Índice de Capítulo

    A expressão de todos no local era de confusão e até um pouco de receio do que a garota faria. Os membros centrais do Batalhão Zero sabiam da potência e poder de uma única flecha da Kelly mesmo à distância, muito menos a queima-roupa.

    No entanto, ao contrário dos demais, Argos, que estava sob sua mira, parecia calmo e tranquilo, mesmo diante da ameaça de morte iminente.

    Nesse momento, Karol se levantou, intervindo.

    “Kelly, se acalme. Eu não sei o que está acontecendo, mas essa não é a solução para isso.” falou, aproximando-se lentamente na tentativa de desarmá-la, mas a garota sequer olhou em sua direção.

    “Karol, se você der mais um passo, eu vou soltar essa flecha.” ameaçou, com uma voz gelada. “Não interfira, eu quero ouvir da boca dele o porquê a pessoa que tentou assassinar o Tenente e a mim e ainda matou meus homens, está fazendo aqui?!”

    A mulher negra, com mechas de cabelo prateadas, parecia tensa ao ver essa situação causada meramente por sua presença. Ela sabia de seus pecados e de todo mal que havia causado, mesmo que contra a sua vontade. Porém, não se atrevia a tentar se defender, pois não detinha tal direito. Desde que havia jurado sua lealdade a Fernando, sua vida pertencia apenas a ele.

    Os demais, incluindo a própria Karol, ficaram sem palavras ao ouvirem isso.

    “O que exatamente está acontecendo aqui?!” Noah exclamou, com as sobrancelhas franzidas, voltando-se para Argos.

    Mesmo estando logo ao lado de Kelly, em nenhum momento o Oficial tentou interferir ou pará-la, pois como um antigo companheiro dela da Equipe 4, facilmente confiaria sua vida a garota e sabia que ela só faria algo assim se tivesse bons motivos.

    Sob os olhares atentos de todos, o Sargento de longos cabelos negros apenas manteve seu sorriso cortês de costume.

    “Oficial Kelly, eu entendo o que esteja sentindo, principalmente em relação ao seu ressentimento a essa senhorita. Inclusive, o nome dela é…”

    “Dane-se o nome dessa vadia! Por que eu me importaria com o nome de alguém que vai morrer hoje?!” Kelly exclamou, interrompendo o sujeito, com uma voz cheia de violência.

    Isso fez muitos dos membros mais antigos, incluindo a própria Karol e mesmo Thom, se surpreenderem com o quanto a garota havia mudado com o tempo.

    Noah em especial, que há muito tempo havia enchido seu coração de uma fúria interminável, tornando-se muito diferente de seu ‘eu’ simpático e passivo de antigamente, suspirou consigo mesmo, vendo um pouco de si próprio em Kelly nesse momento.

    Acho que não sou apenas eu quem está mudando. Talvez não estejamos realmente nos adaptando a esse mundo, mas sendo lentamente absorvidos por ele… pensou, ao lembrar sobre como se sentia sempre que se recordava daqueles que se foram ou dos sentimentos de medo constante de perder mais de seus companheiros.

    Argos não se sentiu chateado com a forma grosseira de falar da garota e apenas continuou encarando-a, com seu sorriso calmo no rosto.

    “Kelly, faça silêncio. Por mais que eu não goste dele, vamos ouvi-lo primeiro.” Theodora falou, intervindo, mas logo seus olhos se apertaram, enquanto encarava Argos. “Claro, se a resposta não for boa, então… você pode atirar.”

    Alguns dos membros centrais na sala tinham expressões variadas ao ouvir as palavras da Subtenente, sem saber se ela estava realmente falando sério, ou apenas o provocando como sempre fazia. Logo o mesmo pensamento veio na cabeça de todos ‘mesmo que ambos não se deem bem, isso parece estar indo longe demais’.

    Muitos olharam para Ilgner, em busca de sua intervenção, mas o bárbaro loiro apenas bocejou, parecendo entediado e indisposto a se envolver nessa bagunça

    Arslan, que era um dos mais novos membros do Batalhão Zero e ainda estava se acostumando ao lugar, congelou no assento ao ver tudo isso.

    Qual o problema desses malucos?! pensou, assustado.

    O clima estava tão tenso, que até mesmo o sujeito que havia sido trazido, usando as algemas Evral, olhou ao redor, com medo.

