Capítulo 674 - Dor é a essência
Após cerca de três horas vasculhando os arredores, o Pelotão Dama de Prata retornou ao Batalhão Zero. Karol viu Ilgner esperando na entrada, mas balançou a cabeça negativamente ao passar por ele.
Por mais que tivessem vasculhado toda a região, não haviam encontrado um único rastro do assassino.
O Subtenente franziu o cenho, irritado por um momento com a cavalaria, mas logo suspirou em resignação. Já que a fuga do Máscara Branca havia se dado por sua própria falta de força e preparação.
“Subtenente!” Nesse momento, Noah chamou, com uma expressão séria.
Mesmo sem o sujeito dizer algo, o bárbaro loiro já sabia que não eram boas notícias.
“Qual é a situação?”
“Terminamos de contabilizar os danos”, Noah falou, com uma voz respeitosa. Apesar de não estar acostumado com Ilgner no comando, já que Theodora ou Fernando sempre assumiam as questões administrativas, não demonstrou qualquer displicência. “Temos 21 feridos, com três deles em situação grave, incluindo a Subtenente Theodora e o Combatente em Treinamento Alastor. Quanto aos mortos, tivemos 9 baixas confirmadas.”
Ilgner assentiu, sem parecer abalado. Não só ele não parecia chocado com o número de mortos, como até mesmo ficou internamente aliviado por terem tão poucas perdas, considerando a força do inimigo.
Realmente tivemos sorte dessa vez… O bárbaro loiro pensou, com uma expressão séria.
Felizmente, apesar de o inimigo ser poderoso, ele havia vindo sozinho e, graças a isso, foram capazes de subjugá-lo com sua superioridade numérica e algumas estratégias. No entanto, ele não estava realmente tranquilo.
Não só não haviam conseguido capturar ou matar o assassino, como esse episódio demonstrou várias das fraquezas do Batalhão Zero. Mesmo que tivessem muitos membros fortes e capazes, eles tinham poucos Magos Especializados, seja em rastreamento, combate a curta distância e magias variadas. Além, é claro, da completa falta de cobertura aérea.
Mesmo sendo um amante do Sistema de Habilidades, Ilgner sabia da importância dos Magos. Somente ao ter vários tipos de Magos, proficientes em diversas áreas, é que eles poderiam reagir adequadamente a diferentes situações.
Parece que vamos ter que falar com o Major Silvester sobre o retorno das aulas de Magia quanto antes, pensou consigo mesmo.
Após esse breve instante, Ilgner focou-se em Noah.
“E quanto a Theodora, qual é a situação dela?”
“Quanto a isso…”
…
Na sala de emergência de Anastasia, a Maga de Cura tinha gotas de suor escorrendo pelo seu rosto enquanto, delicadamente, movia suas mãos, imbuindo finos fios de mana no braço de Theodora e a outra ponta em uma de suas mãos decepadas.
Esse era um processo chamado de Religação de Fibro-Mana, onde o Mago de Cura ligava manualmente os nervos, vasos, Canais e Veias de Mana de ambos os lados. Somente após reconectá-los dessa forma se usaria Magia de Cura para “colar” o ponto de separação, enquanto a Fibro-Mana se encarregaria de manter essa cola junta, garantindo que não houvesse riscos de desconexão até a cicatrização total.
Esse era um processo relativamente rústico, usado por Magos menos capazes, com aqueles de Nível Sênior e Mestre tendo uma qualidade de mana e técnica tão altos que eram capazes de fazer isso diretamente, sem a necessidade da Fibro-Mana.
Mesmo sendo um método inferior em relação aos dos poderosos Magos de Cura, ainda era um processo extremamente difícil que requeria um Mago de Cura Avançado ou três Intermediários devido ao nível de dificuldade. Mas Anastásia realmente precisava fazer isso completamente sozinha, afinal, ela era a única Maga de Cura do Batalhão Zero!
Theodora estava com os olhos fechados e abria ocasionalmente o direito, para espiar o trabalho da garota. Mesmo que a Maga tivesse lhe aconselhado a receber sedação, devido à dor excruciante, a mulher havia se recusado, garantindo que era capaz de suportar.
Sentindo os olhares da Subtenente, Anastasia quase vacilou em sua mão, por pouco não errando um dos pontos, mas respirou fundo, tentando manter a compostura. Mas isso era apenas externamente, interiormente a garota estava completamente em pânico.
