Capítulo 671 - Em suas mãos
Pouco à frente, a expressão de Alastor ficou totalmente chocada ao ver tanto o assassino quanto Theodora aparecerem de forma repentina tão próximos dele. Não só isso, mas a mulher realmente o havia perfurado!
Os Soldados ao redor também estavam surpresos, nenhum deles havia percebido qualquer um dos dois chegando, eles simplesmente haviam aparecido do nada!
Quando o gigante estava prestes a comemorar em sua mente, sentiu uma sensação estranha. Mesmo com seu peito atravessado pela lâmina de Theodora, o homem mascarado parecia calmo, quando virou o rosto vagamente para trás, de forma ameaçadora.
Espera, tem algo estranho! pensou, alarmado.
“Cuidado!”
Theodora, que estava com sua espada, Céleres, fincada nas costas do Máscara Branca, estava prestes a puxá-la, quando ouviu o grito de alerta de Alastor.
Normalmente, as pessoas nessa situação se perguntariam o que estava havendo ou travariam, em meio à confusão, mas a Medusa não era uma pessoa comum. Assim que ouviu o aviso, ela soube que tinha algo errado e se preparou para reagir.
De repente, o corpo de Maron começou a vibrar, quando rachaduras começaram a se formar a partir do ponto perfurado e uma luz extremamente incandescente estava vazando das rachaduras, como se todo o exterior fosse apenas uma casca vazia, com o interior feito de pura energia.
Os olhos outrora confiantes e sanguinários da Medusa imediatamente mudaram quando olhou para alguns dos poucos Soldados próximos.
“Fujam, rápido!”, gritou em plenos pulmões. Após dizer isso, tentou puxar sua espada de volta, mas algo estava a puxando, prendendo-a firmemente ao corpo.
A mulher olhou por um breve instante para sua velha companheira, Céleres, a espada que Fernando havia pessoalmente lhe presenteado, sendo extremamente importante para ela. Mas, apesar do apego emocional, não hesitou um segundo sequer, quando se jogou para trás, afastando-se do corpo do assassino, que continuava rachando, sem parar.
K-krac! BOOM!
De repente, todo o local em torno do Batalhão Zero encheu-se de uma luz brilhante, quando uma explosão de pura energia alastrou-se por todas as direções, com um único pilar central feito de luz branca, com mais de cinco metros de altura, sendo o foco de toda a claridade, erguendo-se a partir do corpo do Máscara Branca.
A expressão de Theodora enquanto corria para longe do pilar que estava se formando mudou ao não sentir qualquer onda de choque vinda da explosão de energia ou do pilar de luz. Porém, seu corpo encheu-se de um calor abrasador conforme a luz branca tocava sua pele. Com aquela claridade poderosa irradiando e a ofuscando, ela rapidamente fechou seus olhos, protegendo seu rosto com ambos os braços.
Enquanto recuava de costas, esbarrou em um Soldado, quase caindo, mas rapidamente se recompôs, recuperando o equilíbrio. No entanto, percebeu uma sensação ameaçadora à sua frente, quando, mesmo com seus dois olhos fechados, graças ao fato de ser uma Medusa, pôde ‘ver’ um fraco brilho de mana vindo diretamente em sua direção. Era uma luz extremamente semelhante à irradiada pelo pilar e praticamente inconfundível, mas que parecia diferente.
Nesse momento, ela percebeu algo que fez seu coração tremer, a luz estava vindo numa velocidade avassaladora em sua direção, mas mesmo que tivesse uma noção de que algo estava se aproximando, não poderia fazer nada sem enxergar!
Com seu coração acelerado e uma expressão decidida, Theodora não teve escolha, quando forçadamente abriu seu olho esquerdo. Assim que o fez, uma dor excruciante a atingiu, queimando sua retina.
A dor era tão intensa que sentiu como se um ferro quente estivesse sendo pressionado contra seus olhos. Mas, mesmo com essa dor lacerante em seu olho, que queimava mais e se tornava mais intensa a cada instante, vazando lágrimas sem parar, não o fechou, pois sua sobrevivência dependia disso!
Foi então que viu vagamente uma única máscara branca, com desenhos azuis, aproximando-se, parecia estar flutuando em meio a toda aquela luz.
“Ah!” O Soldado, em que ela havia esbarrado antes, deu um grito estridente quando a máscara branca passou por ele, indicando que seu fim havia chegado.
