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    Um outro Soldado, ao ver as mãos da Subtenente jogadas ao chão, cuidadosamente as recolheu.

    “Não guarde na Pulseira”, um dos que puxavam Alastor alertou.

    Apesar de não ser comum, membros poderiam ser reconectados se o indivíduo ferido fosse levado rapidamente a um Mago de Cura. No entanto, muitas pessoas constataram que, uma vez que o membro perdido fosse ‘guardado’ dentro de uma Pulseira, havia uma grande chance de rejeição devido à interferência do mana dentro do espaço de armazenamento, algo que afetava principalmente coisas biológicas. Por isso, as pessoas evitavam fazê-lo. Muitas vezes, o ferido levava seu próprio membro perdido em sacos ou amarrado à cintura.

    De repente, Ilgner não esperou mais. Correu em direção a Maron, e seu poderoso machado cortou o ar, fazendo-o emitir um tinido tenebroso.

    O assassino viu isso com cautela, o sujeito à frente era mais rápido e mais forte que o gigante, além de ser um Usuário de Habilidades, o que requeria mais cuidado ao lidar com ele. Além disso, ele estava com pouca mana e não queria perder tempo com escaramuças sem sentido.

    Sem escolha, moveu o pulso enquanto desviava dos golpes do bárbaro loiro, recuando sem parar. Então, retirou um frasco de Poção de Mana e ergueu levemente sua máscara, o suficiente apenas para que seus lábios ficassem à mostra.

    A expressão de Ilgner afundou ao ver quanto o sujeito estava o subestimando, atrevendo-se a beber uma poção enquanto desviava de seus ataques.

    Vamos ver se você ainda fica tão relaxado depois disso! pensou consigo mesmo enquanto suas veias afloraram em sua pele.

    Logo fez um movimento largo de varredura, mas assim como antes, Maron não parecia preocupado com isso, quando mais uma vez deu alguns passos para trás, habilmente saindo da trajetória do ataque amplo. No entanto, algo estranho aconteceu dessa vez, o enorme machado, que já tinha um alcance tão grande, pareceu se estender por um palmo, fazendo o sujeito ficar chocado. Ao olhar com cuidado, viu que Ilgner estava sorrindo e a haste não estava mais em sua mão.

    Ele soltou sua arma? pensou, estupefato.

    Swish! Crack!

    O enorme machado passou a centímetros de seu rosto, atingindo com ferocidade a Poção de Mana, quebrando-a em fragmentos. Então passou direto, roçando pelo seu ombro.

    Ilgner estava prestes a comemorar o ferimento no inimigo quando o assassino rapidamente colocou a mão acima de seu ombro direito e uma leve luz branca iluminou sua palma. Ele estava se curando!

    Normalmente, para se tornar um Mago Intermediário, era uma obrigação aprender Magia de Cura. No entanto, poucas pessoas se focavam em treinar isso, já que demandava grande controle e tempo. Logo, mesmo que soubessem usar magia, a maioria dos Magos não conseguia se concentrar o suficiente para usá-la em combate, ainda mais numa situação como essa, preferindo optar por Poções de Cura, que não demandavam mana ou atenção.

    Esse filho da puta! Ilgner xingou mentalmente.

    Por mais que odiasse, tinha que admitir que a pessoa à sua frente era alguém verdadeiramente monstruoso. Não só tinha uma força e velocidade absurdas, como seus reflexos eram de primeira linha e, mesmo com tanta superioridade, não subestimava seus inimigos, usando magias em área, camuflagem, emboscadas, fintas e podia até mesmo se curar em batalha. Ele era um perfeito Mago Assassino, em todos os sentidos!

    Nesse momento, alguns dos Soldados que haviam chegado por trás atacaram, tentando surpreender o mascarado, mas Maron parecia já tê-los notado, quando moveu sua rapieira em meio a um flash de luz, cegando todos ao redor.

    Ilgner não perdeu tempo quando moveu o pulso, retirando um novo par de machados e atacou em conjunto. Um ataque de duas direções diferentes, com quatro pessoas, três Soldados e um Subtenente.

    Ting! Swish!

    “Ah!”

