Capítulo 672 - Não morra
Pouco antes do ataque, dentro do prédio interno do Batalhão Zero, em frente ao ‘armazém’ onde o conselheiro convidado Wedsnagauer, bem como o guarda-costas do Tenente, Alfie, ficavam, dois guardas batiam desesperadamente contra a porta.
“S-senhor Alfie Caiman, senhor Wedsnagauer, estão me ouvindo?!” um dos homens gritou com urgência, mas não importa o quanto batessem, ninguém respondia. “Os Subtenentes estão te convocando!”
Bam! Bam!
O homem insistiu, batendo mais algumas vezes.
“Não adianta, eu te disse… Eles se trancaram aí dentro e não saíram mais. O sujeito de óculos falou que não deveríamos incomodá-los pelos próximos dias. Eles fizeram isso desde que o Tenente veio os visitar há alguns dias e trouxe um garoto com ele…” o outro Soldado explicou com uma voz balbuciante e nervosa. “O que acha que estão fazendo?”
O outro homem tinha uma expressão estranha. Um arrepio estranho percorreu sua espinha, não ousando imaginar coisas. Por mais que Fernando tivesse uma reputação ‘ruim’, isso parecia excessivo até para ele!
“Eu não sei e não quero saber! Mas se eu voltar sem nada de novo, a Subtenente vai arrancar minha pele!” o primeiro falou, desanimado.
“Relaxa, eu te aviso se saírem”, garantiu.
Vendo que não havia jeito, o homem concordou.
“Eh… Tudo bem, acho que não tem o que fazer.”
Após receber a garantia do homem, o Soldado saiu, murmurando.
O outro apenas suspirou, com alguma pena de seu camarada. Assim que o homem pensou que não haveria mais problemas para lidar naquela noite, uma figura com capuz surgiu no final do corredor vazio.
“Ei, você, quem…” O homem não teve tempo de falar, quando a figura removeu a vestimenta, mostrando seu rosto. “V-você…!”
…
Dentro da Sala de Runas, Alfie Caiman tinha um olhar sombrio e havia pesadas olheiras sobre seus olhos, enquanto olhava para Wedsnagauer. O velho homem dormia profundamente em uma cama improvisada no canto do enorme armazém.
“Você trabalhou duro, Doutor”, o sujeito de óculos disse, com a voz cansada. Então seu olhar mudou de direção, recaindo sobre Lincon, que estava amarrado numa cadeira. Seus olhos estavam revirados para trás, completamente em branco, enquanto saliva escorria de sua boca. “Isso foi muito mais desafiador do que o esperado”, comentou, suspirando.
Alguns dias antes, Wedsnagauer havia garantido que conseguiria quebrar o Contrato de Vassalo de Lincon em um dia. Porém, quando se depararam com a situação dentro de seu corpo, perceberam que haviam sido levianos demais.
A Matriz era muito mais complexa e bem estruturada do que o esperado, com múltiplas barreiras de proteção e codificação.
Isso não parece ser o trabalho de um Mestre de Matrizes qualquer, pode ser que… pensou, com uma expressão escura.
Mestres de Matrizes, no geral, eram pessoas pragmáticas, que focavam meramente no todo, mas a Matriz de Vassalo no corpo de Lincon tinha muito foco nas runas individuais. Isso indicava que a pessoa que a havia criado estava profundamente habituada ao estudo de Runas.
Esse fato levou o Especialista a considerar duas possibilidades. A primeira era que se tratava de um ex-praticante de Runas que havia se especializado em Matrizes e estava sob os serviços da Família Lopes, o que parecia irreal, uma vez que a maioria dos que traíram o campo tinham se tornado Mestres de Matrizes com suas próprias organizações. A segunda opção era uma que fez o sujeito de óculos tremer levemente: era a possibilidade de eles realmente terem um sobrevivente das Guildas de Runas com eles!
Independente de qual fosse a situação, Alfie sentiu que isso não era algo bom.
Aproximando-se de Lincon, checou seus pontos vitais e então varreu seu corpo com mana. Somente ao ter certeza de que todo o processo havia corrido bem, ele se acalmou.
“Parece que o choque mental durante a destruição da Matriz em seu corpo foi severo, mas sua mente não foi destruída. Isso foi um sucesso!” Alfie falou, parecendo satisfeito. Mesmo que tivessem gastado vários dias e o próprio Wedsnagauer tivesse se levado ao limite, ficando exausto e até tendo que interromper as aulas de Runas para isso, tudo havia valido a pena. Eles haviam finalmente conseguido um informante digno! “Mais um ou dois dias e ele deve recuperar a consciência, então poderemos entender melhor a situação dos nossos inimigos…”
Enquanto pensava nisso, Alfie calmamente andou até a base da sala de Runas. Então desativou a barreira interna, responsável por impedir que qualquer mana entrasse ou saísse do local.
Essa era uma medida extremamente necessária, já que qualquer distração poderia colocar a vida de Wedsnagauer, aquele que estava à frente do desmantelamento das Matrizes de Vassalo, em risco.
Assim que desativou a proteção, seu Cubo Comunicador começou a vibrar feito louco, recebendo dezenas e dezenas de mensagens.
“O que é isso?” o sujeito perguntou-se, franzindo o cenho.
De repente, Alfie sentiu uma enorme onda de mana dentro do perímetro do prédio do Batalhão Zero. Como alguém extremamente sensível ao mana, ele podia mais ou menos reconhecer se isso pertencia a algum dos membros do Batalhão Zero, mas não parecia ser o caso! Isso imediatamente o fez ficar em alerta.
Bam! Bam!
Duas batidas fortes soaram na porta.