Sem hesitar, Theodora, cheia de um senso de urgência, moveu o pulso, quando retirou duas adagas de sua Pulseira, segurando uma em cada mão, preparando-se para receber qualquer ataque frontal.
Em meio a lágrimas e à visão que ficava cada vez mais turva, lentamente escurecendo, enquanto sua retina estava queimando, ela finalmente conseguiu enxergar o corpo de Maron, assim como sua rapieira, que avançou diretamente em direção à sua testa.
Ting!
Usando ambas as adagas, a mulher parou o ataque entrante, enquanto continuava recuando sem parar.
Ao ver aquilo, Maron parou por um breve instante, surpreso, mas não desistiu, quando a perseguiu, lançando mais um ataque, dessa vez varrendo com sua lâmina na horizontal.
De repente, um grito de guerra foi ouvido logo atrás dele, fazendo-o congelar por um breve instante.
“Ahhh!”
Que merda é essa?, o sujeito mascarado pensou, ao olhar para trás e ver o gigante de antes avançando em sua direção, com seu corpo parcialmente queimado por todos os lados, com muitas partes de sua pele totalmente carbonizadas em negro. Ele realmente atravessou meu pilar de luz apenas para me perseguir?!
Ao perceber esse fato, o assassino ficou verdadeiramente assustado. Ele nunca tinha visto alguém louco o bastante para fazer algo assim!
Apesar disso, ele próprio também não era um indivíduo comum. Mesmo com o gigante cada vez mais perto, seus olhos se endureceram quando aumentou ainda mais a velocidade da sua espada, ignorando completamente o homem e perseguindo a mulher.
…
Enquanto tudo isso acontecia, os outros membros do Batalhão Zero, que estavam fora da área onde o assassino havia sido localizado, se apressaram na direção.
Da área leste aproximavam-se Ugo, Cíntia, Camile e Lenny. Do oeste vinham Karol, Anane, Thom, Emily e, por fim, da área sul, Kelly, Bianco, Gabriel e Arslan. Esses eram os membros centrais mais próximos, enquanto os demais ainda estavam se organizando.
Logo, todos viram ao mesmo tempo o enorme brilho ofuscante que cortava a noite, como se um enorme farol estivesse aceso. Ao verem isso, todos eles, sem exceção, correram ainda mais rápido, guiando suas tropas.
Thom olhou para o alto, seu coração se apertando sem aparente motivo. Por um momento, lembrou-se do rosto de Theodora sorrindo para ele.
Sua respiração ficou levemente irregular, ao ter algum tipo de premonição ruim, mas logo forçou-se a se acalmar.
Se for ela, com certeza vai ficar bem! pensou, confiante.
…
Ilgner mantinha seu enorme machado cobrindo os olhos, enquanto lentamente avançava em direção ao pilar de luz, com alguns dos seus Soldados mais próximos o acompanhando de perto, usando-o como escudo vivo.
“Mantenham os olhos fechados e estejam prontos!”, gritou em alerta.
Logo, o brilho do pilar começou a lentamente diminuir.
Vendo isso, mesmo com a incandescência ainda forte, o bárbaro loiro forçou seus olhos a observar a situação à frente. Ao ver o entorno do pilar de luz, sua expressão mudou.
Quatro Soldados, que haviam sido lentos em fugir, estavam parados, com as mãos em seus rostos, como se estivessem se protegendo de algo. Suas peles estavam completamente carbonizadas e mesmo partes de suas armaduras e armas pareciam derretidas devido ao ataque de calor intenso que os atingiu. Nesse momento, eles já não estavam mais vivos, não passando de nada além de múmias carbonizadas.
Ilgner apertou a mandíbula com força, cheio de raiva, mas logo varreu seu olhar, procurando rastros do inimigo e dos outros.
Todo o local estava uma bagunça, com vários dos Soldados tendo se jogado ao chão para fugir da área de ataque e outros estavam abaixados, cobrindo seus rostos, usando escudos para se proteger.
De repente, o olhar do bárbaro loiro, que varria o campo de batalha, parou, ficando completamente estarrecido com o que havia acabado de ver.
Uma única figura esguia, usando uma máscara e vestes brancas, estava parada, de pé, segurando sua rapieira. À frente dele, Alastor estava caído no chão, ainda segurando sua glaive. Um enorme corte transversal estava em seu peito, indo do ombro até a área do abdômen.