    Num único instante, um dos três Soldados havia caído, seu peito havia sido atingido em cheio, jogando-o longe. Se ele estava vivo ou morto, era desconhecido.

    “Continuem!” Ilgner gritou, ao ver Maron tentando se desvencilhar. Ele sabia que, se perdesse o homem de vista, o mesmo se camuflaria em meio à escuridão novamente.

    Nesse ponto, mais e mais Soldados se aproximaram, assim como Noah e Leo, que haviam acabado de se recuperar da cegueira momentânea do Pilar de Luz, então atacaram com bravura de suas direções diferentes.

    O olhar confiante do Máscara Branca diminuiu ao ver isso, percebendo que ele havia arrastado isso por tempo demais. Seu olhar foi de um lado ao outro, quando rapidamente começou a procurar rotas de fuga.

    Ting! Bang! Swish!

    Logo uma troca intensa ocorreu, Ilgner, Noah e Leo tomaram a vanguarda, enquanto os Soldados ao redor os apoiavam sempre que podiam, formando um círculo apertado ao redor do assassino, impedindo qualquer tentativa de fuga. No lugar de uma luta contra um Humano, era como se estivessem tentando subjugar uma besta feroz.

    Maron atacou com sua rapieira, empurrando Leo para longe, então varreu em direção a Noah, que ergueu seu escudo, sendo empurrado alguns passos para trás.

    “Ah!” Aproveitando-se da breve abertura, Ilgner saltou para o alto, envergando seu corpo como um chicote, reuniu toda a força que podia e desceu com seus dois machados.

    Os olhos sob a máscara do assassino arregalaram-se ao ver o par de olhos carmesins vindo até ele como se fosse uma Criatura das Trevas alada.

    Ao mesmo tempo, os Soldados empurraram suas lâminas em direção ao homem, bem como Noah fechou seu caminho com o escudo e Léo bloqueou a última saída.

    Sem hesitar, o assassino saltou para trás, quando pulou acima dos Soldados, o ponto mais fraco do cerco.

    Isso está começando a ficar perigoso! Preciso sair daqui! Maron pensou, decidido a desistir do ataque ao Batalhão Zero naquela noite.

    Mesmo que ele se considerasse alguém poderoso e estivesse confiante em assassinar até mesmo Capitães poderosos ou Majores fracos com o devido preparo, tendo uma força individual superior a todos ali, ele não ousava subestimar o poder dos números. Se ele esperasse ainda mais tropas chegarem, não estaria mais confiante de sair ileso daquele lugar!

    No entanto, seus pés mal haviam deixado o chão quando um tilintar metálico soou alto atrás dele.

    “Você não vai fugir!” Um grito soou de não muito longe.

    Clink! Clank!

    Duas correntes metálicas, imbuídas em chamas, estalaram, atingindo Maron nas costas, empurrando-o de volta para frente. Era o jovem Magnus com suas correntes, que estava à espreita, em meio aos Soldados ainda desnorteados que se protegiam do confronto ao redor.

    Leo, que estava do lado, ficou surpreso com isso, pois mesmo ele não havia notado a chegada do rapaz, então assentiu para ele, em aprovação. Esse havia sido o primeiro acerto em cheio que conseguiam no sujeito!

    O Máscara Branca, com duas marcas fumegantes em suas costas, que haviam rasgado suas roupas, lançou um olhar furioso em direção a Magnus, mas não pôde fazer nada além de cair de volta no lugar onde estava e receber obedientemente os dois machados que caíam do alto.

    Sem escolhas, imbuiu uma enorme quantidade de mana em sua rapieira, empurrando para cima com força total.

    Vendo que ele não tinha escolhas além de aceitar seu ataque, Ilgner sorriu com ferocidade, quando levou sua Habilidade Beseker Carmesim ao limite, com seus olhos ficando num vermelho ainda mais intenso, ampliando seus sentidos ao máximo para não deixar nenhum movimento oculto de seu oponente passar.

    Ting! Crack! BANG!

    Tudo ao redor tremeu, alguns dos Soldados ainda desnorteados foram varridos pela onda de choque. Até mesmo Noah e Leo, que estavam mais próximos, deram alguns passos para trás, chocados com a força monstruosa do Subtenente. No entanto, quando olharam para a cena à frente, tinham expressões incrédulas.