    “A Subtenente está sendo tão gentil como sempre.” Argos brincou, não parecendo afetado pela forma ameaçadora de falar de Theodora. “Como eu ia dizendo Oficial Kelly, o nome dessa pessoa é Verônica e ela agora é membro da Guilda Sopro Noturno. Ah, e antes que continuem com toda essa agressividade e desconfiança… A ordem de recrutamento dela foi dada diretamente pelo Tenente Fernando.”

    “O-o quê?!” Noah, Kelly e alguns outros exclamaram ao mesmo tempo.

    Deve-se saber que nesse ponto, todos os membros centrais já sabiam sobre a existência da Sopro Noturno, apesar de não interagirem diretamente com ela, tinham ciência de sua importância e do quanto Fernando a valorizava.

    Ao mesmo tempo, também ficaram chocados com o fato do Tenente ter dado uma ordem tão estranha. Antes que mais alguém pudesse perguntar mais alguma coisa, Argos continuou:

    “Assim como a Oficial Kelly disse, Verônica participou da tentativa de assassinato do Tenente e matou dois dos nossos Soldados. Por isso eu também tive minhas ressalvas quanto ao seu recrutamento, mas essa foi uma ordem direta do Tenente dada há cerca de uma semana e sinceramente, ela se mostrou extremamente capacitada para esse trabalho e me fez mudar de opinião.” explicou, com um rosto calmo “Como alguns de vocês já sabem, o grupo que planejou a tentativa de assassinato do Líder se chama Família Lopes, uma organização que secretamente controlava a Guilda Fúria de Belai, cuja destruímos naquele incidente… A Verônica de fato fez parte desse grupo, mas não por vontade própria, ela foi praticamente escravizada por eles, tendo sido enganada e vendida a eles pouco após chegar em Avalon.”

    Apesar da maioria dos membros do Batalhão Zero não terem noção da real dimensão dessa organização, já haviam sido informados a respeito da Família Lopes e sabiam que eram seus inimigos. As únicas exceções eram Arslan e Alastor, que haviam acabado de se juntar e estavam chocados e confusos ao ouvirem esses nomes, mas entenderam que se tratavam de inimigos.

    Conforme Argos relatava tudo isso, a expressão de Verônica diminuiu, abaixando a cabeça, numa mistura de vergonha e tristeza.

    Ao mesmo tempo, o homem capturado e preso pelas algemas, ficou boquiaberto. Ao saber que a garota negra era ex-membro da Família Lopes, finalmente entendeu tudo.

    Nós não tínhamos infiltrados na nossa filial… As informações vazaram dessa maldita traidora! O sujeito exclamou em sua mente, rangendo os dentes.

    Quando Lincon e seu grupo chegaram a Garância, como um aliado leal da Família, naturalmente ele havia fornecido auxílio ao sujeito. Porém, não conhecia os outros membros e nem havia tido contato direto com eles e até acreditava que todos haviam morrido na emboscada falha.

    Ouvindo toda a história, as iris de Kelly diminuíram, principalmente ao ouvir sobre a garota ter ‘sido vendida’ para uma Guilda das Trevas como essa. Como alguém que já havia sofrido nas mãos de homens cruéis quando era muito jovem na Terra, ela sabia perfeitamente do terror que era estar sob o controle de pessoas assim. Apenas de imaginar cair novamente nas garras de alguém assim, logo após chegar a Avalon, quando tudo ainda era tão assustador e confuso, fez seu sangue gelar.

    O assunto sobre os traumas de Kelly eram um segredo bem guardado entre os membros mais antigos do Batalhão Zero, mas Argos, como um especialista em coleta de informações, havia realmente lentamente conseguido tirar essa informação de Noah e Lance durante uma noite de bebedeira, enquanto contavam sobre o acontecido no Vale de Flaviore. Devido a isso, tinha certeza que a garota se identificaria ao ouvir a respeito. Ao ver sua expressão atônita, teve certeza disso, então continuou.

    “O Líder a capturou depois daquele incidente e após interrogá-la e saber de sua história, ofereceu um contrato e decidiu dá-la uma segunda chance. Agora ela é uma de nós e deve ser tratada como tal.” afirmou, com convicção. “Sabendo disso tudo, você ainda tem algo a dizer, Oficial Kelly?”

