Capítulo 13 - Jantar com alter ego
O salão mantinha o mesmo estilo da área de estar, com uma sutil diferença: um quadro enorme pendurado logo atrás da cadeira da ponta da mesa, enquanto as outras paredes exibiam telas menores.
A pintura maior mostrava um belo retrato do Senhor Filemon junto de sua esposa e seus três filhos.
Na tela, Filemon mantinha a mão na cintura da esposa, com os dois filhos mais velhos em cada extremidade e o mais novo posicionado bem no centro do casal.
Sentado à cabeceira da mesa real estava o próprio Senhor Filemon.
À sua direita, a esposa: uma senhora de fato encantadora, de pele clara e longos cabelos castanhos com leves ondulações.
Ao lado dela, a filha parecia ser uma jovem de pele idêntica à do pai, ostentando algumas sardas e o cabelo curto parecido com o da mãe.
Do outro lado da mesa, sentava-se o filho mais velho, praticamente uma cópia exata de Filemon, mas com cabelos mais ondulados e a pele mais alva que a do pai.
Por fim, ao lado dele, estava o caçula, uma criança de bochechas fartas e rosto angelical, cujo excesso de peso já beirava a obesidade.
O aposento possuía uma grande porta de duas abas bem ao centro, ladeada por duas menores nas laterais. Um candelabro de latão, repleto de velas acesas, iluminava o espaço por completo.
Nas quinas do salão, postavam-se os criados: o mordomo principal da casa em um canto, e a governanta logo na outra extremidade.
— Então, jovem — começou o Senhor Filemon, quebrando o silêncio. — Pode me dizer o motivo do atraso? Kes, você teria alguma explicação para tal contratempo?
Kastel vestia as mesmas roupas da manhã, com a única diferença de que seu cabelo estava mais alinhado e um perfume forte tomava o salão inteiro.
— Não, senhor. Foi um erro da minha parte — Kastel apressou-se em dizer, curvando-se.
A senhora, em sua postura elegante, inclinou o rosto na direção de Kestel e Billy:
— Querido, tenho certeza de que foi apenas uma inconveniência incontrolável para pessoas normais — disse ela, num tom de superioridade, mas sem grosseria evidente.
Logo ao lado, a filha tomou a palavra para si:
— Mesmo assim, mamãe, no mínimo Kestel nos deve uma retratação pelos ocorridos que causaram tal inconveniência.
— Pai, não acha que já perdemos muito tempo com esse assunto?
O filho mais velho terminou sua argumentação olhando fixamente para Kestel e Billy com um olhar de desdém. Do outro lado da mesa, o filho caçula falou, impedindo que o Senhor Filemon dissesse qualquer coisa:
— Julie, não acha que está sendo deselegante cortando a fala de nosso pai? Ou vai me dizer que está cega e não percebeu que ele iria tomar a palavra?
— Silêncio, crianças! Estamos à mesa, comportem-se!
A senhora lançou um olhar gélido e severo para os dois e, depois, virou-se para o marido, oferecendo um leve sorriso agradável.
— À vontade, querido.
Billy franziu a testa, falhando completamente em esconder seu desaprovo a uma reação tão inflamada por conta de um pequeno atraso.
“Como assim, castigar? A escravidão já acabou por aqui em 1810”, pensou.
— Pois bem. Então sua tarefa será corrigir os maus hábitos desse jovem — determinou Filemon —, para que ao menos a presença dele seja suportada pelos demais. Pela conversa que tive com os pais dele, pensei que fosse mais civilizado.
— Obrigado, Senhor Filemon. Irei ensinar todas as etiquetas que o menino precisa saber para não incomodar nenhum membro de sua família — respondeu Kestel.
Billy olhou para Kes, sem entender o que estava fazendo de errado.
Percebendo a reação do garoto, o homem mais velho gesticulou discretamente com os olhos, apontando para a postura do mordomo.
O funcionário estava completamente ereto, com o olhar fixo à frente, semblante sério, ombros para trás e o peito elevado.
Billy, por sua vez, estava com a postura levemente curvada pelo peso daquelas roupas enormes.
Pelo visto, estou pior que vergalhão podre, ironizou em pensamento. Isso me lembra quando aquele branquelo ficou me xingando no armazém só porque deixei a ferramenta para o lado direito. Aquele… gordo miserável.
— Garoto! — Kes pigarreou, limpando a voz para chamar a atenção do menino.
— O que foi? — Billy sobressaltou-se, fazendo força para se ajustar e copiar a postura do mordomo em seu campo de visão.
