálido tentou se acalmar.
“Você sabia que eu não estava embriagado?”
“Hahaha! Caro Fernando, para enganar alguém como eu, você vai ter que se esforçar muito mais que isso. Suas habilidades em teatro beiram a infantilidade aos meus olhos. Mas admito que no final, você estava se esforçando tanto para fingir estar apagado, que eu não me contive e entrei na brincadeira.”
Enquanto ouvia as zombarias do sujeito, o jovem Tenente, apesar de irritado, manteve uma expressão calma, então olhou para a dançarina de olhos verdes, que o observava em silêncio, finalmente entendendo tudo.
Mesmo que ele tivesse conseguido fingir beber a taça e tivesse trocado o copo cheio por um vazio sem que Deran notasse, ele não imaginou que a garota seria sua parceira. Fernando então compreendeu que ela deveria estar o observando todo o tempo e visto seu pequeno truque.
Logo ele focou sua mente em enviar uma mensagem para Raul e Lerona no canal privado criado. No entanto, para sua surpresa, ao tentar enviar, percebeu algo. O painel da sua Pulseira estava bloqueado e nenhuma mensagem estava sendo transmitida!
Deran sentiu algo, quando algum tipo de dispositivo em sua própria Pulseira emitiu algum alerta.
“Oh? Você está tentando mandar mensagem para alguém? Infelizmente isso não é possível. Eu tomei a liberdade de bloquear todo sinal de mana nesse quarto. Infelizmente, a diversão é reservada apenas a nós três.”
A expressão de Fernando ficou fria, quando ele moveu o pulso, tirando sua espada e se preparando para lutar. Ele não sabia porque, mas sentiu que essas duas pessoas não eram simples e talvez ele morreria ali, naquele lugar desconhecido, se não escapasse daquele lugar.
Vendo a atitude arisca do rapaz pálido, Deran sorriu, levantando-se da cadeira, logo moveu seu pulso, quando um pequeno martelo, com apenas quarenta centímetros, surgiu em sua palma.
“Acho que você ainda não entendeu sua situação, Fernando. Resistir é inútil, então colabore.”
Ignorando as palavras do sujeito, o jovem Tenente olhou para o lado. Vendo as paredes do quarto, que pareciam frágeis, ele não hesitou, quando ativou seus Passos Tirânicos e sua Habilidade Fúria e correu em direção a elas. Seu objetivo era atravessá-las completamente e chamar a atenção das pessoas do lado de fora.
BOOM! Dash!
O quarto não era tão grande e mover-se até as paredes deveria ser algo simples e quase instantâneo, simplesmente não deveria haver meios deles o impedirem. Porém, para sua surpresa, Fernando viu algo surgir bem a sua frente a partir do chão, era Deran!
Ele sequer pôde reagir, quando o pequeno martelo o atingiu no rosto.
Bam!
Sendo violentamente jogado para trás, o rapaz pálido não desistiu, quando tentou usar esse impulso para romper a parede do outro lado, mas para seu espanto, Deran estava novamente lá!
Como?! exclamou, perplexo. Ele tentou levantar alguma guarda, erguendo sua espada, mas o pequeno martelo nas mãos do sujeito baixinho era muito mais rápido.
Bam!
Novamente sendo jogado para o outro lado, Fernando viu algo bizarro, o homem apenas sumiu para dentro do chão.
Ele apenas desapareceu, é quase como… De repente, mesmo em alta velocidade, graças ao seu Disparo Neural, teve tempo para raciocinar. Magia da Terra? Mas como ele se move tão rápido?!
Dessa vez, Deran surgiu bem no meio do caminho, erguendo o martelo com as duas mãos.
Bang!
“Ugh!” Fernando foi acertado em cheio na área do estômago, caindo bem no meio do quarto. O chão, que parecia algum tipo de concreto, ficou mole, absorvendo grande parte do impacto, logo ele lentamente começou a afundar.
Merda, eu tenho que sair daqui! exclamou mentalmente, com urgência, mas antes que pudesse tentar algo, Deran desceu novamente com seu martelo.
Bang!
“Coff!” O rapaz pálido tossiu, sem ar. Mesmo que sua Armadura Negra Kinfar o protegesse de um golpe direto, o impacto ainda foi transmitido diretamente para seu corpo. Logo mais da metade de seu corpo foi mergulhado na terra, com apenas seus braços, pernas e cabeça ficando para fora.
Fernando rapidamente tentou usar toda sua força para sair, mas o concreto, outrora liquido, endureceu, o prendendo completamente.
“Não tente lutar, com sua força, você não é capaz de romper um solo reforçado com meu Mana.” Deran advertiu, o olhando com um olhar calmo, então voltou-se para a dançarina. “Querida.”
Logo a mulher, que estava imóvel, vendo o rápido embate, que havia acabado em segundos, se aproximou. Então ajoelhou-se ao lado do rapaz pálido preso ao chão e moveu o pulso, tirando algum tipo de frasco e levando até sua boca.
“O que é isso?!” Fernando exclamou, tentando virar seu rosto e cerrar dentes, mas a mulher agarrou seu queixo e com uma força bruta tremenda forçadamente abriu sua boca, segurando sua língua, derramou o líquido, obrigando-o a engolir.
“Coff! Que porcaria é essa?!” perguntou, com uma expressão fria, enquanto tossia.
“Hoh, que assustador.” Deran disse, de forma brincalhona. “Você achou que eu tinha colocado algo em sua bebida antes, mas não havia nada lá além de um doce vinho frutado de Aborana. Mas veja só você, se recusou a beber algo tão delicioso quanto aquela maravilha, mas agora está bebendo isso. O gosto não deve ser nada bom, certo?”
O jovem Tenente tinha uma expressão gelada, enquanto sentiu o sabor extremamente amargo em sua boca. Ele não sabia o que havia bebido, nem quem eram essas pessoas, mas tinha certeza de que dessa vez estava acabado.
Eu ferrei com tudo! pensou, zangado consigo mesmo, por subestimar Deran, acreditando que fosse apenas algum criminoso qualquer. Mas estava mais que claro que o homem a sua frente não era algum zé-ninguém, mas um poderoso Mago de Terra! Pelo seu nível de força e maestria, deduziu que talvez ele fosse até mesmo do nível de um Major!
O sujeito baixinho ficou em silêncio por alguns segundos, quando olhou novamente para o rapaz pálido preso.
“Já deve ter começado a agir.” disse, com uma voz calma. “Então vamos começar. Qual seu verdadeiro nome e a qual organização você pertence?”
Fernando tinha um rosto inexpressivo.
Como se eu fosse responder! pensou, decidindo ficar em silêncio, independente do que perguntassem, mas de repente, sua boca começou a se mexer por conta própria.
“Meu nome é Fernando Nóbrega, Tenente do Batalhão Zero, dos Leões Dourados.”
Por que eu… estou falando? pensou, completamente alarmado.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.