O Especialista em Runas tinha um olhar sério, mesmo com as olheiras em seus olhos e o cansaço aparente, havia um ar gelado ao seu redor. Então caminhou até a entrada, mas não antes de olhar para os anéis em seus dedos, certificando-se de que estavam prontos.
Quando a porta foi aberta, um rosto familiar estava do outro lado: era um rosto quase feminino, de extrema beleza. Essa pessoa era Argos.
“Olá, professor Alfie”, o homem cumprimentou, com uma expressão séria. “Precisamos conversar…”
…
De volta aos entornos do campo de treinamento do Batalhão Zero, Maron estava com sua rapieira erguida, prestes a fazer seu movimento em direção a Medusa, quando sentiu algo.
Chiiiii!
Um brilho carmesim cortou o campo de batalha, dirigindo-se diretamente ao sujeito numa velocidade monstruosa.
Ao ver aquilo, mesmo Maron sentiu que não deveria bloquear, então calmamente deu três passos rápidos em sucessão para trás.
Perfura!
O local em que ele acabara de estar foi atingido quando o ataque de mana vermelho intenso afundou-se no chão, fazendo tudo se derreter em uma espécie de lava quente, penetrando profundamente no solo.
Vendo o poder absurdo daquilo, Maron ficou chocado, não perdeu tempo e habilmente olhou para o céu, em busca de novos inimigos. Somente um Tenente ou talvez um Capitão seria capaz de tal poder ofensivo!
No entanto, por mais que procurasse, não viu ninguém no alto dos céus.
Quem é? pensou, com a guarda levantada, imediatamente perdendo o interesse na Medusa ou no gigante derrotado. Ele havia gastado muito mana com seu Clone de Luz para suprimir os inimigos e sua diferença numérica. Se um Capitão tivesse chegado, muito provavelmente teria que fugir por sua vida. Logo, não tinha tempo para se preocupar com inimigos derrotados, apesar de achar uma pena não recuperar um espécime tão valioso.
Ao longe, em cima de uma pequena construção, um jovem rapaz tinha um olhar aterrorizado e, ao mesmo tempo, cheio de um ódio cintilante. Esse não era outro senão Thom!
N-não pode ser… pensou, com seu coração palpitante, ao ver Theodora ajoelhada, ambas as mãos naquele estado.
Assim que chegou, ele mal pôde entender corretamente a situação ou pensar direito. Tudo que viu foi a mulher prestes a ser morta, então, desesperadamente, reuniu toda a concentração que pôde para lançar uma Linha Rubra em direção ao atacante.
“Protejam a Subtenente!” alguns Soldados mais próximos gritaram quando finalmente chegaram até Theodora.
Nesse momento, Ilgner chegou, seus olhos brilhando em carmesim, cheios de fúria. Sem demora, partiu diretamente para cima do Máscara Branca, que apenas observava os entornos descuidadamente, ignorando-os completamente.
Swish!
Seu enorme machado varreu o ar, cheio de brutalidade, em direção ao sujeito que, no último instante, moveu-se para trás, desviando do ataque por pouco.
Apesar da ofensiva, Maron apenas olhou para o bárbaro loiro com algum descontentamento, então checou ao redor novamente, como se procurasse algo, até que seu olhar pousou em algo ao longe. Era uma única pessoa, parada acima de uma pequena construção de madeira.
“Te achei”, disse, sua voz desprovida de qualquer sentimento.
Ilgner seguiu o olhar do homem e imediatamente entendeu suas intenções. Ele sabia da capacidade de Thom e tinha certeza de que o assassino também a havia percebido. Estava mais que claro que ele o visaria em seguida, então avançou, com um olhar cheio de brutalidade, decidido a matá-lo antes que ferisse mais membros do Batalhão.
“Subtenente!” vários homens gritaram enquanto começaram a cercar Maron pelos lados.
“Levem eles daqui!” ordenou para alguns dos Soldados atrás dele.
Os homens viram o estado precário de Alastor, bem como de Theodora, quando, com rostos apreensivos, se moveram.
Um dos homens segurou a Subtenente, apoiando-a pela cintura e ajudando-a a se levantar, enquanto outros dois foram até Alastor, que estava mais próximo do assassino, puxando seu corpo cautelosamente para longe.
Com os dois feridos tão próximos, Ilgner não fez nenhum movimento precipitado, pronto para reagir caso o indivíduo tentasse algo. Mas, contrário às suas expectativas, o Máscara Branca apenas observou o resgate com aparente desinteresse, sem interferir.
Theodora, que viu o apoio chegando a tempo, sentiu seu coração palpitar numa mistura de sentimentos que nunca pensou que sentiria.
Desde jovem, quando era obrigada a passar por treinamentos desumanos e dores absurdas nas mãos dos Elfos Negros, acreditou firmemente que estava pronta para a morte quando seu momento chegasse. No entanto, agora percebeu que as coisas realmente não eram assim, pelo menos não mais.
Diferente de antes, quando ela não passava de uma ferramenta que não tinha nada a perder, a Medusa notou que agora tinha muitas coisas preciosas para si.
Inicialmente, só valorizava seu Mestre, Fernando, a quem jurara sua lealdade. O Humano que havia a ‘libertado’ de sua prisão sem grades e lhe mostrado uma nova visão de mundo que nunca conhecera. Até pouco tempo atrás, com exceção dele, ainda sentia que todo o resto, incluindo seus outros companheiros, eram descartáveis. Mas conforme vivia com todos ali, treinando, comendo juntos, brigando e brincando, vivendo sua vida ao seu lado, começou a perceber que também se importava com os demais.
Olhando para as costas de Ilgner, ela não pôde deixar de lançar algumas palavras que nunca pensou que diria:
“Não morra”, disse, de forma fraca.
O bárbaro loiro tremeu levemente, mas não respondeu de volta, apenas assentindo em silêncio.

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