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    De volta em Garância, um clima denso e pesado estava tomando conta da sala de reuniões do alto escalão do Batalhão Zero.

    Theodora e Ilgner como Subtenentes, estavam na posição central da mesa, logo em seguida Thom, Damon e o novo Sargento, Arslan, bem como os Oficiais Noah, Kelly, Gabriel, Lenny e Karol, todos estavam reunidos. Os únicos fora do círculo do alto escalão que estavam presentes eram Lina, a Tesoureira e Alastor, o Combatente em Treinamento.

    A reunião feita com urgência, com todos os membros mais relevantes do Batalhão, era a segunda em apenas dois dias. O humor de todos estava terrível, com alguns parecendo pensativos e outros franzindo as sobrancelhas.

    “Esse é o quarto ataque que sofremos. Quantas baixas foram dessa vez?” Theodora indagou, com uma expressão severa.

    “Três mortos e quatro feridos, todos membros do meu Quinto Pelotão.” Kelly respondeu, com sua voz num misto de angústia e impotência, já que ela própria havia assumido a segurança noturna junto aos seus homens, mas quando percebeu que estavam sob ataque, já era tarde demais. O inimigo simplesmente era rápido e imprevisível demais.

    Nos últimos dois dias, o Batalhão Zero vinha sendo assediado por um atacante desconhecido. Ninguém sabia quem era ou como se parecia, ele sempre atacava e desaparecia em instantes, apenas deixando corpos sem vida, bem como um rastro de destruição nos locais atingidos.

    “Merda! Quem são esses desgraçados?! …” Noah indagou, batendo na mesa com força, então, depois de respirar fundo, o Oficial continuou sua fala, tentando se acalmar. “Talvez sejam pessoas a mando do General Herin, ou pode ser que esse ataque tenha relação com a ordem do Tenente antes dele desaparecer?”

    Antes de partir de Garância, Fernando havia alertado os membros centrais sobre a possibilidade de emboscadas, ordenando que o Batalhão Zero se recolhesse ao prédio e evitassem o máximo possível assumir missões do Salão. Porém, por mais que quisessem seguir a ordem dada pelo seu Tenente, era simplesmente impossível cumpri-la.

    “Se as coisas continuarem assim, nossa situação econômica…” Gabriel comentou, preocupado.

    Atualmente eles já estavam há quatro dias sem aceitar novas missões da Legião, ou seja, quatro dias inteiros onde o Batalhão Zero apenas gerava despesas uma após a outra, sem qualquer novo ganho. Não importa quem fosse a pessoa nesta mesa, todos ali estavam cientes de que manter isso por mais tempo era algo completamente inviável.

    Além disso, também haviam acabado de terminar a seleção de recrutamento, o que significava que teriam muitos novos gastos de treinamento e equipamento pela frente.

    Nesse momento, Lina, que parecia inquieta, interviu, colocando um documento sobre a mesa.

    “Er… eu não queria interromper, mas recebemos um pedido de explicações do Salão há uma hora sobre nossas ações atuais, ou melhor, a falta delas… Eles estão questionando nossa falta de participação e recusa nas missões atribuídas ao Batalhão Zero. Eu tentei dar a justificativa de que ainda estamos estruturando o novo pessoal recrutado, mas eles nos deram um ultimato. Ou voltamos a aceitar as missões, ou cortarão o repasse de recursos do mês. Querem uma resposta sobre o que faremos até o fim do dia de hoje.”

    Quando todos ouviram isso, suas expressões afundaram ainda mais.

    Por mais que o Batalhão Zero tivesse boas reservas de dinheiro e atuasse num modelo próprio de divisão de recursos ganhos, o salário mensal de cada membro ainda era pago diretamente pela Legião. Se o Batalhão Zero inteiro for cortado da folha de pagamento dos Leões Dourados, muito menos meio ano, seus fundos de reserva seriam completamente drenados em apenas dois meses!

    “Isso não é bom…” Karol falou, cheia de preocupação. “Talvez devêssemos informar a situação aos Generais e pedir ajuda?”

    “De jeito nenhum!” Ilgner negou, com os braços cruzados, reclinando-se para trás na cadeira.

    “O-o que, por quê?!” A garota perguntou, surpresa.

    O bárbaro loiro olhou fixamente para Karol, pensando que se ela não fosse a esposa do Tenente, certamente iria lhe dar um soco pela sua ignorância.