Esses costumes chatos pra burro, que merda!
Nesse instante, Billy se deu conta de que todos na mesa de jantar o encaravam. Ele era a única pessoa de cor naquela sala.
De repente, sua visão começou a oscilar, alternando entre o embaçado e uma nitidez distorcida dos rostos ao redor.
Primeiro, fixou-se no Senhor Filemon, notando a barba e a gordura acumulada em seu pescoço e bochechas; logo em seguida, seus olhos desviaram para o mordomo e para a governanta.
— Jovem, você está bem? — O Senhor Filemon lançou um olhar confuso diante da reação do garoto.
— Querido, dispense-os logo para que possam cuidar do menino! — interveio a esposa.
A visão de Billy turvou-se de vez, impedindo-o de enxergar os traços das pessoas. Um tinido agudo, antes imperceptível, tornou-se um ruído estridente dentro de sua cabeça, consumindo qualquer resquício de pensamento linear.
Não, não, não… Não! — ele gritou internamente, mas som nenhum saiu de sua boca.
Psiu…
Ele sentiu como se houvesse outra entidade dentro de si, sussurrando para abafar aquela voz que clamava por socorro.
A criatura o lembrava de sua atual posição: ele estava em uma sala regida por leis e regras inquebráveis, transformado em um ser sem voz, alguém que nunca teria o direito de falar.
Vá se foder! — Billy rebateu mentalmente.
Ele exibiu um sorriso carregado de dor e desespero, erguendo o dedo do meio para os próprios demônios internos.
— Perdão! Estou bem, sim, Senhor Filemon. Obrigado pela oportunidade — disse Billy em voz alta, forçando uma leve reverência, embora sua postura ainda parecesse desajeitada para as cortesias da alta classe.
— Kestel, você e Billy já podem ir. Caso precise de algo para os cuidados dele, fale com meu mordomo ou com a governanta, que eles irão repassar para mim. Uma boa noite para vocês.
— Muito obrigado, Senhor Filemon — respondeu Kestel.
O homem já havia se virado para sair, segurando Billy pelos ombros ao notar que o garoto ainda estava abatido, e o retirou pressurosamente de lá.
— Billy, você tem que se controlar se quiser sobreviver aqui durante esses três meses. Controle-se! Não esboce reação quando te falarem qualquer coisa! Eles vão fazer questão de tornar sua vida um inferno… — alertou Kestel, apertando com força o ombro do jovem.
Ainda zonzo com o barulho do tinido em seu ouvido, Billy foi recuperando a visão e encarou a face preocupada do Senhor Kestel.
— Por que… por que o senhor está me ajudando? Nunca ninguém me ajudou. Não de graça, pelo menos.
— Garoto, você não é o primeiro empregado de cor que vem trabalhar neste casarão, e não quero ver o que aconteceu antes se repetindo. Só faça o que estou lhe mandando: não se envolva com ninguém, principalmente com qualquer filho do patrão.
Billy se ajeitou e apoiou a mão na parede para se estabilizar. Olhou para o homem à sua frente, cujo semblante carregava culpa e preocupação.
— Não se preocupe tanto, sei muito bem qual é o meu lugar!
Ele se dirigiu para a casa dos empregados.
Depois disso, o jantar da família decorreu sem novas inconveniências; comeram em silêncio. Billy passou o restante da noite processando tudo o que havia acontecido, até finalmente ir descansar em sua cama.
Os dias seguintes tornaram-se repetitivos.
A governanta aproveitava todas as oportunidades possíveis para tentar adestrá-lo, mas, no fundo, a rigidez dela surtia o efeito oposto.
A cada novo insulto ou ato de discriminação que sofria, mais o coração de Billy pulsava, e mais ele compreendia os seus próprios gatilhos.
O ódio era o sentimento mais forte entre todos.
[ 9 semanas para o inverno ]
Já era a quarta semana naquele casarão.
Ele havia se acostumado à rotina pesada de trabalho: pela manhã colhia lenha, depois ajudava no estábulo, limpava a área dos empregados, os setores externos e os arredores da propriedade.
Ainda assim, por vezes, o final da noite ficava livre. Em comparação com o ritmo massacrante da fábrica onde trabalhava antes, ele agora dispunha de muito mais tempo.
Muitas vezes, gastava essas horas livres treinando: ativava e reativando os olhos dourados, enquanto tentava lutar para sair do transe que inundava seu coração e o impedia de manter a razão.
A meta era não se deixar dominar por aquele estado por mais de dez minutos.