Ver o gigante, que tinha uma força enorme nesse estado, fez seu sangue gelar, mas o que realmente o deixou completamente aterrorizado foi a outra pessoa que estava logo atrás do mascarado.
Theodora estava de joelhos, com ambos os braços erguidos, como se estivesse se protegendo. Porém, no final de seus braços não havia nada. Onde deveriam ser suas mãos, agora havia apenas dois cortes limpos.
Ambas as mãos, que ainda seguravam firmemente suas adagas, nesse momento estavam no chão, decepadas.
Os outros Soldados, que estavam atrás de Ilgner, assim como aqueles que finalmente haviam recuperado sua capacidade de enxergar e puderam abrir os olhos, olharam para aquela cena, com olhos arregalados.
Um silêncio mortífero tomou conta de todos, nenhum deles podia acreditar no que estavam vendo.
Não só o gigante Alastor havia caído, como Theodora também havia sido derrotada!
Nesse momento, Maron olhou friamente para o sujeito que havia lhe causado tantos problemas no chão.
“Uh…” Alastor gemeu, enquanto tentava erguer sua glaive, mas o sangue que se derramava a partir de seu peito o fez perder suas forças, largando-a.
“Impressionante”, Maron elogiou sinceramente, verdadeiramente surpreso ao vê-lo ainda vivo mesmo após seu ataque mortal. Então virou seu corpo, com seu olhar recaindo sobre a mulher que o havia emboscado. Por debaixo da máscara em seu rosto, seus olhos se estreitaram quando ergueu sua rapieira, apontando para ela. “Afinal, quem é você?”
A verdade é que naquele último momento, quando Alastor o atacou, ele estava decidido a parti-lo em dois usando toda a sua força. Mas foi então que uma sensação estranha o atingiu. Sentiu seu corpo letárgico, como se algo estivesse o segurando, deixando-o cada vez mais lento. Graças a isso, o poder de seu ataque havia caído para menos de um terço do que deveria ter sido.
Agora, olhando para suas roupas, percebeu uma leve camada de algo que lembrava cimento fresco o cobrindo. Balançando levemente seu braço, fragmentos de pedra se despedaçaram, caindo ao chão.
Havia sido aquilo que o atingiu naquele momento e ele tinha certeza de que a fonte daquele estranho ataque havia partido dessa mulher. Olhando para Theodora, seu olho esquerdo estava aberto, completamente branco, tendo sido totalmente queimado por sua Magia de Luz.
Ela forçou-se a ficar com o olho aberto até o fim?! perguntou-se, ao lembrar-se de como ela havia conseguido defender-se de seu primeiro ataque, mesmo sob a barragem de seu pilar de luz.
“Era você, aquela que me seguia na escuridão”, disse com uma voz fria.
Ouvindo aquilo, Theodora, que ainda estava com seu olho direito fechado, lentamente o abriu, pois nada mais poderia ver com o esquerdo. Ao ver o estado de suas mãos, ela não teve reação alguma, quando sua atenção recaiu sobre o assassino.
“Então você já havia me notado”, ela disse, forçando um leve sorriso, mesmo nessa situação, percebendo finalmente o quanto havia o subestimado.
Inicialmente, Maron não tinha intenção de responder sua pergunta, mas ele ficou realmente interessado por essa pessoa.
“Eu já sabia que alguém estava me seguindo mesmo com minha Magia de Translucidez, você não é a primeira rastreadora de Mana que encontro, afinal”, disse com confiança. “É por isso que me disfarcei como uma das miragens e contive meu próprio mana e minha presença para o mínimo possível, enquanto deixei meu Clone de Luz para trás, como isca. Ele é feito de pura energia, com uma casca tangível. Pelo menos até ser atacado… Não costumo usar isso com frequência, já que o gasto de mana é alto. É impressionante que tenha me feito usar isso”, elogiou, observando-a.
Ouvindo tudo aquilo, a expressão de Theodora mudou. Foi então que se lembrou do momento em que o homem havia usado algumas ilusões que se espalharam para diferentes direções, perseguidas pelos Soldados.
Foi ali que ele me percebeu? pensou, arrependida, ao lembrar como havia ignorado completamente aquelas imagens por quase não possuírem mana.
Maron continuou a encará-la, com um leve interesse.