    O assassino ainda estava de pé, as mangas de suas roupas brancas estavam em farrapos, completamente rasgadas, e seus dois braços tinham diversos vasos sanguíneos estourados.

    No entanto, do outro lado, Ilgner não parecia nada melhor, seus machados reservas haviam sido partidos em pedaços e um estilhaço metálico acertou sua bochecha, cravando-se profundamente em seu rosto, com uma enorme quantidade de sangue jorrando do local. 

    Não só isso, como ele havia ativado sua Habilidade Berserker Carmesim ao extremo, ao mesmo tempo que usava uma Habilidade de Fortificação Externa e seus Passos Pesados, fazendo todo seu corpo gritar de dor, ao ponto de mesmo seus olhos começarem a escorrer lágrimas de sangue.

    Vendo essa cena, Noah não perdeu tempo e avançou com seu escudo à frente e a espada ao lado, decidido a matar o sujeito ferido.

    “Não vou me esquecer de hoje, Batalhão Zero!” Maron gritou, com uma voz gelada. Sem vontade alguma de acumular mais ferimentos, saltou para o alto e levantou voo, deixando o Oficial que corria em sua direção para trás sem poder fazer nada, além de olhar o assassino escapar.

    Porém, nesse exato momento, a poderosa voz de Ilgner invadiu todo o campo de batalha.

    “Arqueiros e Magos, supressão!!” gritou, em plenos pulmões, na comunicação interna.

    Assim que a ordem foi dada, todos aqueles no campo de batalha, no entorno do assassino, rapidamente tiraram escudos, erguendo-os acima de suas cabeças, como se fosse algo que haviam treinado inúmeras vezes, ao ponto de seus corpos reagirem quase que de forma inconsciente.

    As tropas à distância, de prontidão, não hesitaram, disparando uma enorme saraivada de flechas e Magias de Fogo. No total, havia mais de vinte Arqueiros e cerca de oito Magos.

    Mesmo vendo os inúmeros projéteis vindo em sua direção, o Máscara Branca não diminuiu sua velocidade de subida. Em vez disso, acelerou ainda mais e ativou um Escudo de Mana ao seu redor.

    Ting! Bang! Swish!

    Explosões e Flechas irromperam contra seu Escudo, fazendo-o tremer e piscar, o que o fez franzir o cenho, pois seu mana estava rapidamente se esgotando.

    Como eu cheguei a esse estado?! pensou, sem entender como um mero Batalhão havia o pressionado a tal ponto.

    A situação, que parecia estar sob seu controle, havia de repente tomado um novo rumo. Tudo isso devido à quantidade de indivíduos incomuns em meio às tropas inimigas. Não só isso, como ele sequer havia conseguido ter um mero vislumbre do rosto do Tenente Fernando, seu alvo!

    Independentemente da perspectiva que ele visse isso, sentiu que havia sido completamente humilhado nessa noite, e nas mãos de um bando de meros Subtenentes, Oficiais e Soldados, o que tornava tudo ainda pior!

    Abaixo, sob a construção de madeira, o olhar de Thom era gelado e cheio de uma intenção assassina. Em sua mão direita, uma fina e concentrada linha vermelha jazia, então focou em sua outra mão, reunindo o máximo de Mana Elemental de Fogo que podia.

    Ele nunca havia conseguido criar duas Linhas Rubras simultâneas antes, mas depois de realizar repetidamente a tarefa que Fernando havia lhe dado, sentiu que não era totalmente impossível.

    Após alguns dias usando seu Mana Elemental de Fogo ao limite para preparar as Sopas Revitalizantes, noite após noite, chegando à exaustão em seu uso, sentiu que seu controle e qualidade do mana haviam melhorado significativamente e ele próprio parecia sentir que ela era mais familiar a si.

    Com suas mãos tremendo, começou a reunir uma enorme quantidade do Mana Elemental até que uma nova Linha Rubra começou lentamente a se formar em sua mão esquerda.