    A garota travou no lugar, quando sua respiração ficou levemente irregular. Sua mão segurando o arco estava tremendo, principalmente quando olhou para Verônica. Ao lembrar de seus Soldados que haviam morrido pelas mãos dela, ao mesmo tempo que pensava sobre sua história, não pôde deixar de sentir um misto de fúria e pena.

    No fim, a Oficial resignou-se, abaixando lentamente o arco, focou-se na mulher negra.

    “Se essa é uma ordem do Tenente, eu irei respeitá-la, mas saiba que nunca irei te perdoar.” afirmou, com uma voz fria. “E se eu desconfiar que você está aprontando algo, eu mesma lidarei com você.”

    Verônica ergueu a cabeça ao ouvir isso, olhando-a nos olhos, quando assentiu.

    “Eu entendo.” respondeu brevemente.

    Após tudo ser resolvido, todos ficaram em silêncio, se entreolhando brevemente.

    Não suportando mais isso, Ilgner soltou um suspiro descontente.

    “Porra, que clima merda vocês deixaram hein!” O bárbaro loiro exclamou. “Não é como se isso fosse algum tipo de novidade. Quem aqui já tentou matar o Tenente Fernando antes?”

    Imediatamente Alastor levantou a mão, parecendo animado.

    Vendo isso, Argos riu, quando ergueu sua mão também. Ele não havia tentado matar diretamente Fernando quando era espião dos Lobos de Batalha, mas havia sido quase isso. Logo em seguida, o Oficial Lenny também levantou a mão, pois quando ele tentou tomar o Batalhão Zero junto de Trayan, ele atacou o Tenente seriamente, o que, de certa forma, poderia ser considerado uma tentativa de assassinato por alguns.

    Theodora observou essa cena achando um pouco engraçada, quando também ergueu sua mão. Apesar de nunca ter feito algo contra Fernando, como uma Medusa, seu plano era ficar junto de um alvo promissor por um tempo e obviamente, eliminá-lo no futuro caso ele ficasse forte o bastante para valer a pena ser morto por ela.

    “Quê? Esses três eu até entendo, mas até a Subtenente?!” Lina deixou escapar, chocada, já que Theodora era a pessoa mais leal a Fernando ali e todos sabiam disso, mas tapou imediatamente a boca com as duas mãos ao notar seu erro.

    Theodora apenas olhou de soslaio para a Tesoureira, mas pareceu não se importar.

    Com os quatro fazendo isso, Verônica, apesar de se sentir estranha e acuada nesse lugar, timidamente levantou sua própria mão também.

    Tariq, que estava com as mãos presas, olhou de um lado ao outro, confuso, então começou a levantar as mãos também, mas Argos, que estava próximo, o acertou com uma cotovelada na barriga.

    “Você não.” falou, de forma fria, sem sequer olhar para o velho homem.

    Com isso, ao todo, haviam cinco pessoas dentre os membros que haviam tido ‘problemas’ com Fernando no passado.

    “Viu, ela não é a única.” O bárbaro loiro falou, de forma despreocupada, quando seu olhar recaiu sobre a garota negra. “Então, bem-vinda ao grupo, novata.”

    Verônica parecia envergonhada, quando assentiu mais uma vez.

    “Eu tenho uma teoria… Talvez isso seja o charme especial do Chefe.” Thom comentou de forma bem humorada, tentando amenizar a situação.

    Logo Noah, não conseguiu deixar de olhar para o sujeito por um momento, então deu uma risada alta, mesmo sob o clima tenso.

    Gabriel, Lenny, Damon e os demais não puderam se segurar e riram junto ao ver isso.

    Arslan tinha uma expressão estranha em seu rosto, quando uma série de coisas passou pela sua mente.

    Primeiro, por que tantos membros do Batalhão Zero tentaram matar o Tenente? E segundo, por que eles estão no alto comando do Batalhão? E terceiro, por que estão rindo de algo tão macabro?! indagou-se, assustado, quando começou a repensar suas escolhas de vida. Sério… em que tipo de manicômio eu me meti?

    Enquanto todos riam, Karol ergueu sua voz fracamente, parecendo desconsertada,

    “G-gente, vocês estão falando do meu marido…” Como se respondessem a isso, as risadas apenas ficaram mais altas. “Sério, não façam isso…”

    No fim, a Dama de Prata apenas se resignou, perguntando-se por que tanta gente esquisita seguia Fernando.

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