Algo não está certo, por que tantos membros do Batalhão Zero têm corpos tão estranhos?! perguntou-se, chocada, enquanto analisava as Veias de Mana de Theodora.
Não só as da Subtenente, mas membros como Ronald e alguns outros do alto escalão tinham aspectos totalmente incomuns!
Suas Veias eram muito maiores e resistentes, com um formato extremamente esquisito, que lembrava vagamente um carvalho e ainda tinham uma capacidade de transporte de mana e qualidade completamente anormais! Graças aos vários caminhos e bifurcações, mesmo que um ponto fosse danificado, os outros caminhos supriam rapidamente a deficiência criada.
Normalmente, a Religação de Fibro-Mana feita por uma mera Maga Intermediária como ela teria uma chance extremamente alta de falha, chegando a mais de 70%. Contudo, graças a essas estranhas Veias de Mana, com formato e qualidade absurdos, Anastasia sentiu que praticamente não havia possibilidade de fracasso!
Isso a deixou cheia de confiança, já que nunca havia sido capaz de realizar esse processo tão suavemente, mas, ao mesmo tempo, também a deixou inquieta.
Lembrando-se sobre como as Veias de Mana de Fernando também eram estranhas, sendo ainda mais absurdas que as de Theodora, sentiu um certo calafrio.
Desde aquele dia, em que havia bisbilhotado mais do que deveria, acreditou que o Tenente pálido do Batalhão Zero definitivamente a mataria, como forma de ‘queima de arquivos’, mas, felizmente, até o momento ela foi permitida a viver e não queria abusar ainda mais da sorte.
E-eu não devo deixar minha curiosidade me guiar… m-mas, é tão fascinante! pensou consigo mesma, seus olhos brilhando de curiosidade. Ela então lançou mais uma varredura de mana no corpo de Theodora, o que foi rapidamente sentido pela mulher, que mais uma vez abriu seu olho direito para a espiar.
“S-só estou checando se não tem nenhum problema…” falou, se justificando nervosamente.
A verdade é que as Veias de Mana não eram a única coisa estranha no corpo da Subtenente.
I-isso… Tem algo em seu mana, algo que… um Humano não deveria possuir! pensou enquanto respirava pesadamente. Mas, independente do que tivesse visto, apenas fingiu não saber de nada, apenas repetindo em sua mente que isso ‘não era da sua conta’.
Theodora, obviamente, sabia que a garota tinha percebido algo que não deveria, mas não havia muito que pudesse fazer. Além disso, o próprio Fernando havia dado seu aval de confiança a Maga.
Suspira!
“Está acabado.” Depois de algum tempo, Anastasia declarou, enquanto limpava o suor em sua testa.
A Subtenente, ainda deitada, finalmente tentou mover suas mãos. Ao sentir a sensação novamente em suas palmas, respirou fundo, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros.
Mesmo que tivesse sobrevivido, se ela se tornasse aleijada, perderia totalmente sua utilidade para seu Mestre e isso era algo inaceitável.
“Eu preciso me preocupar com algo?” perguntou, ainda deitada, quando ergueu suas mãos, olhando as juntas, onde haviam sido decepadas. Além de uma leve cicatriz, não havia qualquer sinal de que ela as havia perdido mais cedo.
“N-não realmente… O processo saiu melhor que o esperado…” Anastasia falou, sem ter coragem de dizer abertamente que as Veias de Mana da mulher eram tão anormais que seu corpo havia reagido à sua Magia de Cura de forma monstruosa, religando-se quase que perfeitamente. “Mas quanto ao seu olho… pode ser um pouco mais difícil.”
Nesse momento, Theodora, que ainda mantinha seu olho esquerdo fechado, o abriu. Ainda estava levemente esbranquiçado e, apesar de não estar mais completamente cega, não conseguia ver nada além de borrões.
“Entendo”, a Subtenente falou, sem se abalar. Para quem quase havia morrido e sido aleijada, perder apenas um olho não significava muito.
Vendo a mulher aceitando isso tão facilmente, a Maga de Cura se sentiu levemente mal.
Como alguém que havia trabalhado para várias Legiões, sempre era difícil dar notícias ruins. Muitas pessoas entravam em desespero, enquanto outras caíam em lágrimas. Como alguém que havia jurado curar as pessoas e salvar suas vidas, isso sempre a deixou melancólica.
Mas mesmo que se sentisse triste ao ver essas reações, ela se sentia ainda pior em situações como essa, onde o indivíduo não mostrava qualquer sinal de preocupação. Apenas pessoas que já haviam visto a morte de perto inúmeras vezes poderia ser assim.