    Era tão difícil controlar isso que Thom imaginou que suas Veias de Mana estavam queimando por dentro e sentiu vontade de gritar de dor. Todavia, ao recordar-se da situação em que viu Theodora, a mulher com quem havia compartilhado noites e momentos juntos, engoliu tudo que estava sentindo, quando seus olhos se tornaram gelados. Ele não poderia deixar o culpado sair impune; não após tê-la ferido!

    Apesar de nunca ter conseguido lançar múltiplas magias antes, tentou se recordar da forma como Fernando o fazia. Tentando imitá-lo, ergueu suas duas mãos para trás e, num movimento de impulso, atirou a direita num balanço violento e depois a esquerda logo em seguida.

    Chiii! Chiii!

    As duas Linhas Rubras cortaram o ar, seu chilrear era como o canto de dois pássaros noturnos, desbravando os céus.

    “Morra!” Thom gritou, com sua voz cheia de ódio, quando usou tudo que pôde do seu mana para impulsionar o ataque.

    Maron, que continuava subindo para o alto, tentando desesperadamente sair do alcance das Flechas e Magias de Fogo antes que seu Escudo de Mana se desfizesse, de repente olhou para o lado. Os olhos sob sua máscara se arregalaram. Pela primeira vez desde que havia atacado o Batalhão Zero, sentiu uma pitada de medo.

    Mesmo em meio às explosões e flechas, ele pôde sentir o mana que se aproximava em alta velocidade, só então ele lembrou-se do Mago que havia atirado uma estranha Magia poderosa nele anteriormente, arrependendo-se de não ter lidado com ele antes de sair.

    Não vou conseguir desviar! pensou, alarmado.

    As duas Linhas Rubras cortaram o ar, se entrelaçando e alternando de lado, como se estivessem em meio a uma dança majestosa.

    O Escudo de Mana foi instantaneamente perfurado, quando ambas as Magias continuaram avançando em direção a Maron, que observou tudo em choque.

    Swish! Crack! Perfura!

    Rapidamente, as duas Linhas Rubras chegaram até o Máscara Branca. O sujeito tentou se contorcer de uma forma estranha, mal conseguindo desviar do primeiro ataque, que passou raspando em seu rosto, levando consigo parte de sua máscara do lado esquerdo, assim como sua orelha. No entanto, por mais que tentasse, não havia como escapar dos dois ataques.

    A segunda Linha Rubra atravessou completamente seu corpo, entrando em seu peito direito e chegando ao outro lado.

    Abaixo, as expressões de Ilgner, Noah, Léo, Magnus e todos os outros eram de espanto.

    “Alguém o acertou!” Um dos Soldados gritou, em júbilo.

    “Isso!” Vários homens e mulheres comemoraram, mas a expressão de Ilgner não parecia compactuar dessa alegria.

    “Ainda não”, falou, num tom sombrio, quando seus olhos se apertaram, percebendo algo.

    Logo todos viram que o corpo do mascarado não caiu, mas ainda se mantinha no ar, levitando. Então, seu Escudo de Mana começou a piscar, reformando-se, quando o sujeito voltou a subir, desaparecendo nos céus noturnos.

    “N-não pode ser…” Um Soldado falou, caindo de joelhos.

    “Merda!” Léo gritou, jogando sua espada no chão com força.

    Eles haviam dado tudo de si, sofreram várias baixas e o inimigo estava praticamente morto, mas ainda conseguiu escapar!

    Noah também tinha um olhar furioso para o alto. Se fosse antes, ele sentiu que também teria tido a mesma reação que seu companheiro, mas agora conseguiu conter sua ira, então olhou para Ilgner.

    “Quais são suas ordens, Subtenente?”

    Ilgner ficou em silêncio por um minuto, quando suspirou. No Batalhão Zero, ninguém além do próprio Fernando havia dominado a Magia de Levitação, então não havia muito a ser feito.

    “Chequem os feridos e façam uma contagem de mortos! Também enviem a Cavalaria Dama de Prata para vasculhar os arredores, mas não façam nada que chame a atenção do Salão!” ordenou.

    Ainda que não tivesse sido morto, Ilgner tinha certeza de que o Máscara Branca havia sido ferido pelo ataque de Thom e mesmo um pequeno número de Soldados deveria ser capaz de lidar com ele nesse estado.