— Boa noite — Billy despediu-se dos trabalhadores que, junto com ele, cuidavam da área externa do casarão, e foi em direção ao seu quarto.
Chegando no corredor principal, viu Kestel quase espumando de raiva pelas narinas. Com um olhar sério e irritado, o homem entrou direto para o próprio aposento.
“Pelo visto, aquela bruxa maldita enche o saco de todo mundo. Velha desgraçada. Bom, mais um dia de trabalho resolvido. Agora, hora de treinar mais um pouco.”
Billy sentou-se no chão de pernas cruzadas.
Lembrou-se com uma facilidade incrível de tudo o que havia sofrido; as dores e o ódio tomaram conta de sua mente.
“Esse sentimento é incrível, me renova mesmo após um dia inteiro de labuta”, pensou, ironizando mentalmente a quantidade absurda de infortúnios que lhe aconteciam.
Ele se viu novamente naquele espaço negro em sua volta.
Sua mente repassava cada episódio de ódio que sentira — palavras, afetos corrompidos, momentos de dor, sofrimento e amargura. Tudo se apresentava como um emaranhado de cordas bagunçadas.
Ele começou a organizar cada fio em seu devido lugar, desatando os nós.
Logo abaixo daquela quantidade exorbitante de cordas, avistou um buraco no chão.
O tom negro, que antes absorvia a luz por completo, transformou-se em um tom azulado com leves brilhos, semelhante ao mar profundo, como se houvesse luz em um local tomado pela escuridão.
— Isso é novo…
Movido pela curiosidade, ele finalmente conseguiu entrar naquele novo local de sua consciência.
Era como se estivesse submerso no oceano, vendo a areia no fundo, as algas marinhas e correntes marítimas correndo para direções distintas.
Caminhando por aquele espaço inédito, Billy não percebeu que havia se afastado demais do buraco, perdendo-o de vista na imensidão.
Distraído, olhou em volta procurando o caminho de volta, mas uma forte correnteza o sugou.
Sendo inteiramente consumido por aquela nova sensação, a euforia o tomou por completo, despertando-o abruptamente da meditação profunda.
Ele se levantou, caminhou até a fresta da porta e observou o corredor.
Estava quase vazio, decorado apenas com mesinhas simples que sustentavam vasos modestos com flores comuns do jardim. Era uma ala de estrutura rústica de madeira, com portas bem diferentes das do resto do casarão.
Billy saiu devagar, medindo cada passo.
Com os sentidos extremamente apurados, sua percepção passeava pelo espaço:
Ouvia o ronco pesado de Kes a dois quartos de distância…
Notava as pequenas rachaduras no teto…
E identificava os pontos de madeira podre no piso.
Desviando de tudo o que pudesse emitir qualquer ruído, ele alcançou a área externa. O frio, que antes o aterrorizava em suas memórias de infância, agora não passava de um vento gélido e refrescante.
À sua frente, erguia-se a cerca de metal e o portão principal.
Guiado pelo próprio instinto, Billy saltou.
Ele não apenas ultrapassou a estrutura, mas atingiu uma altura de três metros — três vezes o tamanho da cerca —, pousando firme nos galhos de uma árvore baixa e se equilibrando ali.
— Isso é incrível!… Por que eles nunca me disseram nada sobre essa capacidade física melhorada?
Movido pela novidade e pela curiosidade de testar seus novos limites, ele disparou pela floresta.
Corria a uma velocidade assustadora, demonstrando reflexos excelentes, tão veloz quanto uma carroça puxada por dois cavalos.
Ao atingir uma clareira, viu-se cercado pela escuridão da noite, sob o brilho das estrelas e da lua cheia que iluminava o céu. Ouvia o barulho de inúmeros animais e distinguia odores que jamais havia sentido antes.
De repente, sentiu algo expandir-se de si, como gotas que caem em uma poça d’água e propagam ondulações por toda a superfície.
Ondas emanadas de seu próprio pensamento espalharam-se pelo ambiente até colidirem com algo na mata e retornarem como um eco.
Focando inteiramente naquele novo sentido, Billy percebeu que, se aplicasse uma intenção mais forte, aquilo poderia se estender por quilômetros.
Como uma gota de suor que cai, ele transmitiu uma onda para cantos ainda mais distantes, sentindo cada ser vivo pelo caminho.
Ao se aproximar mentalmente dos limites da cidade, percebeu que alguém havia notado seu sinal.
Ele vislumbrou a silhueta de um homem de cartola média e bengala, que abriu um sorriso largo.
Naquele instante, Billy sentiu um frio congelante subir por sua espinha.

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