“E-eu sinto muito, Subtenente. Infelizmente, minhas habilidades são insuficientes para restaurar totalmente sua visão”, afirmou, com algum arrependimento. Mesmo que os Magos de Cura pudessem tirar alguém da beira da morte e puxá-lo de volta ao mundo dos vivos, não eram capazes de resolver todos os problemas e ferimentos, principalmente quando as áreas atingidas fossem locais sensíveis ou críticos. “M-mas, talvez um Mago Avançado ou Superior seja capaz, então…”
Theodora apenas assentiu, quando se levantou, sentando-se.
“E quanto ao grandalhão?” perguntou, referindo-se a Alastor, com uma expressão séria. O homem havia sido levado para um local diferente e não tinha certeza do seu estado.
“O ferimento foi grave, mas felizmente não atingiu nenhum ponto vital, então eu já estabilizei sua situação e sua vida não corre mais risco”, garantiu.
Ouvindo isso, a Subtenente ficou pensativa.
Inicialmente, ela havia sido contra o recrutamento de Alastor, mas o sujeito realmente se mostrou alguém que trouxe grandes contribuições ao Batalhão Zero e, se ele não tivesse arriscado sua vida ao atacar o Máscara Branca, ela certamente teria sido morta. Sendo assim, teve que admitir que estava completamente errada quanto ao sujeito.
Ele sempre consegue encontrar e reunir pessoas fascinantes, pensou, lembrando-se de Fernando e sorrindo consigo mesma. Mas então, ao lembrar-se que o rapaz pálido havia partido há dias e ainda não havia retornado, seu humor diminuiu. Por favor, volte logo, Mestre.
…
De volta a Yandou, na sala subterrânea da Pousada Recanto Esquecido, gritos e urros tenebrosos vinham do interior, como se alguma pobre alma estivesse sendo torturada.
Bang!
“Ugh!”
Swish!
“Ah!”
Um sujeito corpulento e moreno chutava repetidamente um rapaz pálido, caído no chão, enquanto o mesmo se encolhia, protegendo sua cabeça e partes importantes, enquanto uma enorme quantidade de sangue estava respingada por todos os lados.
“Hahahaha! Vamos lá, garoto, levanta. Isso é tudo que você conseguiu treinando sozinho? Aliás, você realmente treinou? Isso é patético!” Raul gritou, em meio a risadas e zombarias.
Lerona, que estava ao lado, viu toda aquela cena horrorizada.
Isso realmente é treinamento?
Após algum tempo, Raul finalmente cessou os chutes, quando deu algum espaço ao rapaz pálido.
“Levanta e se cura, vamos começar do começo”, afirmou, de forma calma.
Fernando, que estava com o rosto inchado e várias áreas roxas espalhadas pelo corpo, tossiu fracamente, quando se apoiou no chão com um dos braços e, então, sem hesitar, forçou-se a se levantar.
A Capitã ruiva, que havia prometido não intervir, não aguentou mais.
“Você disse que ia treiná-lo, mas tudo que fez na última hora e meia é espancá-lo. Qual o sentido disso?” perguntou, com uma carranca.
Raul virou-se para a mulher, inicialmente com um olhar intrigado, mas logo deu um largo sorriso.
“Você não entende? Dor é a verdadeira essência de um Usuário de Habilidades. Só estou ajudando o garoto a se lembrar disso antes de começarmos a treinar de verdade. Pode considerar isso um ‘aquecimento’.”
Fernando, que mal havia se colocado de pé, rapidamente começou a ativar sua Auto-Regeneração ao mesmo tempo que usava Magia de Cura nas áreas mais doloridas. Então olhou para Raul de forma estranha.
Aquecimento, uma ova! resmungou internamente, então se lembrou do olhar de Raul quando ele contou sobre Dimitri e os outros. Parece que ele realmente ficou chateado, mas realmente precisa descontar desse jeito?!
“Mulher, você disse que está aqui para aprender Habilidades também, certo? Se esse é o caso, é melhor ir se acostumando. Não vou pegar menos pesado com você do que com ele”, Raul falou, sorrindo de forma ameaçadora. “Então é melhor estar pronta para se tornar uma Usuária de Habilidades, mesmo que na base da porrada!”
Lerona, mesmo não sendo mais fraca do que Raul, não pôde evitar instintivamente dar um passo para trás.

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