    “E quanto a toda essa bagunça?” Leo perguntou, olhando ao redor. Havia corpos e destroços para todo lado. “O Salão certamente vai ter notado todas essas explosões de mana.”

    O bárbaro loiro ficou em silêncio por alguns instantes.

    “Se perguntarem, apenas informem que realizamos uma batalha simulada que saiu do controle e não permitam que ninguém que participou da operação de hoje saia das nossas instalações!”

    Essa era uma medida que haviam decidido muito antes. Somente alguns dos membros mais antigos e confiáveis do Batalhão Zero haviam ficado de guarda e em alerta, com os novatos sendo dispensados de participar. Essa era a melhor forma de conter qualquer vazamento de informações.

    Enquanto os feridos eram recolhidos, vários dos reforços chegaram. Karol, Emily, Kelly, Lance, Gabriel e muitos outros ficaram chocados com a escala da destruição e danos causados. No entanto, somente ao ver os Soldados carregando Alastor e Theodora, extremamente feridos, é que a ficha verdadeiramente caiu.

    “Oficial!” Um dos Soldado chamou, ao despachar as ordens para Karol. Ela não pôde fazer muito além de olhar tristemente, quando guiou Anane e os outros em direção à saída.

    “O que aconteceu?” A pequena ruiva gritou ao correr em direção a Subtenente. Por mais que ambas se provocassem o tempo todo e não se dessem muito bem, ainda eram companheiras.

    “Subtenente!” Kelly gritou com a voz exasperada, quando chegou até os Soldados, empurrando um deles para o lado e apoiando a mulher.

    Ambas as mãos de Theodora estavam desconectadas de seus membros, ela havia recebido uma Poção de Cura para que seus ferimentos parassem de sangrar, mas, além disso, não havia muito a ser feito.

    “N-nós já chamamos a Maga de Cura Anastasia, ela já está a caminho”, um dos Soldados explicou.

    Nesse momento, Theodora, que estava com os olhos fechados, finalmente os abriu e, assim que o fez, todos ao redor ficaram chocados.

    “S-seu olho… Subtenente!” Kelly falou, gaguejando.

    O olho esquerdo da mulher estava completamente branco, tendo sido queimado pela magia inimiga.

    “Está tão ruim assim?” Theodora perguntou, forçando um sorriso.

    “N-na verdade, não, soube que é tendência em algum lugar…” Emily falou, desviando o olhar.

    Gabriel olhou de forma reprovadora para a pequena ruiva, achando a brincadeira ofensiva, mas, ao contrário do que todos esperavam, uma risada seguiu.

    “Hahaha!” Theodora gargalhou, levantando a cabeça.

    A Cabo Pimenta até deu um passo para trás, pensando se havia de fato exagerado e a mulher estava, na verdade, disfarçando sua fúria com risadas.

    Entretanto, Theodora apenas olhou para o céu, calmamente.

    É realmente bom estar viva, pensou, com um leve sorriso.

    “Saiam, saiam da frente!” Nesse momento, uma voz estrondosa soou, quando Thom chegou, cheio de urgência e completamente suado.

    Quando viu a situação de Theodora, seus olhos se arregalaram, numa mistura de medo, culpa e pânico.

    Nesse ponto, o estranho relacionamento dos dois já não era novidade para ninguém, então rapidamente Gabriel, Kelly e os outros abriram algum espaço para o Sargento, que se ajoelhou no chão, enquanto tocava seu braço levemente, como se temesse feri-la ainda mais.

    Com seu olho direito, o único ainda funcional, Theodora olhou para ele com suavidade, mas não disse nada, pois sentiu que palavras não eram necessárias.

    Thom também não falou, ao receber seu olhar acolhedor, sentiu como se um peso estivesse sendo tirado de seu peito. Ambos apenas ficaram em silêncio.

    Ilgner, que viu a cena de longe, suspirou. Esse era o problema em ter relacionamentos dentro do exército, uma vez que seu amante fosse morto ou ferido, o outro não teria um destino melhor.

    Em um ponto distante do Batalhão Zero, em meio a um beco escuro, uma figura esguia trotava de forma cambaleante, apoiando-se nas paredes e em sua rapieira. Seu peito direito estava uma enorme bagunça de sangue.