“Mas para se esconder tão bem na escuridão… Magia das Sombras? É a primeira vez que vejo alguém capaz de se camuflar tão perfeitamente sem ser um Elfo Negro. Uma Rastreadora de Mana que domina as Sombras, essa é uma combinação verdadeiramente incomum e mortal”, comentou, com uma voz sem qualquer sentimento aparente, então olhou novamente para suas roupas, cheias de um material estranho acinzentado-branco. “Tais magias contrastantes. Eu nunca vi isso em alguém, mas já ouvi boatos e histórias sobre algo que não é Humano, mas que tem magias peculiares.”
Ouvindo a insinuação, a expressão de Theodora não mudou, mantendo-se calma.
Quando o Máscara Branca estava prestes a matar Alastor, usando os últimos resquícios da visão em seu olho esquerdo, ativou sua Magia de Petrificação com força total, focando-a em suas articulações.
Apesar de ainda não a dominar completamente, estava pouco a pouco começando a entendê-la melhor. Seus efeitos, antes sutis, estavam se tornando cada vez mais perceptíveis e efetivos.
Enquanto usava sua Magia de Petrificação, ela sabia que o inimigo imediatamente a identificaria como uma Medusa. Apesar disso, não hesitou, pois ela não era mais apenas uma mestiça se escondendo entre os Humanos, ela agora era Theodora, ‘A Dama Negra’, a Subtenente do Batalhão Zero e, na ausência de seu Mestre, deveria proteger seus homens a qualquer custo!
“Fascinante”, Maron comentou, ao receber seu silêncio como uma resposta. “Eu vim até esse fim de mundo apenas por meu alvo. Mas encontrar algo como você… é uma surpresa realmente agradável. Se eu pudesse capturá-la viva, muitos pagariam uma verdadeira fortuna por você, mas…”
O sujeito mal havia terminado de falar, quando gritos soaram um após o outro.
“Protejam a Subtenente Theodora!”, os Soldados que ainda se recuperavam gritaram, um após o outro, quando vários deles correram na direção do mascarado.
Não muito longe, Ilgner também havia se recuperado do choque e sua expressão transbordou de raiva. Logo, seus olhos se encheram de um brilho vermelho, quando ele pisou com força e disparou na direção de Maron numa velocidade monstruosa.
“Parece que vou ter que me contentar com o dinheiro de seu cadáver”, Maron finalmente terminou sua fala, quando levantou sua rapieira e deu um passo em direção a ela.
Theodora ergueu sua cabeça, encarando o mascarado sem medo em seus olhos, então virou seu rosto na direção em que Ilgner estava vindo, correndo como um touro furioso, sem conseguir usar sua Habilidade de Movimento em máxima potência, devido aos inúmeros Soldados ainda atordoados no caminho.
“Saiam da frente!”, Ilgner gritou com uma voz ensurdecedora, pois, se ativasse sua Habilidade em máximo potencial, mataria qualquer um em seu caminho com seu poderoso corpo.
Ao olhar para Theodora, a viu sorrindo em sua direção. Então, uma mensagem chegou em seu Cubo Comunicador.
“Deixo tudo em suas mãos. Não me decepcione.”
Lendo aquela mensagem, o coração do bárbaro loiro estremeceu, quando uma lembrança antiga, guardada no fundo de sua mente, veio à tona. Uma única mulher, solitária, ficando para trás para ganhar tempo. A pessoa que havia salvado sua vida e lhe permitido viver até aquele dia. Sua Mestra de Guilda.
Não! Não vou permitir, não dessa vez! Ilgner urrou consigo mesmo, quando veias se espalharam a partir de seus olhos, tornando suas íris carmesim num vermelho ainda mais intenso, forçando seu corpo ao limite para desviar dos Soldados no caminho sem usar Passos Pesados.
No entanto, por mais esforço que fizesse, no fundo, ele sabia que era tarde demais.
Logo Maron chegou de frente para Theodora. Ela desviou o olhar do bárbaro loiro, retornando para o sujeito, fitando-o como se estivesse pronta para seu fim.
Contudo, antes que isso acontecesse, sua mente se inundou de pensamentos quando se lembrou de Fernando.
Líder… eu queria vê-lo crescer, ver até onde você poderia ir, pensou de forma reminiscente, quando, pela primeira vez em anos, medo tomou conta de seu coração e algumas poucas lágrimas encheram seus olhos.
Frente a isso, o olhar do Máscara Branca era impassível, indiferente à sua tristeza, ao seu medo ou às suas emoções. Tudo que havia em seu olhar era um fio de ambição.

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