    “O Tenente está fora da cidade. Ele não deu muitos detalhes, mas parece ser algo extremamente confidencial, e já que pediu para fingirmos que ele está em treinamento. Se acionarmos o Salão ou pedirmos ajuda dos Generais, irão querer vê-lo e isso será um grande problema, já que ele pode ser acusado de deserção, devido à Missão de Trucidação daqui a três meses. Outro ponto que deve ser falado é, o que os novos membros do Batalhão pensarão aos nos ver pedindo ajuda para o Salão?! Ou mesmo aqueles da legião que não gostam de nós? Se não lidarmos com isso por nós mesmos, teremos uma queda em nossa reputação, o que pode gerar pedidos de demissão ou transferência e isso pode atrapalhar os planos futuros do Tenente Fernando.”

    Ouvindo isso, Karol ficou abismada, não imaginando que um simples pedido de ajuda poderia causar tantos inconvenientes.

    “E-entendi, você tem razão, Subtenente Ilgner. Me desculpe.” A garota respondeu, reconhecendo o erro de sua sugestão. Mesmo que ela fosse esposa de Fernando, sabia que não era nada além de uma Oficial na cadeia de comando e deveria respeitá-lo.

    Nesse momento, uma voz grave e desinteressada soou.

    “Vocês não estão se preocupando demais?” A pessoa em questão a falar era Alastor, o indicado por Fernando a Combatente em Treinamento. Todos imediatamente voltaram seus olhares na direção do gigante, que já não parecia tão esquelético quanto antes, esperando ouvi-lo.

    Inicialmente, devido ao suposto incidente onde ele havia tentado matar Fernando na prisão de oficiais, muitos ali tinham opiniões muito ruins sobre o homem e alguns até o viam como uma ameaça. No entanto, nos poucos dias em que Alastor esteve no Batalhão Zero, todos não puderam evitar ter uma mudança de perspectiva a respeito dele.

    Apesar de parecer apenas um brutamontes gigante, o homem demonstrou ser muito mais que isso.

    Durante a seleção de candidatos, o sujeito ajudou a encontrar diversas pessoas ‘problemáticas’. Ninguém sabia explicar como ou porque, nem o próprio Alastor, mas ele parecia identificar com facilidade gente que tinha uma índole ruim ou duvidosa. Em meio aos rejeitados, havia ladrões e todo tipo de gente má ou com personalidades distorcidas.

    Houve inclusive o caso de um homem em especial que Alastor havia apontado e pedido explicitamente para que seus pertences fossem vasculhados.

    Apesar de não entender nada e mesmo que a contragosto, por receio de gerar má fama ao Batalhão, Noah, que era o avaliador responsável, cedeu a sua demanda e autorizou a vistoria.

    O candidato em questão tentou protestar e até alegou que não queria mais se juntar ao Batalhão Zero. Mas esse comportamento suspeito apenas fez Noah achar isso estranho e insistir na vistoria.

    No fim, em meio a Pulseira de Armazenamento do sujeito foram encontrados corpos de mulheres e homens, cheios de mordidas humanas e pedaços faltando, uma visão verdadeiramente macabra.

    Quando o Salão foi acionado, descobriu-se que se tratavam de Recrutas e jovens Soldados da Legião que foram dados como mortos ou desaparecidos ao longo dos anos, muito antes da invasão dos Orcs. Ou seja, o sujeito era uma espécie de assassino em série que matava alvos que considerava fáceis e guardava seus corpos em sua bizarra coleção pessoal, como se fossem troféus, ao mesmo tempo que consumia partes deles periodicamente.

    Apesar de nenhum outro caso ser tão grave ou bizarro quanto esse, mais nenhum dos membros centrais do Batalhão Zero duvidou de suas capacidades de avaliar as pessoas.

    Noah, em especial, que havia adquirido uma personalidade um pouco difícil e não vinha lidando tão bem com novos membros, acabou cedendo dessa vez. O Oficial sentiu uma verdadeira admiração pelo sujeito, acreditando que poderia aprender muito com sua estranha perspicácia.

    Além disso, Alastor também demonstrou grande conhecimento em treinamento, organização militar e formações de batalha. Somando ao fato de que ele já fora um Tenente Comandante no passado, isso o tornava em tese, na ausência de Fernando, a patente mais alta do Batalhão Zero. Mesmo que não pudesse de fato comandar, por ser um Combatente em Treinamento, isso por si só já era algo a ser respeitado.