    Metade de seu rosto, de uma beleza incomum, estava à mostra.

    “B-batalhão Zero… Malditos!” murmurou, com uma voz fraca.

    Maron nunca imaginou que acabaria nesse estado, tudo porque havia subestimado demais as tropas inimigas. Não só ele havia gastado muito mana de forma descuidada, como aquele último ataque foi extremamente perigoso. Se ele não fosse proficiente em Magia de Cura, estaria definitivamente morto agora!

    “C-como um mero Batalhão qualquer pode ter alguém tão habilidoso em Mana Elemental?” perguntou-se, com a voz trêmula.

    O Mago que havia disparado aquela magia definitivamente não era alguém poderoso, caso contrário teria o perseguido. Mas o fato de poder usar Mana Elemental a esse nível provava que também não era um indivíduo comum!

    Não apenas ele, o Batalhão Zero estava recheado de pessoas poderosas, com força muito acima de suas patentes. Algo que Maron não havia notado antes, já que havia apenas emboscado Soldados isolados nos outros ataques.

    “Merda! Por enquanto, preciso encontrar um lugar seguro até minha ferida se fechar. Mas assim que eu me recuperar…” murmurou, com um olhar frio, decidido a varrer o Batalhão Zero da existência.

    Tac! Tac! Tac!

    De repente, Maron congelou quando ouviu um som de passos logo atrás dele. Pelo som, essa presença parecia estar a cerca de apenas quatro ou cinco metros!

    Quem? O sujeito pensou, com a mente acelerada.

    Como um assassino profissional, era praticamente impossível que ele fosse pego de surpresa ou não sentisse alguém até que estivesse tão próximo. Mesmo ferido e com pouco mana, seus instintos e reflexos que havia desenvolvido ao longo dos anos simplesmente não poderiam ser subestimados.

    Maron ficou em completo silêncio, totalmente imóvel, e a presença atrás dele também não disse nada, seja uma ameaça ou demanda, não havia nada!

    E-eu estou alucinando? pensou, com as mãos trêmulas. Ele tinha certeza de que tinha ouvido passos, mas não conseguia ouvir sequer o som de uma respiração!

    Hesitante, o sujeito ergueu levemente sua rapieira quando usou o reflexo de sua lâmina para espreitar o que havia atrás dele. O que se revelou fez suas costas se arrepiarem.

    Uma figura humana estava logo atrás, seu rosto ou roupas não eram visíveis, apenas o contorno de seu corpo além de um fraco brilho de um par de óculos redondos.

    Suor se reuniu em torno de sua testa, enquanto na metade exposta de seu rosto, seu olho focava-se ao lado, na sombra na parede. Isso só o fez ficar com ainda mais medo, pois, além de sua própria sombra, não havia mais nada ali!

    Deve-se saber que, mesmo com sua Magia de Translucidez, ele ainda gerava sombras, sendo o principal motivo pelo qual evitava usá-la de dia, pois era uma fraqueza flagrante. Mas a figura atrás dele não!

    “O-o que você quer?!” indagou, com a voz trêmula, após reunir alguma coragem.

    “…”

    Não houve resposta, o que só fez o assassino ficar ainda mais nervoso. Quando estava prestes a tentar algo, uma mão pousou pesadamente em seu ombro esquerdo.

    “Você não deveria ter aceitado esse trabalho”, a voz disse, parecendo calma e sútil.

    Ao ouvir aquela estranha voz, o rosto do Máscara Branca encheu-se de uma mistura de choque e horror, como se tivesse ouvido a voz de um fantasma, quando se forçou a virar. Assim que o fez, seus olhos se arregalaram.

    “N-não, impossível…!  Você deveria estar morto!”

    A figura nas sombras ajustou os óculos com a palma da mão quando deu um passo à frente. Nesse instante, a fraca luz do luar irradiou sobre seu rosto, revelando-o com clareza. Essa pessoa era Alfie Caiman.

    “Eu deveria dizer o mesmo, Amaron”, falou, com uma expressão que transbordava frieza. Lembranças de um passado distante ecoavam por sua mente.

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