    O restante dos membros, ao interagir com o gigante, também perceberam que apesar da aparência assustadora, na verdade, ele era alguém relativamente gentil. Quando sua irmã foi trazida ao Batalhão Zero e empregada na Unidade de Logística, todos souberam pelo Sargento Arslan da chantagem feita a ele. Mesmo aqueles que antes guardavam algum rancor, sentiram que suas ações eram justificadas. Se eles tivessem suas famílias como reféns, muito provavelmente teriam agido da mesma forma.

    “O que quer dizer?” Theodora perguntou, olhando fixamente para o homem.

    Alastor, que era de longe a pessoa mais alta na sala e que mesmo sentado parecia estar na altura de alguém de pé, inclinou-se levemente para frente, desajeitadamente se apoiando na grande mesa de reunião.

    “É bem simples. Os ‘agressores’ sempre atacam no final do entardecer e no começo do amanhecer e saem antes de causarem uma grande comoção. Ou seja, ‘os atacantes’, na verdade, podem não ser um grupo, mas sim uma única pessoa. Alguém que não está confiante de enfrentar o Batalhão Zero diretamente, mas quer nos irritar, ou talvez até esteja buscando algo mais…”

    Todos ficaram surpresos com a avaliação de Alastor, principalmente com a suposição de ser uma única pessoa. Olhando por esse lado, muitos sentiram que suas palavras faziam sentido.

    “Isso é impossível… Mesmo que tenhamos conseguido alguns inimigos com esse último recrutamento, não acho que eles iriam tão longe. Além disso, o que eles estariam querendo de nós?” Lenny perguntou, de forma cética.

    “Ele não está errado.” Nesse momento, a porta do local foi subitamente aberta, quando uma figura surgiu na entrada. Quando todos viram isso, ficaram surpresos. “Desculpem o atraso, tive que lidar com alguns assuntos importantes.”

    Theodora tinha um olhar frio ao ver essa pessoa, mas logo sorriu.

    “Sargento Argos, você não atendeu ao meu chamado antes, achei que não viria dessa vez também. Estava até pensando em incluí-lo na lista de possível deserção ou até de mortos.”

    O homem de pele clara e cabelos longos cumpridos não se importou com a provocação, quando fechou a porta atrás dele, sentando-se calmamente a mesa com os demais.

    “Sinto desapontá-la, Subtenente, mas contínuo bem vivo.” respondeu, com um leve sorriso, cheio de uma gentileza que parecia genuína.

    Theodora ainda mantinha o sorriso provocador, parecendo querer irritar ainda mais o sujeito, mas sua expressão logo diminuiu, ficando séria, pois o trabalho vinha em primeiro lugar.

    “Então, o que você sabe desses incidentes?”

    “Talvez seja melhor mostrar do que apenas falar.”

    Argos, que ainda mantinha a compostura, bem como sua expressão gentil, estalou o dedo.

    Click!

    Logo a porta foi novamente aberta, quando um sujeito baixinho, de pele bronzeada e usando uma espécie de monóculo, entrou, preso com Algemas Evral. O homem estava ensanguentado e sua boca inchada, com dentes faltando e mesmo seu monóculo parecia rachado. Logo atrás dele, o empurrando, havia uma garota negra, com mechas de cabelo prateados.

    Kelly, apesar de surpresa com a aparição do homem algemado, não teve nenhuma grande reação. No entanto, ao ver a mulher negra, seus olhos arregalaram-se e seu coração disparou, quando ela imediatamente levantou-se, movendo o pulso e sacando seu arco, apontando para ela.

    “K-Kelly? O que está fazendo?!” Gabriel perguntou, chocado.

    Essa ação repentina pegou todos no local de surpresa. A única exceção era Theodora, que também reconheceu a mulher e entendeu o porquê da garota reagir assim. Ela era uma das assassinas que tentou matar Fernando anteriormente.

    O que está acontecendo aqui? A Medusa perguntou-se, pois lembrava que Fernando havia levado aquela pessoa em seu Anel de Aprisionamento.

    Argos não parecia afetado pela reação de Kelly.

    “Oficial, acalme-se, essa pessoa é minha nova subordinada, ela não é mais uma ameaça.” afirmou.

    Os olhos castanhos da garota, que estavam fixados na mulher, voltaram-se lentamente para o homem, sem sua cabeça mover um centímetro sequer.

    “Então é isso?” Kelly perguntou com uma expressão calma, quando a mira do seu arco moveu-se do rosto da mulher, diretamente para o dele. “Você tem dez segundos para explicar isso, Sargento, ou eu vou te matar agora mesmo!”

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